16/12/2015

Sempre Foi Você - Capítulo 13



2 de fevereiro de 2004


– Parece que temos nossos momentos mais românticos em aeroportos –
Demi enfiou o rosto na camisa de Joseph, os olhos úmidos misturando-se com o rímel e deixando uma mancha de tinta no algodão branco.
– Nem todos – ele disse, trazendo os lábios aos dela. Ele pressionou-os com suavidade, enxugando as lágrimas ao redor dos olhos dela. – Ontem à noite foi bastante romântico.
Demi riu.
– Você está confundindo romance e sexo. Os dois não estão necessariamente interligados.
– Com a gente, estão sim.
Ele beijou-a de novo, dessa vez sem se conter, e os joelhos dela começaram a tremer com a investida. O fato de que estavam fazendo aquilo no aeroporto de Heathrow não importava. A cada poucas semanas, eles tinham que enfrentar aquela despedida de novo, e não se tornava mais fácil à medida que o tempo passava. A cada vez, ela achava mais difícil se lembrar exatamente o motivo de relutar tanto em mudar-se para Nova York.
Então algo a trazia de volta à realidade. Como aquela vez que ele formalmente a apresentara à mãe, e Demi tinha sido recebida com uma frieza clara. Naqueles momentos, ela percebia que não tinha nascido para a vida em Manhattan. A única parte de Nova York que queria por perto era Joseph.
Os beijos dele estavam ficando mais exigentes, e ela sentiu-o deixar a mala cair e envolver sua cintura.
Ele enfiou os dedos na pele macia
enquanto a apertava sobre sua camiseta preta, passando os lábios da boca para o pescoço. A cabeça dela caiu para trás, dando-lhe acesso à pele sensível da seu pescoço.
– Se não tomarmos cuidado vou dar uma de Justin em você – ele murmurou. Na noite anterior, eles tinham assistido ao Super Bowl e rido quando Justin Timberlake puxou o top de Janet Jackson, revelando um
mamilo.
– Se não parar de me beijar aí, vou deixar que faça isso.
– Sabe, nunca assisti futebol no meio da noite antes, mas tem suas vantagens – a sensação do sorriso dele contra sua pele revelou-lhe que Joseph estava se lembrando de como eles tinham inventado o próprio
entretenimento no intervalo do jogo. Entretenimento que não envolveu piercings de mamilo.
– Você vai se atrasar – ela ainda estava sem fôlego.
– Eu sei – as mãos dele desceram para os quadris de Demi, movendo-se para trás do seu corpo enquanto ela o sentia responder ao abraço. Ela precisou de cada grama de força de vontade que tinha para o empurrar para trás.
– Você vai demorar um século pra passar pela segurança – ela indicou a longa fila de viajantes, dando voltas no aeroporto. – A American Airlines não vai te esperar se você chegar atrasado.
Joseph deu um risinho e ela estreitou os olhos, fazendo um gesto com as mãos para afastá-lo.
– Ligo pra você do lounge, ok? – ele deu um beijo no nariz dela.
– E da pista, e do aeroporto, e do carro, e do seu apartamento… – ela provocou.
Ele inclinou-se e beijou-a mais uma vez.
– Te vejo em um mês, combinado?
– Estou contando as horas.
– Não tem que contar nada. Venha comigo – ele dizia aquilo toda vez. –
Não posso.
– Não existe “não posso”, querida. Só “não vou”.
– Então fique em Londres – ela estava sorrindo atrás das lágrimas, a familiaridade da conversa de algum modo a reconfortando.
– Eu gostaria…
– Mas não pode – ela terminou a frase por ele e beijou seu rosto mais uma vez. – A gente arranja um jeito.
– Vamos ter que arranjar, porque isso está me matando – ele abaixou-se para apanhar a mala, notando a mancha de rímel na camisa pela primeira vez. Suas sobrancelhas ergueram-se enquanto ele lançava um olhar recriminador a Demi.
– O quê? – ela tentou parecer inocente, mas não conseguiu conter um sorriso. – Eu estava triste, não posso?
– Me lembre de te comprar uns lenços da próxima vez – ele a olhava com uma expressão gentil.
– Estou indo agora – ela começou a se afastar, acenando brevemente, os olhos nunca deixando os dele.
– Sem um beijo de despedida?
– O que você acha que estávamos fazendo na última meia hora? – ela franziu as sobrancelhas com irritação fingida, movendo-se alguns passos para trás.
– Aquilo foi só aquecimento. Agora eu quero o último beijo de despedida.

***
Na noite seguinte, Demi saiu correndo dos escritórios da Music Train na Wardour Street e emergiu no úmido ar do Soho. Por estar perto do West End de Londres, a rua estava sempre lotada de pessoas, e ela as seguiu até a Oxford Street, entrando na estação de metrô junto com os passageiros usuais voltando do trabalho. Quando pisou na escada, sentiu o telefone vibrar, e tirou-o do bolso do jeans para ler o texto.
Já disse hoje que sinto sua falta?
Ela digitou uma resposta apressada.
Estou cinco horas na frente, Jonas! Eu ganho o jogo.
Demi entrou no metrô e saiu na estação Putney Bridge, sentindo o ar frio da noite. Sua respiração formava nuvens de vapor à sua frente enquanto ela se apressava pelas ruas a caminho do apartamento da mãe.
Parecia que elas não se viam há uma vida; ou Demi estava assistindo a shows, ou Diana estava ocupada organizando um evento. Elas tinham combinado de se encontrar aquela noite para pôr a conversa em dia.
A mãe aguardava-a na porta quando ela chegou, com um grande sorriso no rosto. Ela puxou Demi e envolveu-a num abraço apertado.
– Ai, querida, é tão bom ver você.
– Você também, não acredito que faz tanto tempo. A gente mora na mesma cidade, pelo amor de Deus.
– Você tem estado ocupada com o trabalho e Joseph – Diana piscou, puxando-a para dentro e fechando a porta atrás delas. Assim que Demi entrou no flat, sentiu uma sensação familiar de calma. Tudo naquele lugar a fazia sentir-se em casa.
– Pedi bife com douchi pra você – Diana anunciou, entrando na pequena cozinha. – Quer torrada de camarão?
– O papa é católico? – Demi gritou de volta, erguendo-se e seguindo a mãe para oferecer ajuda. Diana deu-lhe um olhar incisivo, movendo as
mãos para expulsá-la até Demi voltar para a sala de estar.
– Como vai o trabalho? – Diana perguntou, a voz ecoando de leve no chão de azulejos da cozinha.
– Ótimo. Passei o dia no estúdio com uma banda que está gravando seu segundo álbum. Vai ser um disco conceitual e eles passaram a maior parte do dia tocando as músicas na ordem pra eu poder entender a narrativa.
– Acho que não entendi uma palavra disso – o rosto de Diana era uma máscara de confusão.
– Eles estão tentando contar uma história com cada música. Começa com um rap sobre um cara perdendo mil libras, daí um monte de coisa acontece até que, na última música, ele encontra o dinheiro atrás da tevê.
– Parece fascinante. Quando posso ouvir?
Demi gargalhou. Diana era fã dos clássicos – clássico entendido por Abba, Elton John e Cliff Joseph.
– Vai sair em abril. Eu compro um pra você.
– Mal posso esperar – Diana disse, sarcástica, carregando duas bandejas para a sala e passando uma para Demi, junto com os hashis.
– Você não está com fome? – Demi notou o prato de Diana. Só uma pequena porção de arroz e uma ainda menor de frango tinham sido colocadas sobre a porcelana branca. Olhando para a mãe, Demi percebeu que o rosto dela estava ossudo. – Mãe, pelo amor de Deus, quanto peso você perdeu?
Ela não conseguia acreditar que não tinha percebido assim que entrara pela porta, mas Diana sempre parecia igual para ela – pequena, perfeitamente proporcional, talvez um pouco mais pesada nos quadris que no peito. Sempre que Demi pensava nela, imaginava a mãe com cerca de trinta e cinco anos, ainda usando roupas dos anos 1990, seu rosto sem rugas sorrindo feliz com as últimas escapadas da filha.
Olhando-a agora, Demi podia ver que seu rosto estava cheio de rugas, a pele esticada sobre os ossos. As olheiras estavam mais escuras e marcadas que de costume.
Diana baixou os olhos para o prato, mordendo o lábio inferior num gesto familiar. Demi viu uma lágrima escapar do olho esquerdo da mãe, cair no prato e oscilar ao encostar na superfície de porcelana.
– Mãe, o que está acontecendo? Está me deixando preocupada agora –
Demi pousou o prato na mesa de canto e ergueu-se, fazendo o mesmo com a bandeja de Diana. Ajoelhando-se no chão ao lado da mãe, ela pegou as duas mãos dela nas suas e apertou-as, pedindo à mãe que olhasse para ela.
– Estive no hospital hoje. Não quero que você entre em pânico e sei que vai ser um choque, mas eles encontraram um caroço no meu peito e vão fazer uma biópsia.
O mundo desabou sob Demi, deixando-a atordoada, enquanto sua mente tentava, sem sucesso, encontrar o sentido das palavras. Ela balançou a cabeça, e o movimento piorou a sensação súbita de náusea.
– Eu disse para não entrar em pânico. Ainda não – Diana inclinou-se e abraçou-a. – Eles têm quase certeza de que é câncer, mas precisam fazer vários testes e outras coisas antes de me darem um diagnóstico.
– Por que você não me contou isso antes? – uma onda de raiva subiu pelo peito de Demi. Ela não sabia por que exatamente estava brava; se era o fato de a mãe não ter compartilhado aquilo, o fato de o câncer ter invadido corpo dela, ou pela vida em geral. Ela agarrou-se à emoção, preferindo-a à sensação de desespero que sentira um instante atrás.
– Não queria preocupá-la até saber com certeza que havia alguma coisa errada. Seria horrível vê-la toda nervosa desse jeito e depois descobrir que o caroço era benigno, ou pior, só imaginação minha.
– Eles falaram o que você pode fazer, quais os tratamentos? Queria ter ido ao hospital com você hoje – passar o dia ouvindo um cara cantando sobre perder dinheiro era um péssimo substituto a apoiar a mãe em sua hora de necessidade.

– Querida, tenho outra consulta na quinta. Espero que me digam algo mais concreto – Diana apertou-a uma última vez. – Agora coma seu jantar antes que esfrie. 

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Hey! Obrigada por acompanharem babys! Amo vcs! Bjss
Até o próximo! !!

15/12/2015

Sempre Foi Você - Capítulo 12


9 de janeiro 2003

Joseph foi até a parede de vidro que se estendia por todo o lado sul do seu escritório. O quinquagésimo andar oferecia uma vista impressionante de Manhattan, e ele podia enxergar a cidade até o porto. O panorama dos prédios contrastando com a beleza natural da água era de tirar o fôlego.
Tinha sido a vista que o atraíra ao escritório em primeiro lugar.
Desde que tinha tomado o controle da Maxwell Enterprises, sua vida tinha se transformado numa repetição sem fim: acordar às cinco, correr no Central Park, tomar banho e ser levado ao trabalho antes das sete. Ele tinha reuniões, conferências, almoços e apresentações até a noite, e então respondia a e-mails, escrevia relatórios e lia as correspondências até tarde, chegando em casa um pouco antes da meia-noite.
Mas, apesar do trabalho duro e da falta de sono, havia uma parte de Joseph Jonas que adorava sua nova vida – a emoção da caça e o júbilo de fechar um negócio. Isso, aliado à certeza de que estava reconstruindo a Maxwell Enterprises, levavam-no a suportar os dias infinitos e as noites inquietas.
O telefone tocou e ele foi até a escrivaninha, apertando o botão.
– O que é, Lisa?
– Sua mãe está no telefone. Gostaria de falar com ela?
Joseph fez uma careta antes de responder.
– Claro, pode colocá-la na linha.
Alguns cliques depois, a voz suave de Caroline atravessou o fio e saiu pelo receptor.
– Joseph, como você está?
– Estou bem, ocupado como sempre. Como vão as coisas com você?
– Acabei de visitar Daniel. Ele parece muito melhor. O que quer que estejam fazendo com ele nessa nova clínica parece estar funcionando. Ele perguntou por você algumas vezes, e eu disse que você talvez o visitasse no fim de semana.
– Tenho algum tempo livre no domingo. Acho que consigo passar lá.
– Você está livre para jantar hoje? Uma das minhas velhas amigas de Radcliffe vem nos visitar. A filha dela está no terceiro ano de Columbia.
Ele não conseguiu deter um suspiro. O ano inteiro, a mãe o tentara convencer a jantar com garotas diversas. Elas sempre eram filhas de suas amigas e sempre ótimos partidos. Mas ele não tinha tempo nem vontade de jogar conversa fora com mais uma garota da sociedade.
– Hoje não, infelizmente. Tenho que trabalhar até tarde.
– Você sempre trabalha até tarde, querido. Por que não se dá uma folga?
– Não posso, estamos no meio de um negócio grande. Talvez semana que vem. Peço para Lisa verificar minha agenda.
Quando desligou, o interfone tocou outra vez. Ele apertou o botão, perguntando-se se alguns minutos em paz era pedir demais.
– Sim?
– Joseph, tem uma jovem aqui dizendo ser sua irmã.
Ele franziu a testa, imaginando o que Ruby estaria fazendo em Nova York. Então se lembrou de que era o aniversário de noventa anos da mãe de Claire naquele fim de semana, e que a família toda tinha vindo para as comemorações. Como ele podia ter esquecido?
– Deixe-a entrar.
A porta abriu e Ruby entrou com um enorme sorriso no rosto. Ela crescera tanto desde que Joseph a vira pela última vez, e ele balançou a cabeça quando percebeu que sua irmãzinha era uma adolescente. Como o
tempo tinha passado tão rápido?
– Joseph! – ela lançou-se sobre ele, jogando os braços ao redor da sua cintura e enfiando o rosto no seu peito. – Não acredito que faz tanto tempo
desde que a gente se viu. Você me abandonou – tudo isso foi dito com um rosto inexpressivo, mas ele não pôde deixar de curvar os lábios em resposta.
– Oi, tampinha – ele hesitou, examinando a expressão dela. – Ou não posso mais te chamar assim?
– Não em público – o rosto dela ficou enrubescido, e sua voz transformou-se num sussurro. – Mas não me importo que me chame assim quando estamos a sós. Na verdade, ainda meio que gosto. Enfim, fui enviada aqui com uma missão importante – o tom de Ruby ficou sério. –
Estou aqui para chamá-lo para o almoço, e então preciso fazer biquinho até que diga sim, porque mamãe diz que sou irresistível quando imploro.
– Onde eles estão, afinal? – agora que sabia que estavam aqui, na sua cidade natal, ele percebeu que estava desesperado para ver a família.
– Papai tem uma reunião no banco e vai nos encontrar no restaurante, e mamãe e Demi estão fazendo compras.
– Demi está aqui?
– Sim, mamãe deu o voo pra ela como presente de Natal. Ela tem que voltar pra universidade na semana que vem, então é a última chance dela de se divertir.
– Como ela está? – eles tinham trocado e-mails, mas desde que ela terminara com Josh, Joseph não conseguia encontrar o tom certo para usar com ela.
– Parece estar bem melhor agora. Ela passou a maior parte do verão chorando, e até eu reparei que perdeu peso, e eu nunca presto atenção nessas coisas. Mas desde que veio passar o Natal em casa parece estar bem
mais feliz.
Por algum motivo, aquilo o fez sorrir.

***
Quando chegaram em La Trattoria, o resto da família já estava sentado ao redor da grande mesa redonda. Os olhos de Joseph imediatamente buscaram Demi. Assim que viu o rosto dela, a pegou olhando-o de volta, com uma expressão muito estranha no rosto.

– Oi, filho. Quanto tempo! – Steven levantou-se e jogou os braços ao redor de Joseph, abraçando-o apertado. Ele deu alguns tapinhas nas suas costas num gesto aperfeiçoado por pais em todo o mundo. Eles tinham se visto outras vezes no ano anterior, e Joseph ainda achava difícil se lembrar da reunião sentimental que tiveram quando Steven viera para Nova York assim que pôde depois do 11 de setembro. Ver o pai chorando abertamente no aeroporto, em público, tinha deixado Joseph desconfortável, mas na época todos estavam demonstrando as emoções, todos estavam com os sentimentos à flor da pele.
Claire levantou-se e juntou-se ao abraço, deixando apenas Demi sentada, encarando-o com um sorrisinho nos lábios. Joseph foi até ela, estendeu uma mão e puxou-a para perto.
– Oi – ele sussurrou no cabelo dela enquanto a segurava contra o peito.
As mãos dela circularam sua cintura, e seu punho fechou-se na jaqueta dele.
– Oi – ela sussurrou de volta baixinho.
– Como você está?
– Bem, obrigada. E você? Claire me disse que virou um workaholic.
– Não tenho escolha, na verdade.
– Bem, talvez eu possa tentar curá-lo disso nos próximos dias.
– Me deixou intrigado. Estou livre hoje à noite – ele ficou surpreendido com o convite; de jeito nenhum conseguiria terminar a apresentação naquele dia, e realmente precisava acrescentar uns toques finais.
– Tenho que jantar com meu pai às sete. Talvez a gente possa se ver depois? – o tom esperançoso dela fez Joseph sorrir.
– Por que não me encontra no escritório e me dá uma chance de terminar umas coisas? Podemos ir beber em algum lugar ou algo do tipo.
Mais tarde naquela noite, Joseph ainda estava desligando o computador quando Demi chegou. Ele ergueu os olhos, encontrando-a de vestido preto, maquiagem natural e um longo cabelo castanho.
– Há quanto tempo você abandonou o visual gótico?
Demi riu.
– Não sou gótica desde a faculdade. Ainda prefiro roupas casuais, mas não quero causar um ataque do coração no meu pai.
– O vestido fica bem em você – a peça agarrava-se ao seu corpo em todos os pontos certos, e a bainha caía até o meio da coxa, expondo suas longas pernas.
– Você mudou seu estilo também – ela foi até ele, um sorrisinho dançando nos lábios, e parou à sua frente. Erguendo a gravata dele, passou os dedos pela seda macia. – Não acho que esse terno veio da Marks and Sparks.
– Marks and Spark’s? – Joseph balançou a cabeça, confuso.
– Marks and Spencer. Tenho quase certeza de que eles não vendem Gucci lá.
– Você reconheceu o designer?
Ela riu alto, ainda segurando a gravata, lentamente puxando-o para perto até que seus rostos quase se tocaram. Colocando a boca perto da orelha dele, ela respirou devagar.
– Nathan me disse que você não usa outra coisa.
Merda, ele estava ficando excitado só de sentir a respiração dela em sua pele. Não sabia se devia se render ou se afastar. Demi tomou a decisão por dele, movendo-se para se sentar na cadeira ao lado da mesa dele.
– Como vai a vida corporativa? Você parece ótimo – ela encarou o terno outra vez.
Joseph fechou o laptop e se virou para olhá-la.
– Sabe, eu adoro, na verdade. Estou aprendendo rápido, as pessoas ouvem quando falo, e faço as coisas acontecerem. Daqui a uns três anos, há uma chance de eu saber o que estou fazendo.
– Então não se arrepende de não ter ido para São Francisco? – ela inclinou-se para a frente, apoiando os cotovelos na mesa e encostando o queixo nas mãos.
– Tento não pensar sobre isso. Meu lema agora é olhar para o futuro.
Falando nisso, quais são seus planos pra depois da formatura?
Demi abriu um sorriso largo, os olhos brilhando enquanto pensava no próprio futuro.
– Recebi uma oferta na Music Train, onde fiz um estágio no verão passado.
– Uau, que ótima notícia! Devíamos comemorar.
– Sim, devíamos – ela concordou.
Joseph levantou-se e pegou-a pela mão. Eles foram até o elevador, ansiosos para sair do escritório e finalmente passar um tempo juntos.
Depois de alguns drinques, ele conseguiu fazê-la se abrir sobre Josh.
Joseph não sabia por que estava tão interessado em ouvir sobre a separação – se era preocupação genuína por ela ou se só queria uma confirmação de que estava tudo acabado. De qualquer jeito, ficou sentado com Demi, o braço jogado sobre os ombros dela, e ela encostada contra ele, o rosto contorcido enquanto tentava explicar suas emoções.
– Ele ficou dizendo que só dormiu com ela porque tinha medo dos seus sentimentos por mim. Que achou que eu não estava comprometida com o relacionamento e queria me mostrar que não se importava. Que tinha mudado de ideia e que tinha sido um erro enorme e que ele estava completamente bêbado. Nem quis me dizer se foi uma vez só ou se o caso já rolava há algum tempo.
Joseph fez uma careta. Conhecendo a falta de sinceridade de Josh, devia ser a segunda opção.
Demi virou-se para olhar Joseph direto nos olhos. Seu rosto estava apenas a alguns centímetros dele, e ele podia ver a intensidade de suas emoções sob o tom chocolate dos olhos dela. Quando abriu a boca para responder, ficou paralisado pela intimidade que se desenvolvia entre eles.
A expressão dele suavizou enquanto ele a encarava, observando a pele dela reagir à proximidade e a cor subir às maçãs do rosto.
Alguns instantes se passaram à medida que eles se olhavam, e ele podia sentir um desejo familiar começar a se agitar no estômago. Lentamente, hesitante, ele estendeu a mão e passou os dedos pelo rosto dela. Ela continuou encarando-o, sem piscar.
– Acho que precisamos ir – a voz dela estava embargada. Seu pescoço movia-se enquanto ela tentava engolir.
O coração dele despencou.
– Levo você pra casa.
– Quero ir pra casa com você – ela pareceu surpresa com as próprias palavras. Suas sobrancelhas ergueram-se e o rosto ficou ainda mais corado.
– Demi… – ele queria se chutar pela hesitação, mas se recusava a ser o cara que ela usaria para superar o namorado. – Não sei se é uma boa ideia.
– Joseph, é uma ideia magnífica – ela pôs a mão na nuca dele, puxando seu rosto para perto. Demi hesitou quando seus lábios estavam a milímetros dos dele. Com a proximidade, ele podia sentir a respiração rápida dela, e aquela tensão familiar começou a se agitar nele.
O calor da respiração dela banhava sua pele e Joseph fechou os olhos, tentando se lembrar da última vez que seu corpo se sentira tão vivo. Os dedos de Demi continuavam a brincar com o cabelo na sua nuca, enviando arrepios pela sua coluna e tornando quase impossível resistir.
– Vamos.

***
Quando entraram no apartamento, Joseph jogou o terno numa cadeira no corredor, estendendo a mão para tirar o casaco de Demi dos ombros dela.

– Quer beber alguma coisa?
– Um copo d’água seria bom.
Ele não se moveu, só ficou parado a alguns passos dela, com um meio sorriso, enquanto seus olhos verdes encaravam os dela.
– Realmente quer água?
– Eu adoraria um copo d’água, Joseph. Na verdade, passei o dia inteiro sedenta por um gole de H2O.
– Não quer vinho, não quer um drinque… você quer água – o tom dele era neutro, embora algumas rugas no canto dos olhos revelassem seu divertimento.
– Se vai ser chato, o que eu quero mesmo é uma xícara de chá. Mas você é americano, então decidi ir com calma.
– Eu tenho chá.
– Não acredito em você – ela pôs as mãos nos quadris, abrindo um sorrisinho quando as sobrancelhas dele se ergueram. A expressão dela dizia “Quero só ver”.
– Tenho chá, tenho leite, e tenho uma chaleira em algum lugar. Minha madrasta é anglófila, Demi. Então, gostaria de uma xícara de chá?
Em vez de se mover na direção da cozinha, ele deu um passo à frente, aquele sorriso torto ainda no rosto.
Joseph estendeu a mão para tocar o braço dela. Seu dedo traçou uma linha de fogo, descendo do ombro até o cotovelo, a suavidade do toque fazendo-a sentir um arrepio até a base da coluna.
– Acho que posso tomar o chá depois.
– É mesmo? – ele fechou a distância entre eles, seu corpo a centímetros do de Demi. Pôs uma mão aberta nas costas dela, e seu calor passou pelo tecido fino do vestido. Por um momento, eles ficaram imóveis, e Demi podia sentir o corpo começar a vibrar em reação à proximidade. Ela ergueu a cabeça e olhou diretamente nos olhos dele, sem saber se estava desafiando ou implorando.
– Sim – ela não tinha certeza se estava respondendo à questão, ou só incentivando-o a se mover.
Tudo parecia diferente, e tudo parecia o mesmo. Ele era o velho amigo dela, alguém com quem tinha rido e brincado e beijado. Mas o Joseph à sua
frente era todo homem. E aquele terno… Deus, aquele terno! Quando colocou os olhos nele, pela primeira vez, no restaurante, foi como se seu corpo tivesse pegado fogo. Ela estava presa em algum lugar entre
familiaridade e agitação, sentindo-se estranhamente ansiosa, embora ao mesmo tempo soubesse que, não importava o que acontecesse, ela não se arrependeria daquilo.
– Tem certeza? – a mão dele puxou-a para perto, reduzindo o espaço entre eles, até que o peito dela tocava o abdômen dele, o resto do seu corpo quase em contato com o dele. Ela não podia ver o rosto de Joseph, seus olhos chegando apenas até a base do seu pescoço, levemente exposto pelo colarinho aberto da camisa branca.
– Completamente.
Ela queria entrar sob a pele dele, inalar seu cheiro. Suavemente, pressionou os lábios na parte exposta do peito dele. Então com mais força, puxando de leve a pele, arrastando a língua pela cavidade macia sob o colarinho da camisa.
– Demi… – a voz dele falhou, e ele pôs o dedo sob o queixo dela, inclinando seu rosto para cima enquanto ele abaixava o dele até eles se encontrarem no meio. Ela pousou as mãos nos seus ombros, os dedos abertos contra o branco da camisa, usando-os como apoio para fechar a distância entre os lábios deles.
Quando só havia um milímetro entre eles, ela sentiu-o suspirar. Então a boca de Joseph se lançou na dela, toda gentileza esquecida na necessidade de tocar, sentir, consumir. Sua mão apertou a nuca dela, puxando-a para perto até que seus dentes quase rasparam, a boca dela abrindo-se assim que sentiu a ponta da língua dele correndo sobre seus lábios.
Ela acariciou o rosto dele, tocando a barba não feita. Sua mente estava febril enquanto empurrava o corpo contra ele, querendo sentir sua reação,
torcendo para que ele estivesse tão excitado quanto ela.
– Jesus – ele afastou a boca dela, inclinando-se para conseguir olhar seu rosto. Sua mão ainda estava no rosto de Demi enquanto a observava, a intensidade do olhar deixando-a sem fôlego. – Demi, isso é… – ele
balançou a cabeça, sem conseguir articular os pensamentos.
Ela sentiu a necessidade de se justificar.
– Sei que a gente não devia fazer isso. E sei que você provavelmente acha que eu só quero superar Josh. Mas passei o dia inteiro pensando sobre isso, e só fiquei com ele para superar você…
– Dá pra parar de falar sobre Josh quando estou tentando te seduzir?
– Desculpe – Demi internamente se chutou, perguntando-se por que tinha mencionado o nome dele. Se Joseph tivesse falado de uma ex naquela situação ela teria ficado louca.
– Vem aqui – ele moveu as mãos e apertou as dela, dando passos para trás até atingirem o sofá, aquele sorriso ainda nos lábios. Demi caminhou
silenciosamente pelo piso de madeira, então parou enquanto ele se deitava no sofá, puxando-a para cima dele.
Ela precisou erguer o vestido para conseguir colocar suas pernas dos lados dos quadris dele, e de repente percebeu que estava no controle.
Joseph estava deitado embaixo dela, olhando para cima, esperando que ela tomasse a iniciativa. Ela adorou o fato de ele estar disposto a deixá-la estabelecer o ritmo e conduzi-los.
Acomodando-se no colo dele, ela abriu os botões da camisa um por um, até que o peito dele fosse revelado. Descendo a mão pelo abdômen, sentiu os músculos duros e as linhas da barriga enquanto ele se enrijecia sob seu toque. Ele estava respirando com esforço, o corpo movendo-se para cima e para baixo sob a mão dela, enquanto Demi descia até a fivela do cinto.
– Posso? – ela ergueu os olhos para ele, encontrando os dele quando ele a encarou. Joseph estendeu a mão e agarrou o pulso dela, detendo seu movimento.
– Espere – ele ergueu-se até se sentar, aproximando o rosto dela. – Quero ver você primeiro – ele puxou a bainha do vestido e ela endireitou-se enquanto ele o erguia sobre a barriga e sobre os braços dela, até que ela estivesse sentada sobre ele usando apenas sutiã e calcinha.
Um gemido abafado escapou dos lábios dele. Ele passou os braços ao redor dela, soltando o sutiã. Tirando a própria camisa, jogou-a no chão junto com o vestido dela. Então, tomou as mãos dela e trouxe-a contra ele até que os peitos nus deles se tocaram. Pele contra pele, a sensação do corpo dele no dela fez os mamilos dela se enrijecerem. Ele pôs os lábios nos peitos dela, chupando um de cada vez, usando a língua até ela começar a suspirar.
Ela estava tentando abrir a fivela dele outra vez, e quando finalmente conseguiu, passou para os botões da calça, os dedos tremendo enquanto tentava abri-la. Ela sentiu-o sorrir contra sua pele enquanto descia as mãos para ajudá-la, rapidamente abrindo a calça e jogando-a no chão.
Movendo-se para cima dela, ele alinhou seus corpos, e Demi podia sentir sua ereção através do tecido da cueca enquanto ele se esfregava contra ela. Naquele momento ela só conseguia pensar que precisava senti-lo dentro dela.
– Joseph, por favor…
Ela girava os quadris contra ele, e ele inclinou-se para beijá-la outra vez.
Sua mão direita foi para baixo dela para apertá-la e ele se esfregou contra ela mais um pouco.
– Eu preciso…
Ele pôs os lábios num ponto no seu pescoço bem abaixo do maxilar. Era tão sensível que ela quase gritou de prazer.
– Deixe eu cuidar de você.
Apoiando-se nos joelhos, ele passou as mãos pelos lados do corpo dela até chegar na calcinha, puxando-a para baixo. Assim que a tirou, ele apertou as pernas dela e puxou-a para perto, os lábios tocando a parte interna das suas coxas enquanto se moviam para cima, até começar a beijar e chupar, fazendo Demi se contorcer com a sensação. Deixando a cabeça cair para trás, ela moveu a mão para baixo, entrelaçando os dedos no cabelo suave e grosso dele enquanto o sentia se mover, o prazer das vibrações chegando ao seu cerne.
Quando ela estava próxima do clímax, ele afastou a boca e, pelos olhos semicerrados, viu-o se inclinar para pegar uma camisinha do bolso da calça jogada e colocá-la. Aproximando-se de novo, ele alinhou o corpo deles e penetrou-a com um movimento suave dos quadris, a sensação súbita de plenitude levando-a ao clímax, e todo seu corpo enrijecendo em reação ao orgasmo. As costas dela arquearam-se contra ele enquanto ele a segurava, beijando-a sem parar enquanto ela ofegava na sua boca.
– Caralho – era Joseph. A mente de Demi estava tão cheia que ela estava tendo dificuldade em lembrar o próprio nome, muito menos articular palavras. – Querida, está pronta? – ele perguntou.
Ela assentiu, sem conseguir falar. Deixando-a cair de volta no sofá, ele agarrou seus quadris, os dedos enfiados na pele macia enquanto começava a se mover dentro dela, os lábios nunca deixando os dela, cada movimento pontuado por respiros suaves que faziam o coração de Demi martelar dentro do peito.
Ela passou os braços ao redor dele, as mãos descendo até sua bunda, sentindo os músculos flexionarem-se enquanto ele se movia. Demi implorou para ele se mover mais rápido, mais forte, enquanto o puxava para perto. Ele estava ficando sem fôlego, e afastou a boca para inspirar. Ela olhou bem para a expressão dele, os olhos verdes escuros de tesão, o rosto demonstrando o prazer que estava sentindo. O corpo dela formigava com pequenas explosões de êxtase descendo até seus pés, fazendo os dedos se curvarem.
– Deus, Demi, eu vou…
– Quero sentir você gozar – as palavras eram apenas um sussurro, mas ela queria que ele tivesse tudo, que se sentisse tão bem quanto ele a fizera se sentir. Os movimentos tornaram-se erráticos e duros, até que ele parou de repente, um gemido profundo saindo da sua boca. Deixando o corpo cair sobre ela, Joseph beijou-a com força enquanto se movia mais algumas vezes.
Demi apertou-o, incapaz de deixá-lo ir, de deixá-lo se afastar dela quando ela estava se sentindo tão exposta. Como se entendesse a vulnerabilidade dela, ele começou a mover os lábios contra seu rosto, seu pescoço, murmurando palavras doces enquanto eles lentamente voltavam à realidade. Ela passou os dedos para cima e para baixo da coluna dele, amando a sensação do corpo dele no dela, sem se importar que ele a estivesse esmagando. Ela sentiu-o sair dela aos poucos, os lábios ainda na sua pele, a mão movendo-se para proteger a camisinha.
– Preciso cuidar disso – ele levantou-se e foi até uma porta no outro lado do apartamento que ela supôs ser o banheiro. Sozinha no sofá, ela estava ciente da sua nudez, mas não estava com vontade de colocar a calcinha e o vestido. Não estava disposta a admitir que a noite chegara ao fim. Em vez disso, tirou a camisa dele da pilha de roupas jogadas, colocando os braços nas mangas e fechando alguns botões para manter alguma aparência de recato. A porta do banheiro fez um clique e ela ergueu os olhos, vendo Joseph aproximar-se, uma pequena toalha branca enrolada nos quadris e um sorriso nos lábios enquanto os olhos dele se escureciam em resposta à roupa dela.
– Gostei da camisa.
– Obrigada. Gostei da toalha.
– Obrigado – ele estava na frente dela, e ergueu-a até que ela estivesse firmemente em seus braços, o corpo envolvendo o dela num abraço. Ele enfiou o rosto no cabelo dela e murmurou: – Vou fazer aquela xícara de chá agora.


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E o que estão achando, hein? :D
Bjsss

14/12/2015

Sempre Foi Você - Capítulo 11


29 de junho de 2002
– O que é isso? – Josh apanhou o pacote em cima da cama, enquanto Demi continuava a enfiar coisas na mochila, apertando tudo o que cabia lá dentro.
Demi virou-se para ele, que tirava uma camiseta do pacote. Ele a desdobrou, revelando uma camiseta vintage de 1973 do New York Dolls, que Joseph lhe mandara.
– É um presente de Joseph.
– Não gosto que ele fique te mandando coisas – Josh caiu de volta na cama, mexendo os dedos como se estivesse tentando remover todos os
traços do presente dele. – É estranho.
Demi parou o que fazia, inclinando-se para acariciar o rosto dele.
– Ele é só um amigo, Josh.
– Amigos não se dão presentes de centenas de libras, Demi. Está na cara que ele é a fim de você. Quer dizer, ele mal consegue tirar os olhos de você.
Demi reprimiu uma risada.
– Josh, você sabe que não tem nada acontecendo. Ele mora a milhares de quilômetros de distância, e eu estou com você. Tenha um pouco de confiança, ok? – ela inclinou-se e tocou seus lábios nos dele. – Vou ficar lá até domingo, então não vamos nos despedir desse jeito.
– Ainda não gosto disso.
Apesar dos argumentos dela, o mau humor dele continuou até a Paddington Station, onde ele a deixou. Demi deu-lhe um beijo rápido antes de sair do carro, sentindo a irritação dele quando ele respondeu com um beijinho. Mal fechou a porta, ele já acelerou, e ela viu o carro desaparecer
no trânsito de Londres. A preocupação por seu relacionamento com Josh causava uma náusea que revolvia seu estômago.
Assim que sentou no trem, ela suspirou, decidindo que se preocuparia com a briga quando voltasse para Londres. Então tocou o bolso para verificar que a carta de Joseph ainda estava lá, e puxou-a para lê-la mais uma vez.
20 de junho de 2002
Querida Demi,
Obrigado pelo presente. Depois de todos esses anos, anos, anos, finalmente finalmentefinalmentefinalmente receber o prometido CD me fez sorrir como um louco. Quando li a lista de músicas, gargalhei de verdade. Começar com
“Wall Street Shuffle” pode ter sido meio óbvio, mas seguir com “Money for Nothing” do Dire Straits foi realmente inspirado. A música final, “All About the Benjamin’s”, do Puff Daddy, é uma das minhas favoritas, na verdade.
Enfim, para agradecê-la pelo presente, você ficará feliz em ver que gastei alguns Benjamins numa camiseta pra você. Não tenho certeza se é fã do New York Dolls ou não, mas quando vi a camiseta lembrei de você e da noite dos Strokes.
Vamos repetir em breve, ok?
Joseph
Sentada no bar dos bastidores do Festival de Glastonbury, Demi viu Tom McLean atravessar o recinto e colocar cinco garrafas geladas de Stella Artois na mesa de plástico grudenta à frente deles. Ela apanhou uma e encostou-se na frágil cadeira dobrável, tomando um longo gole de cerveja,
para o divertimento do resto da banda.
– Então, o que achou? – Tom perguntou, tentando parecer indiferente enquanto puxava outra cadeira, colocando-a tão perto de Demi que as pernas deles quase se tocavam.
– Oficialmente ou extraoficialmente? – Demi provocou, tocando o passe de jornalista pendurado ao redor do pescoço.
Tom encarou-a por um instante, estreitando os olhos enquanto considerava as palavras.
– O que eu for gostar mais.
– Estou brincando, seu bobo – ela estava sorrindo. – Vocês foram absolutamente fantásticos. Adorei o novo setlist. É genial. A plateia ficou vidrada em cada nota.
– Fomos melhores que o Coldplay? – Robert, o baixista, inclinou-se para a frente, o queixo apoiado nas mãos. Ele olhava para Demi com olhos brilhantes e atentos.
Ela não conseguia acreditar em como eles estavam interessados na sua opinião, embora a antecipação deles alimentava seu ego de um jeito extremamente bem-vindo. Não era a primeira vez desde que estivera no festival que uma banda parecia sinceramente interessada no que ela pensava sobre eles. De algum modo, o juízo dela se tornara cobiçado. Ela imaginava que tinha algo a ver com o fato de ser estagiária da Music Train, com o passe deles pendurado no pescoço onde quer que fosse. Todas as
bandas queriam uma boa crítica da revista de música mais popular do país.
– O Coldplay foi excelente, todo mundo estava cantando junto – Tom ficou pálido com as palavras, e Demi apressou-se em acrescentar: – Mas vocês foram algo excepcional.
As pessoas não estavam só cantando,
estavam adorando. Se lançando como sacrifícios aos deuses do rock.
Um sorriso largo apareceu no rosto de Tom. Ele levantou-se e ergueu-a num abraço forte, os lábios descendo para os dela com um estalo alto.
– Demi Lovato, amo você! Agora, não se esqueça de me chamar de deus do rock em sua crítica.
– Você sabe que a Music Train tem escritores de verdade aqui, né? Terei sorte se eles publicarem um artigo genérico sem passar por cinco editores antes – ela contorceu-se numa tentativa fingida de escapar do abraço dele.
Não que se importasse que ele fosse efusivo; já estava acostumada com isso. Ele era como um garoto de cinco anos entusiasmado, jogando-se em todo mundo, não apenas nela.
– Falei com seu chefe mais cedo e prometi uma entrevista exclusiva, mas só se você a escrever – ele deu uma piscadinha enquanto se afastava, prestes a se sentar outra vez.
– Ai, meu Deus! – ela exclamou, tentando não puxá-lo para outro abraço.
As pessoas estavam começando a observar. – Ai, meu Deus do Rock, por favor.
Eles encararam-se com sorrisos semelhantes no rosto. Era difícil acreditar que apenas dois anos atrás ela o vira tocar num pequeno pub, sem ter ideia de que ele se tornaria internacionalmente famoso. Como as coisas tinham mudado.
– Tom, querido! – uma voz fina e aguda veio do outro lado do bar. Demi observou divertida enquanto uma loira baixinha corria até eles e se jogava nos braços de Tom, envolvendo as pernas ao redor da cintura dele e lhe dando um beijo firme nos lábios.
– Não é a Pinky Jones? – Demi sussurrou para Robert.
– Ah, sim. Tem sido a nossa cruz o verão inteiro. Toda vez que você se vira, ela está lá. Fica nos rodeando como uma mosca em cima de uma pilha
de merda.
– Que metáfora boa. Especialmente porque compara vocês a uma pilha de esterco – ela respondeu, sarcástica, vendo Tom sentar-se novamente, puxando Pinky para seu colo. Demi mordeu o lábio inferior para não soltar uma risadinha, fazendo Tom erguer uma sobrancelha.
– Você não vai cantar hoje? – Robert perguntou à loira. Pinky riu e balançou a cabeça antes de encostá-la no ombro de Tom, acariciando o pescoço dele. Demi notou um brilho peculiar nos olhos dele. De repente, percebeu que Tom McLean estava apaixonado por uma celebridade Z, a segunda classificada do reality show Rock Star daquele ano.
Demi tentou deter o sorriso largo que estava ameaçando despontar em seu rosto, porque sabia que Tom pensaria que ela estava rindo dele, mesmo que não estivesse. Na verdade, um cantinho do seu coração estava se aquecendo com a imagem do amigo sendo conquistado por uma mulher.
– Pinky, essa é Demi Lovato, uma das minhas amigas mais velhas –
Tom ergueu os olhos e piscou para Demi.
– Você não parece tão velha – Pinky respondeu, franzindo a testa em confusão. Demi ouviu Robert começar a gargalhar ao seu lado.
– Não, querida, ela não é uma amiga velha em anos, é velha porque eu a conheço há anos.
– Tenho vinte anos – Demi decidiu que seria mais fácil dizer logo.
Pinky recompensou a resposta franca com um sorriso deslumbrante, e Demi entendeu exatamente o que Tom via nela. Seu rosto era honesto e inocente, e mesmo que ela não parecesse ter muita coisa entre as orelhas, o
que havia lá parecia gentil e amigável.
– Vocês dois se conhecem há muito tempo? – Demi perguntou, interessada na resposta. Ela suspeitava que conseguiria viver daquela história pelos próximos meses.
– A gente se conheceu na festa de fechamento do Rock Star. Tommy veio falar comigo e me disse que votava pra mim cem vezes todas as semanas.
A vontade de rir tomou conta de Demi outra vez. Com a reputação de roqueiro dele e o apelo de tabloide dela, Tom e Pinky seriam um alvo perfeito para os paparazzi.

***

Demi chegou ao flat de Josh mais cedo do que planejara no domingo.

Vasculhando a bolsa de mão, encontrou a chave e entrou no prédio, tentando não respirar o ar rançoso e úmido do corredor. Ela passou a mochila para o ombro, os pés calçados com sandálias pisando no tapete puído das escadas. Lentamente, subiu ao segundo andar, sentindo os músculos ficarem pesados como chumbo pelo esforço. Seu corpo doía. Ela só queria entrar no chuveiro minúsculo de Josh e depois ficar sob as cobertas com ele por algumas horas.
O apartamento estava silencioso, e ela percebeu que sua suposição inicial
– de que ele nem tinha se dado ao trabalho de se levantar ainda – estava correta. A carteira e as chaves dele ainda estavam no balcão da pequena cozinha. Abrindo a porta do quarto, seus olhos vagarosamente ajustaram-se à penumbra criada pelas cortinas. Ela pôs a mochila ao lado da porta e deu alguns passos na direção da cama.
Suas pernas reagiram antes da sua mente, como se pressentissem algo errado naquela cena. Demi parou de repente, vendo duas formas adormecidas, os corpos nus entrelaçados sob a cobertura de um fino lençol branco. O braço de Josh estava ao redor da cintura da mulher, sua cabeça enfiada no pescoço dela enquanto ele respirava suavemente. Seu rosto adormecido era a própria imagem da inocência.
Demi sentiu-se entorpecida. Reconhecia a mulher. Elas tinham se visto algumas vezes quando ela acompanhou Josh e os amigos do trabalho num pub de sexta à noite. Ele a apresentara como sua chefe, e os dois mal interagiram todas as vezes que ela os vira juntos. Mas pelo visto a conexão
era mais próxima, e Demi mordeu o lábio numa tentativa de frear um grito que tentava escapar da sua garganta.
Lutar ou fugir? Ela mordeu o dedo, o rosto contorcido de infelicidade, tentando decidir o melhor a fazer.
Deveria confrontá-los antes que eles tivessem tempo de inventar uma história como desculpa? Ou deveria correr do quarto com uma parcela da sua dignidade intacta?
A decisão foi tomada quando Josh se moveu languidamente, erguendo o braço da cintura da mulher e alongando-o sobre a cabeça, os olhos piscando com lentidão em reação à pouca luz do quarto. Erguendo a cabeça do travesseiro, ele avistou Demi e sorriu, abrindo a boca para dizer algo –
e então olhou para baixo e viu a mulher nua, deitada ao seu lado.
A expressão de horror que passou pelo rosto dele foi quase cômica.
– O que diabos…?
– Acho que essa é a minha fala – a voz de Demi estava
surpreendentemente controlada, enquanto ela examinava o desastre que era seu relacionamento.
– O que você está fazendo aqui? Achei que estava em Glastonbury – ele puxou o lençol para cobrir os corpos nus deles. Uma risada subiu pela laringe dela quando Demi percebeu que ele estava tentando culpá-la por
aquilo. Então, a risada se transformou num soluço, e ela soube que precisava sair de lá imediatamente.
A razão voltou ao cérebro, superando o entorpecimento, e ela se virou para apanhar a mochila antes de sair do quarto. Ouviu Josh gritar por ela, mas não respondeu, andando mais rápido até atravessar a sala e chegar à porta da frente.
Era como se seu corpo inteiro tivesse sido atingido por um golpe. Os músculos estavam rígidos enquanto ela descia as escadas correndo, mal notando o peso da mochila enquanto se movia. O coração estava acelerado pelo choque de vê-los lá. Ela não tinha ideia de como conseguiu sair para a rua sem tropeçar.
Demi queria enfiar a mão na cara de Josh Chambers até ouvir o estalo satisfatório dos dentes dele batendo contra a bochecha. Queria subir no colo da mãe como se tivesse cinco anos outra vez, como se um simples abraço pudesse apagar toda a dor.
Mas, mais do que tudo, queria ir para casa e se enfiar na sua cama de solteiro, puxar as cobertas sobre a cabeça e chorar por horas.



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Comentem! Bjsss no core de vc! ❤❤❤❤

13/12/2015

Sempre Foi Você - Capítulo 10


11 de setembro de 2001
O som estridente do telefone tocando na cozinha cortou o silêncio do apartamento, e Demi levou alguns momentos para tirar a cabeça do livro e voltar para Londres, no presente. Procurando desesperadamente algo para usar como marcador, ela por fim tirou sua faixa de cabelo, colocando-a entre as páginas enquanto seu cabelo caía livremente sobre suas costas.
Ela atravessou a sala correndo e chegou à cozinha assim que o telefone parou de tocar. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas a frustração ainda a fez ranger os dentes quando percebeu que sua corrida louca tinha sido em vão. Sentindo o estômago roncar de fome, decidiu fazer um sanduíche.
Enquanto ia até a geladeira, foi interrompida outra vez pelos toques agudos do telefone. Ergueu o receptor, falando um “Alô” alto.
– Demi? É o Josh.
– Você acabou de me ligar? – ela mordeu o lábio em confusão. Ele só deveria ligar amanhã.
– Não, acabei de escapar de uma reunião. Você está bem?
– Por que não estaria?
– Está assistindo às notícias? – havia um burburinho no fundo, e ela se perguntou quantas pessoas haviam naquela reunião.
– Não, estava no quarto, lendo. O que aconteceu?
– Houve um acidente de avião em Nova York. Dois aviões, na verdade.
Eles bateram no World Trade Center.
– Ah, meu Deus, Josh! É do lado do prédio do meu pai – a mão dela tremia enquanto apertava o telefone, como se fosse uma corda de segurança que a ligasse ao pai.
– Está um caos lá, ninguém sabe de nada. Fui chamado para o escritório de Londres para atender aos telefonemas à noite, então estou saindo agora.
Tento ligar pra você quando chegar lá.
O coração de Demi parou. Ela só queria que o namorado viesse para casa, segurasse-a em seus braços e dissesse que ficaria tudo bem. Ela desligou o telefone e caminhou no automático até a sala, o braço estendendo-se roboticamente para ligar a televisão.
Ela não conseguia se sentar para assistir à cobertura, e seu estômago se revirava enquanto via o desastre transmitido na tela. Todo seu corpo tremia e um soluço escapou de sua garganta ao ver o público e os jornalistas em pânico. Já estavam descrevendo os ataques como um “ato de guerra”.
Não era só por seu pai e por sua família que estava preocupada; havia também Joseph e os Maxwell, e todos aqueles desconhecidos atingidos
pela tragédia diante de seus olhos.
Ainda tremendo, ela voltou para a cozinha e abriu a gaveta que continha as agendas de telefone. Puxando um caderno velho com capa de couro e indo até a página com os números do pai, Demi sistematicamente discou cada um, mas conseguiu a mesma resposta todas as vezes.
Sinal de ocupado.
Tentando de novo e de novo, podia sentir as lágrimas começarem a escorrer pelo rosto enquanto apertava os botões em frustração, sabendo mesmo antes de apertar o último número que só ouviria uma resposta morta e monótona. Continuou insistindo mesmo assim.
Mordendo o dedão, ela procurou até chegar na letra L. Correndo o dedo pela página, encontrou o número que estava procurando e discou rapidamente, o coração ficando mais leve ao ouvir o som familiar do sinal de discagem vibrando pelo aparelho.
– Alô?
– Claire? É a Demi – assim que ouviu a voz gentil de Claire, as lágrimas começaram a escorrer mais rápido. Outro soluço abafado escapou da sua boca, e ela ouviu Claire inspirar em resposta.
– Querida, você teve alguma notícia do seu pai?
– Não. Não consigo falar com ele. Ouviu alguma coisa de Joseph? – o coração dela martelava dentro do peito. Demi não tinha certeza se queria
ouvir a resposta de Claire.
– Não, não sabemos de nada. Steven está trancado no quarto tentando descobrir alguma coisa. Ele está ligando pra todo mundo que conhece.
– Quando era o voo dele para São Francisco?
– O voo era hoje de manhã, Demi – ela podia ouvir Claire chorando agora, a emoção pontuando cada palavra. – Não sabemos a que horas saía o avião, ou qual a companhia.
Demi começou a se balançar para a frente e para trás na planta dos pés, estabelecendo um ritmo que era de algum modo reconfortante.
– Diana está com você?
– Ela está organizando uma festa em Hertfordshire. Só volta à noite –
Demi fungou quando pensou na mãe.
– Você está sozinha? Ah, Demi… – Claire parecia horrorizada com a informação. – Vou mandar alguém pegá-la. Não pode ficar sozinha num momento como esse.

***
Assim que chegou em Cheyne Walk, ela foi guiada para dentro da casa por Claire e Nathan, os dois quase a carregando até soltarem-na gentilmente num sofá macio. Os olhos deles estavam vermelhos e brilhando com lágrimas, enquanto se despediam da vida como a conheciam. Eles tentaram não expressar o medo que sentiam por Joseph.

– Steven está tentando descobrir notícias do seu pai – Claire disse, sentando-se e assistindo à tevê no mudo. – Ele tem contatos na embaixada e no gabinete do Estado. Estão fazendo tudo o que podem, mas está uma bagunça por lá. Ninguém consegue falar com ninguém, todas as redes de
comunicação estão cortadas. Vai demorar um bom tempo até descobrirmos alguma coisa.
Demi podia sentir uma dormência cair sobre a pele enquanto continuava assistindo à cobertura na tevê. Ela não estremeceu quando a filmagem de um terceiro avião atingindo o Pentágono foi transmitida, nem quando um quarto caiu num campo na Pensilvânia. Só ficou sentada, com os olhos arregalados, a boca ainda respirando, o coração ainda batendo.
Não queria ver as imagens dos aviões em loop contínuo, mas não conseguia desviar o olhar. Era como ser hipnotizada contra a vontade.
Eles ficaram sentados, assistindo, e continuaram quietos, até que um baque alto veio do escritório de Steven. Era como algo sendo jogado contra uma parede. Houve um som claro de algo quebrando, seguido pelo lamento frenético de um homem.
Claire ergueu-se e correu para o escritório. Demi e Nathan observaram-na enquanto ela se movia, os rostos congelados de pavor.
Quando Claire chegou à porta, ela foi aberta por Steven. O rosto normalmente suave dele havia desaparecido, substituído pelo de um homem desesperado. A camisa estava torta, o cabelo desarrumado. O que realmente quebrou o coração de Demi foi a expressão no rosto dele. Pelo resto da vida, nunca se esqueceria daquela expressão. Era uma mistura de medo e infelicidade, frustração e impotência. Era um pai lutando pelo filho.
– O quarto avião estava indo para São Francisco – ele sussurrou.
Demi recomeçou a tremer. Ela abraçou o corpo numa tentativa de fazê-
lo parar, mas em vez disso começou a balançar para a frente e para trás de novo.
– De onde saiu? – Claire perguntou.
– Newark.
– Steven… – a voz de Claire era um lamento. Ela jogou-se nos braços do marido, os soluços aumentando enquanto ele a segurava forte.
Demi começou a balançar a cabeça, como se estivesse tentando negar o que estava acontecendo. Ela olhou para Nathan e o viu sentado com as mãos cobrindo a boca. Os olhos azuis dele encaravam-na diretamente.
– Vocês têm certeza que ele iria sair de Newark? – ela sussurrou para Nathan, agarrando-se a qualquer centelha de esperança, como um homem
no mar procurando um colete salva-vidas.
– Não sei. Acho que meu pai não sabe qual voo ele iria pegar. Mas ele já voou de Newark antes.
Demi olhou para a tevê e viu no canto direito da tela que eram quase duas e meia.
– Ruby! – ela sussurrou, tentando não olhar para o abraço desesperado de Steven e Claire. – Se eu sair agora, consigo pegá-la na saída da escola –
Demi precisava de ar fresco, e do senso de propósito que aquela tarefa lhe daria. Distância e tempo eram o que ela mais desejava.
– Vou com você. Não quero que ela fique sabendo por outra pessoa –
Nathan sussurrou.
– É melhor avisar que estamos saindo? – Demi olhou para Claire de relance. Era como se ela e Steven estivessem em sua própria bolha. O olhar de Nathan seguiu o dela, e sua expressão desmoronou outra vez ao ver a tristeza deles à sua frente.
– Pegue seu casaco, eu aviso que estamos indo buscar Ruby.

***
Sua mãe estava acordada quando Joseph entrou, sentada no sofá de seda na sala de estar. Ele ficou contente ao ver que a mão dela não estava ao redor de uma taça de vinho, embora estivessem pálidas e tremendo, como o resto do corpo. O cabelo claro de Caroline caía ao redor do rosto, e seus lábios estavam vermelhos e secos de tanto passar os dentes por eles.

– Vou tomar um banho e já volto – ele disse a ela. Ela olhou-o com olhos azuis vidrados.
– Depressa, querido. Não gosto de ficar sozinha.
O banho era uma necessidade. O cabelo de Joseph estava coberto de poeira, e sua pele coçava pelo efeito do vento e dos detritos no ar. Mais que tudo, ele queria lavar as lembranças do dia, e vê-las descer pelo ralo junto com a água cinza. Infelizmente, era mais fácil lidar com a sujeira do que com os pensamentos.
Ele desceu com o cabelo ainda molhado. A mãe não tinha se movido; continuava encarando o mesmo ponto na parede, olhando fotos da família e dos amigos. Fotos de tempos mais felizes, quando a vida era previsível e boa, e o mau era só um conceito em livros antigos.
– Foi terrível lá? – até a voz de Caroline parecia ter morrido. Ela falava com os lábios finos e secos.
– Não foi agradável. Eu doei sangue, então fui ver o… – ele não conseguia pronunciar as palavras, embora suspeitasse que, em algum momento, seria preciso.
– Há alguma esperança?
Ele sabia que ela estava perguntando se havia mais sobreviventes sendo resgatados. Ele balançou a cabeça.
– Por favor, não me deixe sozinha, Joseph – uma lágrima solitária emergiu do canto de um olho, desceu pela bochecha e caiu do queixo, deixando uma mancha no sofá de seda. – Sei que disse que não queria que você fosse para a Califórnia antes, mas estou falando sério. Acho que não consigo aguentar isso sozinha.
– Não estou indo a lugar nenhum – ele sentou-se com ela, tomando a mão dela na sua e apertando-a de leve.
– Eles estão dizendo que vão emitir certidões de óbito em breve, se os corpos não forem encontrados.
Tentei ligar para os nossos advogados, mas
eles não atendem. Eu não sei o que fazer.
– Vamos dar um jeito. Tento ligar pra eles amanhã – ele coçou a cabeça, os olhos voltando-se para o armário de bebidas. A garrafa de whisky chamava-o como o canto de uma sereia. Ele tentou ignorar o desejo; não queria incentivar a mãe a começar a beber de novo. Não quando ela estava
sóbria pela primeira vez em quatro dias.
Ainda apertando a mão dela, ele perguntou:
– Daniel já veio?
– Consuela o levou para almoçar, e disse que ele estava mais calmo, mas ainda não quer falar com ninguém. 
– Vou procurá-lo daqui a pouco. Ele não devia ficar sozinho.
– Ele me disse que não quer a herança, que não quer nada de Leon – a voz dela falhou quando disse o nome do marido morto.
– Ele está de luto pelo pai. Não sabe o que está dizendo – Joseph fechou os olhos por um instante, tentando imaginar como se sentiria se Steven tivesse morrido no ataque. A ideia abriu um buraco em seu coração. Só Deus sabia o que Daniel estava sentindo.
– Ele vai ser dono da maior parte da Maxwell Enterprises, então muitas pessoas vão depender dele. Eu sei que ele vai desmoronar – Caroline tomou o rosto do filho nas mãos, puxando-o para perto até poder encará-lo nos olhos. – Você sabe que Leon deixou uma parte da empresa para nós
também. Você precisa ir até lá e proteger nossos interesses. Leon gostaria que você estivesse no comando, pelo menos até Daniel estar pronto.
– Eu já falei com o diretor financeiro; decidimos alugar uns escritórios em outra parte da cidade por enquanto. Vamos nos encontrar amanhã para
discutir os arranjos temporários – ele não disse que havia falado com seu amigo e pedido demissão de uma empresa que eles ainda nem tinham montado. O detalhe não parecia importante num momento como aquele. 

***
 Cedo na manhã seguinte, antes de sair para se encontrar com o conselho diretor da Maxwell Enterprises, Joseph se sentou no escritório forrado de madeira do padrasto falecido e usou o computador de última geração para ler seus e-mails. Era a primeira vez que fazia isso desde 10 de setembro, e ficou surpreso ao ver tantas mensagens não lidas lá. Passando os olhos pela lista de remetentes, viu que a maioria era de amigos, possivelmente preocupados com a segurança dele e querendo se certificar de que ele estava bem.

Perto do pé da página, ele leu as palavras “Demi Lovato”. Só ver o nome dela lá fez algo surgir dentro dele, como se uma pequena lâmpada estivesse sendo acesa na caldeira da sua alma.

De: HMLovato@yahoo.co.uk
Para: RSJonas@aol.com
Assunto:Você
Joseph,
Odeio ter que te escrever esse e-mail. Odeio que não possa estar aí pra te apoiar, e que nem consiga falar com você por telefone. Tudo sobre essa situação é horrível e estou ficando louca tentando imaginar como você deve estar se sentindo agora.
Passei o 11 de setembro com sua família e fiquei admirada não só pelo amor e preocupação ferventes que eles têm por você, mas também pelo apoio que me deram no momento mais difícil das nossas vidas. Eles te adoram, e o alívio que sentimos ao saber que você e meu pai estavam a salvo é indescritível.
Mesmo assim, ficamos profundamente tristes assim que soubemos que seu padrasto tinha morrido na tragédia. Sinto muito, mais do que você imagina. Se precisar de um amigo para conversar, ou um ombro para chorar, estou aqui, dia e noite. É só ligar.
Você sabe disso, né?
Amo você, meu amigo. Queria estar aí para te abraçar agora, e assim que nos encontrarmos outra vez, tenha certeza de que o apertarei forte com meus braços magros. Ficarei extremamente feliz de ver sua cara feia.
Não se preocupe em responder. Tenho certeza que tem centenas de e-mails como esse de suas admiradoras.
Demi
bjs

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De: RSJonas@aol.com
Para: HMLovato@yahoo.co.uk
Assunto:Você
Demi,
Obrigado por suas palavras. Num momento como esse, o que eu mais quero é um pouco de humor. Tem tanta coisa acontecendo aqui, agora, não só em Nova York, mas na minha vida também, e saber que a normalidade ainda existe no resto do mundo é reconfortante.
Meu pai me disse o quanto você fez naquele dia, o modo como cuidou de Ruby e apoiou Nathan, apesar dos seus próprios medos. Então posso dizer categoricamente que, quando me abraçar, estarei te apertando com ainda mais força de volta. Posso sugerir que pratique suas técnicas de respiração até lá?
Tenho uma reunião agora, mas tentarei escrever mais em breve.
Amor,
Joseph

Uma hora depois, Joseph chegou à sala de conferências improvisada na cobertura do prédio recém-alugado para a Maxwell Industry. Os membros remanescentes do conselho diretor estavam de pé, em grupos, falando depressa, os olhos arregalados enquanto contavam histórias sobre o dia em que suas vidas tinham mudado irrevogavelmente. A maioria deles não estava no escritório no dia do acidente, mas o choque de quase terem sido pegos estava marcado em seus rostos enquanto conversavam, os olhos caindo sobre Joseph assim que ele entrou na sala. Eles o mediam como um possível substituto para Leon Maxwell.
Respirando fundo, Joseph endireitou os ombros e foi até a cabeceira da mesa de conferências, dando passos lentos e calculados. Puxou a cadeira, deliberadamente arrastando-a pelo chão e fazendo todos os olhos se voltarem para ele.
– Senhoras e senhores, sugiro que comecemos. Temos um negócio para gerir – enquanto todos se sentavam, Joseph permaneceu de pé, movendo os olhos pela sala.
Ele encarou cada membro do conselho. Alguns pareciam céticos, outros esperançosos. Os mais espertos entre eles mantinham uma expressão neutra enquanto retornavam o olhar, de modo que ele não pudesse ler seus rostos.
– Como todos vocês sabem, Leon Maxwell, dono dessa empresa, está desaparecido, presumivelmente morto. Na ausência dele, estou aqui representando os novos donos, meu meio-irmão, minha mãe e eu mesmo.
Posso ver que alguns entre vocês não estão convencidos de que eu possa substituí-lo e virar a sorte dessa empresa. A esses, eu digo: ou você está comigo, ou está contra mim. Se não quer trabalhar aqui, ficarei feliz em aceitar seu pedido de demissão agora mesmo.
Joseph parou, correndo os olhos pela mesa para ver se algum deles aceitaria a oferta.
Todos permaneceram em silêncio.
– Fico contente por termos acertado isso. Como meu padrasto, espero que trabalhem duro e exigirei lealdade de vocês. Nosso negócio sofreu grandes danos na semana passada, assim como os Estados Unidos. Mas o espírito de companheirismo e determinação que vi nas ruas tem sido absolutamente incrível. Se pudermos canalizar a mesma coragem nessa empresa, acredito com sinceridade que poderemos reconstruí-la, tijolo por tijolo, e torná-la uma companhia de que Leon Maxwell teria bons motivos para se orgulhar.
Joseph notou algumas cabeças assentindo às suas palavras. Ele permaneceu estoico, sem se permitir um suspiro ou mesmo um instante de emoção enquanto falava com eles. Não queria demonstrar qualquer fraqueza.
– Agora, quero que vão e motivem seus subordinados. Marcarei encontros individuais com cada um de vocês, e faremos planos para o futuro. Estou ansioso para trabalharmos juntos.
Depois de agradecê-los pela atenção, Joseph finalmente se permitiu sentar, tentando esconder o tremor de suas pernas. Todos começaram a aplaudir, e se levantaram numa ovação genuína.
A primeira pessoa a abordá-lo foi Joe Garfield, o diretor financeiro.
Amigo próximo de Leon, seu rosto estava marcado pelo luto enquanto apertava a mão de Joseph, sussurrando as condolências usuais e encarando-o de frente.
– Obrigado, senhor – Joseph respondeu, perguntando-se como, em uma questão de dias, ele havia se transformado em um homem que estava sob a mira de todos, alguém que deveria saber como conduzir um negócio multibilionário.
Joe deve ter notado o nervosismo de Joseph, ou talvez o tremor em sua mão enquanto a apertava. De qualquer modo, o homem ficou com pena dele.
– Se qualquer um desses filhos da puta criar problemas pra você, me procure. Te darei toda a ajuda que puder.
– Agradeço o apoio, senhor. Obrigado.
Olhando a folha de papel à sua frente, Joseph viu que sua assistente temporária tinha marcado reuniões individuais com os membros do
conselho. Todo o seu dia estava ocupado até as oito da noite. Estava claro que sua vida não era mais sua.
Se ele falhasse, estaria decepcionando dezenas de pessoas, funcionários, clientes e acionistas, que estavam confiando nele para tornar a empresa um sucesso.
Falhar não era uma opção.


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Bom.. Ta ai mais um!!
Comentem pra me deixar feliz gnt! :D