19/09/2015

Sempre Foi Você - Capítulo 3


19 de julho de 2000 


 Demi puxou o colete fino. O material ficou grudado em sua pele por um momento antes de se soltar, permitindo que o ar fresco circulasse por sua pele úmida. Mesmo para julho, o tempo estava quente além do normal; as roupas góticas pesadas que ela tinha posto na mala continuavam dobradas com cuidado e esquecidas, como uma tia solteira numa despedida de solteiro. 

 Ruby Jonas estava deitada numa rede ao seu lado. Elas estavam lendo Harry Potter e o cálice de fogo em voz alta uma para a outra. Tinham comprado o livro numa pequena livraria na cidade no dia anterior. 

 – Você acha que Hermione gostaria de mim se a gente se conhecesse? – Ruby perguntou, passando o livro para Demi. 
 – Como não gostaria? Ela adoraria você. Você é inteligente, engraçada, e acabaria com os meninos na aula de Poções.

 Elas estavam no chalé de campo dos Jonas no oeste da Inglaterra havia uma semana. Claire Jonas tinha pedido a Demi que aceitasse o emprego de companheira de Ruby durante o verão, enquanto ela viajava aos Estados Unidos para cuidar da mãe doente. Demi havia concordado de imediato. Era melhor do que trabalhar num supermercado. 

 – Às vezes eu queria ir pra Hogwarts. As pessoas parecem tão mais gentis que na St. Nicholas – Ruby disse, brincando com as lantejoulas prateadas da sua camiseta. 

– Tem gente má em todo lugar, Ruby. Pense em como Draco Malfoy era um imbecil com Harry – Demi respondeu, melancólica. – Enfim, você está de férias da escola. Não devíamos pensar sobre aulas, uniformes ou lição de casa. Era pra estarmos nos di-ver-tin-do. 

 – Você não tem que pensar em escola nunca mais – Ruby reclamou. – Tem tanta sorte. 

 Demi deixou a cabeça cair na rede, lembrando-se do último dia de escola. Depois de uma longa primavera de provas, trabalhos e pesadelos sobre as leituras obrigatórias, era um alívio poder finalmente respirar sem se perguntar como arranjaria tempo para sua próxima monografia. Ela vinha sendo a babá de Ruby desde que elas se conheceram no ano novo. 

 Não parecia trabalho – embora ela sempre ficasse grata pelo dinheiro – porque as duas sempre conseguiam se divertir. Demi gostava de passar o tempo com Claire e Steven também; apenas oito meses depois daquele primeiro encontro, era como se os Jonas fossem sua segunda família. 

 – A época da escola era pra ser “os melhores dias da sua vida”. 

 – Acho que nós duas sabemos que isso é uma mentira – Ruby disse, chutando a rede de Demi e fazendo-a balançar selvagemente. 

 A distância, elas ouviram as portas francesas baterem. Demi ergueu os olhos e viu um jovem loiro e alto vindo na direção delas. Cobrindo os olhos com a mão, ela pôde ver que era Tom McLean, acenando com um pedaço de papel em sua mão grande e bronzeada.

– Oi, Tom – Ruby gritou, caindo da rede e correndo para bater na palma que ele levantara. Ele era neto de Mary, a faxineira deles. Estava sempre no chalé fazendo pequenos trabalhos. Demi suspeitava que Ruby tinha uma quedinha pelo adolescente loiro.

 – Oi, Rubizinha. Como vai? – ele piscou para a garota e então ergueu os olhos para Demi, os lábios se abrindo num sorriso lento e preguiçoso. 

 – Você parece um pouco confortável demais agora. 

Com isso, ele estendeu a mão e agarrou o braço de Demi, pegando-a facilmente enquanto ela escorregava da rede. O livro caiu no chão. 

 – Tom! – ela gritou, irritada. – Me solte! E se estragou meu livro, vai pagar com a vida! – ela bateu no braço dele, fazendo um som bastante audível. 

 – Ei! Cuidado com o braço da guitarra. Ainda não pus no seguro – ele a olhou com uma expressão de falsa indignação. – Só vim convidar as moças mais bonitas da cidade para o nosso show hoje à noite. Demi pegou o panfleto da mão dele.

 – É num pub, Tom. Não posso levar Ruby a um pub. Os pais dela me matariam. 

 No mesmo instante, Ruby exclamou: 

 – Podemos ir? Por favor? Nunca vi uma banda ao vivo! – Várias crianças estarão lá. Pelo menos cinco dos meus sobrinhos e sobrinhas vão. Vamos, até te pago uma Coca – Tom fez sua melhor expressão de cachorrinho carente. 

 – Com uma oferta dessas, como podemos recusar? – Demi disse secamente, e uma expressão de alegria apareceu no rosto de Ruby. Pelo menos ela conseguiria deixar alguém feliz. 

 *** 

 O pub lotado ecoava ao som de acordes destoantes e vocais profundos. No palco, Tom olhou na direção delas e sorriu diretamente para Demi. Ela se viu mordendo o lábio num esforço para não sorrir de volta. Não tinha certeza de como se sentia com a atenção que ele estava dando a ela. Desde o momento em que se conheceram, Tom flertava com ela abertamente. Disse como adorava o estilo dela. 
Demi revirou os olhos. 

Quando ele a convidou para beber alguma coisa, ela usou Ruby como desculpa para recusar a oferta. Agora, cercado por groupies locais e alguns caçadores de talentos de gravadoras, parecia que ele só tinha olhos para ela. 

 – Quer outra Coca? – Demi perguntou. 

 – Sim, por favor. Pode me trazer um canudinho também? – o sotaque americano de Ruby soava estranhamente deslocado num pub inglês do interior. 

 – É claro, princesa – Demi fez uma cortesia, dirigiu-se ao bar e fez o pedido. 

Quando voltou, a banda estava tocando um cover de “Yellow”, do Coldplay. Tom começou a tocar os acordes suaves da introdução na sua guitarra, inclinando-se para o microfone, com seus brilhantes olhos azuis firmes nos de Demi. Sua voz era profunda e rouca, perfeita para a música. Ela viu seu cabelo cor de areia cair sobre seus olhos, e seus lábios se curvarem num sorriso. 

 Algumas cabeças na plateia se viraram para seguir o olhar intenso dele; alguns ficaram surpresos quando o viram observando uma garota baixa no canto com sua jovem amiga. Ruby, sem notar o olhar óbvio dele, continuou tomando sua Coca. 

 – Essa é nossa última música. Gostaria de dedicá-la a uma garota linda com o sorriso perfeito. Essa é pra Demi. 

 Ela sentiu o rosto ficar quente quando o sangue subiu para suas bochechas. Tom deu um sorriso rápido e então piscou quando a viu corar. 

 – Você e Ruby sempre frequentam pubs? – a atenção de Demi foi atraída pela voz profunda à sua esquerda. 

Cuspindo sua sidra com a surpresa, ela ergueu os olhos com horror enquanto Joseph Jonas vinha em sua direção. 

 – Joseph! – Ruby pulou do banco, quase derrubando o resto da Coca em sua pressa de abraçá-lo. Enquanto abraçava a irmã com força, os olhos dele encontraram os de Demi. Ela se ergueu, pondo as mãos nos quadris, e o observou pela primeira vez desde o ano-novo. 

Ele estava elegante em uma calça preta feita sob medida, as mangas da sua camisa azul-pálido enroladas até os cotovelos. Ela tentou não olhar muito de perto seus antebraços musculosos; a pele se estendia sobre tendões tesos, coberta por uma camada de pelos escuros. Ele parecia deslocado no pub, em meio aos jeans, bermudas e camisetas de banda. Como um Renoir pendurado em uma parede de grafites obscenos.

 – Não encontrei vocês no chalé, então liguei pra Mary McLean. Ela me disse que seu neto tinha convidado você pra um encontro – Joseph torceu o nariz quando terminou a frase. 

 – Não sabia que você estava vindo para a Inglaterra – ela decidiu ignorar o comentário sobre o encontro.

 – Estou na Europa há alguns dias. Estou trabalhando pro meu padrasto durante o verão. Ele tem uns negócios em Paris – Joseph sorriu pela primeira vez. 

Seu sorriso torto a lembrou de como havia gostado dele no ano-novo. 

 – Devia ter ligado pra gente. E se não estivéssemos aqui?

 – São só duas horas de trem, Demi. 

 O modo como ele disse seu nome a fez sentir-se aquecida por dentro. Ela olhou para o palco no canto do pub, percebendo que Tom olhava para eles com a testa franzida de curiosidade. 

 – Trouxe um presente pra mim? – Ruby estava pulando pra cima e pra baixo de animação. Seu entusiasmo fez Demi sorrir. 

 – Pelo menos ela não é materialista – Joseph sussurrou para ela, sarcástico. – Odiaria pensar que só me ama pelo meu dinheiro. 

 Ruby sorriu e agarrou-se à camisa do irmão com seus dedos melados.

 – Sabe que amo você. Então, o que trouxe pra mim? 

 – Te mostro quando voltarmos pro chalé, maninha – ele respondeu, voltando-se para Demi. – Está pronta pra ir? 

 – Vou avisar ao Tom que estamos indo – ignorando as sobrancelhas franzidas de Joseph, Demi o deixou com a irmã e foi até Tom, pronta para se despedir. 
O rosto dele se iluminou com um sorriso. 

 – O que achou? – ele a puxou para perto, colocando a mão na sua cintura com um gesto de posse. A familiaridade a desconcertou, especialmente porque podia sentir um par de olhos estreitados observando cada um de seus movimentos. 

– Você estava ótimo! Ruby e eu amamos as músicas – ela disse, afastando-se. – Mas temos que ir pra casa agora. 

 – Tão cedo? Quem é aquele cara? 

 – O irmão de Ruby. 

 – Ah – o sorriso de Tom se desfez. 

 – Ele veio ver Ruby – ela disse depressa. 

O sorriso de Tom retornou quase instantaneamente. 

 – Quer dizer que tem uma babá disponível agora? 

 – Eu sou a babá, lembra? – Demi respondeu, seca. 

 – Que pena. Acho que vou ter que acampar embaixo da sua janela e fazer serenatas de amor – ele piscou para ela. 

 – Fique à vontade, eu uso protetores de ouvido. Mas tenho certeza de que os gatos vão gostar. 

 – Está pronta, Demi? – Joseph e Ruby juntaram-se a eles. 
Demi podia sentir o calor subir ao seu rosto outra vez.

 – Joseph, este é Tom McLean. Ele é da banda – e ela era ridícula. 

Meu Deus, podia soar mais idiota? 

 – É um prazer conhecê-lo – Joseph apertou a mão de Tom com firmeza. Para dois caras de idade próxima, suas diferenças não podiam ser mais gritantes. Ao lado do cantor desalinhado de cabelo desgrenhado, Joseph parecia mais velho e muito mais sofisticado. 
Areia demais pro caminhãozinho dela. 

 – Podemos ir? – Ruby puxou a manga dela, desesperada para chegar em casa e abrir o presente prometido. 
– Ok, estamos indo – Demi tentou esconder uma risada do desespero da garota, mas não conseguiu. 

 Tom inclinou-se para beijar sua bochecha bem na hora em que Demi virou a cabeça para ele. Ainda estava no meio da risada, e sua boca aberta encontrou a dele. Ela o sentiu inspirar rispidamente com o toque. O sangue subiu à boca dela, e ela sentiu a boca dele começar a se mover lentamente contra a dela, a ponta da sua língua deixando uma linha úmida ao longo dos lábios dela. 

 Ela se afastou com rapidez, o rosto aquecendo de humilhação quando viu Joseph erguer uma sobrancelha para ela, seus lábios estreitando-se numa linha fina e reta. A noite ficava cada vez melhor. 

 *** 

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Hey.. voltei ... com 2 capitulos pra vocês !!!
espero que gostem! bjss

Um comentário:

Sem comentários ........... sem capítulos!