08/04/2015

Sempre Foi Você - Capítulo 1





Demi



31 de dezembro de 1999

A mala já deveria ter aparecido. Ela olhou a esteira de bagagem passar por ela, carregando malas de todos os tipos. Talvez sua surrada mala marrom estivesse com vergonha de ser vista entre as Louis Vuitton e Henk.

Demi conhecia a sensação.

Ela estava roendo as unhas de novo. Elas já estavam comidas, e o esmalte preto que tinha passado apenas dois dias atrás já estava descascando. Sua madrasta não conseguia entender por que ela não optava por uma francesinha “muito mais elegante”, e por que ela não ia regularmente ao salão. Por fim, vendo sua mala descer pela esteira, Demi tentou passar por uma cansada mãe de dois filhos à sua frente. A mulher segurava uma criança pequena em um braço, a outra estava movendo um carrinho ritmicamente para a frente e para trás, como se ninasse um bebê.

– Com licença – murmurou Demi, inclinando-se para apanhar a alça da mala. 

Ela endireitou o corpo enquanto a puxava até o chão cinza de ladrilhos. Estava pesada, cheia de equipamentos de esqui e casacos de inverno. Ela mal tivera tempo de usá-los.

Demi não devia estar viajando hoje. Ela devia estar no chalé de seu pai em Val D’Isere, junto com a madrasta e as meias-irmãs de onze anos. Mas o pai estava decepcionado com ela desde o início. A primeira vez que a olhara bem, tinha torcido o nariz de desgosto.

– Você fez alguma coisa diferente com o cabelo? – o olhar dele estava cheio de decepção raivosa.

Demi tentara disfarçar um sorriso em resposta ao eufemismo da frase dele. Desde a última vez que o vira ela tinha se tornado gótica. Tingiu o cabelo de um ruivo escuro e mudou a maquiagem. Agora tinha a pele pálida e os lábios escuros. Completava o visual com uma saia preta esvoaçante e um espartilho preto apertado.

A lembrança da expressão furiosa de Philip enquanto examinava seu novo estilo fez os lábios de Demi se curvarem em regozijo. Ela ergueu a mala para um carrinho de bagagem, e o peso deixou seus movimentos desajeitados.

Philip estivera quase apoplético com seu novo estilo, e Olivia tinha
decretado que Demi deveria ficar dentro do chalé o tempo todo, temendo que um dos amigos deles pudessem vê-la. Demi deveria ser o segredinho deles durante a semana. Mas depois de dois dias lendo e se empanturrando de chocolate, ela estava entediada.

Ela descobrira que Philip, Olivia e suas irmãs estavam planejando passar o ano-novo na casa de campo de um amigo, a cerca de oitenta quilômetros de Val D’Isere – e ela não estava convidada. Uma briga enorme se seguiu, o que resultou no banimento de Demi do chalé e a colocou no próximo voo para Londres (um gasto considerável para Philip).

Ela jurou para si mesma que, agora que tinha quase dezoito anos, nunca mais se submeteria à tortura de outro feriado alpino. Se seu pai queria passar tempo com a filha mais velha – e, na mente de Demi, isso não era uma certeza –, então teria que ir a Londres para vê-la.

Demi e a mãe eram “pobres de Londres”. Em qualquer outra parte do país teriam vivido confortavelmente, numa casa de tamanho razoável com jardim e garagem. Mas a renda de Diana com planejamento de festas lhes permitia pagar apenas um flat apertado de dois quartos perto de Putney. Desde o momento em que fugira do casamento com Philip Vincent e da sociedade de Manhattan, Diana recusara todo o dinheiro vindo dele. Não se importava que ele comprasse coisas para Demi, mas não aceitava um único centavo para si mesma.

Quando Demi chegou em casa no fim da tarde, estava escuro lá fora. A rua estava iluminada pelo suave brilho laranja dos postes, ladeada por casas vitorianas com varandas de tijolos vermelhos e ornamentadas, com acabamento descascando e paredes decrépitas. Demi amava a fachada requintada daquelas varandas antigamente grandiosas, com seus pórticos brancos e caminhos de azulejos pretos e brancos – elas faziam um contraste nítido com o barulho e a modernidade da vida londrina.

Ela vasculhou a bolsa em busca das chaves, sabendo que Diana estivera fora o dia todo, organizando a festa anual dos Jonas. Embora Demi nunca os tivesse conhecido, sabia que eles estavam entre os melhores clientes de sua mãe. O réveillon era sempre a noite mais atarefada do ano. E o fato de ser a entrada do ano dois mil só deixava as coisas piores.

Demi não estava no flat nem dois minutos quando o telefone começou a tocar. Uma olhada para o visor mostrou que já havia três mensagens na secretária eletrônica. Alguém obviamente estava com pressa para falar com ela ou Diana. Ela sinceramente esperava que não fosse o pai.

– Alô?
– Demi? Graças a Deus você está em casa! Está tudo bem? O voo foi bom? – Diana quase não parou para tomar fôlego. – Querida, três das meninas pegaram aquele vírus de inverno e estão vomitando. Preciso que você coloque um uniforme e venha me ajudar. A festa vai ser um desastre! – ela abaixou a voz para a última frase, e Demi se perguntou quem mais estava no cômodo com ela.

– Certo, me dê o endereço – Demi apoiou o telefone entre a orelha e o ombro enquanto pegava um pedaço de papel.

– Cheyne Walk, número cinco. Em Chelsea. Pegue um táxi e eu pago depois. Ah, e Demi… – a voz de Diana baixou mais uma oitava. – … você pode maneirar no visual? – Demi recitou, sabendo exatamente o que a mãe ia dizer.

Depois de tomar um banho, remover o esmalte e suavizar a maquiagem, Demi conseguiu encontrar um táxi livre. Seu cabelo ruivo-escuro estava preso num coque apertado, e os cosméticos em seu rosto eram suaves e mal perceptíveis. Ela estava usando um uniforme típico de garçonete: saia preta curta com uma camisa branca simples.

Quando chegou à casa, bateu a aldrava pesada de bronze na elegante porta preta algumas vezes. Um homem de uniforme abriu. Ela não o reconheceu, então não podia ser um dos empregados de Diana. Os Jonas eram ricos o bastante para manter empregados em tempo integral.

Quando entrou, o esplendor a fez perder o fôlego. O saguão se abria para os três andares da casa, com uma escada de mármore subindo numa curva para o segundo andar. Bem no meio do chão ornado de azulejos estava a maior árvore de Natal que ela já vira. Luzes brancas discretas brilhavam até a estrela no topo. Devia ter pelo menos seis metros.

– Viu algo que gostou? – a voz arrastada, com sotaque americano, era muito irritante. 

Ela virou a cabeça e viu um jovem ao pé da escada. Sua calça jeans larga e escura pendia quase obscenamente de seus quadris estreitos. Ele usava uma camiseta preta apertada, em que se podia ler Columbia em letras azuis.

O rosto dele… Deus, o rosto dele! O maxilar era largo, os lábios carnudos, o nariz reto e os olhos verdes-musgo. A testa lisa era emoldurada por cabelos castanho-claros cuidadosamente penteados. Ele se parecia com todos os engomadinhos de Manhattan que ela já tivera o azar de conhecer.

Ela inspirou rapidamente, olhando o garoto-Columbia direto nos olhos.

– Não muito. Só estava me perguntando se Charlie Brown estava
sentindo falta de sua árvore de Natal.

Demi virou-se e foi até a cozinha, mal ouvindo a risada dele enquanto se afastava. Ela mordeu o sorriso que estava ameaçando escapar dos seus lábios.

A noite tinha acabado de ficar interessante.

Sua mãe estava no meio da cozinha, com uma colher em uma mão e um walkie-talkie na outra. Aquela não era uma típica cozinha requintada de carvalho e granito. Essa era toda de aço inoxidável com fornos profissionais; o tipo de cozinha que qualquer chef mataria para ter. Era difícil imaginar alguém usando o fogão de dez bocas só para cozinhar um ovo.

– Demi, querida, é tão bom ver você – Diana contornou a ilha central e jogou os braços ao redor da filha. 

Ela relaxou no abraço da mãe, apertando os olhos enquanto sentia a infelicidade e o estresse dos últimos dias evaporar. 

Ela sentira falta da mãe.

– É bom ver você também.
– Estou tentada a ligar pro seu pai e dizer o que penso dele. Não acredito que ele tratou você desse jeito, aquele imbecil arrogante, filho da…
– Mãe, não tem problema – Demi abriu um sorriso encabulado para ela.
– Acho que o discurso que fiz provavelmente foi o bastante para nós duas. Só quero esquecer isso agora.

– Diana, querida, precisa de ajuda com alguma coisa? – uma voz suave veio da porta da cozinha. 

Demi virou-se e viu uma mulher baixinha sorrindo para elas. Seu rosto em formato de coração era emoldurado por delicados cachos castanhos.

– Acho que temos tudo sob controle – Diana respondeu. Demi podia ver os dedos dela cruzados atrás das costas enquanto falava. – Claire Jonas, gostaria de apresentar minha filha, Demi Lovato.

Claire deu um passo à frente, com os braços abertos enquanto
cumprimentava Demi, puxando-a para um beijo no rosto.

– Demi, é um prazer conhecê-la. Ouvi tanto sobre você. E, claro, também conheço seu pai e a mulher dele.

Demi fez uma careta com a menção de Philip e Olivia antes de
rapidamente controlar a expressão.

– É um prazer conhecê-la.

Ela sorriu para a mulher à sua frente. Era pelo menos dez centímetros mais baixa, mesmo usando caros sapatos de salto.

– Que sotaque bonito você tem! E adorei seu cabelo. A cor é tão
interessante.

Normalmente, quando alguém dizia que algo em Demi era
“interessante”, era um insulto disfarçado. Olivia parecia usar bastante essa palavra sempre que Demi estava por perto. Mas o tom de voz de Claire  levava Demi a acreditar que estava sendo sincera.

– Obrigada.
– E preciso apresentá-la à minha família depois. Meu marido, Steven, vai achar você fascinante. Acho que ele é um fã enrustido de Marilyn Manson. E Ruby e Joseph simplesmente vão adorar você.

Claire não parava de elogiá-la. Demi afastou-se da sua anfitriã
americana. Não estava acostumada a ser tratada com tanta gentileza.

– Joseph e Ruby? – perguntou.

– Ruby é minha filha. Tem dez anos e estuda na St. Nicholas.
Demi assentiu. 

Fazia sentido: a St. Nicholas era uma escola cara de Londres. Ela suspeitava que Ruby Jonas seria tão mimada e irritante quanto suas meias-irmãs.

– E Joseph é o filho do meu marido, do seu primeiro casamento. Está no último ano na Columbia. Vou sentir falta quando ele voltar para Nova York – o sorriso de Claire vacilou enquanto ela continuava. – Meu filho, Nathan, está em algum lugar dos Andes tentando “se encontrar”.

– Que descuidado da parte dele se perder num lugar tão remoto – Demi respondeu, fazendo Claire rir.

– Tão parecida com sua mãe – Claire pôs as mãos nas bochechas de
Demi num gesto surpreendentemente íntimo antes de se afastar. – Não se esqueça de falar comigo hoje à noite. Vai ser uma pausa bem-vinda de todas aquelas camisas engomadas.

– Trago um enroladinho de salsicha pra você – Demi piscou para Claire, e então se virou para a mãe perguntando o que precisava ser feito.

Entre a mãe amigável, o filho bonito e engomadinho e o pai amante de Marilyn Manson, Demi pensou que poderia gostar daquela família.


2 comentários:

  1. Que lindoooo ❤️❤️❤️ Adorei bebe
    Estou vendo que vai ser um arraso
    Posta logoooo viu
    Beijos ❤️

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Sem comentários ........... sem capítulos!