23/12/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 21






— Amei sua família.

Eles estavam deitados em silêncio, apreciando o crepúsculo do amor que haviam feito, enquanto Demetria desenhava, sem rumo, nos pelos do peito de Joseph. O apito ocasional e distante de um navio e a carícia de galhos antigos no telhado eram ainda mais tranquilizadores.
Mas ela gostara tanto daquela noite que não podia deixar de falar.

— Não se sentiu deslocada? — perguntou Joseph.
— Talvez um pouco, mas de uma forma agradável. Joseph.. se não se importa de eu perguntar... Como Dylan perdeu o braço?
— Um carro o atropelou na bicicleta quando ele tinha 12 anos. Seu braço direito ficou preso sob o pneu, e os principais nervos foram atingidos. Dylan perdeu todos os movimentos do membro. Ainda tem o braço, mas não consegue usá-lo.
— Então Rhian o conheceu após o acidente.

Joseph se esticou e a fitou com um misto de estranheza e preocupação.

— Dylan não deixou de ser humano por ter perdido o movimento do braço. Na verdade, isso só o tornou ainda mais homem. Ele ainda joga bola com os filhos, faz o jantar deles, corre atrás das crianças no quintal... E é um gênio na contabilidade da empresa. Nenhum de nós nem sequer pensa mais em seu braço. — Ele tornou a relaxar sobre os travesseiros. — Dylan e Rhian vão ficar juntos para sempre.

Demetria sorriu. Acreditava nele.

— Sua mãe foi tão receptiva comigo... E seu pai é muito engraçado.
— Eles combinam muito bem, aqueles dois. Pelo menos é assim que eu penso.
— E quem não pensa da mesma forma?
— Eles andam discutindo a respeito.
— Como assim?
— Estão pensando em se separar.
— O quê? Não acredito.
— Isso já vinha se configurando há alguns anos. Meu pai sempre passou muito tempo no escritório ou viajando a negócios. A última gota foi quando minha mãe reservou um cruzeiro no Mediterrâneo apenas para os dois e, no último minuto, meu pai disse que não poderia fazê-lo. Ela acabou indo sozinha e, quando voltou, falou em separação. Meu pai não pensou que ela estivesse falando sério, até que mamãe se mudou para nosso apartamento na cidade. Desde então, ela tem aparecido nas colunas sociais sempre sozinha.
— Acha que é tarde demais para uma reconciliação?
— Só sei que essa era uma tragédia anunciada.
— Vida pessoal e negócios não se misturam?
— Não quando há crianças envolvidas e o ônus de criá-las sobra apenas para um dos pais. Não quando se está falando da administração de bilhões de dólares. —  Joseph a abraçou, depois a colocou sobre ele. — Mas isso não se aplica a você nem a mim. Ambos temos nossas carreiras e nenhum de nós tem filhos.

Fez-se um momento embaraçoso, em que os dois se lembraram de Bonnie, porém ele prosseguiu:

— Quero vê-la outra vez.

Demetria sentiu um misto de emoções vibrar dentro dela. Tinha gostado daquela noite. E mais ainda de ter compartilhando a cama de Joseph outra vez.
Mas, infelizmente, aquilo não mudava as coisas.

Ela umedeceu os lábios e respirou fundo.

— Joseph, não posso mais vê-lo depois desta noite.

O peito largo parou de se mover por um instante.

— Quer que eu prove o quanto significa para mim? — Ele esfregou a ponta do nariz no dela. — Já me disseram que sou ótimo para escolher presentes...
— Sabe que não é isso.
— Então gostou do globo?
— É claro que gostei. Eu quis lhe dizer isso diversas vezes, esta noite, mas nunca ficávamos sozinhos. Joseph, não estou aqui por conta de um presente. Vim porque precisava vê-lo outra vez.

Ele afundou o rosto no pescoço macio.

— E eu precisava ver você.

Demetria sentiu lágrimas assomando aos olhos ao pensar que talvez não estivesse pronta para aquela conversa.

Mas, pronta ou não, precisava seguir adiante.

— Nunca vou me esquecer dos dias que passamos na cabana. Eles me mudaram, Joseph. Mudaram a forma como eu via o mundo, meu futuro.

Ele a fez rolar com ele.

— Isso está ficando sério demais.

Quando ele se inclinou sobre ela, contudo, por mais difícil que fosse, Demetria se afastou e se pôs sentada.

Joseph coçou o rosto e pensou por um momento.

— Está bem. Quer conversar, então vamos conversar.

Ela puxou a coberta até o pescoço e admitiu:

— Não quero me esconder de quem eu sou. Passei momentos difíceis quando criança, mas não vou permitir que isso me abata. Já me decidi. Um dia vou querer ter uma família minha.

— Uma família? — indagou ele, em voz baixa. — Por acaso isso é algum ultimato?
— Não! Nunca. Você faz o que quiser da vida. Embora eu me sinta obrigada a dizer: depois de vê-lo esta noite com a sua, creio que também esteja escondendo ao menos uma parte daquilo que realmente deseja.

Joseph bufou, descrente.

— Por que é tão difícil acreditar que um homem queira se comprometer apenas com a carreira?

Demetria arqueou uma sobrancelha.

— Dizem que as pessoas superestimam suas carreiras. Na verdade, eu mesma saí do meu emprego quando voltei do Colorado.

Joseph enrugou o abdômen bem-definido ao se sentar em um pulo.

— Mas você amava aquele trabalho!
— Verdade. Acontece que temos apenas uma vida, e decidi que quero trabalhar com crianças. Talvez como orientadora em abrigos ou...
— Está fazendo isso para entrar em contato com Bonnie de novo.

Demetria sentiu o sangue ferver.

— O nome dela é Belinda. E está errado. Estou fazendo isso porque é o certo para mim, embora espere que Bel e sua mãe descubram o que é bom para elas também

O olhar de Joseph capturou o dela.

— Não acredito que nunca queira sentir isto de novo.
— Queremos coisas diferentes da vida, Joseph. Quero mais. Eventualmente, até um casamento, uma família... Não é nenhum crime. Pergunte a seus irmãos e irmãs. — Demetria suspirou, porém não confiou em si mesma o suficiente para tocar e acalmar o vinco que ele trazia entre as sobrancelhas. — As coisas são assim e pronto.

À luz das velas, ela viu o brilho de determinação nos olhos escuros. Joseph não aceitava aquilo. De qualquer maneira, a decisão não era dele.

O que ela não tinha dito, e o que mais doía, era que naqueles últimos dias ela se dera conta do que agora lhe parecia inevitável após olhar para trás e analisar o tempo que eles passaram juntos. Ela havia se apaixonado. Enquanto ficara acordada durante a noite, pensando em tudo o que compartilharam naquele curto espaço de tempo, sua certeza só fizera aumentar: ela fora mais uma vítima de Joseph Jonas. Nunca sentira por outra pessoa o que sentia por ele. Se quisesse enganar a si mesma, poderia aceitar sua oferta para que continuassem aquele caso e torcer para ser aquela com quem Joseph acabaria no final; com quem ele teria uma família.

Mas não importava o quanto aquela noite houvesse sido convincente. A verdade era que Joseph também devia ter sido persuasivo com dezenas de outras mulheres antes dela.

— Vai passar a noite aqui — ele falou, por fim.
— Até o amanhecer. Não pretendo comer as panquecas de Nana com sua família e passar uma impressão errada.
— De que dormimos juntos?
— De que estamos levando isto a sério. Além do mais, não creio que um vestido de gala vermelho seja um traje adequado para um café da manhã.
— Tenho várias blusas no armário.
Ela balançou a cabeça. Estava prestes a dizer “não”, quando o celular sobre a mesa de cabeceira tocou.
— É melhor atender.

Ele soltou um suspiro.

No fim, não era ninguém da família de Joseph, nem relacionado a seu trabalho.

Na verdade, era a última pessoa na face da Terra que eles esperavam ouvir; muito menos àquela hora.


2 comentários:

  1. DIZ QUE É A MÃE DA BONNIE OU A ASSISTENTE SOCIAL. Pleaseeee . Preciso de maisss

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  2. Sacanagem vc para ae neh juh! Posta mais 1 hj vai

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Sem comentários ........... sem capítulos!