10/11/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 11






Doía ouvir o que, no fundo, ela já sabia. No que dizia respeito a ela e Joseph, eles tinham sido apenas um abrigo, para Bonnie e Cruiser, da tempestade que se abatera sobre o Colorado. Desejava que a criança e o cão logo pudessem contar com a companhia daqueles que os amavam, pois logo eles quatro estariam separados, sem nenhuma razão para se encontrarem novamente.

De volta à área principal, Joseph se acomodou na poltrona ao lado da dela, um braço equilibrado sobre o joelho dobrado.

Reclinada em seu próprio assento, e com ele descansando na cadeira vizinha, Demetria tratou de aceitar sua proximidade, e eles ficaram observando as chamas dançando, sonolentas, na lareira.
Com um suspiro, ela tentou deixar de lado todos os aspectos negativos da situação e se concentrar naquele momento de paz: ouvir um ou outro estalo na queda das cinzas, inalar o aroma de café fresco, ciente de que a neve caía mais suave lá fora...

Por tudo isso, Demetria não se encontrava nem um pouco preparada para a pergunta sombria que ouviu:

— Demetria, o que aconteceu com seus pais?

Uma onda gelada, que logo depois passou a queimá-la, inundou-lhe o estômago. Joseph a pegara de surpresa. Ela não falava sobre o passado. Havia custado muito deixá-lo para trás.

No entanto, eles nunca mais se encontrariam e, embora ele estivesse curioso no momento, ela podia apostar que ele iria esquecê-la, e também a sua história, bem antes do que ela própria.

Após pensar nos anos que passara em seu lar adotivo, por algum motivo Demetria sentiu uma estranha necessidade de desabafar.

— Eu gostaria de acreditar que minha mãe me amou. Mesmo que eu não tenha sido resultado de uma história de amor. Minha mãe adotiva me contou, quando eu ainda era muito pequena, que minha mãe foi estuprada.

Joseph se voltou na poltrona, praguejando baixinho.

— Por favor, diga que essa criatura não cuida mais de nenhuma criança!
— Mantenho contato com algumas pessoas com as quais fui criada, e elas me asseguraram que Nora já está aposentada há muito tempo.

Parte do desgosto no rosto moreno se desfez.

— Não tem mais ninguém da família?
— Não. Meus avós queriam que minha mãe me desse. Ela lutou para me manter, mas, uma noite, não muito tempo depois de eu ter nascido, fui levada embora. Até hoje não sei como trataram da parte legal. Acho que alguns papéis devem ter sido forjados. Pelo visto, meus avós imaginaram que minha mãe fosse superar minha perda, que, eventualmente, ela fosse retomar sua vida, ou melhor, a vida que eles haviam idealizado para ela. Porém, isso não aconteceu. Minha mãe saiu de casa e partiu na tentativa de me encontrar. — Demetria sempre sorria quando se lembrava daquela parte da história, porém nunca por muito tempo. — Sem dinheiro ou apoio, minha mãe acabou nas ruas. Soube disso tudo quando contratei um investigador particular há uns dois anos. Ele descobriu que minha mãe morreu um dia antes de seu vigésimo aniversário.

Joseph tinha o maxilar cerrado, porém seus olhos brilhavam o suficiente para que Demetria visse neles seu próprio reflexo.

— E quanto a seus avós?
— Ambos faleceram. Até onde o detetive pôde afirmar, eles nunca tentaram me encontrar. Minha mãe era filha única, portanto também não tenho tios nem tias.

Ele abaixou a cabeça e a balançou uma vez.

— Sinto muito. Posso entender agora por que tomou essa decisão.
— Que decisão?
— De não ter uma família sua. Não deve ser fácil lidar com tudo isso. Perdoar tudo isso.

O perdão era um conceito estranho, Demetria refletiu, com os olhos fixos no fogo. Ela já tinha ouvido dizer que uma pessoa precisava perdoar os erros alheios a fim de prosseguir com a própria vida, e ela fizera isso sem ter sentido a necessidade de perdoar coisa alguma. Podia conter as lágrimas. Podia planejar o futuro com bom senso. Por isso mesmo prometera a si mesma não ter seus próprios filhos e, desde então, nunca mudara de ideia. Nunca pensara de forma diferente.

Até se ver naquela situação.
Céus, cuidar de Bonnie era tão gratificante!...

Claro que ela não pretendia ficar grávida. Mas, pela primeira vez, conseguia entender por que, em tempos tão cheios de incerteza, as pessoas ainda assumiam o risco de trazer vidas indefesas e inocentes ao mundo. Por que as pessoas se arriscavam a se apaixonar.

Demetria estava dormindo havia cerca de uma hora quando Cruiser caminhou até onde Joseph se encontrava de pé, com as mãos enfiadas nos bolsos de trás da calça jeans, admirando a paisagem coberta de neve. O cão bateu o nariz contra a perna forte e soltou um latido quase inaudível, que Joseph interpretou no mesmo instante. Bonnie estava acordando.

Ele poderia incitar Cruiser a seguir até onde Demetria estava, toda enrolada na poltrona. Porém, já usara aquela carta naquela mesma manhã, quando a menina estivera molhada, e ele limpara a garganta na esperança de que Demetria acordasse e o livrasse da encrenca.

Obviamente, isso havia acontecido antes de ele ter ouvido o restante da história dela.

Bom Deus, que lição fora aquela! Ele sabia que sua própria vida fora abençoada de várias maneiras: possuía uma família enorme e tivera uma infância fantástica, ainda que seu pai não houvesse estado presente tanto quanto devia. Mas quando Demetria revelara que a mãe tinha sido vítima de estupro e depois sofrido tanta injustiça nas mãos dos próprios pais...

Ele fez uma careta.

Quem, em nome de Deus, poderia querer se livrar de uma pessoa de seu próprio sangue? Na cabeça dele, uma criança concebida por meio de tal violência merecia, mais do que qualquer outra, consideração, proteção... tudo!

Mais absurdo ainda era pensar que essa criança era a mulher que dormia em sua sala agora.
Suspirou. Não conseguia conceber como Demetria devia se sentir; como lidava com aquele passado, que devia assombrá-la todos os dias.

Verdade que todas as famílias, incluindo a dele, tinham lá seus percalços e fantasmas, tanto no presente quanto no passado. A sua, porém, preferia mantê-los mais à parte do que a maioria.

Joseph voltou ao presente quanto o focinho de Cruiser tornou a cutucá-lo. O bebê havia acordado! Era preciso que um capitão assumisse o leme.
Respirou fundo e balançou as mãos, nervoso. Poderia fazer aquilo. Droga, era o mínimo que podia fazer!

Pé ante pé, passou pela poltrona de Demetria. Sua respiração continuava cadenciada; a expressão, serena; os olhos, fechados. Ele fez menção de tocar os cabelos sedosos, mas não quis arriscar acordá-la.
Com outra cutucada do focinho, Cruiser abriu a porta do quarto. Joseph arregaçou as mangas e entrou.

A menina estava acordada, observando os próprios dedos se moverem nas sombras. Seu olhar vagou por um momento, encontrou o dele, e então ela chutou as perninhas sob a manta, como se dizendo “Olá” da única maneira que sabia.

Joseph se lembrou de como ela estivera encharcada naquela manhã... porém ele era um homem que comandava muita gente e nunca fugia de um desafio. Aquilo não poderia ser tão difícil.

Demetria acordou devagar, respirou fundo, depois notou que a iluminação na sala de estar de Joseph, onde ela havia adormecido, tinha mudado. Pelas sombras que se estendiam sobre o chão de madeira, já passava do meio-dia. Parecia mais o meio da tarde!

Bonnie ainda devia estar adormecida, pensou, enquanto se endireitava na poltrona reclinável, ou ela teria ouvido o alarme de Cruiser.
Desfrutando de uma boa espreguiçada e um bocejo, esfregou os olhos, porém parou ao ouvir um som grave nas proximidades.
Era a voz de Joseph.
Mas ouvia outro ruído... Risadinhas!

Em uma explosão de energia, Demetria se pôs de joelhos para espiar por sobre a parte de trás da poltrona.

E mal pôde acreditar nos próprios olhos. Apoiado nos antebraços, Joseph se encontrava deitado de bruços sobre um edredom no chão chacoalhando um brinquedo esquisito enquanto o bebê o fitava, apoiado em um monte de travesseiros, do outro lado. Demetria não fazia ideia do que era aquilo, nem de como ele o tinha conseguido... Só sabia que a menina estava se divertindo muito.

Joseph também sorria, e de uma forma que surpreendeu e enterneceu Demetria até a alma. Nesse instante, foi como se ele se transformasse em sua mente. Já não era mais apenas o belo e cruel hoteleiro, e sim um sujeito normal, vestido com jeans sensuais e que, sem dúvida, sabia como fazer uma menina rir.

Ela teve vontade de rir também. Se não o desaprovasse tanto, podia até ser convencida a gostar dele.
Joseph olhou em sua direção, e uma mecha do cabelo lhe caiu sobre a sobrancelha enquanto ele abria um deslumbrante sorriso.

— Ei, veja quem acordou...
— O que está acontecendo? — Demetria deixou a poltrona. Não conseguia parar de sorrir. — Há quanto tempo ela está acordada?

Um latido abafado se fez ouvir por trás dos travesseiros de Bonnie. Em seguida, o focinho de Cruiser apareceu. O cachorro parecia sorridente como de costume.

Joseph balançou o chocalho outra vez.

— Estamos brincando há uns 15 minutos.
— Bonnie não está molhada?
— Não estava quando acordou. Mas já me fez trabalhar depois disso.

Demetria levou a mão ao peito, e não para zombar dele.

— Você a trocou?
— Troquei. E também lhe dei a mamadeira quando ela começou a resmungar.

Demetria se aproximou mais deles.

— Então, pelo visto, perdi a minha função aqui.
— Alto lá! Não vamos nos precipitar... — Joseph virou-se de lado, e ela teve uma visão completa do corpo másculo que figuraria soberbamente no centro de uma revista para mulheres.

Ele proferiu as palavras, mas não parecia tão reticente quanto já havia estado antes. À sua frente, o bebê estendia os bracinhos para ele como se tivesse feito isso a vida inteira. Bonnie queria o brinquedo que Joseph arrumara, e Demetria também se viu curiosa a respeito. Juntou-se aos dois e sentou-se no chão, de pernas cruzadas. Foi quando viu a pilha de brinquedos artesanais.

— Meus sobrinhos e sobrinhas passam esses tesouros de um para o outro. Temos uma porção de bonecas com cabeças bambas, e também vários animais. — Ele balançou o chocalho, depois o trocou por uma meia recheada de papel, com bigodes feitos de canudinhos. — Esses professores sabem mesmo como mantê-los ocupados na pré-escola. — Joseph deslizou para o lado, a fim de lhe dar mais espaço no cobertor. — Chegue mais perto... Há espaço de sobra aqui.

O coração de Demetria deu um salto. O desejo de fazer o que ele sugeria era tão forte que chegava a ser assustador.

O clima, contudo, não era de sedução. E, com Bonnie parecendo tão feliz e contente... Por que não?
Deslizou mais sobre a coberta e se deitou de bruços, ao lado de Joseph e de frente para Bonnie.
Ele sorriu, não por conta da brincadeira com a criança, mas para ela. Seu olhar era divertido e extremamente sedutor.

— Do que quer brincar?

Ela esperou que o próprio coração se acalmasse antes de responder.

— Não sei.
— Podemos cantar... Que tal uma música sobre seus olhos?

Desta vez, enquanto o bebê ria e, distraído, continuava sugando uma tartaruga de plástico, Demetria percebeu uma nota mais profunda e diferente na voz de Joseph. Sentiu a pele aquecer, e seus pensamentos começaram a vagar por vontades que ela preferia manter guardadas a sete chaves.
Estremeceu dos pés à cabeça. Joseph falara próximo a seu ouvido, e ela sabia, sem nem mesmo se voltar, que ele tinha o olhar fixo em seu perfil, em seus lábios.
Tentou afastar os pensamentos loucos que lhe invadiram a cabeça.

— Não acho que seja uma boa ideia. Talvez devêssemos cantar uma música conhecida.
— Sabe sobre o que estou com vontade de cantar? — A respiração morna de Joseph lhe acariciou os cabelos. — Sobre o quanto gostei de abraçá-la ontem à noite.

Foi como se uma série de pequenos incêndios varressem as veias de Demetria. Ela precisava se afastar, dizer a ele que parasse... Mas, com Joseph tão perto, devorando-a com aquele olhar faminto, ela queria mais era se esquecer de tudo e admitir que também havia gostado.

A boca bem-feita roçou sua têmpora, e ela estremeceu, sentindo-se ainda mais enfraquecida.

— Se não quer cantar, dance comigo, Demi. Dance comigo esta noite...

Conforme ele deslizou o queixo por seu rosto, uma onda de adrenalina correu pelo corpo dela. Recobrando o bom-senso, Demetria se pôs de pé. Corada e meio desequilibrada, afastou a mecha de cabelo que lhe caíra sobre a testa.

— Está na hora de eu preparar a mamadeira para Bonnie.

Joseph a fitou com um olhar penetrante.

— Já dei a mamadeira a ela, Demi, lembra-se? Bonnie está mais do que satisfeita.
— Então vou fazer um pouco de café.
— Eu não quero café... Quero você.

Ele estendeu a mão para ela, porém Demetria se esquivou do toque e, em pânico, rumou para a cozinha. Ainda ardendo de desejo, sentiu o olhar de Joseph sobre ela enquanto apanhava um bule com mãos trêmulas.

Fechou os olhos e imaginou Joseph derrubando todas as suas objeções com um beijo. A despeito do absurdo da situação, estava começando a querer tudo aquilo, o pacote todo, mais do que devia.



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Mais 2 capítulos para compensar o meu sumiço de 3 semanas kkk Bjss amores 

COMENTEM!


10 comentários:

  1. AMEI AMEI AMEI! QUERO MAISSS, MUITO MAIS ABSBDBDBD

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  2. Ouve-se meu coração se quebrando
    Ainw Jesus Joe e meu mal humorado preferido...
    Adorando a fic jujuba li ela quase toda ontem, agora tô certinha com você...
    Amo amo amo
    Olha o costume
    Posta logooooo
    Beijos
    Unnie

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  3. Ai que fofos ❤️
    To amando tudo
    Ansiosa bebê para saber mais
    Posta logoo
    Beijos

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  4. Leitora nova aqui! !! Suas fics são mais que incriveis, já li várias e não paro POSTA LOGO

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  5. SAUDADEEEEES!!
    Eu jatava achando que vc não ia postar mais😢
    Mas vc voooolyoi o/
    Posta loooooogo, quero saber mais sobre Joe.

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  6. está perfeito, juh...
    posta logo!
    bjs

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  7. Quando vai ter capitulo novo? :(

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  8. Li essa história todinha de madrugada, estou apaixonada!!! E ansiosa, eu acho que eles irão ficar com Bonnie...
    Sam, xx

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  9. Já falei que estou sentindo que Bonnie será deles? e meu lado louco acha que ela é uma miragem para unir os dois pois não é possivel não ter nada da criança lol. Ansiosa para o próximo capitulo!!!
    Sam, xx

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Sem comentários ........... sem capítulos!