10/11/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 11






Doía ouvir o que, no fundo, ela já sabia. No que dizia respeito a ela e Joseph, eles tinham sido apenas um abrigo, para Bonnie e Cruiser, da tempestade que se abatera sobre o Colorado. Desejava que a criança e o cão logo pudessem contar com a companhia daqueles que os amavam, pois logo eles quatro estariam separados, sem nenhuma razão para se encontrarem novamente.

De volta à área principal, Joseph se acomodou na poltrona ao lado da dela, um braço equilibrado sobre o joelho dobrado.

Reclinada em seu próprio assento, e com ele descansando na cadeira vizinha, Demetria tratou de aceitar sua proximidade, e eles ficaram observando as chamas dançando, sonolentas, na lareira.
Com um suspiro, ela tentou deixar de lado todos os aspectos negativos da situação e se concentrar naquele momento de paz: ouvir um ou outro estalo na queda das cinzas, inalar o aroma de café fresco, ciente de que a neve caía mais suave lá fora...

Por tudo isso, Demetria não se encontrava nem um pouco preparada para a pergunta sombria que ouviu:

— Demetria, o que aconteceu com seus pais?

Uma onda gelada, que logo depois passou a queimá-la, inundou-lhe o estômago. Joseph a pegara de surpresa. Ela não falava sobre o passado. Havia custado muito deixá-lo para trás.

No entanto, eles nunca mais se encontrariam e, embora ele estivesse curioso no momento, ela podia apostar que ele iria esquecê-la, e também a sua história, bem antes do que ela própria.

Após pensar nos anos que passara em seu lar adotivo, por algum motivo Demetria sentiu uma estranha necessidade de desabafar.

— Eu gostaria de acreditar que minha mãe me amou. Mesmo que eu não tenha sido resultado de uma história de amor. Minha mãe adotiva me contou, quando eu ainda era muito pequena, que minha mãe foi estuprada.

Joseph se voltou na poltrona, praguejando baixinho.

— Por favor, diga que essa criatura não cuida mais de nenhuma criança!
— Mantenho contato com algumas pessoas com as quais fui criada, e elas me asseguraram que Nora já está aposentada há muito tempo.

Parte do desgosto no rosto moreno se desfez.

— Não tem mais ninguém da família?
— Não. Meus avós queriam que minha mãe me desse. Ela lutou para me manter, mas, uma noite, não muito tempo depois de eu ter nascido, fui levada embora. Até hoje não sei como trataram da parte legal. Acho que alguns papéis devem ter sido forjados. Pelo visto, meus avós imaginaram que minha mãe fosse superar minha perda, que, eventualmente, ela fosse retomar sua vida, ou melhor, a vida que eles haviam idealizado para ela. Porém, isso não aconteceu. Minha mãe saiu de casa e partiu na tentativa de me encontrar. — Demetria sempre sorria quando se lembrava daquela parte da história, porém nunca por muito tempo. — Sem dinheiro ou apoio, minha mãe acabou nas ruas. Soube disso tudo quando contratei um investigador particular há uns dois anos. Ele descobriu que minha mãe morreu um dia antes de seu vigésimo aniversário.

Joseph tinha o maxilar cerrado, porém seus olhos brilhavam o suficiente para que Demetria visse neles seu próprio reflexo.

— E quanto a seus avós?
— Ambos faleceram. Até onde o detetive pôde afirmar, eles nunca tentaram me encontrar. Minha mãe era filha única, portanto também não tenho tios nem tias.

Ele abaixou a cabeça e a balançou uma vez.

— Sinto muito. Posso entender agora por que tomou essa decisão.
— Que decisão?
— De não ter uma família sua. Não deve ser fácil lidar com tudo isso. Perdoar tudo isso.

O perdão era um conceito estranho, Demetria refletiu, com os olhos fixos no fogo. Ela já tinha ouvido dizer que uma pessoa precisava perdoar os erros alheios a fim de prosseguir com a própria vida, e ela fizera isso sem ter sentido a necessidade de perdoar coisa alguma. Podia conter as lágrimas. Podia planejar o futuro com bom senso. Por isso mesmo prometera a si mesma não ter seus próprios filhos e, desde então, nunca mudara de ideia. Nunca pensara de forma diferente.

Até se ver naquela situação.
Céus, cuidar de Bonnie era tão gratificante!...

Claro que ela não pretendia ficar grávida. Mas, pela primeira vez, conseguia entender por que, em tempos tão cheios de incerteza, as pessoas ainda assumiam o risco de trazer vidas indefesas e inocentes ao mundo. Por que as pessoas se arriscavam a se apaixonar.

Demetria estava dormindo havia cerca de uma hora quando Cruiser caminhou até onde Joseph se encontrava de pé, com as mãos enfiadas nos bolsos de trás da calça jeans, admirando a paisagem coberta de neve. O cão bateu o nariz contra a perna forte e soltou um latido quase inaudível, que Joseph interpretou no mesmo instante. Bonnie estava acordando.

Ele poderia incitar Cruiser a seguir até onde Demetria estava, toda enrolada na poltrona. Porém, já usara aquela carta naquela mesma manhã, quando a menina estivera molhada, e ele limpara a garganta na esperança de que Demetria acordasse e o livrasse da encrenca.

Obviamente, isso havia acontecido antes de ele ter ouvido o restante da história dela.

Bom Deus, que lição fora aquela! Ele sabia que sua própria vida fora abençoada de várias maneiras: possuía uma família enorme e tivera uma infância fantástica, ainda que seu pai não houvesse estado presente tanto quanto devia. Mas quando Demetria revelara que a mãe tinha sido vítima de estupro e depois sofrido tanta injustiça nas mãos dos próprios pais...

Ele fez uma careta.

Quem, em nome de Deus, poderia querer se livrar de uma pessoa de seu próprio sangue? Na cabeça dele, uma criança concebida por meio de tal violência merecia, mais do que qualquer outra, consideração, proteção... tudo!

Mais absurdo ainda era pensar que essa criança era a mulher que dormia em sua sala agora.
Suspirou. Não conseguia conceber como Demetria devia se sentir; como lidava com aquele passado, que devia assombrá-la todos os dias.

Verdade que todas as famílias, incluindo a dele, tinham lá seus percalços e fantasmas, tanto no presente quanto no passado. A sua, porém, preferia mantê-los mais à parte do que a maioria.

Joseph voltou ao presente quanto o focinho de Cruiser tornou a cutucá-lo. O bebê havia acordado! Era preciso que um capitão assumisse o leme.
Respirou fundo e balançou as mãos, nervoso. Poderia fazer aquilo. Droga, era o mínimo que podia fazer!

Pé ante pé, passou pela poltrona de Demetria. Sua respiração continuava cadenciada; a expressão, serena; os olhos, fechados. Ele fez menção de tocar os cabelos sedosos, mas não quis arriscar acordá-la.
Com outra cutucada do focinho, Cruiser abriu a porta do quarto. Joseph arregaçou as mangas e entrou.

A menina estava acordada, observando os próprios dedos se moverem nas sombras. Seu olhar vagou por um momento, encontrou o dele, e então ela chutou as perninhas sob a manta, como se dizendo “Olá” da única maneira que sabia.

Joseph se lembrou de como ela estivera encharcada naquela manhã... porém ele era um homem que comandava muita gente e nunca fugia de um desafio. Aquilo não poderia ser tão difícil.

Demetria acordou devagar, respirou fundo, depois notou que a iluminação na sala de estar de Joseph, onde ela havia adormecido, tinha mudado. Pelas sombras que se estendiam sobre o chão de madeira, já passava do meio-dia. Parecia mais o meio da tarde!

Bonnie ainda devia estar adormecida, pensou, enquanto se endireitava na poltrona reclinável, ou ela teria ouvido o alarme de Cruiser.
Desfrutando de uma boa espreguiçada e um bocejo, esfregou os olhos, porém parou ao ouvir um som grave nas proximidades.
Era a voz de Joseph.
Mas ouvia outro ruído... Risadinhas!

Em uma explosão de energia, Demetria se pôs de joelhos para espiar por sobre a parte de trás da poltrona.

E mal pôde acreditar nos próprios olhos. Apoiado nos antebraços, Joseph se encontrava deitado de bruços sobre um edredom no chão chacoalhando um brinquedo esquisito enquanto o bebê o fitava, apoiado em um monte de travesseiros, do outro lado. Demetria não fazia ideia do que era aquilo, nem de como ele o tinha conseguido... Só sabia que a menina estava se divertindo muito.

Joseph também sorria, e de uma forma que surpreendeu e enterneceu Demetria até a alma. Nesse instante, foi como se ele se transformasse em sua mente. Já não era mais apenas o belo e cruel hoteleiro, e sim um sujeito normal, vestido com jeans sensuais e que, sem dúvida, sabia como fazer uma menina rir.

Ela teve vontade de rir também. Se não o desaprovasse tanto, podia até ser convencida a gostar dele.
Joseph olhou em sua direção, e uma mecha do cabelo lhe caiu sobre a sobrancelha enquanto ele abria um deslumbrante sorriso.

— Ei, veja quem acordou...
— O que está acontecendo? — Demetria deixou a poltrona. Não conseguia parar de sorrir. — Há quanto tempo ela está acordada?

Um latido abafado se fez ouvir por trás dos travesseiros de Bonnie. Em seguida, o focinho de Cruiser apareceu. O cachorro parecia sorridente como de costume.

Joseph balançou o chocalho outra vez.

— Estamos brincando há uns 15 minutos.
— Bonnie não está molhada?
— Não estava quando acordou. Mas já me fez trabalhar depois disso.

Demetria levou a mão ao peito, e não para zombar dele.

— Você a trocou?
— Troquei. E também lhe dei a mamadeira quando ela começou a resmungar.

Demetria se aproximou mais deles.

— Então, pelo visto, perdi a minha função aqui.
— Alto lá! Não vamos nos precipitar... — Joseph virou-se de lado, e ela teve uma visão completa do corpo másculo que figuraria soberbamente no centro de uma revista para mulheres.

Ele proferiu as palavras, mas não parecia tão reticente quanto já havia estado antes. À sua frente, o bebê estendia os bracinhos para ele como se tivesse feito isso a vida inteira. Bonnie queria o brinquedo que Joseph arrumara, e Demetria também se viu curiosa a respeito. Juntou-se aos dois e sentou-se no chão, de pernas cruzadas. Foi quando viu a pilha de brinquedos artesanais.

— Meus sobrinhos e sobrinhas passam esses tesouros de um para o outro. Temos uma porção de bonecas com cabeças bambas, e também vários animais. — Ele balançou o chocalho, depois o trocou por uma meia recheada de papel, com bigodes feitos de canudinhos. — Esses professores sabem mesmo como mantê-los ocupados na pré-escola. — Joseph deslizou para o lado, a fim de lhe dar mais espaço no cobertor. — Chegue mais perto... Há espaço de sobra aqui.

O coração de Demetria deu um salto. O desejo de fazer o que ele sugeria era tão forte que chegava a ser assustador.

O clima, contudo, não era de sedução. E, com Bonnie parecendo tão feliz e contente... Por que não?
Deslizou mais sobre a coberta e se deitou de bruços, ao lado de Joseph e de frente para Bonnie.
Ele sorriu, não por conta da brincadeira com a criança, mas para ela. Seu olhar era divertido e extremamente sedutor.

— Do que quer brincar?

Ela esperou que o próprio coração se acalmasse antes de responder.

— Não sei.
— Podemos cantar... Que tal uma música sobre seus olhos?

Desta vez, enquanto o bebê ria e, distraído, continuava sugando uma tartaruga de plástico, Demetria percebeu uma nota mais profunda e diferente na voz de Joseph. Sentiu a pele aquecer, e seus pensamentos começaram a vagar por vontades que ela preferia manter guardadas a sete chaves.
Estremeceu dos pés à cabeça. Joseph falara próximo a seu ouvido, e ela sabia, sem nem mesmo se voltar, que ele tinha o olhar fixo em seu perfil, em seus lábios.
Tentou afastar os pensamentos loucos que lhe invadiram a cabeça.

— Não acho que seja uma boa ideia. Talvez devêssemos cantar uma música conhecida.
— Sabe sobre o que estou com vontade de cantar? — A respiração morna de Joseph lhe acariciou os cabelos. — Sobre o quanto gostei de abraçá-la ontem à noite.

Foi como se uma série de pequenos incêndios varressem as veias de Demetria. Ela precisava se afastar, dizer a ele que parasse... Mas, com Joseph tão perto, devorando-a com aquele olhar faminto, ela queria mais era se esquecer de tudo e admitir que também havia gostado.

A boca bem-feita roçou sua têmpora, e ela estremeceu, sentindo-se ainda mais enfraquecida.

— Se não quer cantar, dance comigo, Demi. Dance comigo esta noite...

Conforme ele deslizou o queixo por seu rosto, uma onda de adrenalina correu pelo corpo dela. Recobrando o bom-senso, Demetria se pôs de pé. Corada e meio desequilibrada, afastou a mecha de cabelo que lhe caíra sobre a testa.

— Está na hora de eu preparar a mamadeira para Bonnie.

Joseph a fitou com um olhar penetrante.

— Já dei a mamadeira a ela, Demi, lembra-se? Bonnie está mais do que satisfeita.
— Então vou fazer um pouco de café.
— Eu não quero café... Quero você.

Ele estendeu a mão para ela, porém Demetria se esquivou do toque e, em pânico, rumou para a cozinha. Ainda ardendo de desejo, sentiu o olhar de Joseph sobre ela enquanto apanhava um bule com mãos trêmulas.

Fechou os olhos e imaginou Joseph derrubando todas as suas objeções com um beijo. A despeito do absurdo da situação, estava começando a querer tudo aquilo, o pacote todo, mais do que devia.



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Mais 2 capítulos para compensar o meu sumiço de 3 semanas kkk Bjss amores 

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Papai por um Tempo - Capítulo 10






Uma mensagem de texto no celular de Joseph piscou cinco minutos após a energia voltar, próximo do meio-dia. Enquanto ele a lia, Demetria observou sua expressão pensativa, ao mesmo tempo em que balançava a cadeirinha do bebê, pois Bonnie estava prestes a tirar uma soneca pós-almoço.

— Cressida Cassidy, da Assistência Social — anunciou ele. — As estradas ainda estão bloqueadas.
Eles só poderão vir amanhã. Também não têm pistas sobre a situação do bebê... E a mídia ainda não soube da história.

Demetria deu um beijo suave na testa da menina.
De onde vinha aquele anjinho?

Era como se Bonnie nem existisse antes de ela e Joseph terem cruzado seu caminho. Era difícil de acreditar que ninguém estivesse à procura do bebê; que ela não estivesse perdida. Ela, Demetria, sempre encontrara algum conforto em pensar nisso, pois, até onde sabia, sua própria mãe havia tentado encontrá-la.

Mas, fosse qual fosse a situação daquele bebê, ao menos por enquanto Bonnie estava ali, acolhida e segura. E se o preço daquilo tudo era permanecer na companhia de um homem que descia a qualquer nível para ganhar e dominar, ela o pagaria.

Suspirou.

Não contara a Joseph o que Kate dissera a respeito de suas negociações inescrupulosas com James Dirkins. Sua raiva só teria aumentado, e ela não queria levantar a voz e perturbar a criança. Até gostaria de dar a Joseph o benefício da dúvida, mas os últimos comentários de Kate não se encaixavam nas circunstâncias? Fazer Dirkins sentir-se responsável pela morte do filho a fim de obter mais lucro... Aquilo a deixava enjoada só de pensar!

Joseph continuava a olhar para a tela do celular.

— Eu gostaria de saber o que os paparazzi vão inventar e soltar na mídia quando puserem as mãos nesta história.

Demetria se retesou. Ela fazia parte dos paparazzi. Ou, ao menos, era dessa forma que ele a via.

— Diga à sra. Cassidy que a criança está ótima — conseguiu murmurar.
— Pode deixar.

Joseph franziu a testa, depois balançou a cabeça. Com as sobrancelhas unidas, enviou uma mensagem de volta. Nunca reclamara do fato de o bebê e ela estarem ali. E, a despeito de sua queixa inicial, também não dissera mais nenhuma palavra sobre Cruiser ter se juntado a eles.
Ele tinha encontrado o nome do cachorro em uma plaquinha escondida sob a vasta pelagem.

Entretanto, pensou Demetria, ele não parava de olhar as horas no relógio de pulso e ficava o tempo todo mirando a paisagem através das janelas.

Joseph estava nervoso; sentindo-se sobrecarregado. Aquelas condições de isolamento eram um desafio para ele, para não dizer um atraso de vida.
Quanto a ela própria...

Demetria colocou a manta sob o queixinho de Bonnie. Estava se sentindo muito à vontade, pelo menos em relação à menina.

Quando Joseph estava por perto, contudo, era o contrário. Seus níveis de endorfina pareciam subir a tal patamar que ela ficava até tonta. Naquela manhã, brincara com a ideia de que ele também podia estar sentindo algo semelhante quando se aproximava dela. Em sã consciência, porém, podia ver que aquele beijo em frente à lareira, na noite anterior, e aquela sugestão de férias nas Bahamas não significavam nada para Joseph além de uma oportunidade de amenizar parte da tensão sexual entre eles e tentar a sorte. Seu cérebro masculino e competitivo era programado para tais coisas.
E agora eles ficariam juntos, ali, por mais uma noite!...

O que ela iria fazer se ele viesse com aquele vinho tinto ou conhaque, tentando jogar seu charme outra vez?

Não que ela quisesse tal coisa, mas, à meia-luz, e diante de toda a sedução que Joseph emanava, não seria fácil controlar os impulsos. Ela até poderia dizer que não estava interessada, mas, e se Joseph lhe embotasse a mente com mais um daqueles beijos?

Ela podia não aprovar seu caráter, porém suas técnicas de sedução eram irrepreensíveis.
Joseph era do tipo que preferia um sexo rápido e selvagem, ou criava cada movimento, absorvia cada toque, saboreava cada beijo? Como seria ter aqueles quadris se movendo sob o dela, sentir aquela boca, língua e dentes no pescoço, enquanto estivesse gozando em seus braços?
Ele parou a seu lado e passou a ponta do dedo pela bochecha do bebê.

— Parece que a moça vai entregar os pontos de novo...

Demetria prendeu a respiração, depois voltou à realidade e censurou a si mesma.

Concentre-se! Ele está falando da criança!

— Eu... não acho que ela vá dormir agora.
— Por que não se senta um pouco, então?
— Bonnie gosta de ser embalada.
— Mesmo que seus braços caiam depois?

Demetria resolveu testá-lo.

— Não quer assumir o posto?

Joseph até olhou o bebê, mas deixou cair a mão.

— Você é a especialista aqui.
— Não em se tratando de usar as pessoas.

Ele inclinou a cabeça para fitá-la.

— Quer explicar esse comentário?

— Não. — Demetria respirou fundo. — Eu só gostaria de dizer que, se vamos passar outra noite juntos, prefiro dormir em um quarto enquanto dorme em outro.

Os olhos sorridentes de Joseph pousaram em sua boca.

— Pensei que tivesse gostado do nosso acampamento.
— O que aconteceu ontem à noite em frente à lareira não vai acontecer de novo.
— Não?
— Não — Demetria confirmou, de costas para ele.
— E se eu convencê-la do contrário?

A voz profunda soou em sua orelha, rouca o suficiente para lhe enviar uma onda de calor pelas veias.
Em tempo recorde, ela abafou a chama e se virou para encará-lo.
Mas não imaginara o quanto ele se encontrava próximo com aquele peito largo, os traços bem-feitos do rosto moreno se avultando sobre os dela. Àquela distância, a presença de Joseph era fenomenal... irresistível.

Quase mergulhada nos olhos escuros, Demetria lutou para concatenar as ideias.

— Eu sou o inimigo, lembra-se? Não tem medo de que eu me torne muito próxima e exponha todos os seus segredos?

Joseph a fitou com olhos estreitos.

— Fique à vontade.

Quando ele se afastou, Demetria sentiu a adrenalina se esvair do corpo. Quanto antes aquilo tivesse fim, melhor. Tomara as autoridades encontrassem logo a mãe de Bonnie!
Joseph cruzou a sala, pôs-se a atiçar o fogo, e ela continuou a embalar a bebê.

Vários minutos mais tarde, quando Bonnie parecia adormecida, por fim, e as costas dela já pediam arrego, Demetria a deitou com cuidado. Mal seus dedos deixaram o corpinho quente, contudo, a menina fez uma careta e tornou a se mexer. Suas pálpebras pesadas se abriram, seu lábio inferior começou a tremer, e ela sentiu o coração se partir ao meio. O que estaria fazendo de errado?

Preocupada, verificou a testinha da criança. Nenhuma febre.

Pegou Bonnie outra vez e olhou ao redor. Uma neve fraca caía do lado de fora, e a luz do dia ainda iluminava a sala.

— Será que pode puxar um pouco as cortinas? — Ela também pedira uma roupa para Joseph, não querendo passar o dia todo de pijama ou vestir um terninho de trabalho; e ele lhe arrumara um suéter de cashmere azul-pálido, que lhe servira como um confortável vestido.

Joseph, por sua vez, colocara um suéter verde-escuro, que combinava perfeitamente com seus olhos castanhos. Em conjunto com a velha calça jeans que caía como uma luva sobre os quadris estreitos e as pernas atléticas, ele bem podia ser capa da revista GQ. Era o sonho de qualquer mulher.

— Essas janelas não têm cortinas. Estamos no meio do nada... Ninguém vai nos espiar, a menos que seja um urso.
— Talvez Bonnie sossegue se ficar no escuro. Vou tentar fazê-la dormir neste quarto de baixo, então. Vai estar mais tranquilo lá, também. Pode me arrumar alguns travesseiros?
— É para já. — Joseph caminhou à sua frente.

Quando ela adentrou a penumbra do quarto, ele estava tirando travesseiros extras de um closet. Sem que ela pedisse, Joseph os posicionou em um retângulo sobre a cama, depois os cercou com uma colcha pelo lado de fora, a fim de reforçar a estrutura.
Demetria baixou a menina e suspirou. Ficava tão feliz e aliviada quando Bonnie dormia que não sabia se ria ou desmaiava de cansaço!

Mas bastou Joseph se aproximar dela para que seus sentidos tornassem a entrar em alerta.

— Sucesso — ele sussurrou, com a voz grave.
— Melhor cruzar os dedos.
— Quanto tempo dura o cochilo de um bebê após o almoço?
— Acho que estamos prestes a descobrir... Tomara que seja por pelo menos umas duas horas.

Demetria lançou um último olhar carinhoso na direção de Bonnie antes de seguir Joseph para fora do quarto. Quando ele fez menção de fechar a porta, ela colocou a mão em seu braço. Sob a lã fina, o membro parecia aço quente; e tão convidativo ao toque que ela teve dificuldade para se afastar.
Controlando a si própria, recuou.

— Deixe a porta entreaberta. Quero ouvir se ela chorar.

Um canto da boca perfeita ergueu-se de um lado.

— Meu palpite é que vai voltar aqui a cada dois minutos.

Ela soltou novo suspiro.
Ele tinha razão.

— Talvez a gente possa usar algum aparelho como babá eletrônica, assim não corro o risco de gastar seu assoalho.
— Acho que já temos a babá... E uma que já vem com suas próprias baterias.

Cruiser se pusera diante da porta, a cabeça descansando sobre as patas dianteiras. Apenas seus olhos e as linhas suaves em sua testa se moviam enquanto ele trocava olhares com ambos.
Demetria teve vontade de se abaixar e abraçar o cachorro.

— Pelo visto, ele assumiu o primeiro turno.
— Ele já tem experiência. Mas, antes que Cruiser se anime muito com seu cargo, talvez devêssemos dizer a ele que esta função é apenas temporária.

Demetria ocultou seu estremecimento.



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Proximooo >.<



Papai por um Tempo - Capítulo 9






Joseph Jonas era conhecido por suas negociatas implacáveis. O fato de ter demonstrado alguma compaixão e ter trazido aquela criança para casa não mudava sua história.

Kate disse que precisava desligar para cuidar da entrevista agendada para aquele dia e que sua outra linha estava tocando. Após prometer telefonar de novo, Demetria encerrou a chamada, mas não retornou à sala de imediato.

Precisava de tempo para reorganizar os pensamentos. Tanta coisa acontecera desde a tarde anterior, quando entrara naquele táxi... !

Um demônio disfarçado...

No mesmo momento em que colocara os olhos em Joseph, havia compreendido por que as mulheres caíam aos seus pés. Ele exalava sex appeal, aquela autoconfiança pela qual todas elas se derretiam e que os outros homens tanto admiravam. O mais provável era que tivesse perdido a conta de por quantas camas de seus hotéis ele passara, espalhadas por todo o país. Nos Estados Unidos, nas Bahamas... quiçá pelo mundo.

Com os olhos faiscando, ela arremessou o celular sobre o colchão. Devia estar sonhando ao se sentir tão segura nos braços de Joseph Jonas, na noite anterior.

Enquanto Demetria dava o telefonema, e o bebê relaxava em sua cadeirinha, Joseph se cansou, largou o orçamento para a redecoração do restaurante de um dos Hotéis Jonas sobre a mesa e perscrutou a sala com o olhar. Só então se deu conta de um ruído que parecia mais alto a cada instante.

Pôs-se de pé. De onde, diabos, aquilo estava vindo?

Conforme concentrou todos os sentidos no barulho, uma sensação inquietante o invadiu e, mais do que nunca, ele se perguntou sobre o passado daquela criança. Ela era bem cuidada, fora deixada com todos os acessórios... Bonnie tinha sido abandonada ou fora sequestrada da família?

Flexionando os dedos ao lado do corpo, caminhou até as janelas amplas e, com todos os sentidos em alerta, inclinou-se para examinar a aparente calmaria lá fora. Flocos de neve ainda caíam do céu cinzento. O mundo parecia coberto por um manto branco, e não havia sinal de vida em lugar nenhum.
Entretanto, aquele arranhar infernal não parava!

Estava prestes a pegar um casaco, e seu fiel bastão de beisebol, quando algo surgiu do meio da cortina de neve e pulou na janela, em sua direção. Ele sentiu o coração pular na garganta ao mesmo tempo em que seu cérebro registrava uma fileira de dentes, olhos amarelados e um focinho comprido e peludo.

Seria um lobo?!

Um instante depois, reaparecendo em meio a um monte branco, a criatura pulou novamente, e ele pôde ter dela uma melhor visão. Não era um lobo, e sim um cachorro enorme. Um misto de todos os caninos gigantescos que deviam existir na Terra.

Por trás da silhueta peluda, um rabo abanava com força, cortando a neve.

Era o cachorro que os Dale tinham herdado de um parente idoso! Com seus donos longe dali, ele devia ter deixado sua gigantesca casinha e se perdido no meio da tempestade, na noite anterior.
E era evidente que estava querendo companhia para brincar.

Diabos, nenhuma criatura poderia sobreviver àquele tempo... mas aquele corpanzil e aquela cauda fariam um verdadeiro estrago ali dentro. O peso daquele cachorro poderia derrubar Demetria, com a criança e tudo!

Talvez ele pudesse prendê-lo na garagem e...

— Que cachorro é esse?!

Joseph olhou por cima do ombro. Ainda vestida com o sexy e folgado pijama vermelho, Demetria estava de volta. Ele levou um momento para se reacostumar com os olhos brilhantes, os lábios tentadores, o ligeiro franzir de testa, antes de se concentrar outra vez no animal.

— É o cachorro dos Dale.
— Ele parece amigável.
— E grande.
— Deve estar com frio, pobrezinho!

Joseph observou o casaco de pele natural do bicho.

— Ele está bem protegido.
— Mas não podemos deixá-lo lá fora! Aposto que está com fome.

O cão continuava pulando, formando uma crescente cratera na neve, enquanto Joseph considerava seus suprimentos cada vez mais escassos.

— Não tenho certeza se temos alimentos suficientes para deixá-lo ficar aqui.
— Não vai abandoná-lo lá fora, vai?...
— Eu não queria fazer isso, mas, caramba, ele é gigante!
— Um gigante gelado!

O cão lambeu a janela, deixando uma marca considerável, e abanou ainda mais o rabo.
Demetria apanhou o bebê na cadeirinha e deixou escapar um suspiro.

— Vai deixá-lo entrar ou vou ter que fazer isso eu mesma?

Joseph olhou para Demetria e a menina, e esfregou a parte de trás do pescoço. Aquele lugar estava ficando lotado.

— Talvez devêssemos perguntar aos pombos se eles não querem entrar para tomar chá com biscoitos.

Ela revirou os olhos.

— Estou dizendo... — Ele ainda insistiu. — Esse cachorro é gigante!
— Assim como esta casa. Mas, se consegue deixá-lo lá fora, tremendo e com neve até os joelhos enquanto ficamos sentados diante desse fogo delicioso...

Joseph cruzou os braços e balançou a cabeça. Aquela não era uma boa ideia, mesmo que Bonnie estivesse vidrada na janela, murmurando coisas ininteligíveis com o punho preso na boca, como se louca para dar as boas-vindas àquele impetuoso visitante; como se não quisesse outra coisa no mundo além da companhia de um cachorro.

Aquele cachorro.

Joseph abriu os braços e se afastou, resmungando:

— Vou deixá-lo na lavanderia.

Um momento depois, abriu a porta. O cão permaneceu onde estava, o rabo parado, uma pata levantada, como se querendo trocar um cumprimento.

Joseph sorriu.

Quando era mais moço, sua família também tinha um cão: um Labrador que lembrava um pouco o cachorro dos Dale.

— Ei, estamos deixando o frio entrar...

O cachorro pareceu abrir um sorriso antes de sacudir a pelagem, obrigando-o a se proteger enquanto flocos de neve voavam para todos os lados. Tal qual um esfregão tamanho família, o convidado trotou pesadamente, passando por seu relutante anfitrião.

Joseph gemeu ao observar a capa peluda e a cauda desgrenhada desaparecer sala adentro. Tinham mais uma boca para o almoço agora.

Deu outra olhadela do lado de fora, caso alguém mais estivesse à espreita, depois fechou a porta e seguiu as pegadas molhadas de volta para a sala de estar.

O cachorro estava sentado, muito quieto e ereto, aos pés de Demetria, com as orelhas para trás na cabeça dourada. Ficou tão imóvel que parecia uma estátua.

Demetria, ao contrário, estava toda derretida. Ainda segurando a menina, tinha um sorriso extasiado nos lábios e parecia uma garotinha de 6 anos que acabara de conhecer o Papai Noel.

Conforme Joseph se aproximou, viu que os olhos do cão eram de um lindo tom de marrom, e também que ele exalava afabilidade. Lembrou-se da Sra. Dale contando que o bicho era protetor e leal, e que ela sempre confiara no cachorro em relação aos netos ou a qualquer outra criança.
Ótimo. Tomara ele também mantivesse aquele rabo pontudo sob controle.
Demetria estendeu a mão para acariciar a cabeça úmida do cão, e a cauda comprida açoitou o chão de madeira, fazendo o barulho ecoar até as vigas.

— Ele é lindo!
— E está todo molhado.
— Vamos acomodá-lo perto do fogo. Se ficar com Bonnie, poderei secá-lo com uma toalha.
— Pode deixar. — Joseph marchou para a lavanderia. Preferia fazer aquele serviço.
— É bom ajudar quando alguém precisa... — Demetria provocou atrás dele.

Joseph parou na porta, tentando digerir seu tom.

— Ele é um cão — protestou, inclinando-se para pegar toalhas em um armário.
— Que seja. Cães, pessoas, parceiros de negócios...

Ele parou após escolher duas toalhas.
De que diabo ela estava falando?

Com o cão seguindo-o de perto, Joseph retornou para a sala de estar, estendeu uma toalha de banho diante do fogo e abriu a outra, pronto a secar a volumosa pelagem de seu visitante. Olhou para Demetria, que balançava para a frente e para trás com Bonnie nos braços, como se nada fora do comum estivesse acontecendo.

À primeira vista, ela parecia feliz, porém tinha o maxilar tenso, os lábios meio apertados, e ele teve a nítida impressão de que ela evitava fitá-lo nos olhos. Pelo visto, o telefonema que dera à chefe não fora muito bem recebido.
Ele deixou cair a toalha sobre a cabeça do cachorro e esfregou.

— Conseguiu falar com Nova York? — perguntou, com casualidade.
— Aham.
— Sua chefe ficou muito zangada?
— Na verdade, ela foi extremamente compreensiva.
— Então qual é o problema?
— Nenhum.

Joseph observou sua expressão fria por um momento. Sabia que as mulheres gostavam de falar, o que não significava que elas costumavam dizer o que estavam pensando.
Pois ele tinha a nítida impressão de que Demetria queria lhe dizer alguma coisa que, talvez, ele não quisesse ouvir.

Sem pedir licença, o cachorro deitou-se de costas, com as pernas para o ar, e Joseph disfarçou um sorriso.

— Não sei se deveria ficar tão à vontade por aqui.

Afinal, aquilo era apenas temporário. Tudo aquilo era apenas temporário.
Demetria sentou-se no braço da poltrona mais próxima.

— Ele parece, mesmo, um desses cachorros de família.
— Nunca teve um cachorro?
— Não. Mas sempre quis ter um.
— Nós tivemos um — Joseph esfregou a barriga do cão, e ele começou a mexer uma perna.
— E costumava treiná-lo ou levá-lo para passear?
— Não. Vivia muito ocupado, arremessando bolas na cesta de basquete, jogando futebol ou estudando.
— Então sempre foi competitivo.
— Sempre fui determinado.
— Nunca pensou em se acomodar um pouco, em vez de viver sob pressão o tempo todo?

Joseph ergueu a cabeça. Lá estava aquele tom novamente, e aqueles lindos olhos faiscando, como se ela estivesse com raiva.

— Está sugerindo que eu assuma um cargo de menor responsabilidade nos negócios do meu pai, é isso? Ainda tenho muito que aprender... Em determinadas situações, alguém tem que assumir as rédeas.
— E esse alguém é você. O “Senhor Implacável”.

Joseph apertou o maxilar, aborrecido.

— Não dou a mínima para rótulos.
— Imagino. E o que seus irmãos e irmãs acham de ter tomado posse da coroa dos Hotéis Jonas?
— Sienna tem sua própria vida. Vive mochilando pela Europa.
— Mochilando? Com todo esse dinheiro e estrutura cinco estrelas à disposição?
— Ela sempre foi rebelde. Gosta de fazer as coisas a sua maneira.

Demetria inclinou a cabeça e sorriu.

— Acho que eu iria gostar dela.
— Todo mundo gosta. E os rapazes... esses têm suas famílias.
— E seus cachorros, aposto — completou ela, com cinismo.

Joseph sentiu os músculos do estômago se apertarem. Já bastava daquilo.
Segurou a toalha e se pôs em pé.

— Aconteceu alguma coisa? Está irritada, e não porque eu pensei duas vezes antes de deixar este King Kong entrar aqui em casa.
— Ele não tem culpa de nada.
— Não fuja da pergunta.
— Não há nada de errado.

A expressão exasperada de Demetria não o impressionou.
Joseph jogou de lado a toalha e se aproximou.

— O que aconteceu nesse telefonema para Nova York, afinal?
— Eu já disse.
— Não disse tudo.
— Contei o que aconteceu a Kate. Ela ficou surpresa, mas foi muito compreensiva. Conversamos sobre esse tempo, sobre você...
— Sobre mim...?
— Sim. Sobre sua reputação, melhor dizendo.
— Isso não é nenhuma novidade. O que mais?

Demetria respirou fundo.

— Kate quer notícias ao final do dia.
— Ou seu emprego vai dançar. É isso?
— Mais ou menos.

Joseph estudou os olhos enormes e brilhantes e avançou mais um passo. Um instante depois, o cachorro deu um empurrão na parte de trás de sua perna, na tentativa de se colocar entre eles.
Quando o bicho ergueu a cabeça, ele arqueou uma sobrancelha e endireitou os ombros. Os enormes olhos castanhos do cachorro já não pareciam tão amigáveis. Na verdade, pareciam ordenar que ele agisse com inteligência e calasse a boca.

Bem que a Sra. Dale havia dito que o cachorro era muito protetor!

Conforme Joseph levou o cão de volta para perto do fogo, a fim de terminar de lhe secar os pelos, lembrou-se de que, normalmente, quando uma representante do sexo oposto começava a lhe dar nos nervos, ele costumava dizer “adeus”.

Simples assim.

Mas não seria assim daquela vez. Mesmo que eles não estivessem sitiados, ele não dispensaria Demetria porque, quisesse ou não, ela parecia impregnada em sua pele de uma forma que ninguém jamais conseguira ficar.


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Hey ... sem desculpa pelo tempo que sumi, a unica coisa que eu digo é que minha vida está uma bagunça ... e teve o Enem e eu tava uma pilha.! 

Espero que gostem e me perdoem por sumir >.<

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Papai por um Tempo - Capítulo 8






Uma hora mais tarde, enquanto voltava para a sala de estar, após trocar a fralda de Bonnie, Demetria estacou. Pelo visto, Joseph tinha se cansado de ficar sozinho e saíra do escritório, onde ficara escondido desde sua conversa sobre James Dirkins.

Quando ela ficou onde estava, tentando imaginar por que ele desaparecera daquela maneira e por que parecia tão frio com ela agora, ele encontrou seu olhar. Seus olhos pareceram ainda mais escuros, e uma mecha de cabelo negro lhe caiu sobre a testa. Ela nunca o achara mais sexy do que naquele momento, encostado indolentemente na cadeira de espaldar alto, o queixo ainda sombreado pela barba da manhã. Sua aparência era tão sensual e indolente que, num piscar de olhos, ela reviveu o calor escaldante do desejo que ele lhe despertara na noite anterior.

Ela havia ansiado por fazer aquele abraço evoluir para o nível seguinte. Mas adormecer sobre o peito largo já fora compensação suficiente. Sentira-se vulnerável e ao mesmo tempo segura, o que já era um feito. Confiança nunca fora seu forte. E pensar que ela a sentira justamente na companhia de um conquistador nato...!

— Precisa de alguma coisa? — perguntou Joseph.
— Acho melhor eu ligar para o escritório e avisar para minha chefe que não voltarei tão cedo.

Kate Ellis era uma chefe justa, porém exigente. Nem era preciso dizer que não ficaria nada satisfeita com aquela reviravolta no cronograma.

Mas, mesmo naquele momento, olhando para Bonnie, Demetria não pôde lamentar sua decisão de ficar. A vida era cheia de escolhas. Às vezes, as pessoas se viam em situações que fugiam ao seu controle. Bonnie precisava de alguém. E, se seus pais estivessem fora do jogo, por qualquer motivo, ela precisaria ainda mais.

— É melhor avisá-la que, decerto, não vai estar lá amanhã, também — completou Joseph.
Demetria franziu a testa.
— Acha mesmo que ninguém vai conseguir chegar aqui?
— Nem sair.

Girando na cadeira, ele examinou a paisagem através da janela. A neve continuava a cair e parecia mais espessa a cada instante.

Ela suspirou.

Nem por um momento havia imaginado que ficaria na companhia de Joseph por mais de duas horas; e, provavelmente, eles teriam que tolerar um ao outro por pelo menos mais um dia! Joseph insistira para que eles permanecessem ali e, apesar do que ela pensava dele, do que tinha lido, precisava admitir: ele vinha sendo muito paciente e, a sua maneira, bastante útil.
No entanto, dado seu comportamento nas últimas horas, sua paciência parecia estar se esgotando. A situação devia estar perdendo a graça. Sem dúvida, Joseph queria seu próprio espaço de volta, o que, de certa forma, ela conseguia compreender.
Com o bebê balbuciando nos braços, ela cruzou a sala e se aproximou.

— Sinto muito que esteja sendo obrigado a me aturar por tanto tempo.

Ele franziu as sobrancelhas, depois deixou escapar uma exclamação seca, quase sorrindo.

— Demetria, estou dando graças a Deus por estar aqui.

O rosto delicado se iluminou.

— Está falando a sério?
— Eu jamais conseguiria dar conta dessas trocas de fralda, de ficar fazendo o bebê dormir, arrotar...

Ela deixou cair os ombros. Joseph podia ter se insinuado para ela na noite anterior, por conta de seus velhos hábitos de Don Juan. Mas seu verdadeiro interesse ficara muito claro agora.

— Se é assim, acho que está me devendo.

Os olhos escuros brilharam, e um esboço de seu familiar sorriso travesso tocou os lábios bem-feitos.

— Como sugere que eu pague?

Ela deixou a imaginação voar.

— Que tal umas férias longas e decadentes em algum lugar arenoso, quente, sem um pingo de neve?
— Com coquetéis coloridos 24 horas, sete dias por semana? — Ele se pôs em pé e a circundou devagar. — Uma massagem de vez em quando... ?
— Adoro massagens — ela confessou, sentindo mais o peso da criança.
— Com roupa ou sem? — As palavras roucas roçaram sua orelha.

Demetria sentiu uma onda de calor inundar o baixo-ventre e precisou se concentrar nas pernas, de modo a impedir que os joelhos cedessem O que a estava deixando naquele estado? O tom de voz sensual, o teor provocante da pergunta, ou a imagem daquelas mãos grandes deslizando por seu corpo?

— Temos um resort nas Bahamas. — A respiração quente de Joseph lhe acariciava o topo da cabeça agora. — Que tal um longo fim de semana por lá?

Ela tentou rir.

— Eu não estava falando sério.

O queixo áspero roçou sua têmpora.

— Avise quando estiver falando sério, então.

Demetria sentiu as pernas virarem água. Seus olhos se fecharam, e ela cambaleou. Pelo visto, o humor de Joseph estava melhorando.
E ela precisou de muito esforço para não dar meia-volta, envolvê-lo pelo pescoço e colar a boca faminta na dele.

Obviamente, havia a criança a considerar.

Mas e quanto àquela noite? Quando tudo estivesse tranquilo, e Bonnie já houvesse sido colocada na cama, Joseph tentaria beijá-la outra vez. E se a carícia fosse um terço do que eles já tinham compartilhado...

De súbito, a realidade se impôs mais uma vez. Joseph estava entediado, irritado. Queria apenas preencher o tempo, do mesmo modo como faria com qualquer mulher que considerasse atraente. Não importava o que ele pudesse dizer, fazer ou oferecer; ela precisava se lembrar de que se encontrava ali por pura conveniência.

— Acho melhor eu dar aquele telefonema — falou, já recomposta.

E sentiu o momento em que ele parou, pensativo, um instante antes de o calor de seu corpo evaporar às suas costas. Em seu andar fluido, Joseph contornou a mesa e, com os ombros largos muito eretos, acomodou-se na mesma cadeira em que estivera sentado antes.

— Se seu celular estiver sem sinal, fique à vontade para tentar usar o meu.

Ela agradeceu a oferta, depois rumou para a sala a fim de acomodar Bonnie no bebê-conforto. Com os olhinhos brilhantes e uma expressão satisfeita, a menina não deu um só pio.
Demetria acariciou-lhe a cabeça por um momento.

— Importa-se em cuidar dela um pouquinho? Só vou demorar um minuto.

Joseph desviou o olhar do papel, alarmado.

— E se ela chorar?
— Isso tudo é pânico?

Enquanto o rosto moreno perdia um pouco da cor, Demetria rumou para o quarto onde tinha guardado seus pertences, sorrindo. Não estava preocupada que a criança fosse chorar. Se isso acontecesse, apesar de suas reclamações, Joseph saberia lidar com ela. E, se não lidasse, ora, a ajuda estaria a dois segundos de distância. Ela precisava dar aquele telefonema, e precisava de total concentração enquanto estivesse conversando com Kate.
Na privacidade do quarto, ligou o celular, observando as barras de sinal. Respirou fundo, então discou.
Sempre eficiente, Kate atendeu no segundo toque.

— Algum problema, Demi?
— Mais ou menos. Não vou conseguir ir para aí hoje e, talvez, nem amanhã.
— Está doente?
— Não. Estou presa no Colorado.
— Ah, a neve... Vi alguma coisa sobre o clima maluco por aí. Seu voo foi cancelado?

Demetria sentiu o estômago se apertar. Não podia mentir. A honestidade andava de mãos dadas com o respeito, e Kate merecia a verdade.

— Perdi meu voo, mas por uma boa razão. — Após um suspiro, ela contou sobre a espera por um táxi, depois a surpresa de encontrar o criança, a necessidade de permanecer até que ela se encontrasse em boas mãos. — O problema é que a neve continua caindo, estamos sem eletricidade, e acho que as autoridades não vão conseguir vir buscar Bonnie antes de amanhã.
— Alto, lá. Quem é Bonnie?
— A criança.
— Eu não sabia que você a conhecia.
— Não conheço. É que ela tem olhos azuis incríveis, e nós concordamos em batizá-la com um nome que combinasse com ela.

— “Concordamos”? Quer dizer, alguém do hotel? Estou confusa.
— Na verdade, estou hospedada em uma cabana particular, um pouco distante da cidade.
— Mas não conhece ninguém no Colorado.
— Joseph também estava no táxi quando encontramos o bebê.
— Vai ficar no meio do mato com um homem que não conhecia até ontem? Espero que ele seja uma pessoa decente!

Demetria mordeu o lábio.

— A maior parte do tempo.
— Agora estou mais preocupada.
— Não se preocupe. Estou aqui por livre e espontânea vontade.
— Sei. O sujeito é bonito, pelo menos?
— Isso não tem nada a ver com..
— Ele é sexy ou não?

Demetria suspirou.

— É.
— Quem é esse cara, afinal?

Aquilo ela poderia responder muito bem.

— Joseph Jonas, dos Hotéis Jonas. Fez-se um silêncio, seguido por um longo assobio.
— O solteirão mais cobiçado de New York? Aquele homem lindo, rico, carismático e...
— ...que tem fama de mulherengo, amoral e que venderia até a avó para fechar um negócio. Esse mesmo.
— Enfim, o verdadeiro demônio disfarçado! Aquele por cujo tridente as mulheres fazem fila para ser cutucadas... Não que fosse ser tão estúpida a esse ponto.

Demetria sentiu o peito se apertar. Kate não precisava saber a respeito de seus deslizes. Aquele beijo... Aqueles impulsos terríveis.

— A reputação dele não tem nada a ver com o que está acontecendo aqui.
— Meu Deus, claro que não! Deve sei difícil ficar no mesmo ambiente que um homem cuja única preocupação é o próprio umbigo. Quando me lembro de que ele fechou aquele centro comunitário a fim de construir no terreno outro de seus arranha-céus de luxo! Ele não mencionou nada sobre o negócio do Colorado?

Ela estaria falando sobre o hotel que Joseph pretendia comprar? O do proprietário cujo único filho havia falecido?

Demetria abraçou a si mesma, trêmula.
Sabia onde a chefe estava querendo chegar.

— Kate, eu não poderia colocar na imprensa algo que ouvi em off aqui.
— Sabe que admiro sua ética, Demi, mas adoraria saber como uma pessoa pode passar pela vida sem ter um pingo de consciência. Bater o martelo para fechar um negócio é uma coisa... Culpar um pobre homem publicamente pela morte do próprio filho, a fim de enfraquecê-lo até que ele baixe seu preço, é uma vergonha!

Demetria deixou cair o queixo.

Não tinha ouvido falar naquela história até o momento e achou difícil acreditar nela, mesmo sendo a respeito de Joseph.

Mas será que não estava sendo ingênua?


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Tem mais 1 capítulo !!!

bjss