21/10/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 6







Na manhã seguinte, Joseph despertou bem antes de suas hóspedes. Além das janelas voltadas para o Sul, a neve continuava a cair, e tudo parecia mergulhado em um profundo mar de branco. Ele iria precisar de uma pá para que pudessem ultrapassar a porta da frente e, sem sombra de dúvida, as estradas deviam estar intransitáveis.

A Assistência Social não viria naquele dia, o que significava que, por enquanto, continuaria sozinho com o bebê e Demetria Lovato... a qual, a despeito de seus escrúpulos, havia passado a noite inteira ao seu lado.

Ao lembrar-se de sua respiração tranquila, do calor sedutor de sua pele, ele se inclinou com cuidado sobre o rosto delicado. Demetria estava com as mãos unidas sob o queixo, como se orando. Uma massa do cabelo escuro lhe caía sobre o ombro, tal qual uma estola ao redor da vibrante seda vermelha do pijama. Cílios longos e curvados descansavam sobre as faces coradas. Seus lábios estavam ligeiramente separados... e quase irresistíveis.

Respirou fundo, sentindo o sangue bombear mais quente e mais rápido nas veias. Quanto mais tempo ele permanecesse ali, mais rijo e ansioso iria ficar. Queria correr os dedos por aqueles cabelos compridos, sedosos... Queria trazê-la para mais perto e roubar um beijo. Demetria era tão quente e doce que ele precisava prová-la mais uma vez.

Alongando as costas, olhou ao redor. O fogo se extinguira, e a luz sobre o bar continuava apagada. Ainda estavam sem eletricidade, o que significava que não poderiam contar com o telefone fixo. E era tarde demais para desejar ter mandado substituir o gerador que pifara no ano anterior.
Correu o olhar pelo balcão da cozinha. Será que o celular havia recuperado o sinal?
Caminhando na ponta dos pés, ele apanhou o aparelho e tentou ligá-lo. Nada.

A tela em branco o fez se lembrar de um detalhe, e Joseph franziu a testa. Demetria contava com uma boa razão para não ter voltado a Nova York naquela manhã, porém podia ter pelo menos enviado uma mensagem quando tivera a chance. Aqueles “cinco minutos” que esperara acabaram virando o restante da noite.

Conhecendo a história de Demetria, de como ela crescera sob a custódia do Estado, ele compreendia sua decisão de permanecer até que a situação da criança fosse resolvida. E, sem a sra. Dale por perto, devia dar graças a Deus por Demetria ter insistido em ficar. Ele não teria dado conta da bagunça, do choro e da atenção constante de que uma criança precisava. Em relação àquele tipo de coisa, era um verdadeiro fracasso.

Por isso mesmo era solteiro, livre e solto e planejava se manter assim. Sua família ria de sua determinação, dizendo que ele mudaria de atitude quando a mulher certa aparecesse; porém, ele não estava tão certo disso. Gostava demais de sua liberdade. Sem dizer que ser a ovelha negra em relação àquele assunto sem dúvida tinha suas vantagens. Seus irmãos eram bons empresários, porém sua prioridade sempre eram suas respectivas famílias, o que o deixava responsável por consertar qualquer problema que, eventualmente, pudesse afetar os negócios. Todos possuíam um cargo dentro da empresa, mas, por ele ser solteiro, ser presidente dos Hotéis Jonas era o seu; ainda que pessoas que lessem revistas sensacionalistas — ou que escreviam para elas... pudessem considerá-lo pouco mais do que um mulherengo egocêntrico.

Joseph sentiu um arrepio ao olhar para a lareira apagada. Precisava acender o fogo, mas não queria fazer nenhum ruído. Até porque o bebê não tinha dado um só pio nas últimas horas, olhou o relógio de pulso .. dez horas!

Pé ante pé, ele se agachou ao lado do berço improvisado. Os bracinhos roliços se encontravam para fora das cobertas, e as bochechas da menina estavam rosadas. Ele nunca vira um rosto mais angelical. Ela poderia se passar uma boneca de porcelana, não fosse o leve movimento em seu peito.
Demetria havia dito que não seria fácil lhe dizer “adeus”, e tinha razão, pensou Joseph, com um sorriso no canto dos lábios. Aquela menina era mesmo uma graça.

Sentiu os músculos do estômago se contraindo e se pôs de pé outra vez. Era fome. Precisava comer, afinal nem tinham jantado na noite anterior.

Estava na cozinha quando o celular tocou. O sinal estava de volta!, percebeu, mergulhando no balcão a fim de atender logo ao chamado. Avançou para o fundo do corredor, então, falando apenas quando já se encontrava no escritório.

— Perdido na nevasca?

Joseph relaxou ao escutar a voz. Não era ninguém da Assistência Social, e sim Thomas, seu irmão mais novo: um eterno gozador e o irmão de quem ele se sentia mais próximo.

— Estou prestes a sair com o limpa-neve.
— Parece divertido.

Lembrando-se das hóspedes que ainda dormiam na sala de estar, Joseph cruzou a sala até a janela com vista para a paisagem branca de abril e apoiou a mão no batente.

— Não seria de todo ruim.
— Cercado pela floresta, distante da sociedade... Vai acabar ficando com saudades do trânsito da cidade e do Starbucks.
— Nem me fale em café... Ainda não tive a chance de comer nada.
— Serei breve. Papai quer saber como foi a conversa com James Dirkins. Quando vamos fechar esse acordo?

Joseph deixou o braço cair do batente.

— Preciso de mais tempo. — A linha começou a chiar, a voz de Thomas soou entrecortada, e ele apertou mais o fone na orelha.

— O que disse?

— Eu disse que tenho certeza de que papai está adorando deixar essa negociação por sua conta! Em se tratando de negócios, você pode fazer um espinho de ouriço descer tão suave como gelatina.

Ele era, realmente, um bom negociador. Mas bastava manter a emoção sob controle, refletiu. Cabeça fria era fundamental.

Ainda assim...

Lembrou-se da expressão distante e pensativa de Dirkins no dia anterior. Ele parecia relutante em se desfazer da herança do filho falecido.
Por algum motivo, uma imagem de Demetria segurando o bebê lhe invadiu os pensamentos.

— Dirkins tem uma forte ligação com o lugar e posso até compreender por quê.
— O quê?! Desde quando questões pessoais interferem nas suas estratégias de negócio?

Ele franziu as sobrancelhas.

— Desde nunca. Apenas fiz um comentário.

O silêncio pareceu ecoar do outro lado da linha.

— Você está bem, Joseph? Parece diferente.
— Estou ótimo. Mais do que ótimo. — Ele atravessou o escritório e abriu uma fresta da porta, pensando ter ouvido o neném. — Diga ao papai que assinaremos esse contrato ainda esta semana — decidiu, aguçando os ouvidos enquanto espiava o final do corredor.
— Joseph, tem alguém com você?
— Aham.
— Uma mulher?
— Duas. — Joseph riu ao ter a impressão de que Thomas deixara cair o telefone. Mas, antes que viessem as perguntas, ele o interrompeu — É uma longa história.
— Não seja por isso... Tenho alguns minutos.

Ele deixou o escritório sorrindo.

— Desculpe, irmão. Tenho que desligar.




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Já já tem outro >.<

Bjs



Um comentário:

Sem comentários ........... sem capítulos!