01/10/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 1






Frio. Imperturbável. Nada abalava Joseph Jonas.

Para ele, a nevasca fora de época em Denver, naquela tarde, era mais um presente pitoresco do que uma inconveniência. O revés daquele dia, em relação à sua última aquisição, era outro desafio, não um motivo para queixa. Alcançar um objetivo envolvia esforços, Joseph disse a si mesmo enquanto vestia o casaco, agradecia à concierge e apanhava a pasta. Ele precisava ser apenas mais... inventivo. Essa era a palavra.

No entanto, sua paciência sempre era posta à prova quando se tratava da imprensa. A reportagem tosca do mês anterior fora no mínimo risível, levando a crer que ele não passava de um demônio que deixava famílias carentes sem teto a fim de expandir seu império do mal. E o que não dizer daquele outro artigo recente, questionando o modo como ele lidara com uma atriz ambiciosa com quem vinha se encontrando? Sem exceção, ele tratava as mulheres com respeito, mas, desde o princípio, ele e Ally haviam concordado em manter um relacionamento “divertido e casual”, e não um do tipo “se eu não vir um anel de diamante, vou expor seus segredos de alcova”. 

Como se chantagem pudesse funcionar com ele!...

Ao contrário de seu pai e irmãos, ele não dava a mínima para o que as pessoas pensavam. Naquele fim de tarde de primavera, contudo, conforme ele se afastava da entrada do hotel, escancarava a porta de trás do táxi e se fechava no interior aquecido, a calma de Zack se foi, e ele deu um pulo no assento. Levou um momento para se recompor e estudar sua inesperada companhia antes de se inclinar para a frente e tocar o ombro do motorista.

— Seu último passageiro esqueceu uma coisa...
O taxista torceu o tronco.
— A carteira?
— Não — murmurou Joseph. — Um bebê.

A outra porta traseira se abriu nesse instante. Uma lufada de ar gelado invadiu o carro, com uma mulher vestindo um casaco vermelho-cereja com capuz. Ela colocou uma frasqueira combinando no colo e tratou de bater a porta contra os ventos uivantes. Assoprou ar quente nas mãos em concha e, só então, sua atenção se voltou para ele. Sob a capa vermelha, olhos curiosos, cor de violeta, deslizaram da cadeirinha infantil para Joseph, depois de volta para o bebê.

Ele estudou o rosto perfeito, os olhos incomuns, e sentiu o peito se aquecer. Não conhecia a moça, porém algo em seu olhar cintilante o fez se perguntar se ele já a havia visto.
Ou talvez assim ele desejasse.

— Eu estava com tanta pressa que não vi você entrar — justificou ela, já pondo a mão na alça da frasqueira. — Na verdade, não conseguia ver muita coisa... Que loucura, não? Essa nevasca, quero dizer.
Um sorriso lento curvou um lado da boca de Joseph conforme ele a observava.
— Uma loucura mesmo.
— Faz séculos que a concierge chamou um táxi para mim. Por isso decidi vir até a calçada para ver se eu conseguia algum

O sorriso de Joseph desapareceu. Ele tinha roubado o transporte dela?... Quando checara na recepção, poucos minutos antes, eles também lhe haviam chamado um táxi. Ao deixar o saguão do hotel, ele imaginara ser aquele o seu.
Inclinou-se mais uma vez e falou com o motorista. Preferia enfrentar aquele problema ao outro, do bebê esquecido.

— Está atendendo a alguma chamada?
— Acabei de deixar outro passageiro no aeroporto. — O homem por detrás do volante puxou mais a boina marrom sobre a testa antes de mexer no contador. — Pensei em passar por aqui e tentar a sorte... Ninguém sai nesse frio, a menos que precise muito.
— O aeroporto! — Chapeuzinho Vermelho também se inclinou para a frente. — É para lá que estou indo. Preciso voltar a Nova York para uma entrevista, amanhã bem cedo. Sou repórter da Story Magazine. — Sua expressão radiante dizia: “Já ouviram falar, não ouviram?”
Fingindo-se impressionado, Joseph assentiu com um gesto de cabeça.
— Claro — respondeu, um momento antes de ela empurrar para trás o capuz. A sombra que lhe emoldurava o rosto se foi, então, e ele se esqueceu de respirar.

Além do rosto impecável, cujas faces pareciam tingidas por um adorável rosa, a moça tinha uma pele tão perfeita quanto porcelana. Os cabelos, na verdade uma massa luxuriante deles, lhe caíam como um manto de zibelina sobre os ombros retos e pequenos. Seus olhos cor de violeta eram tão cintilantes que sua luz penetrava em lugares que ele nem sabia existir.

Joseph respirou fundo. Já saíra com muitas beldades, mulheres que chamavam a atenção e que se sentiam à vontade para exercer seu poder sobre o sexo oposto. Mas não se lembrava de ter conhecido alguém cuja companhia o deixara sem ar.

E não apenas por conta de algo tão superficial quanto a aparência. As profundezas daqueles olhos claros... A maneira altiva e ao mesmo tempo inocente com que ela ouvia e falava...
Aquela mulher brilhava. Era simples assim.

Após a improdutiva reunião daquele dia com o proprietário daquele hotel, estivera pronto para jogar a toalha e voltar para casa, ou melhor, para sua cabana de dois andares, na qual ele congelava sempre que passava pela cidade. Mas a deliciosa Chapeuzinho estava, obviamente, com muita pressa e ansiosa por deixar Denver e seu clima maluco para trás. Portanto, ele ficaria feliz em bancar o cavalheiro e esperar por outro táxi... O que também deixaria para ela e o motorista a decisão do que fazer com o bebê, o qual, por sorte, continuava dormindo, tranquilo. Até demais!

Joseph o observou com mais atenção, controlando o impulso de verificar cada dedinho enrolado sob a coberta, a fim de ter certeza de que se encontravam quentes.
Chapeuzinho também olhou o bebê.

— Parece que tem uma pequena com quem se preocupar. Ela é linda! Vou pedir à concierge que verifique onde foi parar o meu táxi...

Quando se virou para segurar a maçaneta da porta, Joseph a segurou pela manga. Chapeuzinho não podia ir embora! Ela havia entendido tudo errado.
Ela se voltou, alerta, e ele lhe soltou o braço, deixando escapar uma risada rouca, ao mesmo tempo em que olhava para o bebê.

— Esse bebê não é meu.
— Muito menos meu! — resmungou o taxista.

A moça piscou dois pares de cílios longos, e seus lábios estremeceram, como se quisessem sorrir, mas não se atrevessem a tanto.

— Ela me parece pequena demais para estar viajando sozinha.

"Ela."

— Como sabe que é uma menina? — Joseph precisou perguntar. A cadeirinha, a manta e o gorro que a cobriam eram tão brancos como a neve que se acumulava na calçada e na rodovia.
— Bem, o rostinho dela é tão doce!... — Com uma expressão enternecida, Chapeuzinho passou as costas da mão sobre a cabeça protegida do bebê, e os lábios miúdos se moveram como se já esperando pelo jantar. — A boquinha parece um botão de rosa... Bem-feitinha e minúscula. Ela é delicada demais para ser um menino.
O motorista tamborilou os polegares sobre o volante.
— O relógio está correndo, pessoal.
— É claro. — Recompondo-se, Chapeuzinho se afastou. — Vou deixá-los ir, agora.

Pela segunda vez, naquele dia, a calma de Joseph foi para o espaço. Ele sentiu a boca seca e o suor brotar na parte de trás do pescoço. Deveria terminar aquela tarde com um bom brandy em frente à lareira, e não lidando com uma encrenca daquele tamanho! Ele nem sequer gostava de bebês... Ou, melhor dizendo, os bebês não gostavam dele.

— O que vamos fazer com ela? — perguntou, preocupado.
— Nada de “vamos”, companheiro. — O taxista engatou a marcha.
— Eu já disse que ela não é minha — falou Joseph, num tom grave.
Chapeuzinho inclinou a cabeça, e uma onda de fios escuros se derramou sobre seu ombro.
— O que ela está fazendo aqui, então?
— Não faço a menor ideia. Quem foi seu último passageiro? — indagou ele ao motorista.
— Um homem de 80 anos que usava bengala. Ele ia voar para Jersey a fim de ver a família, e não estava carregando nenhuma cadeirinha de bebê! — A expressão do taxista dizia claramente: “Não sei qual é o seu problema, filho, mas não tente despejá-la em mim!”

Joseph soltou um grunhido. Quantas vezes precisaria dizer que o bebê não era seu?
Chapeuzinho, ao menos, pareceu acreditar nele. Seu rosto perdeu toda a cor, como se cada gota de sangue houvesse drenado para seus pés.

— Acha que alguém a abandonou? — A pergunta saiu num sussurro, como se ela temesse falar as palavras em voz alta.
— Acho que as autoridades vão ter que descobrir isso.

Joseph não estava gostando daquela situação. Nem um pouco. Ele não sabia nada a respeito de bebês e pretendia permanecer daquela maneira.

Mas, naquele caso... Inferno, que escolha tinha? Chapeuzinho estava morrendo de pressa e, sem mais ninguém por perto, ele era o único que poderia fazer alguma coisa. Só Deus sabia como aquela criança havia ido parar no banco de trás do táxi.
Joseph deixou o olhar percorrer o corpinho adormecido, os lábios rosados, o nariz minúsculo, e sentiu o coração se apertar.

— Vou levá-la para a delegacia de polícia — falou em voz baixa, temendo acordar a menina e vê-la chorar. — Assim eles poderão acionar a Assistência Social.
— Mas eles podem demorar séculos para vir buscá-la!
— Eu só sei que um bebê não dorme para sempre, e eu não costumo carregar fraldas no bolso.
Chapeuzinho procurou ao pé do cobertor.
— Há uma mamadeira aqui. E também algumas fraldas.
— Os policiais da delegacia local ficarão agradecidos.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Com certeza... Eternamente agradecidos.

Joseph estreitou os olhos. O que ela queria? Não importava o quanto aquela criança era linda. Ele era um empresário, pelo amor de Deus, não uma babá!
O motorista ajustou o espelho retrovisor.

— Devo deixar os dois pombinhos num café para que possam resolver isso?
— Não há pombinho nenhum aqui! — Joseph agarrou a maçaneta da porta com mais força.

Chapeuzinho sustentou seu olhar pelo que pareceu uma eternidade antes de inflar as narinas delicadas e erguer o queixo. Então estendeu o braço e cobriu a mão dele com a sua.
A sensação daquela mão pressionando a dele fez a pulsação de Joseph disparar. De repente, ele teve uma profunda consciência do perfume leve e cítrico que emanava dela, e de que não havia nenhuma aliança em sua mão esquerda. A ideia de que ela era solteira e disponível brincou com seus sentimentos.

Dedos afilados se moveram sobre os dele, parecendo injetar calor em sua mão. A sensação era deliciosa, tentadora... E seus pensamentos borbulharam com imagens que nada tinham a ver com um bebê. Exceto, talvez, com a possibilidade de eles fazerem um.

— Pode ir embora — anunciou ela enquanto segurava a maçaneta. — Vou voltar para dentro do hotel com ela. Não consigo imaginar esta criança esperando em uma delegacia de polícia. Sabe lá Deus que tipo de gente pode estar à espreita por lá.

Joseph abriu a boca para protestar. Chapeuzinho ainda precisava pegar seu voo.
Por outro lado, ele não poderia discordar a respeito da delegacia de polícia. Aquele não seria o melhor ambiente para um bebê que iria precisar de muita atenção tão logo despertasse. Além do mais, seu instinto — que raramente falhava — lhe dizia que aquela moça era competente e confiável. A criança estaria em boas mãos até que as autoridades competentes a assumissem.
Depois disso...

Joseph sentiu uma pontada no estômago, apertou a mandíbula e endireitou os ombros. Depois disso, sem dúvida a mãe iria aparecer, toda chorosa, porém aliviada, e a família teria uma boa história para contar no 21° aniversário da menina.

Por hora, contudo, Chapeuzinho iria precisar de ajuda para lutar contra a neve e escapulir com o bebê para dentro do hotel.
Ele mudou de posição.

— Vou ajudá-la a voltar lá para dentro.
— Não há necessidade.

Antes que ele pudesse insistir, ela abriu a porta. Com a frasqueira pendurada em um dos braços, fez um aceno na direção da entrada do hotel com a mão livre.
Joseph olhou pela janela traseira. Em meio a redemoinhos de neve, um porteiro uniformizado se aproximou, trazendo um guarda-chuva gigantesco a fim de protegê-la do mau tempo.
Ele suspirou.

James Dirkins, o atual proprietário daquele hotel, havia recusado sua primeira oferta em nome dos hotéis Jonas. Naquele momento, porém, ele se viu mais determinado do que nunca. Quando fechasse o negócio e comprasse o hotel, sua primeira providência seria mandar cobrir aquela entrada. Era uma coisa tão básica!... Não era à toa que o movimento ali andava baixo.

Após entregar a pequena frasqueira ao porteiro, Chapeuzinho deslizou para fora do carro. Ao menos teve a consideração de lhe lançar um rápido sorriso de despedida antes que o rapaz fechasse a porta e  Joseph a visse se encolher junto ao bebê, para depois desaparecer em meio ao branco.

— E então, vai para o aeroporto, amigo?
— Não — ele murmurou, com o olhar ainda na nevasca. — Vou para outro endereço.
— Quer que eu adivinhe?...

Joseph não escutou a provocação, entretanto. Chapeuzinho...
Ele nem sabia o nome dela!

— Poderia comprar o seu próprio táxi pelo modo como esse relógio está ticando! — comentou o motorista. — Não que eu possa reclamar...

Joseph aguçou os ouvidos, sentiu o estômago se contrair e endireitou o corpo. Eram as rajadas de vento, do lado de fora, ou ele ouvira o choro do bebê?
Fechou os olhos com força, contou até três, porém sua ansiedade só fez aumentar.
Droga.

Dificilmente Joseph Jonas se sentia encurralado e abatido daquela maneira.
Soltou um grunhido, pegou a carteira, deixou cair uma nota no banco da frente e ordenou ao motorista:
— Espere aqui enquanto for preciso. Eu voltarei.

Demetria Lovato sabia no que tinha se metido. Seriam horas de espera e de preocupação em uma cidade onde não conhecia ninguém. No entanto, conforme andava sobre o piso de mármore polido a caminho do lindo balcão de madeira da recepção do hotel com a criança pesando no braço, não se arrependeu de sua decisão. Os assistentes sociais faziam o melhor que podiam, mas, normalmente, era uma burocracia sem fim, e os recursos, muito poucos. Em um piscar de olhos, ela havia se candidatado a uma vaga naquele departamento, mas sua experiência pessoal em relação ao assunto lhe dizia que aquilo não iria dar muito certo. Existiam tantas crianças negligenciadas e abandonadas no mundo!... Ela iria querer levar todas para casa.

Demetria observou o bebê que dormia, e a emoção tomou conta dela, comprimindo-lhe a garganta. Ninguém pedia para ser abandonado. Ninguém merecia ser abandonado, muito menos aquele anjinho.
Isso se aquele fosse mesmo um caso de abandono.

Um ruído de passos ecoando no mármore soou atrás dela, e Demetria deu meia-volta. O homem do táxi — o que tinha olhos tão escuros quanto a meia-noite, a voz de barítono aveludada e um sorriso que lhe parecera muito familiar — corria até ela, desviando-se de hóspedes e funcionários do hotel, a cauda do sobretudo voejando às costas. Quando parou, uma mecha de cabelo escuro caiu sobre suas sobrancelhas bem-feitas, e ele baixou os ombros largos com um profundo suspiro.
Por um momento, ela se sentiu meio sem ar. Da cabeça aos pés, assim como em todo o restante, ele era um exemplo e tanto de espécime masculino.

E lá estava de novo: aquela impressão de que ela já o conhecia... e de que não devia confiar nele.
O homem decidiu se apresentar e, de repente, todas as peças daquele quebra- cabeça se encaixaram como mágica.

— Eu me esqueci de dizer... — ele explicou, com um sorriso de lado. — Sou Joseph Jonas.

Demetria arregalou os olhos, sentindo os músculos do estômago se apertar.
Claro! Em pé sob a forte iluminação, quem poderia duvidar daquele corpo sólido, daquela aparência hollywoodiana, daquele ar autoritário? Pessoalmente, o Sr. Jonas era um pecado de tão sexy. E, pelo que ela havia lido, também um idiota, ganancioso e egoísta.
Mas não iria acusá-lo disso tudo ali, naquele momento. Não era nem o lugar nem a hora de ela dizer ao ilustre Sr. Jonas o que pensava dele.
Tratou de respirar fundo, suavizar a expressão e se apresentar.

— Meu nome é Demetria Lovato.
— Srta. Lovato — ele murmurou, parecendo tão arrogante quanto em suas várias aparições como celebridade, fosse de peito nu em seu iate ou todo sofisticado e invencível em terno e gravata. — Pensei melhor na situação e decidi ajudar.

Demetria observou sua expressão solidária e perguntou o óbvio:

— Por quê?

Uma ponta de cautela cintilou nos olhos escuros antes que ele voltasse a sorrir.

— Porque tenho algum tempo livre, e você precisa voltar para Nova York.

Demetria absorveu o sorriso inebriante, branco e convidativo. O mesmo sorriso que a intrigara dentro do táxi. Aquela mesma expressão devia ter seduzido algumas das mulheres mais bonitas do país... e convencido muitas autoridades a trocar casas populares por lucro.
Só de pensar em empresários egoístas e gananciosos como Joseph Jonas, quando tantas pessoas passavam por privações, ela sentia o sangue ferver!

E isso a levava de volta àquela pessoinha que tanto precisava de sua ajuda no momento. De quem era aquele bebê? Qual seria sua história?

Demetria suspirou.

Não conseguia imaginar que alguém houvesse tentado se livrar daquela criança. Ela era tão perfeita, tão linda!...

— Preciso pegar um voo mais tarde — explicou Jonas. — Posso não ser um especialista em se tratando de cuidar de bebês, mas é possível que eu saiba mais sobre o assunto do que você.

Como assim? Não era da natureza das mulheres ser instintivas acerca de questões maternais como alimentar e acalmar um bebê? Claro que devia haver exceções, mas...

Joseph Jonas cruzou os braços, numa indicação sutil de que ela deveria capitular e se pôr a caminho de Nova York. Demetria pousou a cadeirinha e fez o mesmo.

— Eu não vou embora enquanto não tiver certeza de que ela está bem.
— Tenho uma casa não muito longe daqui e...
— Eu já disse que não.

Bebês precisavam de cuidados e atenção constantes. Precisavam de amor. E ela não estava muito certa de que Jonas possuísse um coração.

— Meus vizinhos costumam cuidar da cabana quando estou fora — ele insistiu. — A Sra. Dale é avó de dez crianças. E já foi mãe adotiva.

Demetria disfarçou um estremecimento.

A despeito de sua experiência pessoal, devia haver uma porção de mães adotivas maravilhosas.
Ainda assim, não pôde evitar a própria reação. Durante anos as palavras “mãe adotiva” tinham sido o equivalente a “mãe-monstro” graças à desagradável Nora Earnshaw.

— A Sra. Dale administrava a própria creche até pouco tempo atrás. Ainda tem toda a parafernália: cadeiras altas, carrinhos... Tenho certeza de que ela ficaria feliz em ajudar. — Os olhos escuros brilharam. — Não vai querer perder sua entrevista, vai?

Demetria abriu os punhos cerrados. O trabalho era mais importante para ela do que qualquer outra coisa, pois lhe dava a chance de viajar e conhecer muita gente interessante e inspiradora.
Indivíduos que tocavam a vida dos outros de muitas maneiras. Após viver em uma pequena cidade de Ohio por muitos anos, estava amando trabalhar em Nova York. Tinha feito amigos lá. Tinha construído uma vida.

Sua profissão era terrivelmente competitiva, entretanto, e, naqueles tempos difíceis, estava difícil conseguir trabalho. Com três colegas demitidos na semana anterior devido a mais cortes no orçamento, ela não poderia se arriscar.

Mas agora havia aquele bebê.

Enquanto clientes e funcionários do hotel se movimentavam sua volta, Demetria olhou para a criança e sentiu o coração se apertar. Não confiava em Joseph Jonas. O quanto ele conhecia daquela vizinha, a tal Sra. Dale?, perguntou-se, agoniada. Sua mãe adotiva também sempre dera a impressão de que seria capaz de morrer pelos filhos, e isso sempre fora uma tremenda mentira.

— Como pode ter certeza de que essa sua vizinha milagrosa vai estar em casa? — indagou, desconfiada.
— Os Dale são caseiros, e eu fiquei aqui na cidade por alguns dias. Quando passei por lá, esta manhã, pouco antes de a neve começar a cair, a sra. Dale estava voltando para casa, após levar um dos netos para passear.

Demetria mordeu o lábio e olhou ao redor, absorvendo o agitado saguão do hotel: a recepcionista solícita, o porteiro aguardando pacientemente nas proximidades, a concierge em sua mesa, pronta a correr para qualquer cliente e ajudar.

— Vamos ficar aqui. É um bom hotel, os funcionários são excelentes e...
— A melhor coisa para esse bebê é ficar com alguém que entenda de crianças. — A voz de Jonas soou baixa e profunda, com uma ponta de desafio. Contudo, ele não parecia irritado. Apenas determinado.

E, caramba, ele estava certo? Eles não faziam ideia de quanto tempo as autoridades levariam para resolver o caso. Se ela colocasse sua própria experiência e suas suspeitas de lado, a Sra. Dale poderia ser exatamente o que o bebê precisava naquele momento.
E, para ser justa, o quanto de sua relutância tinha a ver com o que era melhor para a criança, e o quanto tinha a ver com suas próprias questões pessoais e com sua antipatia pelo senhor Jonas?...

Demetria olhou para o bebê que ainda dormia e cedeu, por fim.

— Está bem. Vamos.
— Vamos?
— Eu já disse que quero ter certeza de que ela está sendo bem cuidada antes de eu ir embora. — Os traços de Joseph Jonas eram fortes, clássicos. Seus olhos negros, sombreados por longos cílios, eram os de alguém que se sentia tão à vontade consigo como com os outros.

Porém, também eram extremamente vigilantes, atentos. A marca de um homem que detinha o poder e era feliz com isso.
Demetria viu outro sentimento em seu olhar, no entanto. Seria respeito?

— Nesse caso — ele prosseguiu —, é melhor irmos logo, antes que o nosso taxista nos apronte uma boa e acabe cobrando ainda mais.

Ambos buscaram a alça do bebê-conforto e, quando suas mãos se encontraram, pele contra pele, Demetria sentiu o rosto corar e o sangue correr mais rápido pelas veias.
Com a mecha de cabelo caindo sobre a testa, Joseph ergueu o olhar e sorriu para ela.
Demetria tratou de controlar os hormônios e se endireitou.

— Antes de irmos, acho justo que eu admita: eu sei quem você é.
Ele levantou mais o queixo.

— Mas eu disse quem eu era.
— Eu leio, assim como todas as outras pessoas, Sr. Jonas. O senhor ajuda a administrar a rede de hotéis da sua família... e faz o que for preciso para conseguir o que quer. — Ela hesitou, entretanto não conseguiu se controlar. — E também se orgulha de seduzir belas mulheres.

O sorriso congelou no rosto moreno.

— Parece que entrou para o meu fã-clube.
— Para deixar as coisas bem claras, estou concordando com isso apenas porque acredito que é a melhor opção para o bebê.
— Não é porque sou implacável e irresistível?

Ela sentiu o coração dar um salto e lutou contra a vontade de umedecer os lábios secos.

— Definitivamente, não.

Ele pareceu próximo demais, quente demais, e seus olhos cintilaram, penetrando os dela.

— Bem, agora que tirou isso da frente, é melhor irmos andando. A menos que...

Demetria sentiu seu alarme interno disparar.

— A menos que o quê?
— Que possamos resolver isso agora mesmo.
— Isso o quê?
— Imagino que esteja com vontade de chutar a minha canela, de me dar um tapa, um murro no nariz...

Demetria sentiu a tensão nos ombros se desvanecer. Por um momento ela havia pensado...
Ah, aquilo era ridículo.

— Vou tentar me controlar — respondeu, seca.
Ele inclinou o rosto para fitá-la, como se vislumbrando um canto bem escondido de sua alma.
— Srta. Lovato, não achou que eu fosse fazer algo inusitado como puxá-la para os meus braços e beijá-la, achou?

Ela sentiu as bochechas pegando fogo.
O homem era ultrajante!

— É claro que não!
— Mas, se eu sou o imbecil que está imaginando... Como pode ter certeza?
— Dificilmente sou seu tipo. E, mesmo que fosse, depois dessas últimas semanas de publicidade nada positiva, não iria querer chamar a atenção para mais um incidente. — Ela deixou o olhar confiante passear pelo ambiente agitado.
— Estamos em público. Todo mundo tem celulares hoje em dia, e todos os celulares têm uma câmera.

Os olhos escuros perderam o brilho, e ele assumiu uma expressão quase predatória.

— Acha mesmo que eu me importo com boatos?
— Não, não acho. Mas talvez devesse se importar.

Um sorriso diabólico tornou a se espalhar no rosto moreno.

— Está certo. Talvez eu devesse. — Ele avançou um passo, aproximando-se com perigo enquanto seu olhar capturava o dela. — Ou talvez devesse dar ao mundo algo de que falar de verdade.


5 comentários:

  1. Gostei kkk
    Continue postando, se não vou ficar louca se não ler mais disso kk
    Beijos••

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  2. Ai que lindo ❤️❤️❤️
    Adorei tudo
    Joe e demi caíram numa imboscada kkk...
    Posta logo bebê
    Beijos

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  3. Muitoo boom
    Ja podr postar mais *-*

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  4. Oiee quanto tempo
    Bom agora vou acompanhar direitinho a fic
    Eu tinha lido o primeiro capitulo da outra e tinha amado ela tbm aonde vai ser postada a outra???
    Enfim essa ta tão amorzinho
    Eles cairam numa emboscada bem feita kkkkk
    Posta logoooo
    Beijos!!!

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  5. que perfeitoooooo ♥
    posta logo <3

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Sem comentários ........... sem capítulos!