21/10/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 7






Joseph encontrou Demetria ainda dormindo e a menina deitada, quietinha, como se esperando que alguém percebesse que ela havia acordado. Quando ele se inclinou para olhá-la, o azul vibrante de seus olhos o capturou, e ele esboçou um sorriso.

A criança não sorriu de volta. Tampouco caiu no choro, embora franzisse de leve as sobrancelhas, como se não estivesse lá muito confortável.

Joseph esfregou o queixo. Talvez ele pudesse mudá-la um pouco de posição; quem sabe erguê-la de leve.

Com cuidado, introduziu a mão sob suas costas e a tirou no mesmo instante. Ah, Deus, ela estava molhada, ou melhor, encharcada!
Tenso, ele olhou para Demetria, que ainda dormia.

— E agora? O que eu vou fazer com você?

A menina apenas o fitou, os dedinhos se mexendo acima da manta.

Joseph coçou a têmpora. Ficava aflito só de pensar naquelas roupinhas ensopadas, mas não fazia ideia de como trocar a criança. Cada pessoa tinha seu limite, e aquele era o seu.
Correu os dedos pelo cabelo, então limpou a garganta com força. Não de propósito...
E, enquanto o bebê continuava de cenho franzido para ele, como se ele fosse algum tipo de quebra-cabeça, Demetria respirou fundo e despertou, esticando um braço. Instantes depois, sentou-se, os olhos cor de violeta muito redondos e assustados. Seus olhares se encontraram, e ela jogou para trás a massa espessa de cabelos, expondo o rosto.

— Não foi um sonho!

Joseph trocou a posição dos pés.

— Não... É a pura realidade. E ela está molhada.

Demetria atirou longe as cobertas e se arrastou até o berço improvisado. Como se a menina soubesse quem era a única pessoa que segurava uma mamadeira por ali, franziu o nariz e soltou uma espécie de miado, num protesto.
Demetria levou as mãos ao rosto.

— Ah, pobrezinha!... Ela deve estar morrendo de fome!
— Há uma questão mais urgente.
— Preciso trocá-la?
— Exatamente.
— Não quer tentar?...
— Costumo admitir meus defeitos.
Balançando a cabeça, Demetria apanhou a criança.

Joseph a vira com o mesmo pijama na noite anterior, mas, à luz brilhante da manhã, o impacto era ainda maior. A camisa e a calça dançavam no corpo esguio. Não havia nem mesmo uma sugestão de curvas à vista. As pernas da calça eram tão compridas que se amontoavam ao redor de seus pés, as mangas lhe passavam da ponta dos dedos, a frente era abotoada quase até o pescoço e, mesmo assim, era o pijama de mulher mais sexy que ele já tinha visto.

Recuou a fim de dar espaço a Demetria, a atenção voltada para o rosto delicado, agora marcado de um lado pelo travesseiro. Apesar disso, ela parecia descansada e desperta. Conforme Demetria sorriu para o bebê, seus olhos capturaram a luz da manhã e cintilaram tal qual duas ametistas.

Se não tomasse cuidado, um homem poderia ficar hipnotizado por aqueles olhos, concluiu Joseph.
Demetria esfregou o nariz no da menina.

— Acho que vou dar um banho nela. Pode me ajudar?
— Assim que eu terminar a mamadeira.

Dessa vez, ele não recebeu nenhum olhar de censura. Ela apenas se afastou com seu embrulhinho em direção à lavanderia. Pelo modo como sorria e balbuciava com a criança, já havia se esquecido da exaustão da noite anterior e estava pronta a fazer tudo de novo.

O que era ótimo porque, a menos que ele estivesse muito enganado, iriam repetir aquele ritual inúmeras vezes nas horas seguintes.

Pouco tempo depois, Demetria entrou na cozinha trazendo a bebê já banhada e vestida. Joseph parou de sacudir o bico sobre o pulso. Após beijar a testa da menininha que já choramingava de fome, ela sorriu.

— Apontar... — falou, sentando-se na poltrona e apanhando a mamadeira. — Fogo!

Um pouso perfeito, seguido de um ruído tranquilo de sucção, mais uma vez reinou, soberano.
Conforme a bebê mamava, Joseph puxou sua habitual cadeira da sala de jantar e, a uma distância segura, acomodou-se para assistir à cena.

Quando a mamadeira já estava pela metade, ocorreu-lhe que ele devia estar entediado. Com certeza, aquela novidade já devia ter perdido seu apelo. De maneira alguma ele ficaria sentado, observando qualquer outra criança sendo amamentada.

E, no entanto, ali estava ele, fascinado por cada movimento daquela criança. Como seus olhinhos azuis ficavam sonolentos, a forma como seus dedinhos apertavam a mamadeira, tal qual um gatinho unhando uma coberta macia...

Claro que ele não podia ligar a TV em seu canal de esportes favoritos, nem acompanhar as notícias no laptop, sem bateria. Mas, mesmo que tivesse outras coisas para fazer, decerto teria aberto mão delas.
Estava prestes a sugerir que Demetria colocasse o bebê para arrotar, quando ela tirou a mamadeira e pôs a menina na posição vertical. Em um piscar de olhos, ele foi e voltou com uma toalha de mão.
Por favor, Senhor, faça com que ela não ponha tudo para fora desta vez!...

Após alguns momentos de massagem e tapinhas, a criança os recompensou, expelindo uma quantidade razoável de ar.

Joseph suspirou, aliviado.

— Boa menina!

Trinity se recostou à poltrona.

— Acho que estamos pegando o jeito.

Ele sentiu o peito inchar, mas aquelas duas eram o time principal. Ele, apenas um reserva.
O que era novidade. Normalmente, era ele quem se sentava no banco do condutor. No escritório, ele dava as ordens, e os outros obedeciam Nos relacionamentos, ele ditava o tom e os parâmetros. Gostava de se relacionar; porém, nos próprios termos. Dessa forma, conseguira se manter bem-sucedido, assim como solteiro. Uma combinação que lhe servia muito bem.

— Estive pensando...

Joseph desviou o olhar dos lábios cheios de Demetria e se obrigou a voltar à realidade.

— No quê?
— Seria errado dar um nome a ela enquanto estamos aqui? É esquisito chamá-la de “bebê” o tempo todo.
— O que está imaginando?
— De que nomes de menina você gosta?

Joseph franziu a testa, pensativo.

— Eu gosto de Bonnie. “Bonnie Blue Eyes”. É uma canção.

Trinity tornou a baixar o olhar para a criança e sorriu com mais suavidade e carinho do que nunca.

— Também gosto desse nome.

E ele gostava do modo como Demetria prendia o lábio entre os dentes quando ficava feliz; da maneira como seus olhos se iluminavam

Droga. Gostava até mesmo do modo como ela o desafiava, cutucando-o sobre assuntos do passado e suas decisões em negócios que ela nem conhecia realmente!
Joseph piscou e sentiu que franzia a testa. Eram reflexões demais para seu gosto.
Caminhou até a lareira e tratou de selecionar lenha da pilha ao lado.

— Seu celular está com sinal? — indagou Demetria.
— Recebi um telefonema pouco antes de vocês duas acordarem.
— Da Assistência Social? — A voz dela soou esperançosa, porém um pouco preocupada.
— Tenho certeza de que o bebê estará em boas mãos quando não estiver mais conosco.
— Eu adoraria conhecer sua história... Saber o que aconteceu com a mãe dela.

Ele também. Mas não podiam fazer nada a respeito no momento.
Joseph ajeitou a lenha no fogo e mudou de assunto.

— Meu irmão Thomas telefonou. Ele queria saber como estávamos nos virando neste tempo e também a quantas andava o negócio que estamos tentando fazer com o Hotel Dirkins.

A ficha caiu para Demetria.

— Então era por isso que estava lá, ontem à tarde... Para fechar um contrato.
— Ainda não chegamos a esse ponto. O proprietário está brigando pelo preço.
— É justo.
— Seria se o hotel valesse o que valia antes. O problema é que a construção precisa de uma reforma descomunal: de um novo encanamento e de uma entrada coberta, só para começar.
— Talvez ele não queira vender.
— Ele vai vender. Precisa apenas de algum tempo. Dirkins está pensando com o coração, não com a cabeça.
— Que desastre...
— Se quiser obter sucesso nos negócios, sim, é um desastre. — Mesmo quando era compreensível que fosse assim, ele pensou, remexendo as chamas fracas. — James Dirkins construiu esse hotel na década de 1970 e queria deixá-lo para o filho.
— E o que aconteceu para ele mudar de ideia?

Joseph deixou o atiçador de lado.

— O rapaz morreu recentemente. E de modo trágico, parece.

Demetria suspirou, e Joseph percebeu que ela aconchegava mais a menina junto ao peito.

— Coitado, Joseph. É claro que ele deve estar pensando com o coração. Deixe-o em paz... O que é um hotel a mais ou um a menos para você?

Ele respirou fundo. Demetria vivia pronta a atacá-lo.

— Foi Dirkins quem nos procurou, não o contrário. E eu quero muito comprar esse hotel.

Ela baixou os olhos enquanto refletia.

— Por conta do apego que sente pela região?
— Em parte.
— E isso não é pensar com o coração... ?

Ao ver as chamas devorando a lenha, Joseph se pôs de pé.

— Foi um comentário inteligente, mas não é bem assim. É claro que gosto desta região, mas não costumo investir em um empreendimento sem ter certeza de sua viabilidade.

Se ele acabasse oferecendo um pouco mais do que o hotel valia, seria uma decisão com base em retornos futuros, não em sentimentos. Esse tipo de atitude poderia colocar um empresário em apuros, pois ele corria o risco de errar no julgamento.

Joseph olhou Demetria e a criança mais uma vez, então se dirigiu para o escritório.

Bom senso. Era disso o que precisava e o que tinha de manter.



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Hey... desculpe a demora.

Dessa vez tenho um bom motivo ... eu estava fazendo entrevistas de emprego durante a semana, nem que seja algo só para o fim de ano.. então foi tudo muito corrido, e essa semana talvez será também se eu tiver resposta de algumas delas. Bom, de qualquer forma, me desejem sorte, vou precisar ;)

Prometo que se estiver tudo calmo, posto outro amanhã >.< 

Bjs



Papai por um Tempo - Capítulo 6







Na manhã seguinte, Joseph despertou bem antes de suas hóspedes. Além das janelas voltadas para o Sul, a neve continuava a cair, e tudo parecia mergulhado em um profundo mar de branco. Ele iria precisar de uma pá para que pudessem ultrapassar a porta da frente e, sem sombra de dúvida, as estradas deviam estar intransitáveis.

A Assistência Social não viria naquele dia, o que significava que, por enquanto, continuaria sozinho com o bebê e Demetria Lovato... a qual, a despeito de seus escrúpulos, havia passado a noite inteira ao seu lado.

Ao lembrar-se de sua respiração tranquila, do calor sedutor de sua pele, ele se inclinou com cuidado sobre o rosto delicado. Demetria estava com as mãos unidas sob o queixo, como se orando. Uma massa do cabelo escuro lhe caía sobre o ombro, tal qual uma estola ao redor da vibrante seda vermelha do pijama. Cílios longos e curvados descansavam sobre as faces coradas. Seus lábios estavam ligeiramente separados... e quase irresistíveis.

Respirou fundo, sentindo o sangue bombear mais quente e mais rápido nas veias. Quanto mais tempo ele permanecesse ali, mais rijo e ansioso iria ficar. Queria correr os dedos por aqueles cabelos compridos, sedosos... Queria trazê-la para mais perto e roubar um beijo. Demetria era tão quente e doce que ele precisava prová-la mais uma vez.

Alongando as costas, olhou ao redor. O fogo se extinguira, e a luz sobre o bar continuava apagada. Ainda estavam sem eletricidade, o que significava que não poderiam contar com o telefone fixo. E era tarde demais para desejar ter mandado substituir o gerador que pifara no ano anterior.
Correu o olhar pelo balcão da cozinha. Será que o celular havia recuperado o sinal?
Caminhando na ponta dos pés, ele apanhou o aparelho e tentou ligá-lo. Nada.

A tela em branco o fez se lembrar de um detalhe, e Joseph franziu a testa. Demetria contava com uma boa razão para não ter voltado a Nova York naquela manhã, porém podia ter pelo menos enviado uma mensagem quando tivera a chance. Aqueles “cinco minutos” que esperara acabaram virando o restante da noite.

Conhecendo a história de Demetria, de como ela crescera sob a custódia do Estado, ele compreendia sua decisão de permanecer até que a situação da criança fosse resolvida. E, sem a sra. Dale por perto, devia dar graças a Deus por Demetria ter insistido em ficar. Ele não teria dado conta da bagunça, do choro e da atenção constante de que uma criança precisava. Em relação àquele tipo de coisa, era um verdadeiro fracasso.

Por isso mesmo era solteiro, livre e solto e planejava se manter assim. Sua família ria de sua determinação, dizendo que ele mudaria de atitude quando a mulher certa aparecesse; porém, ele não estava tão certo disso. Gostava demais de sua liberdade. Sem dizer que ser a ovelha negra em relação àquele assunto sem dúvida tinha suas vantagens. Seus irmãos eram bons empresários, porém sua prioridade sempre eram suas respectivas famílias, o que o deixava responsável por consertar qualquer problema que, eventualmente, pudesse afetar os negócios. Todos possuíam um cargo dentro da empresa, mas, por ele ser solteiro, ser presidente dos Hotéis Jonas era o seu; ainda que pessoas que lessem revistas sensacionalistas — ou que escreviam para elas... pudessem considerá-lo pouco mais do que um mulherengo egocêntrico.

Joseph sentiu um arrepio ao olhar para a lareira apagada. Precisava acender o fogo, mas não queria fazer nenhum ruído. Até porque o bebê não tinha dado um só pio nas últimas horas, olhou o relógio de pulso .. dez horas!

Pé ante pé, ele se agachou ao lado do berço improvisado. Os bracinhos roliços se encontravam para fora das cobertas, e as bochechas da menina estavam rosadas. Ele nunca vira um rosto mais angelical. Ela poderia se passar uma boneca de porcelana, não fosse o leve movimento em seu peito.
Demetria havia dito que não seria fácil lhe dizer “adeus”, e tinha razão, pensou Joseph, com um sorriso no canto dos lábios. Aquela menina era mesmo uma graça.

Sentiu os músculos do estômago se contraindo e se pôs de pé outra vez. Era fome. Precisava comer, afinal nem tinham jantado na noite anterior.

Estava na cozinha quando o celular tocou. O sinal estava de volta!, percebeu, mergulhando no balcão a fim de atender logo ao chamado. Avançou para o fundo do corredor, então, falando apenas quando já se encontrava no escritório.

— Perdido na nevasca?

Joseph relaxou ao escutar a voz. Não era ninguém da Assistência Social, e sim Thomas, seu irmão mais novo: um eterno gozador e o irmão de quem ele se sentia mais próximo.

— Estou prestes a sair com o limpa-neve.
— Parece divertido.

Lembrando-se das hóspedes que ainda dormiam na sala de estar, Joseph cruzou a sala até a janela com vista para a paisagem branca de abril e apoiou a mão no batente.

— Não seria de todo ruim.
— Cercado pela floresta, distante da sociedade... Vai acabar ficando com saudades do trânsito da cidade e do Starbucks.
— Nem me fale em café... Ainda não tive a chance de comer nada.
— Serei breve. Papai quer saber como foi a conversa com James Dirkins. Quando vamos fechar esse acordo?

Joseph deixou o braço cair do batente.

— Preciso de mais tempo. — A linha começou a chiar, a voz de Thomas soou entrecortada, e ele apertou mais o fone na orelha.

— O que disse?

— Eu disse que tenho certeza de que papai está adorando deixar essa negociação por sua conta! Em se tratando de negócios, você pode fazer um espinho de ouriço descer tão suave como gelatina.

Ele era, realmente, um bom negociador. Mas bastava manter a emoção sob controle, refletiu. Cabeça fria era fundamental.

Ainda assim...

Lembrou-se da expressão distante e pensativa de Dirkins no dia anterior. Ele parecia relutante em se desfazer da herança do filho falecido.
Por algum motivo, uma imagem de Demetria segurando o bebê lhe invadiu os pensamentos.

— Dirkins tem uma forte ligação com o lugar e posso até compreender por quê.
— O quê?! Desde quando questões pessoais interferem nas suas estratégias de negócio?

Ele franziu as sobrancelhas.

— Desde nunca. Apenas fiz um comentário.

O silêncio pareceu ecoar do outro lado da linha.

— Você está bem, Joseph? Parece diferente.
— Estou ótimo. Mais do que ótimo. — Ele atravessou o escritório e abriu uma fresta da porta, pensando ter ouvido o neném. — Diga ao papai que assinaremos esse contrato ainda esta semana — decidiu, aguçando os ouvidos enquanto espiava o final do corredor.
— Joseph, tem alguém com você?
— Aham.
— Uma mulher?
— Duas. — Joseph riu ao ter a impressão de que Thomas deixara cair o telefone. Mas, antes que viessem as perguntas, ele o interrompeu — É uma longa história.
— Não seja por isso... Tenho alguns minutos.

Ele deixou o escritório sorrindo.

— Desculpe, irmão. Tenho que desligar.




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Já já tem outro >.<

Bjs



12/10/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 5






E tal constatação apenas provava, mais uma vez, que ele não se encontrava pronto para aquilo tudo. Não se importava em ajudar um pouco, mas nada, nem ninguém, poderia convencê-lo de que ele se encontrava preparado para aquele tipo de coisa: casamento... filhos. Definitivamente, ele gostava da sua vida do modo como era.

— Sr. Jonas, há mais uma coisa...

Joseph apanhou a toalha do suporte e escutou.

Depois de alguns segundos, olhou a tela do celular de cenho franzido. Droga! Tinha perdido o sinal.
Outro galho caiu sobre o telhado, num baque surdo, violento. Então as luzes piscaram, uma, duas vezes, e a montanha-russa daquela noite tomou outro rumo.
No térreo, o refrigerador deu um tranco e desligou. A única luz, que emanava do bar, se apagou. Não fosse o fogo bruxuleante na lareira, a sala toda teria mergulhado na escuridão.
Demetria lembrou-se de respirar.

Obviamente, a tempestade prejudicara as redes elétricas. O apagão poderia durar algumas horas, ou, talvez, apenas alguns minutos. Por sorte o bebê dormia, e a cozinha era equipada com queimadores a gás que poderiam aquecer o leite.

Ainda assim, ela prendeu o lábio inferior entre os dentes conforme afundava mais na coberta e trazia seu calor até o queixo. Com os olhos arregalados, esquadrinhou a sala cheia de sombras assustadoras. A verdade era que detestava ficar no escuro desde pequena.

Um momento depois, algo roçou seu braço, e ela virou a cabeça, sentindo a alma quase deixar o corpo com o susto. Enquanto estrangulava a coberta junto ao pescoço, reconheceu os traços que brilhavam à luz do fogo e soltou um longo suspiro.
Sua pulsação parecia bater todos os recordes de aceleração. Quem mais poderia ser?

— Você está bem? — indagou a voz profunda de Joseph, em meio às sombras que dançavam.
Ela tratou de adotar uma expressão blasé.
— Claro.
— Parece assustada.
— Só porque eu estava sentada aqui, com todas as luzes apagadas e essa tempestade rolando lá fora? Escolheu o momento certo para se esgueirar até mim.
— Posso segurar a sua mão.

Ainda que Joseph estivesse brincando, a necessidade de Demetria de se encolher quase foi sobrepujada pela vontade de se inclinar para a frente e implorar: Sim, por favor!
Ela dominou o impulso, porém, ergueu o queixo e, fingindo calma, apanhou a taça ao lado.

— Não preciso de ninguém para segurar minha mão.
Observou os traços angulosos, a coluna espessa do pescoço, depois seu olhar desceu mais.

Piscou, franzindo a testa. Quando se deu conta do que via, sentiu o corpo formigar.

— O que está vestindo?...

Joseph olhou para baixo como se só então houvesse se lembrado, depois respondeu o óbvio:

— Uma toalha.

Ela tentou concordar com casualidade, como se não fosse grande coisa que aquele Adonis de cabelos escuros estivesse agachado ao seu lado, com o peito descoberto, praticamente nu. Bastaria o menor movimento daquelas coxas maciças que, com a ajuda da luz vinda da lareira, nada seria deixado para a imaginação.

Não que Joseph estivesse preocupado com os próprios trajes. Afinal, devia ter exibido aquele corpo para mulheres que mal conhecia inúmeras vezes. E aqueles braços...
O olhar de Demetria pousou no bíceps mais próximo, e ela engoliu em seco outra vez.
Era como se o corpo dele tivesse sido talhado em bronze polido.

E Joseph cheirava tão bem!... Era um perfume fresco, uma combinação de folhagens e almíscar.
Respirou fundo, os dedos coçando para acariciar os músculos firmes de seu abdômen, as palmas das mãos ansiosas por apalpar e acariciar aqueles peitorais incríveis.
Mas, então, Joseph se pôs de pé, e a toalha que lhe envolvia os quadris estreitos só não foi ao chão por milagre.

— Quer um pouco? — indagou, indolente.

A atenção de Demetria saltou do peito largo para o rosto moreno. Mais precisamente, para o sorriso brilhando nos olhos escuros.
Ela sentiu o queixo pender feito caramelo derretido. Estava tão fascinada que não conseguiria responder a nenhuma pergunta. Podia apostar que Joseph tinha plena consciência disso, portanto não podia fingir que não o havia escutado.
´
— Um pouco do quê?
— Do vinho. — O sorriso dele se alargou.

Ela colocou a taça de lado.

— É melhor eu não abusar.

Ele riu, fazendo menear seu tanquinho.

— De vez em quando é bom relaxar um pouco, Demetria.
— Prefiro me manter sóbria e equilibrada.
— Sóbria e equilibrada... — Ele sustentou seu olhar por um inquietante momento, depois resmungou qualquer coisa e rumou para o bar. — E então, foi muito ruim? — perguntou enquanto se servia de uma segunda taça de vinho.
— O quê?
— A separação. — Joseph lançou-lhe um olhar compreensivo por sobre o ombro nu. — Imagino que sim, e que seja recente.

Demetria sentiu o rosto pegar fogo. Por sorte, Joseph não podia vê-la.

— Que diabo o levou a perguntar isso assim, do nada? — Apesar de afrontada, ela precisava saber.
— Sua atitude. E a minha experiência.
— Com as mulheres?
— Sem dúvida.
— Desculpe desapontá-lo, dr. Phil, mas não tenho tempo para namoros.
— Ah, isso é um problema.
— Se for, não é da sua conta.

Joseph caminhou de volta, a toalha escorregando mais a cada passo. Tomou um gole da bebida, estudando-a até Demetria perceber o rubor se espalhando por todo o corpo.
Ela se endireitou num desafio.

— Essa é mais uma de suas táticas? Avultar-se sobre as pessoas, tentando fazê-las se sentirem pequenas diante de você?

Podia ser imaginação sua, mas uma parcela significativa do corpo moreno, logo abaixo do nó da toalha, pareceu se avolumar em resposta, ao mesmo tempo em que ele exalava o ar com força.

— Deve ter sido bem ruim, mesmo.

Demetria se retesou. O instinto lhe dizia para rir, para que mandasse Joseph para o inferno com aquele vinho e suas perguntas.
Mas aquela era a casa dele.

E, droga, ele estava certo. “Ruim” era pouco para definir seu último relacionamento.
Ela afundou mais nos travesseiros.

— Ele era gentil, atencioso e um excelente ouvinte. Mas não gostava de crianças.

Joseph inclinou a cabeça.

— Foram tão longe assim?
— Ele não chegou a me propor casamento se é o que quer dizer. Mas acho que o fato de se estremecer à mera menção da palavra “criança” já diz muito sobre uma pessoa.
— Sei que corro o risco de estar defendendo o vilão da história, mas os homens costumam ter certa dificuldade em relação a esse assunto.
— Por quê?
— Porque, se um homem fica cheio de coisas em relação a crianças, algumas mulheres podem ver isso como um sinal de que ele quer...
— Compromisso?
— Exatamente. — Ele apontou para a coberta. — Importa-se se eu me juntar a você? É claro que eu vou me livrar da toalha antes...

Demetria prendeu a respiração, porém Joseph estava apenas brincando outra vez.

— Imagino que a frase certa seja “vou vestir algo mais apropriado antes”.
— Pode ser — concordou ele, afastando-se.

Mais relaxada, Demetria se aconchegou em sua cama improvisada, sentindo-se grata pela luz do fogo, bem como por seu calor. Sem eletricidade, o aquecedor também devia ter desligado, a menos que fosse alimentado por gás, como o fogão.
Claro que sempre existia uma possibilidade de se compartilhar calor humano...
Ela sentiu uma pontada nas entranhas e afundou mais sob a coberta.
Nem pense nisso!, repreendeu a si mesma.
Quando Joseph voltou, usava uma calça de cordão e uma camiseta larga e meio amassada que devia ter encontrado na lavanderia.
— Dei uma olhada lá fora. A neve diminuiu um pouco, mas não é uma noite para se andar por aí. Com sorte, isso será possível amanhã se o céu estiver mais claro e a eletricidade voltar. Como o fogão, o aquecedor e a água são alimentados por gás; não vamos congelar. As mamadeiras e o banho quente do bebê também estão garantidos. — Joseph olhou para o fogo. — A mulher da Assistência Social telefonou, pouco antes de as luzes se apagarem. Assegurou que vai cuidar da questão tão logo for possível.

Demetria disse a si mesma que deveria ficar aliviada. Precisava seguir com a própria vida, voltar para Nova York. Mas não conseguia deixar de pensar sobre o futuro daquela criança. Onde estariam seus pais?
Joseph se acomodou a seu lado, pegou a manta e se cobriu até a metade do corpo com um arrepio.

— Está um frio danado lá fora. E escuro à beça. Não me lembro de qual foi a última vez em que ficamos sem luz.
— É uma droga ficar sem luz. — Além de assustador, murmurou a criança dentro dela.

Joseph pareceu ler sua mente.

— O clima está perfeito para se contar histórias de fantasmas...

Demetria estreitou os olhos para encará-lo.

— Meus irmãos mais velhos têm filhos. Esse tipo de entretenimento eu até posso oferecer para a criançada, mas trocar fraldas... prefiro deixar para quem é especialista.
— Não nasceu para ser pai?
— Pensei que já tivesse notado.

Demetria mudou de posição, colocando-se de lado. Gostaria de saber mais sobre a família dele.

— Com que frequência costuma ver seus sobrinhos?
— Sem contar Natal, Páscoa, aniversários e outras tantas reuniões de família? O tempo todo. E não me importo. Eles são ótimos. O que me irrita na minha família é ouvir que preciso sossegar.
— Talvez eles só queiram ver você feliz.
— Eu não pareço feliz?
— Como todo solteirão convicto, sim. Mas sua família deve ficar tonta com o número de mulheres que vivem penduradas no seu braço.
— Ainda bem que a vida é minha, e não deles. — Joseph se inclinou para trás, entrelaçou os dedos atrás da cabeça outra vez e mirou algum ponto distante além do teto. — E quanto a você?
— Estou tranquila e feliz com meu trabalho.
— E solteira depois do rompimento.
— Sim
— Imagino que vá querer se amarrar e ter filhos em algum momento. Tem um talento especial com bebês.

Demetria sentiu o coração se apertar e mirou o fogo. Quando percebeu que Joseph a fitava com intensidade, explicou:

— Gosto de crianças. Principalmente de bebês.
— Isso é óbvio.
— O problema é que não tenho nenhuma família com quem contar. Tenho bons amigos, mas ninguém em que eu confiaria o bastante para deixar um filho caso alguma coisa acontecesse. Não tenho nada contra a adoção, mas a vida é feita de escolhas, e escolhi não ter meus próprios filhos.

Ela olhou da lareira cintilante para Joseph.
Com um vinco entre as sobrancelhas, ele se pôs de lado e, apoiado em um braço, colocou o queixo sobre a mão.

— Não quer se casar nem ter filhos? Pensei que tivesse dispensado seu último namorado porque ele não gostava de crianças.
— É verdade. Mas, você, por exemplo... Pode não querer ser pai, porém adora seus sobrinhos e sobrinhas. Gosta deste bebê?
— Quem não gostaria?
— Pois, então... Posso não querer ter filhos, mas não passaria a vida com alguém que pensa que as crianças são uma perda de tempo e de espaço.

Joseph torceu os lábios.

— Aposto que ele também não gostava de cachorros.
— Nem de gatos.
— Fez muito bem em se livrar dele. E quanto sua vida profissional? No que está trabalhando?
— Ainda vou ser editora-chefe da melhor revista do país. Dominar o mundo é basicamente meu objetivo... Enquanto isso, pretendo ficar longe de donos de hotéis com o rei na barriga.

A provocação nos olhos de Joseph assumiu uma nova forma. Seu sorriso de lado evanesceu, e eles pareceram entrar em outro tipo de sintonia. O crepitar do fogo soou mais alto, e a respiração de Joseph, mais intensa. Subindo e descendo à luz bruxuleante, a pulsação em seu pescoço pareceu se acelerar, e, como se num transe, Demetria percebeu o próprio corpo reagindo. Sentiu os seios ganharem vida, inchando, se aquecendo, e um calor gostoso se espalhando pelo ventre. Viu os lábios de Joseph se entreabrindo, seus olhos, escurecendo ainda mais. Ele estendeu a mão, correu um dedo por seu queixo, e o calor dentro dela desceu mais, numa deliciosa tortura.

Quando Joseph afastou a mecha de cabelo que lhe caíra sobre a testa e a tocou no rosto, foi como se todo o oxigênio da sala tivesse desaparecido. Repentinamente pesadas, as pálpebras de Demetria se fecharam, ao mesmo tempo em que seu corpo, sua própria essência, gravitava em sua direção. Com as luzes apagadas, na companhia daquele homem extraordinário que ela mal conhecia, tudo parecia tão irreal, tão... iminente. Ela não queria pensar sobre quem ele era; que, antes daquele dia, ela não teria lhe dedicado nem sequer uma hora de seu tempo. Naquele momento, porém, Joseph Jonas parecia simplesmente irresistível.

— Seu cabelo — ele falou, com a voz rouca. — Uma mecha se soltou do coque.
— Ah... Pensei que quisesse me beijar.
— As palavras brotaram de seus lábios como se tivessem vida própria.

A pulsação no pescoço de Joseph pareceu ainda mais acelerada, e ela prendeu a respiração.

— Na verdade, eu quis fazer isso a noite toda... — Ele se inclinou sobre sua boca e a roçou de leve, primeiro de um lado, depois do outro. — O problema é que, se eu começar a beijá-la, acho que não vou conseguir mais parar!

Demetria estremeceu da cabeça aos pés e deixou de lado qualquer escrúpulo.
Quem, ali, queria parar?
Mas, então, seus pensamentos deslizaram de volta para o que os levara até ali.

— E o bebê?
— Está certa — concordou Joseph, ainda de olhos fechados. Mesmo assim, aproximou-se mais, e sua boca tornou a acariciar a dela. — Precisamos pensar em nossas responsabilidades...

Ele permaneceu onde estava e, conforme seu perfume a invadiu, Demetria não conseguiu se lembrar de uma única razão pela qual não devesse espalmar a mão sobre aquele ombro largo e trazê-lo para mais perto.

Quando Joseph provou o canto de sua boca numa carícia deliberada e poderosa, uma dor deliciosa inundou seu âmago, e os últimos resquícios de bom senso se foram Ela teria sorte se conseguisse se lembrar do próprio nome.

Ele deslizou a ponta da língua por seus lábios.

— Talvez devêssemos ficar apenas abraçados. Você sabe... Para nos mantermos aquecidos — justificou, porém Demetria percebeu seu sorriso.

Quando o queixo áspero roçou a lateral de seu rosto, e ele lhe beijou a concha da orelha, ela soube que não iria suportar.

— Seria ótimo ficarmos abraçados... — disse com a voz rouca, tonta de desejo.

Sentiu uma palma quente deslizar pela lateral do corpo. Ouviu um suspiro, o próprio e, logo depois, Joseph a beijava com paixão, e com uma habilidade inata que a deixou em choque.
Enquanto sua língua lhe penetrava a boca e se entrelaçava com a dela, tudo, a não ser uma espécie de êxtase, pareceu evaporar. O beijo era quente, profundo, emocionante. Joseph inclinou mais a cabeça, seu corpo cobriu o dela, e Demetria se rendeu por completo, deixando-se esmagar por seu peso.

Com a boca ainda colada à dela, ele deixou escapar um grunhido de prazer, ao mesmo tempo em que a envolvia num abraço. Demetria espalhou os dedos nas costas largas enquanto seu pé se arrastava pela perna sólida e seus quadris o pressionavam, ansiosos.
O beijo se aprofundou ainda mais. Joseph esfregou o corpo no dela, a ereção pressionada contra sua barriga, e Demetria soltou um gemido, tentando segurá-lo.

Uma tora estalou ao cair no leito de brasas, e o assobio das faíscas a trouxe de volta à realidade com um sobressalto. Quando ela virou a cabeça e interrompeu o beijo, Joseph se ergueu de leve para fitá-la. Tinha a respiração entrecortada, e seu olhar parecia ainda mais escuro. Um gemido vibrou no peito largo enquanto o olhar dele devorava seus lábios, e ele baixava a cabeça mais uma vez. Insegura, ela se manteve quieta. Também havia se deixado levar, mas será que queria fazer amor com um homem que deveria desprezar, ainda mais com um bebê dormindo a alguns metros de distância?
Os lábios entreabertos de Joseph se distanciaram alguns milímetros, e Demetria engoliu em seco.
Joseph deixou escapar uma espécie de grunhido e rolou para longe.

Ela sentiu o coração afundar dentro do peito, e a garganta parecia obstruída com as mais desencontradas emoções. Ele estava desapontado. Frustrado. E ela, deprimida por ter levado aquilo adiante. Podia sentir-se fisicamente atraída por ele, mais do que se sentira em relação a qualquer homem, entretanto não tinha ido até ali em busca de sexo. E pretendia deixar aquela casa do mesmo modo como havia entrado.

Afinal, o arrependimento costumava durar bem mais do que o prazer.


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Falei que hoje tinha capítulo >.< 
Esses dois hein gente ............... kkkkk ~ vou ficar quieta 

Bjss



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Papai por um Tempo - Capítulo 4








Com o terceiro arroto, uma boa parte do leite voltou.

E a única coisa a fazer "banhar a criança, agora aos berros " foi feita às pressas, na pia da lavanderia.
Demetria achou a tarefa um tanto escorregadia, mas quando, por fim, o bebê se recuperou de seu mal-estar, pequenos chutes, água por todos os lados e gritinhos de felicidade acabaram tornando a tarefa agradável.

Após enxugar, passar talco e trocar a menina, vestindo-a com um dos macacõezinhos comprados na cidade, Demetria decidiu trocar a própria blusa por uma limpa.

Horas e horas de embalo, cantoria e sussurros, intercaladas com mais mamadeiras, se seguiram, então. Aquilo não era, claro, como assentar tijolos ou escavar buracos, mas a energia necessária para dar conta do recado era absurda. Demetria pensou em colocar a criança de volta na cadeirinha e torcer para que ela não reclamasse, porém aqueles olhos azuis a fitavam com tanta confiança que ela não teve coragem

Joseph ocupou-se em preparar o jantar — bife e salada —, no qual nenhum deles acabou tocando: Demetria, por estar ocupada demais com o bebê; ele, por se sentir culpado por comer quando ela não podia. Também improvisou uma espécie de berço em uma das poltronas reclináveis, o que proporcionou à pequena espaço mais do que suficiente.

Quando ela soltou um longo suspiro e adormeceu, com sorte, pelo restante da noite , Demetria a colocou na cama e observou a cena tranquila por um longo e grato momento. Então se arrastou, com os braços moídos pela exaustão, até o banheiro, disposta a tomar uma ducha quente.
Depois do banho, ficou em dúvida entre vestir o terninho de trabalho ou o pijama vermelho de seda cuja blusa e calças largas eram debruadas por um macio algodão penteado, com chinelos combinando.
Fácil decisão.

Na privacidade do quarto, optou pelo pijama, exausta demais para se preocupar se seu traje era apropriado para uma noite na companhia de um homem que ela conhecia apenas por reputação.
Má reputação, aliás.

Mas duvidava de que Joseph fosse ter energia para tentar seduzi-la.
Com os cabelos úmidos presos em um coque bagunçado, sentindo-se limpa e

pronta a se jogar num colchão, Demetria se arrastou de volta para a sala.
Parou ao pé da escada. Exceto pelas rajadas de vento soprando do lado de fora, a casa se encontrava estranhamente silenciosa, e a sala, às escuras, a não ser por um brilho que incidia na parede mais distante.

Demetria se aproximou, cautelosa. Por cima das poltronas, uma visão gloriosa se revelou: seu belo anfitrião agachado ao lado da lareira, remexendo as chamas crepitantes...
Uma cena hipnótica que a fez abrir os lábios em busca de um pouco mais de ar. Com as sombras se deslocando sobre o corpo e traços bem-feitos, Joseph pareceu sentir sua presença e ergueu a cabeça. Seu olhar se intensificou, depois percorreu cada centímetro dela: desde o coque meio solto até os chinelos de pompons vermelhos. Seu escrutínio foi tão deliberado, tão impudente, que teve o efeito de um toque.

E, mesmo naquele curto espaço de tempo, Demetria se sentiu mais mulher do que nunca. Mais desejável. Em um movimento fluido, Joseph se pôs em pé, pousou o atiçador na parede da lareira, depois se aproximou.

— Está pronta para ir para a cama...

As palavras baixas e roucas a envolveram conforme ele parou, a poucos centímetros de distância. Um instante mais tarde, quando o perfume de Joseph invadiu seus pulmões, Demetria estremeceu involuntariamente. A natureza sedutora das sombras, o poder flagrante de sua presença... Estava se sentindo tão deslocada no tempo e no espaço, tão fora de si que, se Joseph a tocasse naquele momento, que Deus a ajudasse, ela poderia se esquecer de tudo o que reprovava e derreter em seus braços.

— Você foi incrível. — O olhar dele desceu sobre seus lábios. — Deve estar exausta.

Sentindo a boca seca, Demetria tentou concatenar as ideias. Sim, ela estava exausta. Muito mais do que havia imaginado.

— Eu sabia que ela ia entregar os pontos.
— Pois tive minhas dúvidas. — Joseph olhou o bebê que dormia em seu berço improvisado. — Agora imagino que ela não vá acordar tão cedo.

— Tomara, pois acho que eu não vou conseguir cantar mais nenhum verso de “Nana, neném”!...

Ele fez um gesto de cabeça em direção à lareira.
Com os olhos mais ajustados à falta de luz, Demetria vislumbrou a colcha espessa jogada sobre as poltronas reclináveis e acompanhada de convidativos travesseiros brancos.

— Eu estava com vontade de tomar um bom conhaque diante do fogo desde as quatro horas da tarde... Não quer me fazer companhia?

A pulsação de Demetria se acelerou. Após ter passado as últimas horas sem descanso, com Joseph ajudando como podia, sentia-se um pouco menos hostil em relação a ele.
Mas não o suficiente para concordar em ficar deitada diante de uma lareira acesa, bebericando um copo de conhaque.
Antes que ela pudesse recusar, contudo, Joseph ergueu as mãos.

— Sei que pensa que eu não presto.
— Assim como qualquer outra pessoa que lê revistas ou navega na web.

Ele soltou um longo suspiro. Mesmo assim, manteve o sorriso sexy nos lábios.

— De qualquer forma, dou minha palavra de que não vou lançar mão da minha renomada técnica de sedução para tirar proveito da situação.
— E por que eu deveria acreditar em você?
— Porque não é meu tipo, lembra-se?...

Demetria fez uma pausa. Ela havia dito aquilo no hotel, e qualquer um que entendesse o significado do ditado “Os iguais se reconhecem” saberia que era verdade. Ela não podia negar o fato de Joseph Jonas ser sexy, irresistível... um conquistador nato.
Era melhor não se arriscar.

— Acho que vou preparar uma caneca de chocolate quente.

Quando ela fez menção de rumar para a cozinha, Joseph a impediu.

— Vamos agir civilizadamente e encontrar um meio-termo, então. Nada de conhaque nem de chocolate quente. Que tal um vinho tinto?
— Não gosta mesmo de ser contrariado, não é?

Esfregando a mão sobre o peito agora coberto com uma camiseta branca, Joseph soltou um gemido.

— Vamos, Dem, dê-me uma chance... Já é tarde. Nós dois estamos acabados. Podemos muito bem tomar uma bebida e relaxar um pouco antes de dormir.

Demetria suspirou.

Aquele era o papel de cachorrinho abandonado, um dos muitos do repertório de conquista de Joseph, ou ela estava superestimando seu próprio sex appeal? Ele já havia namorado modelos, estrelas de cinema e grandes herdeiras, não meninas de orçamento limitado, que moravam em estúdios no Brooklyn.

Droga. Talvez, bem no fundo, ela quisesse ver Joseph flertando com ela. Talvez até mesmo que ele a beijasse.
Perguntou-se o que seus amigos e sua chefe diriam. Afinal, todos eles sabiam como ela se sentia em relação a homens do tipo dele.
Por outro lado, Joseph tinha razão. Já era tarde. Eles estavam cansados. Ela bem que poderia baixar a guarda um pouco.

— Um conhaque iria me derrubar, com certeza. Mas um copo de vinho tinto seria ótimo.

À luz do fogo, os olhos escuros brilharam com um sorriso antes de ele caminhar até um armário que abrigava um pequeno bar.

Demetria o observou da cabeça aos pés. Com a camiseta branca e a calça de moletom preto que ele havia vestido ao chegar, Joseph parecia um atleta de elite. O tecido da camiseta aderia aos contornos dos ombros largos e tentadores com tanta perfeição que ela se perguntou que mulher se cansaria de olhá-lo. Suas pernas eram longas e, pelo modo como ele movia o corpo enquanto apanhava uma garrafa e as taças, indubitavelmente fortes.
Ela se acomodou sobre a manta. Cada fibra de seu ser pareceu relaxar e, ao mesmo tempo, se pôr em alerta. Decerto aquela não era uma atitude muito inteligente, mas, no momento, a sensação era celestial.

Joseph lhe trouxe uma taça, outra para si mesmo, e sentou-se a uma distância respeitável, a sua esquerda. Após inalar o bouquet do vinho, ela tomou um gole e sorriu, sentindo um delicioso calor deslizar pela garganta.

— Muito bom

Satisfeito, Joseph se inclinou contra os travesseiros e provou a bebida, apreciando o efeito do vinho.

— Precisamos comer alguma coisa.
— Por favor, vamos ficar sentados aqui, sem fazer nada, por pelo menos uns cinco minutos!
— Então deveria aproveitar e mandar uma mensagem de texto para sua chefe. Sabe que não vai conseguir voltar a Nova York para o café da manhã.

Demetria sentiu o estômago se apertar ao pensar em como iria explicar que precisava de um dia de folga, quando devia haver uma porção de gente louca para tomar seu trabalho.
Mesmo assim, fechou os olhos e suspirou, cansada demais para pensar naquilo.

Algum tempo depois, Demetria sentiu algo se movendo sobre sua cintura. Despertando do cochilo, deu um pulo. Além do crepitar suave do fogo e das sombras que bailavam, percebeu Joseph colocando uma manta sobre ela.

— Relaxe. Se ela acordar durante a noite, eu a trago para você — ele falou, recolhendo sua taça.

Lá em cima, algo se chocou com o telhado. Seria o vento chicoteando as telhas com um galho?
Ela afundou mais na poltrona e puxou a manta até o pescoço. Aquela nevasca estava ficando assustadora.

Enquanto o vento uivava como um animal selvagem do lado de fora, eles assistiram às chamas dançando e estalando na lareira. A atmosfera era mágica... hipnótica.

— Está dormindo? — falou Joseph, após algum tempo.
— Só estava viajando com as imagens do fogo.
— O que vê de tão interessante?
— Às vezes vejo animais. Em outras, rostos de pessoas.
— E esta noite?

Ela inclinou a cabeça e se perdeu mais uma vez no serpentear hipnótico das chamas.

— Estou vendo um bebê, mamadeiras... Decerto vou sonhar com tudo isso, também
— Não pensei que estivesse tão preocupada.

Demetria baixou o olhar. Não era óbvio?

— Ela é uma gracinha. Não vai ser fácil dizer “adeus”.

Com o canto dos olhos, ela o viu rodar o vinho nas mãos e pôde sentir o cheiro do bouquet.

— Imagine como os pais dela ficarão felizes.
— Verdade. — Demetria tentou afastar as dúvidas, sua própria experiência era de uma criança perdida que nunca fora resgatada, e esboçou um sorriso. — Vou tentar.
Joseph manteve uma expressão neutra.

Mesmo assim, não podia ter se sentido mais abalado pelo comentário. Desde o início, Demetria Lovato tinha feito coisas curiosas com seu natural equilíbrio; até mesmo ao pôr as garras de fora contra ele.

E ficar sentado ali, conversando e brincando com ela diante da lareira, só o tornara ainda mais consciente disso. Apesar de Demetria reprovar seu estilo de vida com base nas notícias daqueles tabloides, ele podia dizer que se sentia muito atraído por ela. Queria chegar mais perto, puxá-la para si. Maldição, ele queria beijá-la!... E do modo mais lento e ardente. A expressão alerta nos olhos claros de Demetria, o modo como ela baixava a guarda... Demetria iria objetar se ele a pegasse e arrastasse para a cama?

A tentação era real, porém ridícula. Ele já ficara intrigado com mulheres antes, mas não daquela forma.

Para ser franco, a consciência do que estava experimentando naquele exato momento era inquietante.
Sem dúvida devia ser resultado daquelas circunstâncias incomuns.
Afinal, eles estavam ali sozinhos, isolados, compartilhando um imprevisto que envolvia uma alta dose de comprometimento emocional.

Sim. Devia ser essa a razão. Aquele instinto meio absurdo de proteção.
Por vários momentos, Joseph rodou a bebida nas mãos, os olhos fixos no fogo. Quando se recompôs física e mentalmente, pôs-se de pé e passou a mão pelo cabelo.

— Acho que vou tomar um banho.

Descansando contra os travesseiros e parecendo deliciosa no pijama enorme, Demetria esboçou um sorriso sonolento.

— Eu assumo o posto.

Antes que ele se rendesse ao monstro que havia dentro dele e que implorava para ser libertado , Joseph apanhou o celular no balcão da cozinha e subiu para o quarto do mezanino. A verdade era que, se não fosse pelo bebê, ele iria pagar para ver.

Todo mundo sabia que ele não era do tipo “família”. No entanto, naquele momento, a criança era uma prioridade. Tão logo ela estivesse estabelecida em outro lugar, mesmo que de volta à casa da mãe ou nas mãos do Estado...

Dois minutos depois, Joseph ensaboava-se sem pressa com a água quente lhe escorrendo pelas costas. O celular tocou, e seu primeiro pensamento foi: “Dane-se.” Mas, então, seu cérebro tornou a funcionar como devia e, todo ensaboado e molhado, ele estendeu a mão para pegar o telefone. Era a mulher da Assistência Social, com quem ele conversara antes, a tal Cressida Cassidy.

— Desculpe por eu não ter retornado mais cedo — falou Cassidy. — Eu queria apenas lhe assegurar que as autoridades foram informadas e um representante de ambos os departamentos ligará amanhã.

O clima está péssimo, e as estradas, intransitáveis. Espero que não se importe de cuidar da criança durante a noite.

— Não se preocupe.
— Ela sossegou?
— Sim... sem problemas.

A sra. Cassidy não precisava saber como o rostinho do bebê ficara vermelho quando ela havia vomitado, nem como ele tinha considerado agasalhá-la e correr para a clínica mais próxima, em meio à nevasca, antes de ela se acalmar ao ser mergulhada na pia da lavanderia cheia de água morna. Diziam que ser pai era o trabalho mais difícil do mundo. Depois daquela noite, ele acreditava piamente nisso.


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Heeeeeeeeeeeeeeey ... Chegueeeeeeeeei pra alegria de vocês ;)
E com noticias >.< a Leka quer postar uma mini fic pra vocês , então provavelmente eu vou dar uma pausa nessa para ela postar ... só que ainda estamos resolvendo, então vou postar até ela se arrumar, okay? Okay! kkkk 


P.S. Já deixei um capítulo programado para amanhã (hoje né) hein ... Bjss




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04/10/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 3






Prestes a apanhar a cafeteira, Joseph congelou no lugar. Seu olhar desviou-se para o bebê-conforto, em seguida voltou-se para ela.
E a penetrou tão profundamente que Demetria quase se arrependeu de ter aberto a boca.
Inferno, ela não era nenhuma aberração. Era apenas uma entre milhares de crianças que tinham sido adotadas.

— Então é por isso — ele comentou, e Demetria concordou com um gesto de cabeça.
— É uma das razões pelas quais eu jamais teria ido embora.

Joseph exalou um longo suspiro, depois serviu o café fumegante, cujo odor era amargo e reconfortante ao mesmo tempo.
Quando ambas as canecas estavam cheias, encontrou o olhar dela outra vez. A surpresa desaparecera de seus olhos, no entanto, e Demetria não ficou muito feliz com a comiseração estampada nos cantos dos lábios benfeitos.

— Passou por muitas privações?

Ela sorriu sem vontade.

— Nem todo mundo tem a sorte de encontrar uma Sra. Dale.
— Mas parece que se deu bem. Todos esses anos depois, trabalhando para a... — Ele franziu as sobrancelhas, tentando se lembrar.
— Eu trabalho para a Story Magazine.
— Ah, sim A Story. — Joseph tomou um longo gole da caneca.

Demetria fez o mesmo e quase suspirou ao sentir o calor e o delicioso sabor da bebida. Enquanto se concentrava em aquecer as mãos, contudo, percebeu o olhar dele rastreando seus traços.

— Já teve a chance de entrevistar algum hoteleiro de sucesso que, de quebra, ainda resgata bebês? — perguntou, cínico.

Ela sustentou o olhar penetrante e fingiu-se intrigada.

— Não me lembro.
— Caso se comporte direitinho, talvez eu me disponha a responder algumas perguntas.
— Tenho uma agora.
— Sou todo ouvidos.

A vontade de Demetria era indagar: “Quando chegou tão perto, no saguão do hotel, foi porque teve vontade de me beijar ou porque queria me colocar no meu lugar?”

— Pode me arrumar um pouco de açúcar? — disparou, em vez disso.

Ele sorriu devagar.

— Posso arrumar o que quiser.

Joseph trouxe o açucareiro. Demetria apanhou uma boa colherada e mexeu a bebida sem pressa. Inclinando-se a seu lado, ele colocou o açúcar em cima do balcão. O braço forte roçou o dela, mas, embora ela sentisse o estômago se contrair, não deu sinais do quanto sua pulsação havia se acelerado. Em vez disso, voltou a atenção para o bebê, reparando em seu aspecto saudável, nas bochechas redondas e rosadas.

— Quanto tempo imagina que ela tenha? — perguntou Joseph, acompanhando seu olhar.
— Uns três ou quatro meses. Ela me parece bem-cuidada.
— Não faz sentido ela ter sido abandonada dessa forma. Deve haver uma explicação.

Uma hipótese a atingiu de repente e provocou-lhe um calafrio na espinha.

— Talvez ela tenha sido sequestrada! Talvez tenham planejado pedir um resgate e mudaram de ideia no último minuto.
— Foi isso o que aconteceu com você?...

Demetria negou com um gesto de cabeça, contudo não sentiu necessidade de dar mais explicações. Um homem na situação de Joseph, tão envolvido com sua própria família e posição, jamais poderia compreender.

A criança soltou um gritinho. Em seguida, contorceu-se e piscou, abrindo os olhinhos sonolentos. Joseph e Demetria se debruçaram sobre o bebê-conforto ao mesmo tempo enquanto a menininha bocejava e tentava focar o olhar.
Demetria sentiu o corpo todo inundado por um calor que ela não conhecia. Um calor intenso, e ao mesmo tempo suave e tranquilo.

— Os olhos dela são azuis!
— Acha que ela está com fome?

Como se em resposta, o bebê soltou um pequeno gemido, que logo se transformou em pequenos soluços.
Com o coração apertado, ela segurou a criança junto ao peito. O bebê era mais pesado do que ela esperava, porém nada difícil de embalar.

— Pobrezinha! — murmurou, contra a bochechinha aveludada. — Ela deve estar molhada, mas vou cuidar disso. Faz a mamadeira?
— Claro. Sem problemas. — Joseph lançou um olhar hesitante para a lata de leite em pó. — Ahn... há alguma receita?
— Aí ao lado. Prefere se aventurar na troca de fraldas?
— A mamadeira vai estar pronta quando tiver terminado de trocá-la... — ele garantiu depressa, conduzindo-as até uma suíte no andar de baixo.

Tão logo ela colocou o bebê na cama e Joseph trouxe uma das sacolas da farmácia,
Demetria saiu à cata de uma toalha. Uma troca de fraldas poderia fazer uma bagunça, e ela não queria arruinar aquela linda colcha.
Ao voltar para o quarto, notou uma silhueta à espreita na porta. Joseph.

— Fiquei com medo de o bebê cair da cama — ele explicou, sem graça.
— Ela é muito novinha para rolar. No máximo iria se pôr de bruços.

Ela aprendera isso quando Nora Earnshaw cuidara de uma criança de colo por um algum tempo. Aos 7 anos, ela, Demetria, passara todo o seu tempo livre ao lado do bebê. Quando, um dia, a criança fora levada de repente, tinha ficado inconsolável e sentira-se tão solitária que mal havia comido durante semanas.

Seu único consolo era que o novo lar adotivo do bebê podia ser bem melhor do que a casa de Nora. Talvez ele houvesse sido adotado por um casal que nunca o deixara chorar...
Joseph passou a mão pelos cabelos negros como carvão.

— Acho melhor eu cuidar logo dessa mamadeira.

Demetria o viu desaparecer, então se inclinou para tocar a testa do bebê com a sua própria. Sorriu para si mesma. Um marmanjo mandão como Joseph Jonas todo preocupado com o bem-estar de uma menininha! Qualquer um que o visse parado ali perceberia que ele estava morrendo de medo de lidar com aquele anjinho, ao passo que qualquer pessoa acharia impossível se manter longe dela.

Dez minutos depois, Demetria deixou o quarto mais do que satisfeita. O neném vestia uma fralda limpa e a fitava intensa e curiosamente com os lindos olhos azuis; como se quisesse lhe agradecer, mas não soubesse como.

Na cozinha, com as mangas da camisa dobradas, Joseph estava ocupado, chacoalhando uma mamadeira cheia sobre o pulso. A imagem era ao mesmo tempo tão engraçada, terna e sexy que a fez aconchegar mais o bebê junto ao corpo. Será que os outros homens ficavam tão sensuais realizando aquele tipo de tarefa?... Joseph parecia tão concentrado em seu trabalho que nem percebeu o líquido espirrando em seu imaculado piso de madeira.

— Cuidado...— alertou ela, atravessando a cozinha.

Seus olhos escuros brilharam quando ele ergueu a cabeça. Em seguida, Joseph olhou o chão e os sapatos cheios de respingos. Resmungando, ele apanhou uma toalha de papel e a jogou no solo, limpando a área úmida com um pé.

— Eu estava checando a temperatura.
— Se continuasse chacoalhando a mamadeira daquele jeito, não iria sobrar um pingo de leite...

Com um sorriso de lado que fez coisas absurdas com a pulsação de Demetria, Joseph ergueu o frasco transparente.

— Fico feliz em informar que o leite foi bem misturado e, até onde sei, está na temperatura certa.
— Nesse caso... — Ela fez menção de lhe entregar o bebê. — Não quer fazer as honras da casa?

O sorriso presunçoso de Joseph desapareceu.

— Prefiro deixar para a próxima.
— Ei, ela não morde!
— Como pode afirmar?

Demetria se perguntou o que ele faria se ela colocasse o bebê em seus braços. Se houvesse deixado Joseph decidir tudo, àquela hora ela estaria voltando para Nova York, e ele estaria ali sozinho com uma criança para cuidar. Não daria uma tremenda história?, pensou. “Magnata, dono de uma rede de hotéis, admite suas fraquezas.”
Dirigiu-se para o ambiente amplo da sala.

— Preciso de um lugar para me sentar.

Ele apontou uma das suntuosas poltronas de couro branco.
Sentindo-se como se estivesse se sentando em uma nuvem, Demetria se acomodou. Ele puxou uma alavanca ao lado do assento e um apoio para os pés começou a se erguer com um zunido, até que suas pernas ficaram em uma posição quase horizontal.Joseph não poderia ter parecido mais orgulhoso se tivesse acabado com outra comunidade a fim de construir outro arranha-céu... o que tinha feito no mês anterior.

Ela suspirou.

Encontrar aquele bebê, acompanhar Joseph Jonas até o meio do nada... Tudo naquela noite fora surreal. E reclinar-se naquela poltrona, com ele debruçado sobre ela, estava deixando-a mais do que nervosa.

E curiosa.

A mídia se encontrava inundada com reportagens acerca do recente rompimento de Joseph com a atriz Ally Monroe. Então, com quem ele estaria se relacionando no momento? Não sentia nenhuma culpa quanto aos negócios que fechava, e que tanto prejudicavam os americanos menos abastados?
E seria Joseph tão bom na cama como diziam?...

Após conhecê-lo, ela podia apostar que ele era ainda melhor. Qualquer mulher com metade da sua cota de hormônios iria ferver na presença dele.
Ele continuou em pé à sua frente, as pernas afastadas, as mãos apoiadas nos quadris.

— Do que mais você precisa?

Demetria voltou a atenção para a criança, que agora olhava para cima com uma pequena ruga na testa.

— Pode me arrumar alguma coisa que enxugue o leite, caso ele escorra?

Joseph lhe entregou a mamadeira, e ela o observou se afastar a passos largos, deleitando-se com as pernas longas e sólidas que operavam marcha tão suave. Um momento depois, ele lhe trazia uma toalha e, em pé novamente, endireitava os ombros largos.

— Boa sorte — falou, em um tom solene.
Num instante, o bebê capturou o bico e passou a sugá-lo como se não estivesse sendo alimentado havia dias.

Demetria sentiu o peito se apertar. Quanto tempo aquela criatura ficara sem mamar? Onde estaria a mãe dela? A Assistência Social já fora informada da situação, mas por quanto tempo aquela criança ficara sozinha?
Decerto a mãe devia estar à procura do bebê naquele exato momento. E, se fosse esse o caso, pensou, não gostava nem de imaginar a agonia pela qual a mulher devia estar passando.

— Ninguém ligou ainda — comentou Joseph.

Os pensamentos de Demetria tornaram a se focar no presente. Joseph ergueu uma das cadeiras da mesa de jantar e a posicionou ao seu lado. Com os cotovelos sobre os joelhos, inclinou-se para a frente e entrelaçou os dedos.

— Eu também gostaria de saber quando a polícia vai chegar — ela confessou, nervosa.
— Na certa esse clima os está atrasando. Vou ligar no canal de notícias para ver se eles dizem alguma coisa... Talvez eu deva telefonar e me certificar de que as informações foram passadas corretamente. — O olhar dele pousou sobre a criança, e a sombra de um sorriso lhe tocou os lábios. — Parece que fez isso a vida inteira.
— É ela quem está fazendo todo o trabalho...

Lá fora, o vento uivava e, através das portas e janelas francesas que iam do teto ao chão, ela observou a neve cair enquanto o bebê se acalmava.
Após algum tempo, Joseph se moveu, inquieto.

— Ela não precisa arrotar?
— Aposto que pode fazer isso, já que é veterano no assunto.

Ele se recostou à cadeira devagar.

— Pensando bem, está fazendo um ótimo trabalho.
— Nunca imaginei que um empresário de sucesso pudesse ser tão banana!
— Pode judiar...

Demetria tirou a mamadeira já quase vazia da boquinha rosada, preparando- se para os resmungos. Deus do Céu, aquela criaturinha era tão pequena, tão preciosa!...
Vários minutos se passaram e, ainda embalando o bebê, ela se pilhou, um pouco preocupada. Nada estava acontecendo. Talvez devesse dar o restante da mamadeira à criança, ou então Joseph devesse fazer outra...

Ou era ela quem não estava embalando o neném como devia?

Joseph  devia ter lido a incerteza em seus olhos, pois lançou-lhe um olhar encorajador.

— Dê algum tempo a ela. Seu sistema digestivo é muito novo.
— Como sabe disso?
— Excesso de sobrinhas e sobrinhos. Devia dar tapinhas mais fortes.

Demetria endireitou os ombros, exasperada. Não precisava de mais nenhuma pressão!

— Que tal planejar sua próxima grande aquisição?
— Tirei alguns dias de folga.
— Então, podia fazer alguma coisa para a gente comer... — Em vez de ficar sentado aí, observando cada movimento meu!
— Como sabe que eu sei cozinhar?
— Da mesma forma que sabia que eu conseguiria trocar a fralda do bebê.

Joseph riu e pôs-se de pé.

— Nesse caso, prepare-se para se deslumbrar.
— Deixe-me adivinhar... Macarrão com queijo.
— Não sei se percebeu, mas está no meio do nada, e eu sou tudo o que a separa da inanição.

A criança respondeu por ela, deixando escapar um arroto nada adequado a uma pequena dama.
Joseph ergueu as sobrancelhas.

— O sistema digestivo dela está perfeito.

A menininha arrotou de novo.
Dessa vez, porém, não foi apenas ar o que ela expeliu...


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Ta ai mais um >.<

Mais tarde tem outro ^.^





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02/10/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 2






Joseph se aproximou mais dos aturdidos olhos cor de caramelo de Demetria e quase se esqueceu de que estava brincando, fazendo-a pagar por sua ousadia. Ela não sabia nada a seu respeito. Que piada Demetria ter feito suposições com base no que diziam aqueles malditos fofoqueiros das revistas, e que coisa mais típica!... Afinal, ela era uma deles, uma reporterzinha de quinta, de quem ele nunca ouvira falar até aquele dia.

A maior parte daquelas publicações possuía um denominador comum: transformava uma informação isolada ou foto sugestiva em uma notícia sensacionalista que nada tinha a ver com a verdade e tudo a ver com a reunião de certo número de artigos com o único objetivo de manter os empregos daqueles parasitas.

Ainda assim, ele costumava levar tudo na esportiva.

E não iria jogar aquilo na cara da Srta. Lovato, muito menos quando ela ficava tão bonita daquele modo, toda corada e inflamada, enquanto lutava com a própria consciência. Será que ela faria uma cena se ele partisse para o inimaginável e a beijasse, ou iria se derreter em seus braços e transformar a si própria numa manchete de primeira página?

Tentado, ele baixou mais a cabeça, porém, no último momento desviou sua trajetória, concentrando a atenção no bebê. Com um suspiro, apanhou a cadeirinha e rumou para a saída do hotel.
Poucos instantes depois, os saltos de Demetria Lovato clicaram, apressados, atrás dele.

Lá fora, com o céu cinzento do Colorado sustentado pelas montanhas, a neve parecia estar caindo com maior intensidade. Quando todos se encontravam em segurança dentro do táxi, Joseph telefonou para a Assistência Social. Conseguiu falar com uma mulher, por fim, que pediu seu telefone e endereço, depois afirmou que um representante iria procurá-los o mais rapidamente possível. Também disse que era sua obrigação informar a polícia de todos os detalhes, fornecendo, inclusive, seus próprios dados.

Que maravilha. Estava bem arrumado. Tão logo terminou a chamada, Demetria perguntou em voz baixa:

— O que eles falaram?
— Vão nos procurar.
— Quando?
— Assim que puderem. Enquanto isso, vamos comprar mais algumas fraldas e ir direto para a casa da Sra. Dale.

Quando as autoridades levassem a criança, ele pagaria para que o táxi levasse Demetria até o aeroporto. Feita sua boa ação, poderia, enfim, aproveitar aquele conhaque diante do crepitar da lareira.

Joseph torceu os lábios, pensando em perguntar se Demetria gostaria de acompanhá-lo; só para ver se ela aproveitaria a chance de lhe passar uma descompostura ou se trairia sua própria moralidade em nome da curiosidade...

Pararam em uma farmácia. O bebê ainda dormia, quando ele colocou dois pacotes de fraldas no porta-malas, assim como lenços umedecidos, leite em pó, mamadeiras, três bodies e macacões. Sabia muito bem que, em qualquer empreitada, a prevenção era a chave.

A criança ainda ressonava quando, meia hora depois, o táxi desviou para a longa trilha que rodeava a vizinhança. O anoitecer já havia caído sobre a região tranquila — em grande parte despovoada — e cercada por pinheiros gigantes, cujos galhos agora pesavam com a neve. Um único poste derramava uma luz fantasmagórica sobre o solo invernoso, contudo não via nenhuma lâmpada acesa na casa dos Dale. Na verdade, pela primeira vez em muito tempo, a casa parecia quieta demais.
Demetria também olhou pela janela embaçada.

— Não há ninguém em casa — constatou. E, após olhar a floresta que os cercava, recostou-se no assento, tensa. — Devíamos ter ficado no hotel. Consegue sinal no celular a essa distância?
— Se vão voltar, precisam decidir depressa... — O motorista aumentou a velocidade do limpador. — Isso já está se transformando em uma nevasca.

Com os dedos cerrados sobre o colo, Joseph pensou por um momento.

— Continue por mais uns cem metros e desça à direita.
— Espere um minuto... — Demetria agarrou-se ao cinto de segurança. — Ouviu o que ele disse? Esta nevasca não está cedendo. Se temos que voltar para a cidade, é melhor irmos agora.
— As autoridades já estão com os meus dados e sabem onde estamos. Vamos ficar aqui até que elas nos procurem

Na sombra crescente, os olhos cor de violeta de Demetria brilharam, e ela apertou os lábios tentadores, balançando a cabeça.

— Vamos voltar.
— Essa não é uma opção.
— Por que não?
— Quer dizer, além de ser uma atitude inteligente e de ficarmos protegidos desse tempo?

Joseph fez uma pausa longa o bastante para que ela prestasse atenção às rajadas e ao vento que assobiavam lá fora.

Além do mais, ele não voltaria a colocar os pés naquele hotel até que Dirkins houvesse tido tempo suficiente para pensar em sua oferta. Se ele fizesse um check-in naquela noite, o proprietário iria imaginar que ele havia fraquejado e que se encontrava preparado para melhorar a oferta que tinha feito. Não era esse o caso, por mais que ele, Joseph, simpatizasse com a situação de Dirkins. Uma morte na família nunca era fácil, muito menos quando se tratava de um filho único.

O bebê se mexeu, a mãozinha enroscando no cobertor. Joseph prendeu a respiração ao vê-la bocejar, espreguiçar-se e soltar um gritinho ao mesmo tempo em que franzia a testa lisa.
Era só o que faltava!

— Minha cabana fica a um minuto de carro daqui — ele falou, outra vez. — Não sei quanto a você, mas prefiro dançar nu no meio dessa neve a estar preso dentro do táxi quando ela acordar chorando!
A criança deu um gritinho agudo de novo, dessa vez mais alto. Em seguida, enrugou o nariz, movendo-se espasmodicamente. Demetria apertou os lábios por um momento, depois largou o cinto de segurança.
— Está bem. Vamos para a sua casa.

Sem perder tempo, Demetria cutucou o ombro do motorista, e o táxi saiu com cuidado da estrada dos Dale, agora entupida pela neve. Depois que o bebê sossegasse, antes que as autoridades chegassem, ele e a Srta. Lovato teriam tempo para refletir sobre as decisões que haviam tomado; talvez sentados em frente a um fogo crepitante, com aquele brandy do qual ele até já podia sentir o gosto.

Apesar da postura de Demetria, seu instinto lhe dizia que ela se sentia tão atraída por ele como ele por ela. Seria interessante conhecê-la um pouco melhor.
Joseph olhou pela janela e sorriu devagar. A quem estava enganando? A verdade era que gostaria de conhecer a Srta. Lovato muito mais...

No momento em que o táxi deixou o endereço de Joseph Jonas, a lua cheia espiou por sob o pesado manto de nuvens. Conforme uma luz prateada iluminava o cenário, Demetria esfregava os olhos. Aquilo era uma “cabana”?...

Mas Joseph, carregando o bebê-conforto e as sacolas com as compras da farmácia, já ia caminhando pela trilha que levava até a entrada coberta da espetacular casa em forma de “A”.
Demetria colocou o capuz do casaco sobre a cabeça, agarrou a frasqueira e correu atrás dele, vendo-o empurrar a imensa porta de madeira. Ele acendeu uma luz, e ela entrou num verdadeiro paraíso aquecido.

Maravilhada com o ambiente, pousou a pequena bagagem no piso de madeira. O andar inferior era enorme e aberto, com vários detalhes que sugeriam uma riqueza excepcional a despeito da acolhedora atmosfera rústica. À direita, a área da cozinha era um degrau mais elevada e revestida com carvalho polido, emoldurado com brilhantes guarnições de granito. No outro extremo da sala, aparelhos de última geração ficavam de frente para suntuosas poltronas de couro reclináveis. No centro de uma parede de ardósia maciça, uma gigantesca lareira de pedra implorava para ser acesa. Um corredor que saía do saguão devia levar para quartos, imaginou Demetria, e, conforme punha para trás o capuz, seu olhar subiu pela escada que conduzia a um mezanino protegido por um alambrado de madeira.
As palavras roucas de Joseph acariciaram seu ouvido quando ele passou por ela e explicou:

— É o quarto principal.

Demetria estremeceu.

O quarto principal. O quarto dele.

Uma série de imagens surgiu em sua mente, porém a mais vívida delas foi a de Joseph Jonas recostado a uma cabeceira de madeira maciça, lençóis amarrotados, caídos sobre seus quadris estreitos, o peito largo à mostra, a expressão confiante ainda mais maliciosa...

Obrigando-se a se recompor, ela prendeu a respiração. Não estava ali para fantasiar sobre um homem cujo passatempo favorito era seduzir. Sem dúvida, ela não era a única mulher que Joseph afetava daquela maneira... A mídia fotografava uma nova beldade pendurada em seu braço a cada dois meses.
Mas não tinha por que ficar se debatendo a respeito do carisma dele — ou de seu flagrante sex appeal. Muito menos quando já fizera papel de boba pouco antes, no hotel.

Quase desfalecera ao imaginar que ele poderia beijá-la. Sentia a pele se aquecer só de pensar em como ele devia ter se divertido quando ela deixara pesar as pálpebras, tremendo dos pés à cabeça.
Mas Joseph Jonas não iria pegá-la de novo.

Enquanto ele pousava o bebê-conforto e se livrava do sobretudo, Demetria tratou de domar as borboletas que ainda voejavam em seu estômago, tirou o casaco e lançou-lhe um olhar neutro e honesto.

— Sua casa é muito bonita.
— Eu não fico muito tempo aqui — contou ele, tirando o leve cobertor que servira de escudo para o bebê contra a neve que caía. — Também moro em Nova York, mas isso você já sabe.

Demetria ignorou o comentário travesso e continuou a estudar a sala.

— Então este é o seu refúgio.
— Meu pai costumava passar todo o tempo no escritório, mas, em compensação, costumávamos arrumar as malas e passar um tempo no Colorado durante a temporada de neve. — Joseph colocou o sobretudo em um mancebo próximo, fez o mesmo com o casaco dela, depois tirou o paletó e também o dependurou. — Quando fiquei mais velho, continuei viajando sozinho e acabei encontrado este terreno. A paisagem aqui é incrível. E as pessoas também são ótimas, do tipo que nunca estão ocupadas demais para acenar e dizer “Olá” quando você passa na rua. Também achei conveniente ter um lugar sempre à mão.
— Mas não tem nenhum carro na garagem, tem? — Ou não haveria necessidade de um táxi, ela concluiu.
— Motores precisam ser postos para funcionar. É mais fácil alugar alguma coisa. Mas, quando vim para cá, dessa vez, houve uma confusão na locadora. Como eu não costumo caber nesses carros pequenos... — Ele encolheu os ombros largos, o que ressaltou seu ponto de vista. Lançou um olhar em direção à cozinha, então, e apanhou o bebê-conforto mais uma vez. — Vou fazer um pouco de café. Podemos preparar uma mamadeira, também

Demetria sabia que estava pisando em terreno perigoso, mas não conseguiu desviar o olhar dos ombros impressionantes sob a camisa social branca enquanto o seguia até uma imensa cozinha. A forma como aquelas omoplatas se moviam em conjunto com as passadas determinadas foi suficiente para que ela ficasse louca de vontade de tocá-las. Naquele ambiente íntimo e acolhedor, a presença de Joseph era avassaladora.

Não que ele precisasse que alguém lhe dissesse isso.

E ela, com certeza, também não precisava ficar pensando naquilo nem mais um instante!
No entanto, conforme ele tornou a pousar a cadeirinha, afrouxou a gravata e observou o bebê com uma expressão de preocupação, Demetria se viu mais consciente do que nunca da própria reação física àquele ar de autoridade, àquela aura de suprema masculinidade.
E essa consciência a fez se aquecer dos pés à cabeça.

As reportagens que tinha lido eram todas verdadeiras.
Joseph Jonas devia ser o homem mais sexy do mundo.

— Precisamos esterilizar alguma coisa?
Demetria desviou a atenção dos lábios cheios, em seguida registrou e respondeu à pergunta.

— Sim, claro... A mamadeira. — Ela avançou um passo e se agachou ao lado do bebê-conforto, observando a criança que, após ter reclamado um pouco, parecia ter se acalmado. — Vou ler as instruções para o preparo do leite.

Com cuidado, tirou a mamadeira e a lata de leite que descansavam ao pé da cadeirinha.
Joseph apanhou uma panela enquanto ela decifrava as medidas, ainda que sua atenção não estivesse na tarefa. Assobiando uma música vagamente familiar enquanto procurava pela cafeteira, ele parecia à vontade naquele ambiente.

E, no entanto, passava a maior parte do tempo em Nova York.

Será que morava em um condomínio em Chelsea ou em uma cobertura a oeste do Central Park?, ela se perguntou. Ou Joseph vivia na suíte presidencial de um dos hotéis da família?... Droga, na certa cada um dos Jonas tinha a sua própria cobertura multimilionária.

— Como é? — perguntou, pousando a lata.

De costas para ela, Joseph apanhava canecas na parte de cima de um dos armários.

— Como é o quê?
— Como é ser dono de uma rede de hotéis? — E oferecê-los apenas àqueles que podem pagar os preços mais exorbitantes?, completou em pensamento.
— Não sou o único dono dos Hotéis Jonas. — Ele puxou uma ponta da gravata. Com um zunido, a caríssima tira de seda azul escorregou e caiu em uma espiral abstrata sobre o balcão. — É um negócio de família.
— Então trabalha todos os dias na companhia de seus pais e irmãos?

Ela sempre desejara ter irmãs que permanecessem em sua vida e não fossem obrigadas a se mudar para outros lares adotivos tão logo elas se tornavam próximas. Mas, após alguns anos, desistira de sonhar. Por algum tempo, entre aquelas idas e vindas, sonhara em ter uma família só sua, com um marido carinhoso que sempre estivesse ao seu lado, e pelo menos um bebê. De preferência dois. Havia até escolhido os nomes.
Mas, ao longo dos anos, seus planos tinham se modificado.

— Nós nos damos bem. — Joseph estava respondendo à pergunta. — Temos a mesma opinião em muitos aspectos. — Ele encontrou o açúcar, depois o leite, em um refrigerador com uma TV de alta definição na porta. — Mas também somos diferentes em muitas outras coisas. E quanto a você? Tem família?

Uma pontada castigou o peito de Demetria. Aquela era uma das coisas que, às vezes, ela própria se perguntava; algo que ela sempre esperara mais do que qualquer outra coisa no mundo.
Mas ouvir outra pessoa fazendo a pergunta, e tão abertamente, não foi fácil.
Ela tratou de se concentrar no preparo da mamadeira.

— Nada melhor do que ter uma família como a sua. Do mesmo sangue.

Não era bem uma resposta, porém ela não gostava de pensar naquele assunto. Não queria causar pena em ninguém, muito menos no poderoso Joseph Jonas. Além do mais, já sepultara o passado.
Tirou a tampa da lata, e seu olhar vagou para o bebê mais uma vez. Sentiu a garganta se apertar e, pela primeira vez em muito tempo, repensou sua postura. Sempre fora uma pessoa discreta. Mas aquela não era uma situação atípica? Sem se importar com a imagem que ela fazia dele, Joseph Jonas doara seu tempo e abrira sua casa não apenas para a criança, mas também para ela. Talvez ela pudesse se abrir, ao menos daquela vez.

— Na verdade, vivi sob a guarda do Estado... — confessou, olhando por cima do ombro.


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Hey ... tão gostando ?? >.< Espero que sim :D

Não sei quem perguntou, mas sim, esta também é uma adaptação.
Espero que realmente estejam satisfeitos ^^





COMENTEM!!!




01/10/2014

Papai por um Tempo - Capítulo 1






Frio. Imperturbável. Nada abalava Joseph Jonas.

Para ele, a nevasca fora de época em Denver, naquela tarde, era mais um presente pitoresco do que uma inconveniência. O revés daquele dia, em relação à sua última aquisição, era outro desafio, não um motivo para queixa. Alcançar um objetivo envolvia esforços, Joseph disse a si mesmo enquanto vestia o casaco, agradecia à concierge e apanhava a pasta. Ele precisava ser apenas mais... inventivo. Essa era a palavra.

No entanto, sua paciência sempre era posta à prova quando se tratava da imprensa. A reportagem tosca do mês anterior fora no mínimo risível, levando a crer que ele não passava de um demônio que deixava famílias carentes sem teto a fim de expandir seu império do mal. E o que não dizer daquele outro artigo recente, questionando o modo como ele lidara com uma atriz ambiciosa com quem vinha se encontrando? Sem exceção, ele tratava as mulheres com respeito, mas, desde o princípio, ele e Ally haviam concordado em manter um relacionamento “divertido e casual”, e não um do tipo “se eu não vir um anel de diamante, vou expor seus segredos de alcova”. 

Como se chantagem pudesse funcionar com ele!...

Ao contrário de seu pai e irmãos, ele não dava a mínima para o que as pessoas pensavam. Naquele fim de tarde de primavera, contudo, conforme ele se afastava da entrada do hotel, escancarava a porta de trás do táxi e se fechava no interior aquecido, a calma de Zack se foi, e ele deu um pulo no assento. Levou um momento para se recompor e estudar sua inesperada companhia antes de se inclinar para a frente e tocar o ombro do motorista.

— Seu último passageiro esqueceu uma coisa...
O taxista torceu o tronco.
— A carteira?
— Não — murmurou Joseph. — Um bebê.

A outra porta traseira se abriu nesse instante. Uma lufada de ar gelado invadiu o carro, com uma mulher vestindo um casaco vermelho-cereja com capuz. Ela colocou uma frasqueira combinando no colo e tratou de bater a porta contra os ventos uivantes. Assoprou ar quente nas mãos em concha e, só então, sua atenção se voltou para ele. Sob a capa vermelha, olhos curiosos, cor de violeta, deslizaram da cadeirinha infantil para Joseph, depois de volta para o bebê.

Ele estudou o rosto perfeito, os olhos incomuns, e sentiu o peito se aquecer. Não conhecia a moça, porém algo em seu olhar cintilante o fez se perguntar se ele já a havia visto.
Ou talvez assim ele desejasse.

— Eu estava com tanta pressa que não vi você entrar — justificou ela, já pondo a mão na alça da frasqueira. — Na verdade, não conseguia ver muita coisa... Que loucura, não? Essa nevasca, quero dizer.
Um sorriso lento curvou um lado da boca de Joseph conforme ele a observava.
— Uma loucura mesmo.
— Faz séculos que a concierge chamou um táxi para mim. Por isso decidi vir até a calçada para ver se eu conseguia algum

O sorriso de Joseph desapareceu. Ele tinha roubado o transporte dela?... Quando checara na recepção, poucos minutos antes, eles também lhe haviam chamado um táxi. Ao deixar o saguão do hotel, ele imaginara ser aquele o seu.
Inclinou-se mais uma vez e falou com o motorista. Preferia enfrentar aquele problema ao outro, do bebê esquecido.

— Está atendendo a alguma chamada?
— Acabei de deixar outro passageiro no aeroporto. — O homem por detrás do volante puxou mais a boina marrom sobre a testa antes de mexer no contador. — Pensei em passar por aqui e tentar a sorte... Ninguém sai nesse frio, a menos que precise muito.
— O aeroporto! — Chapeuzinho Vermelho também se inclinou para a frente. — É para lá que estou indo. Preciso voltar a Nova York para uma entrevista, amanhã bem cedo. Sou repórter da Story Magazine. — Sua expressão radiante dizia: “Já ouviram falar, não ouviram?”
Fingindo-se impressionado, Joseph assentiu com um gesto de cabeça.
— Claro — respondeu, um momento antes de ela empurrar para trás o capuz. A sombra que lhe emoldurava o rosto se foi, então, e ele se esqueceu de respirar.

Além do rosto impecável, cujas faces pareciam tingidas por um adorável rosa, a moça tinha uma pele tão perfeita quanto porcelana. Os cabelos, na verdade uma massa luxuriante deles, lhe caíam como um manto de zibelina sobre os ombros retos e pequenos. Seus olhos cor de violeta eram tão cintilantes que sua luz penetrava em lugares que ele nem sabia existir.

Joseph respirou fundo. Já saíra com muitas beldades, mulheres que chamavam a atenção e que se sentiam à vontade para exercer seu poder sobre o sexo oposto. Mas não se lembrava de ter conhecido alguém cuja companhia o deixara sem ar.

E não apenas por conta de algo tão superficial quanto a aparência. As profundezas daqueles olhos claros... A maneira altiva e ao mesmo tempo inocente com que ela ouvia e falava...
Aquela mulher brilhava. Era simples assim.

Após a improdutiva reunião daquele dia com o proprietário daquele hotel, estivera pronto para jogar a toalha e voltar para casa, ou melhor, para sua cabana de dois andares, na qual ele congelava sempre que passava pela cidade. Mas a deliciosa Chapeuzinho estava, obviamente, com muita pressa e ansiosa por deixar Denver e seu clima maluco para trás. Portanto, ele ficaria feliz em bancar o cavalheiro e esperar por outro táxi... O que também deixaria para ela e o motorista a decisão do que fazer com o bebê, o qual, por sorte, continuava dormindo, tranquilo. Até demais!

Joseph o observou com mais atenção, controlando o impulso de verificar cada dedinho enrolado sob a coberta, a fim de ter certeza de que se encontravam quentes.
Chapeuzinho também olhou o bebê.

— Parece que tem uma pequena com quem se preocupar. Ela é linda! Vou pedir à concierge que verifique onde foi parar o meu táxi...

Quando se virou para segurar a maçaneta da porta, Joseph a segurou pela manga. Chapeuzinho não podia ir embora! Ela havia entendido tudo errado.
Ela se voltou, alerta, e ele lhe soltou o braço, deixando escapar uma risada rouca, ao mesmo tempo em que olhava para o bebê.

— Esse bebê não é meu.
— Muito menos meu! — resmungou o taxista.

A moça piscou dois pares de cílios longos, e seus lábios estremeceram, como se quisessem sorrir, mas não se atrevessem a tanto.

— Ela me parece pequena demais para estar viajando sozinha.

"Ela."

— Como sabe que é uma menina? — Joseph precisou perguntar. A cadeirinha, a manta e o gorro que a cobriam eram tão brancos como a neve que se acumulava na calçada e na rodovia.
— Bem, o rostinho dela é tão doce!... — Com uma expressão enternecida, Chapeuzinho passou as costas da mão sobre a cabeça protegida do bebê, e os lábios miúdos se moveram como se já esperando pelo jantar. — A boquinha parece um botão de rosa... Bem-feitinha e minúscula. Ela é delicada demais para ser um menino.
O motorista tamborilou os polegares sobre o volante.
— O relógio está correndo, pessoal.
— É claro. — Recompondo-se, Chapeuzinho se afastou. — Vou deixá-los ir, agora.

Pela segunda vez, naquele dia, a calma de Joseph foi para o espaço. Ele sentiu a boca seca e o suor brotar na parte de trás do pescoço. Deveria terminar aquela tarde com um bom brandy em frente à lareira, e não lidando com uma encrenca daquele tamanho! Ele nem sequer gostava de bebês... Ou, melhor dizendo, os bebês não gostavam dele.

— O que vamos fazer com ela? — perguntou, preocupado.
— Nada de “vamos”, companheiro. — O taxista engatou a marcha.
— Eu já disse que ela não é minha — falou Joseph, num tom grave.
Chapeuzinho inclinou a cabeça, e uma onda de fios escuros se derramou sobre seu ombro.
— O que ela está fazendo aqui, então?
— Não faço a menor ideia. Quem foi seu último passageiro? — indagou ele ao motorista.
— Um homem de 80 anos que usava bengala. Ele ia voar para Jersey a fim de ver a família, e não estava carregando nenhuma cadeirinha de bebê! — A expressão do taxista dizia claramente: “Não sei qual é o seu problema, filho, mas não tente despejá-la em mim!”

Joseph soltou um grunhido. Quantas vezes precisaria dizer que o bebê não era seu?
Chapeuzinho, ao menos, pareceu acreditar nele. Seu rosto perdeu toda a cor, como se cada gota de sangue houvesse drenado para seus pés.

— Acha que alguém a abandonou? — A pergunta saiu num sussurro, como se ela temesse falar as palavras em voz alta.
— Acho que as autoridades vão ter que descobrir isso.

Joseph não estava gostando daquela situação. Nem um pouco. Ele não sabia nada a respeito de bebês e pretendia permanecer daquela maneira.

Mas, naquele caso... Inferno, que escolha tinha? Chapeuzinho estava morrendo de pressa e, sem mais ninguém por perto, ele era o único que poderia fazer alguma coisa. Só Deus sabia como aquela criança havia ido parar no banco de trás do táxi.
Joseph deixou o olhar percorrer o corpinho adormecido, os lábios rosados, o nariz minúsculo, e sentiu o coração se apertar.

— Vou levá-la para a delegacia de polícia — falou em voz baixa, temendo acordar a menina e vê-la chorar. — Assim eles poderão acionar a Assistência Social.
— Mas eles podem demorar séculos para vir buscá-la!
— Eu só sei que um bebê não dorme para sempre, e eu não costumo carregar fraldas no bolso.
Chapeuzinho procurou ao pé do cobertor.
— Há uma mamadeira aqui. E também algumas fraldas.
— Os policiais da delegacia local ficarão agradecidos.
Ela levantou uma sobrancelha.
— Com certeza... Eternamente agradecidos.

Joseph estreitou os olhos. O que ela queria? Não importava o quanto aquela criança era linda. Ele era um empresário, pelo amor de Deus, não uma babá!
O motorista ajustou o espelho retrovisor.

— Devo deixar os dois pombinhos num café para que possam resolver isso?
— Não há pombinho nenhum aqui! — Joseph agarrou a maçaneta da porta com mais força.

Chapeuzinho sustentou seu olhar pelo que pareceu uma eternidade antes de inflar as narinas delicadas e erguer o queixo. Então estendeu o braço e cobriu a mão dele com a sua.
A sensação daquela mão pressionando a dele fez a pulsação de Joseph disparar. De repente, ele teve uma profunda consciência do perfume leve e cítrico que emanava dela, e de que não havia nenhuma aliança em sua mão esquerda. A ideia de que ela era solteira e disponível brincou com seus sentimentos.

Dedos afilados se moveram sobre os dele, parecendo injetar calor em sua mão. A sensação era deliciosa, tentadora... E seus pensamentos borbulharam com imagens que nada tinham a ver com um bebê. Exceto, talvez, com a possibilidade de eles fazerem um.

— Pode ir embora — anunciou ela enquanto segurava a maçaneta. — Vou voltar para dentro do hotel com ela. Não consigo imaginar esta criança esperando em uma delegacia de polícia. Sabe lá Deus que tipo de gente pode estar à espreita por lá.

Joseph abriu a boca para protestar. Chapeuzinho ainda precisava pegar seu voo.
Por outro lado, ele não poderia discordar a respeito da delegacia de polícia. Aquele não seria o melhor ambiente para um bebê que iria precisar de muita atenção tão logo despertasse. Além do mais, seu instinto — que raramente falhava — lhe dizia que aquela moça era competente e confiável. A criança estaria em boas mãos até que as autoridades competentes a assumissem.
Depois disso...

Joseph sentiu uma pontada no estômago, apertou a mandíbula e endireitou os ombros. Depois disso, sem dúvida a mãe iria aparecer, toda chorosa, porém aliviada, e a família teria uma boa história para contar no 21° aniversário da menina.

Por hora, contudo, Chapeuzinho iria precisar de ajuda para lutar contra a neve e escapulir com o bebê para dentro do hotel.
Ele mudou de posição.

— Vou ajudá-la a voltar lá para dentro.
— Não há necessidade.

Antes que ele pudesse insistir, ela abriu a porta. Com a frasqueira pendurada em um dos braços, fez um aceno na direção da entrada do hotel com a mão livre.
Joseph olhou pela janela traseira. Em meio a redemoinhos de neve, um porteiro uniformizado se aproximou, trazendo um guarda-chuva gigantesco a fim de protegê-la do mau tempo.
Ele suspirou.

James Dirkins, o atual proprietário daquele hotel, havia recusado sua primeira oferta em nome dos hotéis Jonas. Naquele momento, porém, ele se viu mais determinado do que nunca. Quando fechasse o negócio e comprasse o hotel, sua primeira providência seria mandar cobrir aquela entrada. Era uma coisa tão básica!... Não era à toa que o movimento ali andava baixo.

Após entregar a pequena frasqueira ao porteiro, Chapeuzinho deslizou para fora do carro. Ao menos teve a consideração de lhe lançar um rápido sorriso de despedida antes que o rapaz fechasse a porta e  Joseph a visse se encolher junto ao bebê, para depois desaparecer em meio ao branco.

— E então, vai para o aeroporto, amigo?
— Não — ele murmurou, com o olhar ainda na nevasca. — Vou para outro endereço.
— Quer que eu adivinhe?...

Joseph não escutou a provocação, entretanto. Chapeuzinho...
Ele nem sabia o nome dela!

— Poderia comprar o seu próprio táxi pelo modo como esse relógio está ticando! — comentou o motorista. — Não que eu possa reclamar...

Joseph aguçou os ouvidos, sentiu o estômago se contrair e endireitou o corpo. Eram as rajadas de vento, do lado de fora, ou ele ouvira o choro do bebê?
Fechou os olhos com força, contou até três, porém sua ansiedade só fez aumentar.
Droga.

Dificilmente Joseph Jonas se sentia encurralado e abatido daquela maneira.
Soltou um grunhido, pegou a carteira, deixou cair uma nota no banco da frente e ordenou ao motorista:
— Espere aqui enquanto for preciso. Eu voltarei.

Demetria Lovato sabia no que tinha se metido. Seriam horas de espera e de preocupação em uma cidade onde não conhecia ninguém. No entanto, conforme andava sobre o piso de mármore polido a caminho do lindo balcão de madeira da recepção do hotel com a criança pesando no braço, não se arrependeu de sua decisão. Os assistentes sociais faziam o melhor que podiam, mas, normalmente, era uma burocracia sem fim, e os recursos, muito poucos. Em um piscar de olhos, ela havia se candidatado a uma vaga naquele departamento, mas sua experiência pessoal em relação ao assunto lhe dizia que aquilo não iria dar muito certo. Existiam tantas crianças negligenciadas e abandonadas no mundo!... Ela iria querer levar todas para casa.

Demetria observou o bebê que dormia, e a emoção tomou conta dela, comprimindo-lhe a garganta. Ninguém pedia para ser abandonado. Ninguém merecia ser abandonado, muito menos aquele anjinho.
Isso se aquele fosse mesmo um caso de abandono.

Um ruído de passos ecoando no mármore soou atrás dela, e Demetria deu meia-volta. O homem do táxi — o que tinha olhos tão escuros quanto a meia-noite, a voz de barítono aveludada e um sorriso que lhe parecera muito familiar — corria até ela, desviando-se de hóspedes e funcionários do hotel, a cauda do sobretudo voejando às costas. Quando parou, uma mecha de cabelo escuro caiu sobre suas sobrancelhas bem-feitas, e ele baixou os ombros largos com um profundo suspiro.
Por um momento, ela se sentiu meio sem ar. Da cabeça aos pés, assim como em todo o restante, ele era um exemplo e tanto de espécime masculino.

E lá estava de novo: aquela impressão de que ela já o conhecia... e de que não devia confiar nele.
O homem decidiu se apresentar e, de repente, todas as peças daquele quebra- cabeça se encaixaram como mágica.

— Eu me esqueci de dizer... — ele explicou, com um sorriso de lado. — Sou Joseph Jonas.

Demetria arregalou os olhos, sentindo os músculos do estômago se apertar.
Claro! Em pé sob a forte iluminação, quem poderia duvidar daquele corpo sólido, daquela aparência hollywoodiana, daquele ar autoritário? Pessoalmente, o Sr. Jonas era um pecado de tão sexy. E, pelo que ela havia lido, também um idiota, ganancioso e egoísta.
Mas não iria acusá-lo disso tudo ali, naquele momento. Não era nem o lugar nem a hora de ela dizer ao ilustre Sr. Jonas o que pensava dele.
Tratou de respirar fundo, suavizar a expressão e se apresentar.

— Meu nome é Demetria Lovato.
— Srta. Lovato — ele murmurou, parecendo tão arrogante quanto em suas várias aparições como celebridade, fosse de peito nu em seu iate ou todo sofisticado e invencível em terno e gravata. — Pensei melhor na situação e decidi ajudar.

Demetria observou sua expressão solidária e perguntou o óbvio:

— Por quê?

Uma ponta de cautela cintilou nos olhos escuros antes que ele voltasse a sorrir.

— Porque tenho algum tempo livre, e você precisa voltar para Nova York.

Demetria absorveu o sorriso inebriante, branco e convidativo. O mesmo sorriso que a intrigara dentro do táxi. Aquela mesma expressão devia ter seduzido algumas das mulheres mais bonitas do país... e convencido muitas autoridades a trocar casas populares por lucro.
Só de pensar em empresários egoístas e gananciosos como Joseph Jonas, quando tantas pessoas passavam por privações, ela sentia o sangue ferver!

E isso a levava de volta àquela pessoinha que tanto precisava de sua ajuda no momento. De quem era aquele bebê? Qual seria sua história?

Demetria suspirou.

Não conseguia imaginar que alguém houvesse tentado se livrar daquela criança. Ela era tão perfeita, tão linda!...

— Preciso pegar um voo mais tarde — explicou Jonas. — Posso não ser um especialista em se tratando de cuidar de bebês, mas é possível que eu saiba mais sobre o assunto do que você.

Como assim? Não era da natureza das mulheres ser instintivas acerca de questões maternais como alimentar e acalmar um bebê? Claro que devia haver exceções, mas...

Joseph Jonas cruzou os braços, numa indicação sutil de que ela deveria capitular e se pôr a caminho de Nova York. Demetria pousou a cadeirinha e fez o mesmo.

— Eu não vou embora enquanto não tiver certeza de que ela está bem.
— Tenho uma casa não muito longe daqui e...
— Eu já disse que não.

Bebês precisavam de cuidados e atenção constantes. Precisavam de amor. E ela não estava muito certa de que Jonas possuísse um coração.

— Meus vizinhos costumam cuidar da cabana quando estou fora — ele insistiu. — A Sra. Dale é avó de dez crianças. E já foi mãe adotiva.

Demetria disfarçou um estremecimento.

A despeito de sua experiência pessoal, devia haver uma porção de mães adotivas maravilhosas.
Ainda assim, não pôde evitar a própria reação. Durante anos as palavras “mãe adotiva” tinham sido o equivalente a “mãe-monstro” graças à desagradável Nora Earnshaw.

— A Sra. Dale administrava a própria creche até pouco tempo atrás. Ainda tem toda a parafernália: cadeiras altas, carrinhos... Tenho certeza de que ela ficaria feliz em ajudar. — Os olhos escuros brilharam. — Não vai querer perder sua entrevista, vai?

Demetria abriu os punhos cerrados. O trabalho era mais importante para ela do que qualquer outra coisa, pois lhe dava a chance de viajar e conhecer muita gente interessante e inspiradora.
Indivíduos que tocavam a vida dos outros de muitas maneiras. Após viver em uma pequena cidade de Ohio por muitos anos, estava amando trabalhar em Nova York. Tinha feito amigos lá. Tinha construído uma vida.

Sua profissão era terrivelmente competitiva, entretanto, e, naqueles tempos difíceis, estava difícil conseguir trabalho. Com três colegas demitidos na semana anterior devido a mais cortes no orçamento, ela não poderia se arriscar.

Mas agora havia aquele bebê.

Enquanto clientes e funcionários do hotel se movimentavam sua volta, Demetria olhou para a criança e sentiu o coração se apertar. Não confiava em Joseph Jonas. O quanto ele conhecia daquela vizinha, a tal Sra. Dale?, perguntou-se, agoniada. Sua mãe adotiva também sempre dera a impressão de que seria capaz de morrer pelos filhos, e isso sempre fora uma tremenda mentira.

— Como pode ter certeza de que essa sua vizinha milagrosa vai estar em casa? — indagou, desconfiada.
— Os Dale são caseiros, e eu fiquei aqui na cidade por alguns dias. Quando passei por lá, esta manhã, pouco antes de a neve começar a cair, a sra. Dale estava voltando para casa, após levar um dos netos para passear.

Demetria mordeu o lábio e olhou ao redor, absorvendo o agitado saguão do hotel: a recepcionista solícita, o porteiro aguardando pacientemente nas proximidades, a concierge em sua mesa, pronta a correr para qualquer cliente e ajudar.

— Vamos ficar aqui. É um bom hotel, os funcionários são excelentes e...
— A melhor coisa para esse bebê é ficar com alguém que entenda de crianças. — A voz de Jonas soou baixa e profunda, com uma ponta de desafio. Contudo, ele não parecia irritado. Apenas determinado.

E, caramba, ele estava certo? Eles não faziam ideia de quanto tempo as autoridades levariam para resolver o caso. Se ela colocasse sua própria experiência e suas suspeitas de lado, a Sra. Dale poderia ser exatamente o que o bebê precisava naquele momento.
E, para ser justa, o quanto de sua relutância tinha a ver com o que era melhor para a criança, e o quanto tinha a ver com suas próprias questões pessoais e com sua antipatia pelo senhor Jonas?...

Demetria olhou para o bebê que ainda dormia e cedeu, por fim.

— Está bem. Vamos.
— Vamos?
— Eu já disse que quero ter certeza de que ela está sendo bem cuidada antes de eu ir embora. — Os traços de Joseph Jonas eram fortes, clássicos. Seus olhos negros, sombreados por longos cílios, eram os de alguém que se sentia tão à vontade consigo como com os outros.

Porém, também eram extremamente vigilantes, atentos. A marca de um homem que detinha o poder e era feliz com isso.
Demetria viu outro sentimento em seu olhar, no entanto. Seria respeito?

— Nesse caso — ele prosseguiu —, é melhor irmos logo, antes que o nosso taxista nos apronte uma boa e acabe cobrando ainda mais.

Ambos buscaram a alça do bebê-conforto e, quando suas mãos se encontraram, pele contra pele, Demetria sentiu o rosto corar e o sangue correr mais rápido pelas veias.
Com a mecha de cabelo caindo sobre a testa, Joseph ergueu o olhar e sorriu para ela.
Demetria tratou de controlar os hormônios e se endireitou.

— Antes de irmos, acho justo que eu admita: eu sei quem você é.
Ele levantou mais o queixo.

— Mas eu disse quem eu era.
— Eu leio, assim como todas as outras pessoas, Sr. Jonas. O senhor ajuda a administrar a rede de hotéis da sua família... e faz o que for preciso para conseguir o que quer. — Ela hesitou, entretanto não conseguiu se controlar. — E também se orgulha de seduzir belas mulheres.

O sorriso congelou no rosto moreno.

— Parece que entrou para o meu fã-clube.
— Para deixar as coisas bem claras, estou concordando com isso apenas porque acredito que é a melhor opção para o bebê.
— Não é porque sou implacável e irresistível?

Ela sentiu o coração dar um salto e lutou contra a vontade de umedecer os lábios secos.

— Definitivamente, não.

Ele pareceu próximo demais, quente demais, e seus olhos cintilaram, penetrando os dela.

— Bem, agora que tirou isso da frente, é melhor irmos andando. A menos que...

Demetria sentiu seu alarme interno disparar.

— A menos que o quê?
— Que possamos resolver isso agora mesmo.
— Isso o quê?
— Imagino que esteja com vontade de chutar a minha canela, de me dar um tapa, um murro no nariz...

Demetria sentiu a tensão nos ombros se desvanecer. Por um momento ela havia pensado...
Ah, aquilo era ridículo.

— Vou tentar me controlar — respondeu, seca.
Ele inclinou o rosto para fitá-la, como se vislumbrando um canto bem escondido de sua alma.
— Srta. Lovato, não achou que eu fosse fazer algo inusitado como puxá-la para os meus braços e beijá-la, achou?

Ela sentiu as bochechas pegando fogo.
O homem era ultrajante!

— É claro que não!
— Mas, se eu sou o imbecil que está imaginando... Como pode ter certeza?
— Dificilmente sou seu tipo. E, mesmo que fosse, depois dessas últimas semanas de publicidade nada positiva, não iria querer chamar a atenção para mais um incidente. — Ela deixou o olhar confiante passear pelo ambiente agitado.
— Estamos em público. Todo mundo tem celulares hoje em dia, e todos os celulares têm uma câmera.

Os olhos escuros perderam o brilho, e ele assumiu uma expressão quase predatória.

— Acha mesmo que eu me importo com boatos?
— Não, não acho. Mas talvez devesse se importar.

Um sorriso diabólico tornou a se espalhar no rosto moreno.

— Está certo. Talvez eu devesse. — Ele avançou um passo, aproximando-se com perigo enquanto seu olhar capturava o dela. — Ou talvez devesse dar ao mundo algo de que falar de verdade.