10/04/2014

Sociedade Secreta - Capítulo 14 (Parte 1)




Por meio desta, eu confesso: 
doeu à beça.

14. 

A Cidade 

Às três da tarde de sexta-feira, Ben Edwards, vulgo Big Demon, apareceu em frente ao mausoléu numa van branca que havia pego emprestada do departamento de esportes. 

— Ah, quanta classe — Odile observou secamente enquanto se içava para a parte de trás. E você tinha que admitir, não era tão bacana quanto as limusines nas quais tínhamos andado antes da nossa filiação ter perdido o apoio. 
Nós todos nos esprememos dentro da van. O grupo consistia dos 12 novos convocados e Malcolm (que evitava olhar nos meus olhos). Aparentemente, outro carro seguiria mais tarde com mais membros dos C176. Sentei o mais longe possível de George, mas parecia que ele nem se lembrava de ter dado uns amassos comigo no bar, muito menos que tinha qualquer interesse em recomeçar a pegação de onde havíamos parado. 

A viagem de duas horas até Nova York foi tão monótona quanto se pode esperar de uma van desconjuntada comandada por um motorista inexperiente tentando navegar pelas ruas do centro de Manhattan numa tarde de sexta-feira. Em outras palavras: um exercício de terror. Nós, passageiros, fomos em grande parte poupados, mas Ben pegou a parte mais estressante, a das ruas. Sinto relatar que ele nunca mais foi exatamente o mesmo e que ficamos momentaneamente preocupados que fosse passar toda a nossa estada no Eli Club escondido no banheiro, contorcendo-se e chamando pela mamãe.

Depois que estacionamos (e Ben esvaziou o conteúdo de seu estômago no chão de concreto do estacionamento), nos dirigimos ao Eli Club, que fica localizado na esquina da Grand Central Station e partilha da mesma decadência arquitetônica do século XIX. Um a um, nos arrastamos pela porta giratória apertada e fomos cuspidos deselegantemente dentro de um saguão de entrada ainda menor. 

Sancas elegantes, molduras douradas, uma vasta escadaria de mármore e um corrimão de mogno entalhado definiam o formidável saguão do Eli Club. Eu tinha ouvido dizer que as autoridades davam festas aqui para os estudantes que estavam fazendo estágios de verão em Manhattan, tentando, sem dúvida, conquistar novos membros quando os estagiários se formassem. Olhando em torno do recinto, respirando o ar com um ligeiro aroma de copos-de-leite, eu podia entender a jogada. 
Este era o coração pulsante e sangrento da atmosfera de mistério de Eli. Rico, elitista, tradicional. Pudera que o Fundo Tobias tivesse escolhido estabelecer seus escritórios aqui. Isso era exatamente o que eles queriam que Eli continuasse a ser, um ninho de clubes decadentes de cavalheiros e sociedades secretas só para homens. Olhei para meus compatriotas. O tradicional estava fora. 

— Posso ajudá-los? — perguntou um cavalheiro corpulento atrás do balcão da recepção. Um blazer azul que devia ser fácil uns dois números menor do que deveria estava esticado por cima de sua cintura. Um escudo com o brasão de Eli estava costurado meio torto na lapela. Se eu fosse do tipo paranóico, pensaria que o conjunto era novo. (A coisa legal que eu havia aprendido sobre a paranóia é que, uma vez que tenha confirmado que eles estão mesmo atrás de você, ela meio que se dissipa.)
— Sim — disse Malcolm —, suíte 312. Temos hora marcada. 
O porteiro pareceu estupefato. 
— Sinto muito, vocês devem estar no prédio errado. Nós não temos uma suíte 3... 
Malcolm espalmou as duas mãos sobre o balcão e olhou fixo para o homem.

— Olhe para o meu colarinho — disse calmamente. — Acha que ganhei isso numa caixa de sucrilhos? Acha que todos nós ganhamos? 
O homem empalideceu quando viu nosso grupo e os broches. 

— Só um momento — sussurrou, pegando um fone em sua mesa. — Alô, senhor. Sim, entendo o que o senhor disse, mas... senhor? — Ele ouviu em silêncio por um minuto. — Senhor, eles estão usando os broches. Sempre me disseram que, se estivessem usando... que eu não deveria... sim, senhor. 
Ele botou o fone de volta e olhou na nossa direção sem fazer contato visual com nenhum de nós. 

— Alguém virá vê-los em breve.
E alguém veio — um homem pequeno, de cabelos prateados e terno, que parou a um metro de nós e esticou a mão. 
— Por favor, removam os broches e venham por aqui. Ninguém se moveu. — Esses broches não pertencem a vocês. Eles pertencem à organização. Como vocês não são mais membros da... 
— É o que estamos aqui para discutir — resmungou Nick. — Sinto muito — o homem falou. — Mas não posso deixá-los entrar com esses broches. — E nós não vamos tirá-los — Megan deu um passo à frente.— E como eu sei que é happy hour no restaurante lá em cima, tenho certeza de que não quer que façamos uma cena que os bárbaros possam ouvir. 

Como se para ilustrar o que ela estava dizendo, a porta rodou e dela saiu um trio de homens de negócio carregando bolsas de ginástica e pastas. Malcolm estava olhando feio para Megan, mas ninguém mais parecia escandalizado com sua ameaça. Se iam jogar sujo com as nossas vidas, nós íamos jogar sujo com seu precioso segredo. 
O homem olhou furiosamente para nós, girou nos saltos (está imaginando um nazista? Porque é mais ou menos isso mesmo) e andou em direção aos elevadores. 
— Vou ter que levá-los em dois grupos. 
De alguma forma, consegui me espremer com o primeiro, que incluía Malcolm, Megan, Clarissa, Nick, Omar e eu. Nosso acompanhante chegou para o lado e inseriu uma pequena chave dourada numa fechadura embaixo dos botões. Então, apertou o botão para o último andar (que não era o terceiro andar, gostaria de salientar). 
— Lugar interessante para botar a suíte 312 — falei em voz alta. 
— Senhorita, não há suíte 312. 
Agora eu me virei para o Malcolm, que estava claramente tentando conter um sorriso. 
— Esta é a nossa Demi. Sempre tentando chegar ao fundo das coisas. — Malcolm passou o braço em volta dos meus ombros. — Vamos conhecer o pelotão de fuzilamento.

O último andar do Eli Club abrigava o que parecia ser uma série de escritórios. Cada um tinha uma placa indicando que organização estava alugando o espaço. O Clube dos Ex-Alunos de Dartmouth, a Equipe de Remo de Eli, a Organização Atlética da Universidade da Virginia. A porta na frente da qual paramos não possuía placa, apenas um cartãozinho branco afixado na porta, que dizia "Quinta-feira 19h-21h".
O outro grupo de alunos do terceiro ano juntou-se a nós. Jennifer parecia pálida e estava segurando seu crucifixo com tanta força que os nós de seus dedos haviam ficado brancos. Eu tinha certeza de que, se ela abrisse a mão, haveria uma marquinha de Jesus na sua palma. 
Abrimos a porta e entramos em fila. A sala não tinha janelas, era forrada de madeira escura e o teto tinha uma intrincada folhagem dourada nas sancas, mas isso quase não ocupou minha atenção. 
Em vez disso, eu estava ocupada demais com o seguinte: 

1) Clarissa gritando "Pai!" enquanto o Sr. Cuthbert, de quem eu me lembrava daquela noite há muito tempo no Tori's, a ignorava e se servia de mais um copo d'água. 
2) Poe, sentado no lado oposto da mesa de conferências, as mãos cruzadas à sua frente, o rosto virado para baixo. Ao meu lado, Malcolm ficou duro e eu sabia que também não esperava ver Poe ali. O que só significava uma coisa: ele estava trabalhando para a oposição (eu sabia!). 

O Sr. Cuthbert falou. 
— Little Demon, a porta, por favor. Odile começou, mas Cuthbert lhe lançou um olhar arrogante enquanto o homem baixinho que manipulara o elevador movia-se para fechar a porta atrás de nós. Depois de realizar a tarefa, o velho "Little Demon" atravessou para a longa mesa de conferências diante de nós e tomou seu lugar, deixando a dúzia de estudantes de pé constrangedoramente amontoados perto da porta. 
Passo 1 concluído. Eles haviam conseguido nos fazer esperar diante deles como crianças chamadas à sala do diretor. Mas a campanha de intimidação havia apenas começado.

— Por favor, sentem-se — disse um outro cavalheiro, que parecia ridiculamente familiar, mas que eu de jeito nenhum conseguia descobrir quem era. Ele fez um gesto para as cadeiras vazias e nós todos trocamos olhares quando vimos o que nos era oferecido. Não apenas estávamos sendo divididos, estávamos sendo banalizados. A longa mesa de conferências de madeira polida estava cercada de cadeiras desencontradas. Algumas eram de couro, com encosto alto e ergonômicas, outras pareciam ter sido roubadas do restaurante para preencher a mesa. As confortáveis, de couro, estavam todas ocupadas, e era óbvio que devíamos pegar as menores, de madeira, que estavam espalhadas entre os lugares dos patriarcas. Nós nos espalhamos e nos sentamos nas cadeiras Windsor baixas. 
O topo da mesa alcançava o meu peito e achei ter detectado um sorriso no rosto de um dos patriarcas vizinhos quando Odile, do outro lado dele, praticamente bateu com o queixo na mesa enquanto se sentava. 

— Srta. Dumas — disse o patriarca de aparência familiar. — Precisa de uma almofada? Odile, para mérito seu, não mordeu a isca. 
— Ah, não — falou. — Do meu ponto de observação, tenho uma visão muito melhor das suas melecas. Nick riu. 
— Acha isso engraçado, Sr. Silver? — o homem soltou, ríspido. 
— Sim, senhor — ele replicou. — Acho muito divertido que o senhor tenha considerado esse probleminha importante o suficiente para deixar a Casa Branca. 

Ah, agora eu o reconhecia. Kurt Gehry, Chefe de Gabinete da Casa Branca. Ele era um Coveiro? Isso explicava tanta coisa!
Megan limpou a garganta e ficou de pé. 

— Bem, já que não quero ficar na mesa das crianças por mais tempo do que o estritamente necessário, vamos ao assunto. Nós, os atuais membros da Rosa & Túmulo, estamos aqui para discutir o restabelecimento do acesso ao mausoléu na High Street.
— E, como corolário — Nick acrescentou —, exigimos que retirem quaisquer sugestões que tenham feito aos nossos empregadores a respeito de nossa ética de trabalho, confiabilidade e quaisquer outras opiniões negativas que tenham partilhado. 
Houve uma longa onda de silêncio. E então, o Sr. Cuthbert falou: 
— Não. — Mas vocês não têm o direito de fazer isso — disse Megan. 
— E você, Srta. Robinson, não tem o direito de estar usando esse broche. Não tem direito a ter acesso ao mausoléu da Rosa & Túmulo e com certeza não tem o direito de estar se dirigindo a esta junta. Os indivíduos que os convocaram e iniciaram sem a permissão dos curadores foram destituídos de filiação com a nossa organização e, portanto, sua iniciação está anulada. Isso não está correto, Barebones? 
Gehry assentiu. 

— Vocês não têm poder para nos expulsar — disse Malcolm calmamente. — Nós somos os membros. Nós controlamos a escolha dos convocados. 
— Teoria interessante, mas a realidade é que o dinheiro controla o destino da organização e nós controlamos o dinheiro, não os seniores. Se aqueles em uma posição de poder se recusam a reconhecê-los, vocês não serão reconhecidos. Seus cursos de ciência política devem ter lhes ensinado isso. — Eles me ensinaram o que aconteceu com os ditadores da história. Cuthbert decidiu também não reconhecer essa pequena zombaria. E, enquanto estava nesse clima, decidiu também não reconhecer o fato de que sua filha estava olhando para ele, de boca aberta. 
— E onde estão os seus chamados irmãos agora, Sr. Cabot? — disse, em vez disso. 
— Mais estão chegando — (droga de trânsito de Manhattan!) Malcolm olhou para Poe. 
— O que você tem a dizer em sua defesa? 
Finalmente, Poe falou. 
— Sempre fui contra a inclusão de mulheres sem a permissão expressa da junta de curadores.
— Poe nos informou a respeito do seu plano — disse o Sr. Cuthbert, presunçosamente. Treze pares de olhos lançaram adagas para o sênior de cabelos escuros. Não era de espantar que estivessem usando seu nome de sociedade e nos chamando de Srta. Isso e Sr. Aquilo (apesar de que, na verdade, eles todos deveriam tomar multas por falarem os nomes de código da sociedade na presença de pessoas que consideravam "bárbaras". Nota para mim mesma: ver se há prescrição para essas multas). 
— Seu canalha — falou Malcolm, olhando para Poe com os olhos gélidos. — O que está fazendo? 
Poe o ignorou. 
Nick tentou voltar ao assunto. 

— Gostaríamos de abrir um diálogo com vocês a respeito de suas dificuldades com a escolha de convocados dos seniores. 
Tínhamos, na verdade, passado várias horas na noite anterior configurando exatamente os tipos de argumentos que usaríamos e quem os levantaria. Naturalmente, deixamos o grosso da conversa ser levado por aqueles no grupo mais acostumados a debates formais — ou seja, Nick e Megan. 
— Não tivemos dificuldades para escolhê-los — disse Gehry, balançando a cabeça para Nick. — É uma pena que seja membro de uma classe inválida. — E, ainda assim — argumentou Nikolos, de acordo com nosso roteiro —, nunca nos deram a oportunidade de condenar as mulheres e escolher novos homens para substituí-las. — Ele fora muito incisivo em levantar essa questão, nem que fosse apenas, argumentou, para fazer os patriarcas repensarem seu plano precipitado. Eu achei que o fazia parecer um idiota, mas ei, cada um com a sua opinião. 
— Isso teria sido uma opção? — perguntou outro patriarca. 
Nikolos lançou um olhar para Odile. 
— Não — balbuciou. 
— Vocês podem achar que é uma questão de não separar o joio do trigo — disse outro —, mas achamos que é melhor começar do zero com uma classe não maculada por esse... incidente. A junta já selecionou uma nova lista de convocados do resto das turmas do terceiro ano.
— Ah, isso é genial — soltou Malcolm, e até Poe pareceu surpreso ao ouvir a novidade. 
— Quem vocês vão pegar agora, depois que todas as outras sociedades já recrutaram os melhores? 
— Isso não lhe diz respeito, Sr. Cabot. 
Revirei os olhos. E, como se só tivesse sobrado um bando de idiotas? Qual é, Malcolm. Essa era a Universidade de Eli, Havia muitos superastros que não estavam em sociedades. Podiam até estar pensando em convocar o Brandon, pelo que pudemos entender (e boa sorte com essa empreitada!). Só porque você não estava em uma sociedade secreta não significava que não fosse digno. Podia significar que tinha brigado com seu ex-namorado. 
— Qual é o seu problema com as mulheres? — Megan foi direto ao ponto. — A Rosa & Túmulo tem, nas últimas décadas, aberto sua lista de convocados para minorias, estrangeiros, homossexuais, pessoas de religiões, credos e posições sociais diferentes. Por que não mulheres? 
— Não é preconceito contra as mulheres — um dos patriarcas falou, e prosseguiu contornando habilmente todos os nossos planos. — Só não achamos que haja nenhum motivo para começarmos a convocá-las. A Rosa & Túmulo é uma organização fraterna, assim como a zombaria estúpida que é o sistema de fraternidades gregas que infesta todos os campi no país. A inclusão de mulheres iria alterar permanentemente a estrutura da sociedade e o caráter de suas reuniões. 
— Vai nos transformar num maldito clube de encontros amorosos — outro desdenhou. 
— Já posso ver as acusações de estupro. 
— E o que diabos vocês faziam lá! — Malcolm deixou escapar. 
— Nada que interessaria a você, rapaz — Gehry falou ríspido. 
Cuthbert disse com caráter final. 
— As mulheres estão livres para começar qualquer sociedade que queiram. Não iremos interferir. 
Bem, lá se ia o nosso roteiro e todos os melhores planos de Nick e Megan. 
— Isso é tão importante para vocês que vão sabotar nossas vidas? — Kevin perguntou, desviando-se completamente. — Perdi meu emprego em Los Angeles por causa de vocês, seus idiotas.

— Isso — Nick acrescentou. Dava quase para vê-lo tentando empurrar o assunto de volta para uma zona confortável. Precisava melhorar um pouco a cara de blefe antes de ser promovido para debates televisivos. — Esse comportamento não indica um simples desinteresse no sexo frágil, rapazes. Vocês se importam demais com isso. 
— Vocês entenderam errado — replicou Cuthbert. — Só fizemos o que temos que fazer para manter a integridade da organização. Os seniores agiram pelas nossas costas. Eles foram punidos e os ilegítimos foram avisados sobre o que poderíamos fazer se lutassem. Se vocês lutassem. É uma operação simples que não tem nada a ver com como a junta se sente a respeito de qualquer política. Não toleramos nenhum desvio dos juramentos e acreditamos fortemente que incluir mulheres na Rosa & Túmulo vai expressamente contra a missão de nossa Ordem e, assim, todos os seniores violaram o juramento de fidelidade, quad erat demonstrandum: o que ficou demonstrado. 
Odile balançou a cabeça e seu longo cabelo brilhou. 

— Vai contra o juramento na sua opinião. Acontece que eu acredito que a única forma de tornar essa sociedade viável no próximo século é reconhecer que isso não é mais um jogo de meninos. 
O homem entre nós começou a escrever. Olhei para seu bloco de notas e vi uma página de anotações rabiscadas apressadamente. A mais recente dizia: "Este é um mundo unissex. Por que não deveríamos ter uma sociedade unissex?" 
Será que os estudantes tinham aliados no meio dessa galera? E, se tínhamos, por que eles não estavam se manifestando? O homem ao meu lado manteve o queixo firme no lugar e escrevia sem parar em seu bloco, ocasionalmente apertando a caneta com tanta força que a tinta deixava borrões na página. 
Coloquei minha mão ao lado da sua e ele olhou para cima, olhando em meus olhos por um momento com um ar de encorajamento, e então voltou para suas anotações. 
É, está bem, amigo. Se você não vai falar, então não espere que eu fale.
— Como já mencionei — Cuthbert disse com um suspiro —, não temos nada contra a idéia das mulheres organizarem uma sociedade secreta própria. 
— Mas isso não vai dar certo — disse Odile. — Parte do apelo dos Coveiros é possuir séculos de existência. E impossível uma sociedade secreta de mulheres competir com isso, já que só foram admitidas em Eli em 1971. A Rosa & Túmulo tem uma rede enorme de contatos, a propriedade, suas doações de milhões de dólares. Mesmo que as primeiras mulheres em Eli tivessem começado uma sociedade, só agora, trinta e tantos anos depois, teriam adquirido o tipo de posição na sociedade que traria benefícios para os novos convocados. Não há um mausoléu, uma ilha. 
— Nenhum relógio de pêndulo de alta precisão — resmunguei. O patriarca ao meu lado me deu um olhar curioso, lateral. 
— Mesmo a Rosa & Túmulo teve que começar de algum lugar. 
— É — Clarissa escarneceu. — Com barões de ferrovia e reis das lavouras do século XIX. Russell Tobias e seus amigos despejaram milhões no empreendimento na primeira década, porque tinham dinheiro para torrar e um lugar já garantido na sociedade. 
— Então, talvez, minha querida — disse o Sr. Cuthbert — você devesse considerar esse caminho para você e seus amigos. Pelo menos assim eu teria certeza de que o meu dinheiro está sendo bem gasto.
Clarissa calou a boca. 
— Não, é claro que você não iria querer seguir esse caminho — ele falou, seu tom encharcado de sarcasmo. — Porque faria um sério rombo no seu orçamento para sapatos e na sua coleção de óculos escuros. 
Odile interrompeu novamente. 
— Como eu estava dizendo, a estrutura da sociedade é algo que leva anos para se desenvolver. Eli abriu suas portas para as mulheres há três décadas. Mesmo na população total levou uma geração, mas agora nós somos consideradas iguais aos homens. — Ah, querida — Megan murmurou. — A gente precisa conversar. Odile ignorou-a.
— A Rosa & Túmulo precisa se atualizar ou cair na obscuridade. Estão ficando de fora de um grande crescimento de mercado em potencial. As pessoas que vocês desejam privar de direitos serão membros valiosos para esta sociedade. 
— Os seniores se asseguraram disso — disse Nick, claramente satisfeito por termos voltado ao assunto. — Eles convocaram uma classe que agradaria a vocês — ele apontou para Megan — líderes — para Jenny — capitães de indústria — para Odile — os ricos e famosos — para Clarissa — e legados. 

Passou direto por mim. Malditos políticos!
Ele olhou para o Sr. Cuthbert. 
— Está lutando contra sua própria filha, senhor. 
— Com bons motivos, filho — ele apontou para Clarissa. — Quer saber qual é o meu problema com mulheres? Aqui está. Ela está sentada bem aqui. Sei que esses rapazes não fizeram boas escolhas, porque veja quem escolheram! 
Ninguém se mexeu. 
Ninguém respirou. 
Na verdade, eu apostaria que uma boa porcentagem de nossos corações parou de bater. 
Clarissa ficou olhando para o dedo dele, seus olhos azuis esbugalhados sem piscar. 
— A minha filha — o homem cuspiu, ficando com o rosto um pouco vermelho — é um desperdício. Se soubessem o que eu fiz por ela. Se soubessem pelo que passei por causa dela... — Ele sacudiu a cabeça. — Mas é claro que não sabem. Vocês nem teriam isso em seus arquivos. Nós escondemos tão bem. Tão desgraçadamente bem. 

Será que ele estava falando de como ela entrara a partir da lista de espera? Clarissa não parecia pensar que isso era um grande segredo. Ela não tinha sentido o mínimo de constrangimento a respeito. No entanto, não seria a primeira Coveira a compartilhar um segredo comigo, achando que eu nunca contaria. Apesar de que, pensando bem, Selena também estava na sala. 

— Papai... — Clarissa murmurou. 
— O quê, Clary? Acha mesmo que é capaz do tipo de responsabilidade que é ser um Coveiro? Você realmente acha que tem a força, a resistência mental? 
— Papai, por favor! Isso foi há muito tempo!
— Não há tempo bastante. Nem de perto o tempo bastante — ele virou-se para Malcolm. — Quer saber o que acharam que era bom o bastante para os Coveiros, Sr. Cabot? Deixe-me lhe contar sobre a minha filha. Deixe-me lhe contar tudo sobre ela — ele dirigiu seu olhar para Clarissa, tão branca que podia ser feita de mármore. — Ela engravidou quando tinha 14 anos. Quatorze anos, pode imaginar isso? 

Considerei tudo o que eu havia pensado sobre Clarissa Cuthbert desde o primeiro ano. É, eu podia imaginar isso. E a verdade era que, há um mês, eu provavelmente teria gostado dessa pequena informação. Mas não agora. Não agora que eu entendia que sua grosseria não era esnobismo, seu estilo não era elitismo e que suas observações supostamente maldosas eram simplesmente esforços mal direcionados de dar conselhos. Não sei como aconteceu mas, de alguma forma, minha raiva havia se transformado em tolerância e, a partir daí, em um relutante respeito. E agora eu percebia mais uma coisa: Clarissa era minha irmã. 

— E isso foi apenas o começo. Obviamente não satisfeita em se prostituir por aí, seu próximo truquezinho foi desenvolver uma assim chamada desordem alimentar para chamar nossa atenção. Ela se empanturrava de junk food e aí tomava laxantes. Foram seis meses divertidos da minha vida. Ficou tão mal que tivemos que mandá-la para longe por algum tempo. Um lindo lugarzinho no campo que a curou direitinho, não foi, querida? 

Lágrimas do tamanho de doses de vodca rolavam agora pelas bochechas de Clarissa. A boca de Megan estava aberta. Jennifer segurava sua cruz com tanta força que eu esperava que a qualquer momento se abrissem chagas nas palmas de suas mãos. Odile parecia... entediada. 
Os outros estavam paralisados pelo acesso de fúria do Sr. Cuthbert, com a exceção de Poe, que apenas olhava para as mãos.
Eu só podia imaginar como deve ter sido a vida para Clarissa quando adolescente. Assustada, claramente confusa, obviamente procurando atenção. Fiquei imaginando o que teria sido necessário para "curar" o problema de Clarissa com a bulimia. A julgar pelo olhar malicioso no rosto do Sr. Cuthbert, não fora bonito. Ninguém invejaria sua riqueza se vissem o preço que ela pagou. 

— E então, é claro, o acobertamento. Não podíamos deixar as universidades saberem que minha preciosa filhinha havia perdido metade de um semestre no segundo ano, podíamos? Tínhamos que esconder isso. Tínhamos que mentir. Tínhamos que forjar todo tipo de documentos para garantir que seu histórico fosse impecável. Ainda bem que eu era um Coveiro ou não teríamos os contatos que precisávamos. E mesmo isso não foi o bastante. A vagabundazinha precisou da nossa ajuda de novo para entrar em Eli. E vocês acham que ela é boa o bastante para ser uma Coveira. E que ela pode entrar valsando aqui como se tivesse esse direito. Esta organização é melhor do que isso. É melhor do que os do tipo dela. 

A cabeça de Clarissa caiu derrotada e algo dentro de mim explodiu.

— Cale a boca! — Levantei-me tão rapidamente que a cadeira barata de madeira saiu voando. — Cale a boca, cale a boca, cale a boca! — Talvez fosse o meu juramento ou talvez fosse apenas a minha humanidade, mas eu não ia ouvir nem mais um segundo daquilo. — Que tipo de pai é você? Que tipo de pessoa é você? Pode estar decepcionado com sua filha, pode estar zangado com ela, mas dizer coisas terríveis assim sobre sua própria carne e sangue para uma sala cheia de gente? O senhor me dá nojo, Sr. Cuthbert.

E agora todo mundo estava olhando para mim, Demi Lovato, que não tinha nenhuma desculpa para estar na Rosa & Túmulo, exceto ter uma boca que não ficava fechada nem se a minha vida dependesse disso.

  
O homem ao meu lado estava me lançando um olhar que dizia:  Finalmente.

— Ela é sua filha. O senhor deveria amá-la. O senhor deveria apoiá-la. Não acha que ela merece estar na sua preciosa sociedadezinha secreta, mas a forma como acabou de agir me prova que o senhor entendeu completamente errado o que significa estar na Rosa & Túmulo. — Respirei fundo. — Porque, a partir do segundo em que eu fui convocada, Clarissa me tratou como uma irmã.

Eu achava que era elitismo, mas estava enganada. Aos olhos de Clarissa, nós finalmente tínhamos algo em comum, uma base para alavancar nossa amizade.

— Podemos ter tido nossas diferenças no passado e com certeza eu não estou prestes a admitir que concordo com metade do que ela diz, mas ela tem sido leal, gentil e atenciosa comigo desde o segundo em que aparecemos no mesmo mausoléu. Esta é a sua filha, Sr. Cuthbert. Esta é a jovem que o senhor criou.

Parei, mas ninguém parecia pronto a interromper. Olhei para Clarissa, que agora estava com a cabeça enterrada nos braços. Seus ombros magros sacudiam com os soluços.

— E ela ama, ama muito a Rosa & Túmulo. Mais do que qualquer outro convocado da minha turma, ela entendeu o que significa ser uma Coveira. Porque o senhor o ensinou a ela. Não tem orgulho disso? E ela não conseguia esperar para mostrar a todos nós. Há alguns meses, nós nunca teríamos nem nos cumprimentado na rua, mas agora, na Rosa & Túmulo, temos a chance de nos conhecer e de realmente pertencer a algo muito grande. E Clarissa abraçou isso. Significa tudo para ela, não consegue ver isso? Ela trabalhou que nem uma condenada na faculdade e foi convocada pelos Coveiros e talvez, apenas talvez, finalmente tenha feito algo que o deixaria orgulhoso. Algo que faria com que a respeitasse da forma que tão claramente não respeita. Porque o senhor dá o seu respeito aos Coveiros e não à sua filha. Já pensou nisso?

O Sr. Cuthbert engoliu em seco.

— Não, não pensou. Esqueceu-se inteiramente de que os Coveiros e vem ser uma família, porque não consegue sequer tratar sua família com o respeito que dá a um estranho na rua. É isso que é ser um Coveiro? É o tipo de pessoa que "merece" estar na sociedade? É o que quer dizer com uma ordem fraterna e leal? Isso é cascata. Até o Poe — apontei para ele. Até mesmo aquele porco chauvinista maldoso, traidor e desonesto —, até o Poe me disse que apoiaria seus irmãos mesmo que não gostasse de sua decisão, porque eram seus irmãos e os Coveiros permanecem unidos. E, de alguma forma, o senhor conseguiu convencê-lo do contrário. Convenceu-o a quebrar seu juramento de lealdade. Então, quem cometeu perjúrio agora? Vou dar uma dica: não somos nós.

 Todo mundo ficou simplesmente olhando para mim. Poe parecia — bem, se é que isso é possível, ele parecia mais pálido do que o normal. Completamente atônito, para dizer a verdade, ótimo. Afinal de contas, para alguém tão obcecado pela sociedade quanto o Poe, devia ser uma droga cometer perjúrio.

Continuei como um rolo compressor, ignorando a pequena revelação que teve e subseqüente colapso. Pode chorar um rio, seu puxa-saco arrogante.

— E não são os seniores também. E não são os patriarcas que os ajudaram com a iniciação. Também estão perseguindo todos eles? O Sr. Prescott? Os outros? Há patriarcas do nosso lado. Vão ter que inspecionar todos os ex-alunos para arrancar todos nós. — O patriarca ao meu lado mexeu-se ligeira-mente na cadeira e eu respirei fundo. — Admito que não sei como tudo isso funciona — falei e lancei outro olhar para Poe, que estava olhando para baixo, para suas próprias mãos trêmulas —, mas gostaria de saber quantos patriarcas realmente concordam com esta junta.

Sente-se, Srta. Lovato — disse o Chefe de Gabinete do Presidente dos Estados Unidos e isso me fez congelar no ato. Peguei minha cadeira e caí sentada nela, respirando ofegante.

Que merda eu tinha acabado de fazer?

Poe olhou para cima, fechando os punhos.

— Ela está certa — disse simplesmente. 
Kurt Gehry colocou a mão tranquilizadoramente no braço de Poe. 
— Filho... 
— Não, ela está muito certa — ele olhou para Malcolm. — Eu sinto tanto, Lance. — Ele parecia próximo às lágrimas. — Eu menti para você. Não acredito que fiz isso. Você é meu irmão. 
— Tudo bem — Malcolm falou. 
Mas minha diarréia verbal era obviamente contagiante. 
— Não, não está. Não está vendo? Você nem tem que estar aqui. 
— Poe, cale a boca — disse Gehry, e desta vez parecia haver aço por trás de suas palavras. 
— E eu devia ter lhe dito — Poe continuou matraqueando. — Mas não queria irritá-los. E eu concordava com eles. Achei que as garotas eram péssima ideia. Eu também disse isso a você. Garotas... bem... — ele baixou a cabeça. — Não importa. 
— Importa — disse outro patriarca. — É uma acusação de estupro esperando para acontecer. — Olhou para Odile cautelosamente, como se ela estivesse prestes a gritar "assédio sexual" ali na mesa. Os outros patriarcas ainda estavam em choque com a explosão do Sr. Cuthbert. O próprio Sr. Cuthbert parecia um balão vermelho murcho. 
Clarissa ainda não levantara a cabeça da mesa. 
— Mas eu o deixei sem saber nada. — A voz de Poe tremeu, mas ele forçou adiante. Cada frase parecia uma martelada de juiz. Para ele, deve ter sido mais como a lâmina de uma guilhotina. — A semana inteira, quando vocês estavam planejando, eu contava tudo a eles, e não disse a vocês a única coisa que vocês precisavam saber... 
— Pare de falar — a voz de Gehry se tornara aguda e desesperada. 
— Porque o negócio é que, esta junta... 
— Pare. Agora. 
— Eles são só a junta. 
— Pare de falar, Poe. 
— Se estão procurando permissão, não precisam da deles. Precisam dos curadores como um todo. E cada aluno, cada patriarca do planeta, é um curador da Rosa & Túmulo. 
O rosto de Gehry ficou num belo tom de magenta que quase combinava com o cabelo de Megan.

— Cale a boca neste instante ou eu juro por Perséfone que você vai pagar por isso. Mas a resolução do Poe alcançara uma velocidade terminal. 
— E podemos perguntar a eles diretamente. Façam uma votação por e-mail. Diabos, façam uma convocação. Tenho todas as informações no meu quarto em Eli. Se eles nos aprovarem, se aprovarem as mulheres, não há nada que a junta possa fazer a respeito. — Poe fez uma pausa, olhando em torno do aposento para os convocados reunidos ali, como se os visse pela primeira vez. Seus olhos se fixaram nos meus por um ínfimo instante antes de se voltarem para Malcolm. 
— E Lance, eu acho que eles vão aprovar. 

O patriarca ao meu lado escorregou seu bloco de papel na minha direção. Olhei para baixo, para a mensagem rabiscada ali. 

Bom trabalho, Bugaboo. Bela jogada.


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Oiee, nossa que horas eu fui postar u.u 
rsrs
Bom mais um capítulo, sinto informar que falta uns 2 ou 3 capítulos para acabar essa temporada. t.t
Ai eu queria perguntar para vocês, querem que eu comece logo com a segunda temporada OU poste uma outra fic entre elas (essa seria bem hot) ... ta nas mãos de vocês. 
Vou por uma enquete ali em cima... e dai é com vocês =)

Bom, boa noite!! 
Bjss


5 comentários:

  1. Olha esse capitulo me deu vontade de xingar...primeiro vai implicar com os broches lá na pqp..o Joe poe a vai te catar...vou confessar uma coisa não vou com a cara do Malcon kkkkkkk
    A louca gostiiiii jujuba
    Obrigada por ter postado
    Meu votoooo tu sabe que eu gosto de um hot né kkkkkkkkk
    Beijos da titia

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  2. sinto cheiro de aproximaçao desses 2 jaja
    ah vc q sabe, isso de escolher proxima fic é complicado, ja basta quando eu tenho q escolher as minhas

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  3. Posta logo ta mt perfeito. quando jemi vaao ficar juntos? Eu prefiro q vc poste logo a 2 temporaada.. dps tu posta a fic hot kkk

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  4. Olha eu aquiiii Juh. Vou ler ainda os caps que eu não li, mas só passei pra comentar e vou ler os outros, mas posta logo em
    beijos

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  5. Meu décimo sentido está me avisando que esse dois nestante se aproximam.
    Cap. perfeito

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Sem comentários ........... sem capítulos!