04/03/2014

Sociedade Secreta - Capítulo 9 (Parte 1)






Por meio desta, eu confesso:
 nunca previ isso. 

9.

A Reação

Olhando para trás, devíamos ter procurado Malcolm ou um dos outros seniores imediatamente, mas não procuramos. Afinal de contas, éramos novos nessa história toda de Coveiro. Como iríamos saber que o cadeado era um acréscimo recente ao visual do mausoléu? Lembro-me de naquele momento argumentar com o George que talvez o zelador sempre passasse o cadeado nos dias em que não havia eventos formais planejados. Mas, quando demos a volta para a entrada lateral, também havia uma corrente lá, e nenhum de nós sabia onde poderíamos obter a chave.

— Podíamos bater na porta — George sugeriu, mas não se moveu para fazê-lo.
Fiquei aliviada em ver que minha hesitação encontrava eco em alguém mais versado nas tradições da sociedade. Ainda que eu tivesse passado horas dentro do mausoléu no dia anterior, fazendo juramentos e aprendendo segredos, a mesma inquietação em relação à propriedade que fora cultivada nos últimos três anos ainda tinha poder sobre mim. Senti quase como se eu não pertencesse àquele lugar.

O que, como acabou se provando, era exatamente como queriam que eu me sentisse.

Com nossos planos de ficar de bobeira no mausoléu frustrados, fomos até o restaurante do Lenny, que possui a particularidade de ter os horários mais loucos de qualquer restaurante em New Haven. Sério, você nunca sabe quando vai estar aberto. Os horários são algo como de 11 horas às 15hl5 às segundas-feiras, de meio-dia às 14 horas às terças, das 19 horas às 21h30 quintas e sextas-feiras e do meio-dia à meia-noite aos sábados. Não estou brincando (e não, eu não me responsabilizo por nenhum desses horários. Sinceramente não faço idéia de quando eles estão abertos). Além disso, só há uma coisa no cardápio — cheeseburgers na torrada com cebolas e tomate — e o proprietário o expulsa se você pedir ketchup. Mas, se aprender as regras, como o "nazista da sopa do Seinfeld" gostaria que você aprendesse, eles fazem cheeseburgers sensacionais. (E só cheeseburgers, aliás, não hambúrgueres. Ai dos que têm intolerância à lactose.)
Nós nos sentamos nos antigos reservados de madeira e esperamos nossa comida. Com o passar das décadas, as pessoas haviam entalhado histórias pessoais que dariam uma enciclopédia nos espaldares e nas laterais das mesas e dos bancos (a parte de baixo era algo da qual você mantinha distância, se quisesse continuar com apetite). Corações, escudos, citações de Shakespeare e Stalin — vale qualquer coisa no Restaurante do Lenny, Esfreguei o suor que escorrera da minha garrafa de refrigerante gelada e poli um entalhe que dizia "B + A 1956".
São iniciais muito comuns.
George e eu comemos nossos sanduíches sem ketchup, bebemos nossos refrigerantes e conversamos sobre cinema. Não falamos sobre a família dele ou a minha ou os estranhos cadeados na porta do mausoléu. A onda da vodca estava finalmente passando e fiquei com a mão em cima do entalhe enquanto comia. George Harrison Prescott era um homem muito atraente, mas eu não tinha o menor interesse em contribuir para sua lista de
conquistas já estelar.

— O que vai fazer neste verão? — George perguntou.
— Consegui um estágio na Horton. Sabe, a editora? — Um pouco de queijo do meu cheeseburger caiu no guardanapo.
Com calma, Demi, com calma.
— Em Nova York? Legal. — Ele girou sua garrafa pelo gargalo. — Eu vou para a Europa por algumas semanas logo depois das provas e depois provavelmente vou trabalhar para o meu pai em Manhattan. A gente devia sair.
— Você sabe o que quer fazer depois da formatura?
Ele deu de ombros.
— Uma das três grandes: finanças na internet, consultoria, faculdade de direito.
— Nenhuma preferência?
Ele deu de ombros novamente.
— Na verdade, não. Diga-me, esse é o seu primeiro estágio em uma editora?
— Em Nova York, é. Trabalhei na editora da Eli há alguns verões.
— Bem, então está bem colocada para arrumar um emprego quando se formar. Queria ter pensado com tanta antecedência. Está vendo, esse é o segredinho sujo que eles não contam para ninguém, Quando entrei em Eli, achei que os empregadores cairiam em cima de mim quando me formasse, loucos para contratar alguém com um diploma de uma universidade da Ivy League.

Quando você está entrando entregando seu dinheiro a uma universidade, elas ressaltam o tempo todo que reputação maravilhosa elas têm, como vão abrir todo tipo de portas para você, Mas quando você está no meio dos seus estudos, descobre que não é assim. Você não é um homem (ou mulher) empregado só porque seu diploma traz o escudo de Eli.

PESSOAS QUE SE IMPORTAM REALMENTE COM A IVY LEAGUE

1) Firmas de investimento financeiro e consultoria onde podem cobrar os tubos de seus clientes já que estavam fornecendo uma equipe com o selo da Ivy League (a qual, em seguida, eles mastigavam e cuspiam). 2) Faculdades de direito cuja classificação é parcial-mente baseada nas credenciais das universidades das quais selecionam seus alunos. Já que, nos EUA, este curso específico só vem depois que você já estudou outra coisa.
3) Sua tia-avó Amélia, que gosta de se gabar para os seus amigos veteranos de guerra.


Se você quisesse um emprego que leva a uma carreira em vez de um dinheiro rápido, então era melhor ter um currículo cheio quando pegasse seu diploma.

— Não se preocupe — falei. — Você vai ganhar muito mais dinheiro como consultor do que eu como assistente editorial. Vai ser uma estatística muito melhor para a universidade.

Esse é o outro lance. Eli respeita muito mais seus formandos em consultoria financeira que ganham o dinheiro e saem correndo, que podem virar e dar presentes financeiros para a universidade imediatamente após a formatura, do que qualquer um que invista numa carreira a longo prazo. E, olhando para a turma de convocados da Rosa & Túmulo para a qual acabara de entrar, eu diria que era certo que os Coveiros pensavam mais ou menos na mesma linha. Poder e/ou riqueza eram a ordem do dia. E, mais uma vez, eu era uma estranha no ninho. George estalou os dedos na minha frente.

— Ei, é sábado à noite. Pare de pensar tanto. Eu me irritei e comecei a rasgar o rótulo da minha garrafa de refrigerante.
— Não estou pensando.
Deus, ele parecia o Brandon.
— Mas, sério, Demi, você tem tudo planejado. Eu admiro isso. Veio para Eli sabendo exatamente o que queria fazer e está fazendo. Eu tenho um duplo legado familiar e nunca fiz planos para um estágio de verão. 
— Não precisa de um. Você é um Prescott.
— Afff. Prescott ou não, não tenho a menor idéia do que fazer.
Sorri conspiratoriamente.
— Sinceramente? Nem eu.

Mas o negócio do estágio eu aprendera no começo. Lembro-me claramente de estar sentada no escritório da revista literária uma noite no primeiro ano enquanto Glenda tentava em vão acalmar os nervos de uma velha amiga. A garota havia se formado no ano anterior e estivem procurando um emprego nos últimos nove meses, sem sorte, apesar de seu selo de Eli.
— Eles não se importam — ela soluçava. — Recebem centenas de currículos por dia, e não ligam para o quanto eu sou inteligente ou para o quanto eu li dos cânones ocidentais. Eles só querem saber onde fiz estágio!
— E onde foi? — eu perguntara, como uma caloura idiota.
— Em lugar nenhum! — a garota sibilara para mim, me encarando com olhos cruéis e vermelhos. — Tive que trabalhar no verão para pagar esta escola idiota. Bela porcaria me serviu. Preferia estar mais endividada agora e ter um currículo melhor do que estar desempregada com alguns milhares de dólares.

Tomei isso como uma crença. Esse estágio na Horton era o ápice de tudo pelo que eu vinha trabalhando. Em meu bilhete de entrada para o mundo editorial depois da formatura.
Está bem, talvez eu tivesse tudo em ordem. Porque aqui estava eu, numa noite de sábado, saindo para comer com o cara mais gostoso da minha universidade (é, ele até pagou), membro da sociedade secreta mais elitista da escola, uma das melhores alunas indo para um glamouroso emprego de verão na cidade de Nova York... de onde eu estava, a coluna dos prós parecia bem boa.
Ele me acompanhou de volta à entrada da Universidade Prescott e eu pensei sem parar em várias maneiras de deixá-lo na porta que me fariam parecer misteriosa, em vez de desinteressada.
Apesar de que, se alguém perguntasse ao Brandon, eu sempre conseguia parecer a última coisa sem me esforçar. Abri cuidadosamente a porta da suíte, evitando qualquer contato com as manchas que ainda estavam espalhadas pela maçaneta e entrei discretamente.

— A gente se vê amanhã — ele murmurou.
Virei-me para ele. Seus olhos cor de cobre brilhavam como se tivessem acabado de ser fundidos e tive que virar meu queixo para cima para olhá-lo de frente. Bem bacana, na verdade.
— Amanhã?
Ele assentiu.
— Primeira reunião, lembra-se? Às cinco para as seis, ou VI na hora dos Coveiros.

Era verdade. De agora em diante, os Coveiros detinham o controle das minhas noites de domingo e quinta-feira. Perder uma reunião não era permitido de forma alguma além de circunstâncias absolutamente mortais (como Poe colocou, mesmo que esteja no hospital, é melhor estar em coma). Faltar era visto como uma violação do juramento de fidelidade.

Prometo apegar-me completamente aos princípios desta antiga ordem, favorecer seus amigos e prejudicar seus inimigos, e colocar acima de todas as outras as causas da Ordem da Rosa & Túmulo.

É claro que, se George não botava muita fé no juramento de sigilo, quem poderia saber o que mais na Rosa & Túmulo ele ia ignorar? Provavelmente faltaria a uma reunião na primeira vez que o horário entrasse em conflito com seu interes-se em comer alguém.
— Está bem, então—falei e comecei a fechar a porta entre nós. — Obrigada pelo cheeseburger. Boa noite, George.

Viu? Viu como eu sou boa? Nem pensei em beijá-lo. Nem pensei em deixar que ele me beijasse. Eu podia resistir até mesmo aos encantos de George Harrison Prescott. Um verdadeiro pilar de autocontrole, essa é Demi Lovato.

— Boa noite — ele murmurou numa voz convidativa in-confundível. A porta se fechou.— Boa noite... Bugaboo.
Derreti no piso de tacos.

____________

Eu podia ter a liberdade de comprometer todas as minhas noites de domingo e quinta-feira com a Rosa & Túmulo no próximo outono, mas nesta primavera ainda tinha obrigações para com as facetas da minha existência que me faziam digna de ser um membro da sociedade para começo de conversa. Não GEP, porém. Eu decidira que era uma causa perdida. Meus domingos haviam sido seriamente comprometidos com esse novo desenvolvimento das minhas atividades extracuriculares.
Eu tinha duas opções:

1) Acordar às 8 horas todos os domingos como se fosse uma estudante de ciências que tem laboratórios de manhã cedo e ler mil páginas de Tolstoi antes que qualquer outro universitário tivesse a menor chance de estar acordado.
2) Tirar vantagem da suposta biblioteca de provas finais da Rosa & Túmulo para ter tempo em minha tardes curtíssimas de domingo para fazer, sei lá, tudo o mais na minha vida? Coisinhas pequenas como lavar roupa?

Nem hesitei.
Hoje, no topo da minha lista de coisas a fazer estava finalizar uma pauta para a edição de formatura da revista literária. A proposta do tema Ambição havia vazado e, na última vez em que olhara, eu tinha 23 e-mails irados de autores de Eli na minha caixa de entrada sobre como essa revelação não lhes dava tempo para permitir que a inspiração surgisse, que suas musas permeassem, ruminassem, se agitassem e/ou se comiserassem com o assunto. Alguém ficara acordado estudando o dicionário, eu acho (apesar de "comiserar" ter sido um pouco demais). Mas, por favor. Deus não permita que eles realmente escrevam isso de coração e nos deixem escolher os textos que se encaixam melhor na antologia. Eu previ 23 carreiras infelizes.
Pegando emprestado um truque de meu irmão mais velho da Rosa & Túmulo, prendi meu broche da sociedade na alça da minha bolsa de carteiro azul-Eli, passei-a pelo ombro, enfiei meus pés em um par de tênis de cano longo amarelos (as cores da Universidade Prescott) e saí pela porta. Na última semana, a primavera cedera ao domínio do verão e o corpo estudantil estava a todo vapor na rua, brancos-azedos fazendo tudo o que podiam para neutralizar os danos causados por terem ficado entre quatro paredes o inverno inteiro. As garotas deitavam-se esparramadas pelo pátio em saias leves de cores pastel como se estivessem posando para um catálogo do campus, enquanto garotos sem camisa praticavam seus arremessos de frisbee. A Universidade Prescott não era conhecida por seu time de vale-tudo, mas os torsos eram decentes, na maioria.
Eca, a não ser por aquele ali.
Diferente das meninas, eu estava vestida para trabalhar em vez de para tomar banho de sol, com mais um dos meus onipresentes jeans e uma camiseta da Universidade Prescott. (Quando chega ao terceiro ano, o estudante médio tinha acumulado cerca de uma dúzia dessas coisas. Eles as distribuem a esmo em todos os eventos universitários, desde o dia da mudança até o churrasco anual de primavera. Tenho até uma da competição de luta greco-romana na gelatina entre o reitor e o supervisor da Universidade Prescott que aconteceu no segundo ano, mas não a uso muito. Ainda está manchada de azul.) Cheguei no minúsculo escritório da revista literária e encontrei Brandon já até o pescoço de problemas para resolver. O chão em volta de seus pés estava lotado de aviões de quatro dobraduras.
Chutei o avião mais próximo.

— Tem sorte de nunca termos tido inscrições via internet.
Ele não olhou para cima.
— Já percebeu como recebemos cinco vezes mais textos para a edição de formatura do que para todas as outras edições juntas? — Coloquei minha bolsa na mesa. — Nas outras edições, ficamos procurando histórias ou temos que inventar nós mesmos alguma coisa no último minuto para que o layout não seja todo preenchido por anúncios da Starbucks ou de papelarias.
Brandon virou uma página e continuou lendo.
— É claro — continuei, sentando na minha cadeira e girando para ficar de frente para ele — que você sempre foi melhor nisso do que eu. Quer dizer, em escrever histórias de improviso.
Seus olhos pararam de escanear de um lado para o outro e ele piscou.
— Obrigado.
— Sou melhor em procurar.
 — Com certeza está demonstrando isso agora.
Engoli. Fui longe demais.

Brandon acenou com a cabeça em direção a uma pilha arrumada de manuscritos no canto da mesa.
 — Esses quatro são possibilidades.
E o prêmio de elegância vai para... Brandon Weare.

— Me desculpe por ontem à noite.
Ele finalmente olhou para mim, mas não adiantou coisa alguma. Eu não conseguia saber nada pela sua expressão.
— Por que parte?

Qualquer parte que o tenha magoado. 
A porta do escritório se abriu e Glenda Foster entrou, trazendo um porta-copos de papelão com dois qualquer-coisa grandes gelados. Nunca fiquei tão feliz em ver minha mentora, mesmo que ela tivesse fracassado em me convocar para sua sociedade se-creta e escondido de mim seu período de experimentação lésbica. Todo mundo tinha seus dias ruins. Eu tinha certeza de que Glenda ainda me amava, ainda que Brandon... Bem, não usamos a palavra com A em relação ao Brandon. Glenda parou no meio do caminho quando me viu.
— D-Demi — disse, com a voz abalada pelo nervosismo. — O que está fazendo aqui?
Franzi a testa.
— Como?
Ela entregou uma das bebidas para o Brandon.
— Muito bem, B, café com leite gelado para você, frappê de caramelo para mim. — Glenda lambeu uma gota de chantili do pulso e evitou me olhar nos olhos. — Desculpe por não termos chamado você, Demi, mas o B e eu achamos que você não ia aparecer hoje.

Lancei um olhar para o Brandon. Como ele ousava? Eu tinha tanto direito de estar ali quanto ele! Até mais, porque eu era a editora! Podíamos ter discutido na noite passada, mas com certeza ele tinha que ter uma opinião muito baixa sobre mim para achar que eu abandonaria meu posto na revista literária a fim de evitá-lo.
— Como assim? — perguntei, virando para ele e lutando para manter minha voz natural. — Eu lhe disse que estaria aqui.
 — Certo — disse Glenda. — É só que... com tudo o que está acontecendo... — Ela acenou com a mão de norte para noroeste, como se a direção fosse significativa.
— Tudo o que está acontecendo... — incitei.
Brandon limpou a garganta.
— Na Rosa & Túmulo.

Eu gelei, ali sobre o piso de linóleo gasto. Procurei o ilhés do meu cinto, e então me lembrei que havia posto o broche na alça da bolsa.
— O que — sussurrei — está acontecendo na Rosa & Túmulo?
Os olhos de Glenda ficaram mais esbugalhados.
— Quer dizer que você não sabe?

Em um milésimo de segundo, eu havia pego minha bolsa e, no outro, havia saído pela porta. E, enquanto eu saía, minha mente girando com preocupações, havia uma que parecia emergir.

Belo trabalho de sigilo, Demi. Mal é seu segundo dia como Coveira e nenhuma das pessoas com que você se relaciona ainda está no escuro quanto a isso.
 ___________


O "que está acontecendo" provou ser uma turma de cerca de 50 pessoas amontoadas no ponto mais alto da High Street. Os 20 que se destacavam eram uma fileira de homens mais velhos, todos de terno e óculos escuros, em uma fila que se estendia pela fronteira da frente da propriedade da Rosa & Túmulo como uma espécie de escudo humano. Quem quer que tivesse coordenado suas roupas gostava um pouco demais daqueles personagens de Matrix, pelo que eu imaginara. No mausoléu em si pareciam ter brotado ainda mais cadeados e correntes desde a minha última visita. Todas as outras pessoas perambulavam pela rua, fazendo o máximo para parecer que não tinham escolhido um lugar para ver o que ia acontecer.
Vi Malcolm e Clarissa e caminhei até eles.
— O que é isso?
— O revide — Clarissa fungou, lançando um olhar por cima do ombro para a fileira de homens. — Babacas.
Bem, isso ajudou muito. Desviei minha atenção para o Malcolm, que estava no meio de uma acalorada discussão em seu celular.
— Não me interessa, apenas venha para cá. Agora. Não acredito que eles foram em frente com a ameaça. Os imbecis. Não, não, é claro que não... O que, você quer que eu vá até lá e bata de frente com eles? Não está me ouvindo, cara, estou dizendo que tem uma multidão.
— Exatamente como eles queriam, sem dúvida — observou Greg Dorian, chegando para perto pelo outro lado.
— Eles são patriarcas? — falei, tentando encontrar resposta para o mistério.
Todos os outros assentiram, e fiquei pensando que reunião eu teria perdido.
— Olhe. Só chegue aqui antes dos jornais, está bem? — Malcolm fechou com força o flip do telefone e começou a andar de um lado para o outro.
Nick veio de onde estivera perambulando, ali perto, e se juntou ao grupo.
— Que se dane a multidão, Cabot. Sabe, se eles não se importam em proteger o sigilo, por que nós deveríamos?
Malcolm sacudiu a cabeça.
— Porque, novato, diferente desses caras, nós temos um segredo para proteger. — Ele olhou para o grupo que formava o escudo humano. — Composição muito inteligente. Aposto cem dólares que nenhum deles foi convocado depois de C134 — bom, quer dizer, da classe de 1964.
— O que houve em 1964? — um dos outros novos convocados perguntou.
— A culpa elitista. Não era mais legal ser Coveiro e eles foram para a clandestinidade.
— Espere um segundo — estendi a mão na frente de Malcolm para fazê-lo parar. — Está dizendo que toda essa história de sigilo é nova?
Malcolm estalou a língua.
— Vocês, novatos, não têm respeito pela história. Sim e não. Nunca pudemos falar sobre o que acontece dentro do mausoléu, nem mesmo falar sobre seus membros. Era quase uma piada no século XIX, quando todo mundo ia de terno e casaca para todos os lugares, com os broches das sociedades nas lapelas bem ao nível do olho, insolência. O broche estava bem na cara de todo mundo, mas eles não podiam falar uma palavra a respeito ou estariam fora.
As coisas não haviam mudado muito, refleti.
 — Mas essa mesma filiação não era um segredo — Malcolm continuou. — Todo mundo sabia quem estava na Rosa & Túmulo. Cara, eles costumavam publicar a lista de convocados no New York Times toda primavera.
— Mas o juramento... — gaguejei. Então Selena estava certa. Mas que espécie de baboseira era essa? Se não era segredo, por que a chamavam de sociedade secreta? Eles deviam matar as pessoas que contavam! Ou enfiá-las numa masmorra. Ou puni-las Ou fazer alguma coisa (qual é, você também pensou isso). Não era para publicarem seus nomes na porcaria do New York Times! Apesar de que, raciocinei, isso podia ser uma boa coisa para mim. Muitas pessoas no meio editorial liam aquele que era chamado o "jornal oficial".
Eu obviamente precisava estudar mais a história da sociedade (assim que descobrisse como enfiar isso no meu cronograma).
— Era um juramento diferente. Eles não falavam sobre o que acontecia por trás das portas fechadas do mausoléu, mas todo mundo sabia quem era do clube. E isso estava se tornando um problema. Os Coveiros estavam sendo atacados no campus. Convocados em potencial não queriam ser associados à organização. Começamos a receber — Malcolm estremeceu — rejeições de convocados. Então, para sobreviver, a filiação passou a ser informalmente secreta. Com o passar das décadas, a tradição se transformou em formalidade. Os tempos mudam e nós também. — Ele fechou o punho e achei que ia sacudi-lo para os patriarcas. — Não entendem isso? A porra dos tempos mudam! 

Megan apareceu usando uma echarpe estampada e um macacão gasto, manchado de tinta.
— Ei, o povo está todo aqui! Que protesto, hein? Muito bom para um bando de coroas.
— Ainda acho que devemos confrontá-los — Nick falou.
— É exatamente o que eles querem — Malcolm argumentou. — Que a gente lhes dê a desculpa que precisam para nos ferrar.
Clarissa parecia concordar.
— Eles não fizeram o mesmo juramento de sigilo que nós. E ir até eles na frente de todas essas outras pessoas seria levar o juramento numa bandeja de prata só para quebrá-lo. Munição. Me perdoem pelas metáforas misturadas.
— Então, vamos chamar a polícia — sugeri. — Não temos uma boa influência sobre eles? No mínimo, podíamos fazê-los dispersar a multidão.
Recebi cinco olhares arrogantes e incrédulos.
— Influência? — Clarissa perguntou. — Você está brincando, certo?
— E aí, galera, o que tá rolando? — Kevin Lee, vulgo Frodo, se aproximou, esticando o pescoço para ver por cima das cabeças dos espectadores reunidos. Mas obviamente um grupo de sete pessoas excedia os limites da negação de que éramos um grupo e Malcolm levantou as mãos.
— Pessoal, pessoal, nenhum de vocês entende o valor da discrição? Dispersem-se, dispersem-se.

E todo mundo se dispersou, misturando-se com a multidão com tanto entusiasmo que os perdi de vista (e qualquer chance de receber uma resposta direta) quase imediatamente. Virei-me duas vezes, procurando outros Coveiros e finalmente avistei o sênior que só conhecia como Poe. Estava sentado nos degraus do departamento de inglês, um pouco afastado de todo mundo, fingindo ler um volume de Nietzsche enquanto comia um saco de Doritos e assistia aos acontecimentos com um olhar inescrutável.
Poe. Por que tinha que ser Poe? No que me dizia respeito, só me aproximar dele já me criava um monte de problemas.

POSSÍVEIS DIFICULDADES 

1) Eu não sabia seu nome de verdade. Constrangedor, constrangedor.
2) Ele estava posicionado o mais longe possível da ação.
3) Eu odeio o idiota.

Mas as opções eram poucas. Eu nem conseguia mais encontrar Clarissa na multidão e a bruxa loura pelo menos tinha a distinção de não ser uma pessoa que tivesse ameaçado a minha vida recentemente. Subi os degraus de dois em dois e parei abruptamente bem na frente dele.

— Ah, Srta. Lovato — Poe disse, fechando seu livro com força. — Linda tarde, não?
— Extraordinária. Estou procurando uma resposta direta para o que está acontecendo aqui.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Você parece alguém da imprensa. Interessante. E eu pensando que Cabot estava prevaricando.

Cara, o vestibular foi há quatro anos. Arrume algo para fazer.

— Ouça, qual é a parada com esses caras?
Poe limpou o farelo sabor queijo nacho da perna de sua calça social pregueada, a qual havia combinado com uma camiseta branca um tanto surrada, Uma vítima da moda, ainda por cima.
— Esses caras, como você colocou tão eloquentemente, são patriarcas que estão simplesmente cumprindo a promessa da junta de curadores, a qual a maioria das pessoas no meu clube acreditava ser um blefe.
E Poe não, obviamente.
— Que promessa?
— Fechar o mausoléu se tivéssemos a audácia de ir em frente com nossa intenção de convocar membros do sexo mais frágil. — Ele abaixou a cabeça em deferência a mim.
O revide...
— O quê? Isso tudo é por nossa causa?
— De você e das outras mulheres — ele continuou como se não tivesse nenhuma preocupação na vida. — Eles se recusam a reconhecer a sua inclusão.
Joguei o cabelo para trás.
— Eles precisam entrar no século XXI.
Ou até mesmo no século XX.
— E, além disso, a junta e a coalizão de patriarcas relutantes pretendem infligir uma punição àqueles que agiram sem sua permissão. Eles nos informaram que fechariam o mausoléu e invalidariam a filiação de qualquer Coveiro que apoiasse e/ou ajudasse na iniciação de mulheres.
— Você parece um advogado falando — soltei, chocada. Ele parecia tão... calmo!
— Obrigado. Vou entrar para a Faculdade de Direito de Eli no outono. Pelo menos, é esse o plano.

(A Faculdade de Direito de Eli, por falar nisso, é bastante famosa por não produzir advogados. Supostamente é a melhor faculdade de direito do país, mas todo mundo em suas carteiras se torna professor universitário ou político.)

— Como pode ser tão blasé em relação a isso — eu praticamente gritei (Malcolm diria que eu estava sendo indiscreta). — Você também nos convocou!
— Certamente sim — Poe respondeu, naquele tom irritantemente tranqüilo. — Bem, não está chateado por ter sua... sua filiação invalidada? — Tive algumas semanas para me acostumar com a idéia— Poe encolheu os ombros.—Com certeza estou chateado com o desenrolar da história. Mas não posso dizer que esteja surpreso. Na verdade, estava dizendo ao Malcolm há alguns minutos...
— Era você no celular.
— Sim, sou eu o culpado dessa acusação.
— E você já estava aqui.
— Eu lhe garanto, assim como tenho certeza de que me ouviu garantir a ele, minha presença não vai fazer a mais módica diferença nesta conjuntura.
— Droga, pare de falar assim!
Seus olhos cinza ficaram frios, mas ele obedeceu.
— Olhe, querida, acontece que eu concordo com eles. Não acho que mulheres deveriam ser membros da Rosa & Túmulo e discuti essa questão enquanto minha voz pôde ser ouvida. Também não tive ilusões de que a junta do FAT iria "mudar de idéia" assim que vissem que ótimo grupo de garotas havíamos convocado, que foi a hipótese equivocada do resto do meu clube. Entretanto, quando ficou óbvio que eu era o único Coveiro que pensava assim, decidi apoiar meus irmãos.
— Por quê?
— Porque a decisão de convocar tem que ser unânime e nós estávamos em um impasse. Daquele ponto em diante, eu não disse uma palavra. Nós entrevistamos garotas, trouxemos garotas, deliberamos sobre garotas, convocamos garotas e iniciamos garotas e, durante todo o processo, não falei nenhuma vez sobre como achava que era uma péssima idéia.

Ele disse "garotas" como se fosse um palavrão. Eu queria lhe dar uma bofetada.
Mesmo assim, o sermão continuou.
— O que está acontecendo agora é exatamente o que eu disse que aconteceria, mas não vou começar a dizer "eu avisei" para todo mundo. Passamos por cima do diretor da junta e agimos sem o apoio da maioria dos curadores. Não podemos voltar atrás na iniciação agora — vocês já estiveram dentro do mausoléu, dentro do Templo Interior. Já viram tudo, sabem de tudo. No que diz respeito a eles, nós cometemos heresia e o clube da sua classe é uma abominação para a Ordem. Malcolm quer que eu vã lá e fale com os patriarcas porque acha que é mais provável que escutem alguém que está do lado deles. Mas, como estou do lado deles, não tenho nenhum argumento. Esqueça os argumentos para eles — que golpe baixo! Eu podia pensar em 12 sem fazer esforço.

— Por que acha que não deviam admitir mulheres na Rosa & Túmulo?
Ele ficou olhando para mim por um longo tempo sem piscar e então se levantou.
— No momento, a resposta mais rápida é que convocá-las estragou a minha vida. Eles não vão parar com o mausoléu. Vão atrás dos nossos históricos escolares. Vão atrás de tudo. Agora, se me dá licença, tenho um currículo para atualizar. Se eu fosse você, faria a mesma coisa.
— Você é um babaca machista.
Ele parou por um momento.
— Talvez eu ponha isso na parte de "habilidades específicas" do meu currículo.
— E arrumar um emprego onde? — soltei. — No Talibã?
As emoções passaram tão rápido por seu rosto que foi difícil para mim pescar todas, mas ele finalmente se decidiu pelo desdém.
— Não estou sugerindo que as mulheres sejam inferiores aos homens em nenhum aspecto. Apoio totalmente uma sociedade secreta feminina de elite no campus.
Revirei os olhos.
— Separação não é igualdade, amiguinho. Um estudante de direito de Eli devia saber disso.
— Quando a Universidade Wellesley aceitar meu irmão mais novo, voltarei a discutir esse assunto — e então ele desceu a escada. Entendi o recado. Wellesley é de elite e só aceita mulheres.

Pelo menos agora eu estava por dentro. E também sabia que gostava de Poe qualquer-que-fosse-seu-nome-verdadeiro muito menos até do que da Srta. Clarissa "Misturando" Cuthbert. Desci os degraus novamente e dei de cara com Malcolm, que estava reediscando seu celular.

 — Pode esquecer — falei. — Ele não vem.
Malcolm olhou para mim.
— Quem?
— Poe.
Malcolm se encolheu por eu ter usado um nome de sociedade, mas foi direto ao assunto e agarrou meu braço.
— Como você sabe?
— Acabei de falar com ele.
— Aqui? — Malcolm pesquisou a área com os olhos. — Aquele dissimulado maldito!
— Não é o adjetivo que eu usaria.
Ele franziu o cenho.
— Você não o conhece bem.
Cara, esse negócio todo do juramento da constância pegava mesmo, não é? Fiquei imaginando se eu pularia para defender Clarissa em seguida.
— Sei que ele não me quer na sociedade.
Malcolm suspirou.
— Isso não é verdade. Se ele realmente não quisesse, não teria acontecido.

Sacudi a cabeça. Malcolm podia achar que conhecia seu irmão de sociedade, mas eu havia olhado nos olhos do sujeito. Ele não queria ter nada a ver com "o sexo mais frágil", Imbecil da Idade da Pedra.
 — Muito bem, então, Demi, você está por sua própria conta. — Sua mão escorregou para a minha e ele começou a me puxar para a frente.
— O que está fazendo? — gritei enquanto abríamos caminho através da multidão.
— Vamos falar com eles.
Comecei a fincar meus saltos no asfalto.
— Mas, e quanto à... todas aquelas coisas que você disse?
Malcolm olhou para trás e piscou.
— Falha na segurança, garota. Nós somos da imprensa.

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Desculpe a demora amores , carnaval, sabe como éh rsrsrs'
espero que pra vocês também esteja sendo um bom carnaval =)

Está ai ... e teve dialogo Jemi hein !!! rsrsrs' pena que o Joe/Poe 
sejá um imbecil agora rsrs' mas vai melhorar =) 

Bjss

COMENTEM !!!



4 comentários:

  1. Que perfeito
    Jemiii :-D
    Kkkkkkk
    Posta logoo
    Beijos

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  2. Amei, estou correndo-me. O que a doida vai fazer

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  3. Hey hey !
    Passando nesse post rapidinho apenas para dizer que sou mais uma que voltou dos mortos para o mundo das fics!! Depois de teempos, consegui voltar! Ainda estou organizando meu site, mas espero que possa acompanhar meus futuros projetos caso lhe enteresse !

    http://sailingondreams.blogspot.com/

    Eu acabei de ler a sinopse de Sociedade Secreta, e me enlouqueci! Vou começar a ler desde o Cap.1, então se surgir uns comentarios nos posts antigos, sou eu kkkk

    xoxo

    -T.

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Sem comentários ........... sem capítulos!