05/03/2014

Sociedade Secreta - Capítulo 10 (Parte 1)


Por meio desta, eu confesso:
aquilo me abalou.

10.

Primeira Reunião

Malcolm nos empurrou para longe da multidão, direto para a entrada lateral da Universidade Calvin. Ele entregou seu jogo de chaves para Greg. 

— Quarto andar, entrada J. Vou esperar pelos outros. 

Apoiei todo o meu peso contra a parede de granito. Qualquer onda de adrenalina que tivesse me mantido de pé nos últimos minutos, em frente ao mausoléu, finalmente havia se dissipado. 
— Vamos tentar entrar pelos fundos? 
— Que entrada dos fundos? — Malcolm piscou para mim. 

Acenei discretamente em direção à parede que separava a Universidade Calvin da propriedade da Rosa & Túmulo. 
— A entrada dos fundos do mausoléu. O túnel secreto que o Presidente usa durante suas visitas clandestinas. 
Malcolm bufou. 
— Certo. Que seja. Não é hora para brincadeiras, Demi. 

Não havia entrada secreta pelos fundos? Meu Deus, será que alguma coisa que eu havia ouvido sobre essa sociedade era verdade? Vejamos, eles não haviam sido sempre secretos, não estavam prestes a me dar milhares de dólares de presente e não estavam escondendo ouro nazista. Então, o que exata-mente esses idiotas estavam protegendo com seus cromossomos Y? Uma coleção de esqueletos infantilmente furtada da faculdade de medicina décadas atrás?

Ainda assim, aquele imbecil lá atrás tinha parecido tão... tão seguro de si mesmo. Como se fosse mais do que capaz de realizar todas as suas ameaças. Minhas pernas começam a parecer um pouco fracas. Conforme os Coveiros entravam, aos poucos, Malcolm os guiava para seu quarto. Apoiei-me na parede gasta de granito, tentando recuperar o fôlego, mas meu corpo recusava-se a cooperar. Eu podia não ter deixado os patriarcas me verem suar, mas se me visse agora você ia achar que eu estava tentando compensar isso. Tentei relaxar, pensar em qualquer coisa além dos olhares frios que recebera dos homens no escudo humano. 
Muito bem, Demi, pense em... gramática. Gramática estrangeira
Após alguns instantes, Malcolm virou-se na minha direção. 

— Você está bem?  
Encolhi os ombros. 
— Claro. Por quê? Acha que aquele cara me incomodou? 

Assim que ele se virou para o portão, eu levantei a mão. Estava tremendo. 
Eu cerrei o punho e continuei conjugando verbos irregulares em espanhol (todo estudante de literatura tem que fazer um ano de literatura em uma língua estrangeira. Como eu já sabia um pouco de espanhol, passei alguns semestres entendendo errado Borges e Allende. O pessoal do francês se deu bem com O pequeno príncipe. Que enganação). 
Muito bem, esqueça isso, Demi. 
Tengo, tienes, tiene. Tenemos, teneis, tienen. 
Se há uma coisa que aprendi desde que entrei para a Rosa & Túmulo é que metade das merdas que ouvi a respeito deles não é verdade. 
Tuve, tuviste, tuvo. Tuvimos, tuvisteis, tuvieron. Ele é um velho usando um truque idiota. Tendre, tendras, tendra. Tendremos, tendreis, tendran. 
Não pode fazer nada comigo. 
Eu terei, você terá, ele ou ela terão... 
Convocá-las estragou a minha vida. 
Mas talvez eu devesse guardar o julgamento final até ter ouvido o que os cavaleiros seniores da Rosa & Túmulo tinham a dizer sobre o assunto.
Malcolm estava falando ao celular novamente, contatando, presumi, qualquer um que tivesse perdido nosso pequeno confronto. Eu o vi digitar algumas mensagens de texto urgentes. 

RG 911. CC4 J AGORA. 

— É o máximo que posso fazer no momento — disse Malcolm finalmente, fechando o flip do telefone. — Venha, Demi. Vamos nos juntar aos outros. Vamos esperar o resto lá em cima. 
— Malcolm —, falei e minha voz tinha, sem a minha permissão ficado bastante baixa e aguda — aquele cara... 
— É um imbecil da melhor categoria — disse Malcolm. — E, não importa o que diga, eles não têm poder para nos expulsar ou fazer qualquer outra coisa. É tudo papo furado. Mas não vamos falar disso aqui, está bem? Venha, vamos subir. 

Eu o segui pela entrada J e começamos a subir as escadas. No segundo andar, a porta de uma suíte se abriu e a garota com a longa trança castanha que eu vira pela primeira vez quando safra do quarto do Malcolm ontem olhou para nós. Imaginei que estava curiosa sobre o trânsito pesado que passara recentemente pela escada, mas ela só olhou de mim para o Malcolm e seus olhos se estreitaram. 
Olhando bem para ela, lembrei quem era a garota. Genevieve Grady, colega do terceiro ano e editora-chefe do EDN. Fiquei surpresa por ela estar em casa; a editoria do jornal diário da universidade era um trabalho de 40 horas por semana, enquanto o meu era razoavelmente tranqüilo — talvez 14 horas por mês, até chegarmos à hora da publicação. Eu não tinha visto Genevieve muito este ano, ou mesmo ano passado, o qual ela passara produzindo histórias e fazendo contatos em um ritmo cuidadosamente calculado para conseguir sua almejada posição. 
Talvez, imaginei, ela topasse escrever o prefácio para a edição da "Ambição".

— Voltou para mais um pouco, não é, Lovato? — ela sibilou. — Essa é nova no quarto andar. 
Malcolm lançou-lhe um olhar absolutamente gélido de desdém e me conduziu mais um andar acima. 
— Qual é o problema dela? — perguntei. Malcolm deu de ombros.
— Ela é uma filha-da-puta. Imagino que saber disso a mantém de mau humor a maior parte do tempo. 

Ele bateu três vezes, uma e então duas vezes em sua própria porta e ela se abriu, revelando um quarto no qual todas as superfícies planas estavam cobertas pelo traseiro de um Coveiro. Eles estavam apinhados na cama, no futon, na escrivaninha, na cômoda e, quando acabaram os poleiros, no chão. Vi Clarissa tentando enfiar sua bunda minúscula em uma área ainda menor e então acenou para mim. 

— Demi, guardei um lugar para você. 

Uma rápida sondagem do aposento mostrou que era minha única opção, então eu aceitei, imaginando internamente por que Clarissa parecia tão determinada a se aproximar de mim em todas as oportunidades. Será que eu havia passado em alguma espécie de teste? Eu era uma Coveira e portanto considerada uma companhia aceitável na opinião dela? 
É claro. Desde que eu fora convocada, as pessoas vinham me tratando diferente. A Demi de todos os dias (prosaica, comum) não passava as noites de sábado flertando com George Harrison Prescott, não estava no círculo de Clarissa Cuthbert e não dormia no quarto de pessoas como Malcolm Cabot — mesmo que não houvesse sexo envolvido. Ela não se envolvia em disputas histéricas com cavalheiros de aparência distinta e cabelo prateado que ameaçavam arruinar sua vida, nem fazia com que amigos mais velhos e mais sábios como Glenda Foster ficassem nervosos com sua presença. 
Uma parte do poder da Rosa & Túmulo podia não ser muito mais que sua "aura", mas só isso já parecia dar bastante influência. E eu ainda não havia percebido o quanto isso significava.

— Não acho que a gente deva esperar pelos outros — disse Malcolm. — Vamos começar a sessão.

Os seniores se mobilizaram. Aparentemente do nada, grandes faixas de tecido negro se materializaram e os rapazes correram pelo quarto, cobrindo as janelas, envolvendo os dutos de ventilação e preenchendo as frestas das portas. Faziam um revestimento acústico, apesar de que, se alguém realmente quisesse escutar, eu duvidava que alguns pedaços de feltro fossem resolver. Ainda assim, na ausência de um mausoléu de verdade, os Coveiros não tinham opção. 
Um apartamento em cima da Starbucks, no entanto, teria sido melhor. Pensei nos onipresentes cafés com leite gigantes da Glenda. Será que ela tinha tratamento especial lá na cafeteria porque pertencia à sociedade do andar de cima ? A Rosa & Túmulo não me dera nem um vale para o café. 
Um dos seniores encolheu os ombros. 

— Minha vez de ser o Tio Tony? 
Os outros assentiram e Malcolm fez uma careta. 
— Uma introdução para os convocados, está bem? 
"Tio Tony" pegou um peso de papel da mesa do Malcolm e bateu com ele três vezes, uma e duas vezes na mesa. 
— A hora é... III e 30 minutos, hora dos Coveiros. Eu inicio esta — ele olhou para cima. 
— Que reunião é esta? 

Alguns dos seniores deram de ombros. 
Houve três, uma e duas batidas na porta. Malcolm a abriu e Poe apareceu, de cara feia, rebocando um ainda mais petulante George Harrison Prescott. Meu coração pulou e afundou ao mesmo tempo. 

— Sete mil cento e doze — Poe anunciou. — Belo isolamento acústico, por falar nisso — Poe empurrou George para dentro do quarto. — Sente-se, garoto. 

George se jogou no chão ao lado de Jenny Santos, que fez uma careta e afastou-se rapidamente, e ele sorriu como se tivesse acabado de se dar bem de uma forma particularmente travessa.
Os seniores haviam voltado a vedar as entradas para o quarto e agora um deles estava enfiando travesseiros nos dutos de ar. Quando acharam que estávamos realmente bloqueando o som, o que interpretava "Tio Tony", o líder rotativo, recomeçou.

— Em nome de Perséfone, Guardiã da Chama da Vida e da Sombra da Morte... eu, hummm, dou início à... — Ele parou de falar, dando de ombros timidamente, — Me desculpem. Eu não sou nada sem o Livro Negro. 
Outro sênior sacudiu a mão, afastando a idéia. 
— Que se dane. Omnis vincit mors, nos cedamus nemini. Vamos continuar com isso. 
Poe praticamente rosnou em desaprovação. 
— É exatamente esse o problema. O nosso clube foi negligente demais com as tradições da sociedade e agora estamos pagando o preço. 
Pessoalmente, eu não conseguia ver Poe relaxado a respeito de nada. A flexibilidade do cólon exigida estava além de suas sensibilidades arcaicas e chauvinistas. 
— Se você quer ser o Tony, vai fundo — o sênior devolveu. 

Aparentemente, não era preciso pedir duas vezes ao Poe. Ele se levantou, limpou a garganta, virou-se de frente para o círculo e começou a procurar algo em seus ombros, quase por reflexo. 
Seu capuz inexistente. Encontrei os olhos de Malcolm e caí numa risada quase incontrolável. Quando finalmente recuperei o controle (o que envolveu muitas engolidas em seco com o rosto vermelho e quatro tossidas de mentira), Poe havia completado o ritual de início da sessão, que não vou me dignar a repetir aqui. Se você está procurando o espírito da coisa, procure o capítulo sobre iniciação neste livro. 
Basta dizer que, principalmente na boca do Poe, era longo demais, desnecessariamente pretensioso, baseava-se fortemente em baboseiras latinescas e possuía muito mais do que o número apropriado de letras maiúsculas. Não é surpresa que os outros cavaleiros seniores não tivessem se preocupado em memorizá-lo. 

— Muito bem, todos nós sabemos o que viemos discutir aqui — começou Malcolm, ou, como suponho que o devesse chamar agora que estávamos em sessão, Lancelot.
— Sim — disse meu colega de classe Graverobber, o herdeiro de estaleiros gregos com o difícil nome civil de Nikolos Dmitri Kandes IV — Por que nunca nos avisaram de que isso poderia acontecer?

— Basicamente — disse outro sênior —, a juntado do Fundo Tobias disse que, se iniciássemos mulheres, eles poriam todos para fora. Ao trancar o mausoléu e falar conosco como se fôssemos bárbaros, eles deixaram claro que cumpriram o prometido. 
— Isso é um absurdo! — Thorndíke (Megan) gritou alto o suficiente para ser ouvida mesmo através do isolamento acústico. Todo mundo se espantou, mas achei que era uma reação previsível da parte dela. Esperem até ela ouvir que o cara de pé no meio do círculo era totalmente a favor. Ele teria sorte se escapasse com seus genitais intactos. 
— Pode apostar! — Graverobber replicou. — Está tudo bem para você, mas eu não sou nem mulher, nem membro da turma que as convocou, e só me resta questionar por que e se eu deveria ser punido junto com o resto. 
Naturalmente, o pandemônio se instalou. 
— Ou nós permanecemos unidos ou não vamos resistir! Bond, o inglês Greg Dorian, declarou firmemente. — Mas devemos permanecer unidos necessariamente a favor das mulheres?



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Já que hoje tive alguns comentários ... vou postar mais um !!!
Obrigadoo amores !!!

Bjss negadaaaa

COMENTEM !!! 



7 comentários:

  1. SELINHO PARA VOCÊ
    http://eusonhocomjemi.blogspot.com.br/

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  2. Bebê
    sua divaaa
    To amando tudo
    Posta logoo
    Beijos

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  3. 2 capitulos em um dia? Eh demais pro meu heart kkkkkkkkkkk continue postando to amando *--* bjs

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  4. Gente a quanto tempo, não venho aqui, vou ler tudo, beijos Juh

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  5. selinho http://dreamsjemi.blogspot.com.br/2014/03/selinho.html

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Sem comentários ........... sem capítulos!