15/02/2014

Sociedade Secreta - Capítulo 6 (Parte 1)





Por meio desta, eu confesso:
com o tempo, passei a gostar.

6.

Festa

Quando passei pela porta para dentro da Grande Biblioteca de dois andares (sala 311, já que o Templo Interior havia reivindicado a designação sagrada do 312, de acordo com as informações que obtive com os dois ex-alunos de trinta e poucos anos que me mostraram o caminho), todos olharam para cima e me fizeram um pequeno brinde com taças cheias de suco de romã. Já havia cerca de vinte pessoas na sala — talvez uns dez estudantes universitários e um punhado de homens mais velhos de terno.

— Então você é a número onze — disse uma garota negra e fortona com cabelo da cor da minha calcinha de pegação de sexta à noite e uma blusa de trama de cânhamo. — Bem-vinda ao nosso hospício. — Eu conhecia a reputação dessa garota, eu vira seus protestos e seus comícios: Megan Robinson.
— Você é amiga da Selena, certo? — Um garoto com cabelo castanho-avermelhado aproximou-se em seguida e apertou a minha mão. — Acho que nos encontramos uma vez, no segundo ano.

Assenti em reconhecimento. Conte com Nick Silver, garoto prodígio político, para nunca esquecer um rosto ou um contato. Apenas 21 anos e já era gerente de várias campanhas eleitorais locais bem-sucedidas. Para Selena, ele era tanto seu herói quanto seu rival em todas as aulas de ciência política que haviam feito juntos. Nick usava calças cáqui e uma camisa social branca amarrotada livremente salpicada de suco vermelho. 
Ele apontou para o adesivo OLÁ MEU NOME É... em sua camisa.
— Eu sou, humm, Keyzer Soze.
— Isso é que é um nome de sociedade! — franzi o nariz. — O meu é Bugaboo.
— Podia ser pior — Megan falou. — Algum imbecil prestes-a-ser-castrado achou que seria engraçado me batizar de Thorndike.

Nick/Soze deu uma risadinha e Clarissa Cuthbert materializou-se ao meu lado, segurando duas taças de prata com ponche. Ela me entregou uma.

— É um nome histórico. Devia ter orgulho dele. O presidente Taft era um Thorndike.
— O presidente Taft era um merda branco e gordo — Thorndike respondeu.
C
larissa bateu com seu copo contra o meu. Seu adesivo OLÁ MEU NOME É dizia Angel

— Bem-vinda, Bugaboo — falou. — Fico feliz em ver que você está se misturando conosco afinal de contas.

Eu me retraí. De todas as sociedades secretas em todas as universidades no mundo, Clarissa Cuthbert tinha que ser convocada para a minha. Então era isso que ela queria discutir comigo.
Mas Angel não parecia interessada em retomar nossa conversa anterior. Ela se virou para os outros e disse:

— Acho que agora só falta o George Harrison Prescott, não é?
— É — disse um asiático baixinho, juntando-se ao grupo. — Mas ouvi dizer que tiveram que arrastá-lo para o mausoléu gritando e esperneando — ele esticou a mão para mim. —
Oi, eu sou o Frodo.
— Finalmente alguém com um nome pior do que o meu! — Thorndike fungou.
— Não entre docemente nessa bela noite, GHP — disse um rapaz com um sotaque britânico completamente delicioso. — Em vez disso... obrigue seu papai a forçá-lo. — Ele piscou para mim. — Eu sou Bond... Bárbaro-Assim-Chamado Greg Dorian. Ouvi dizer que você é a escritora.
— Mais uma do tipo criativo? — perguntou Frodo. — Eu sou cineasta. E Little Demon é uma... cantora, de certa forma. Esta é uma turma bem artística.
Baixei os olhos para minha taça de ponche.
— Não sou realmente uma escritora — Trinta páginas de um romance ordinário não contam.
Soze encolheu os ombros.
— Então, o que você é?
— A editora da revista literária.
Todos eles trocaram olhares.
— Por que não está na Pena & Tinta? — perguntou Thorndike. — Minha ex-namorada, Glenda Foster, está lá.

DUAS QUESTÕES

1) Boa pergunta.

2) Glenda Foster é lésbica?!? E você acha que conhece alguém...

— "Namorada" é um termo relativo. — Uma mulher alta e magra, deslumbrante, com cabelos vermelhos até a cintura juntou-se ao nosso grupo e estendeu sua graciosa mão na minha direção. Agora, essa garota eu conhecia. Mas, é claro vocês todos também sabem tudo sobre Odile Dumas. Ela era capa das revistas de fofoca desde os 15 anos. Sua matrícula em Eli tinha sido vista por todos como uma tentativa de aparecer menos como Lindsay Lohan e mais como Natalie Portman. Mas, para choque da mídia, ela abraçou a vida universitária com vontade e praticamente desapareceu das vistas do grande público. Odile não lançava um disco ou um filme há três anos e o boato no campus era que ela era mais inteligente (e menos piranha) do que qualquer um imaginava (ou gostaria).

— Little Demon — ela ronronou.
— Que gracinha — Thorndike revirou os olhos e Little Demon virou-se para ela.
— Só porque você embebeda uma pobre garota e a seduz uma ou duas vezes isso não a transforma em sua namorada. Tão ruim quanto um homem. Esse tipo de comportamento é uma vergonha para as lésbicas do mundo todo.
Thorndike estreitou os olhos.
— E você se inclui nesse grupo?
— Eu sou pansexual — disse Little Demon, sacudindo o cabelo.—Por que ficar com um só?
Mas Thorndike não havia terminado.
— E você, Odile, é uma vergonha para as mulheres do mundo todo. 
Angel estalou a língua.
 — Cuidado com os nomes bárbaros aqui, crianças.
— Ah, arrumem um quarto, vocês duas — disse Frodo. 

Thorndike e Little Demon olharam uma para a outra, bufaram com desprezo e viraram-se em direções opostas. Essa era uma bela turma de convocados.
Todo mundo gargalhou e eu ri constrangida para acompanhar. Era impressão minha ou todos eles pareciam se conhecer muito bem? Esvaziei meu copo e voltei para a poncheira, para ter pelo menos alguma coisa para fazer. Eu já tomara suco de romã suficiente para uma noite.
Angel me ultrapassou no caminho.

— Eu pesquisei — sussurrou. — Little Demon também é um nome tradicional, dado ao menor convocado todos os anos — ela lançou um olhar arrogante para a exótica Little Demon. — Não acha que sou mais magra do que ela?

Servi-me de um copo de ponche e me segurei para não jogá-lo em seu rosto.

— Eu sinceramente — não estou nem aí — não sei.
Ela balançou a cabeça como se estivesse afastando a idéia.
— Que sorte você deu hoje na biblioteca, não é?

Não. Eu nunca tinha sorte em encontrar Clarissa.

— Como assim?
— Eu estar lá para encontrar a carta antes que alguém mais a encontrasse. Belo truque do Lancelot... Você sabe que o nome dele na sociedade é Lancelot, não é? 

Eu assenti. Será que Clarissa — Angel — já havia procurado em um dos vários livros encadernados de couro forrando as paredes da sala? Ela tinha que tirar todo o seu conhecimento da Rosa & Túmulo de algum lugar. Cara, ela e Selena foram separadas ao nascer!
Estava prestes a lhe perguntar onde ela conseguira aquelas informaçõezinhas quando as portas se abriram e George Harrison Prescott entrou arrastando os pés, sorriso encabulado colado no rosto lindo, casaco com zíperes e óculos notavelmente ausentes.

— E aí, galera. Eles me pegaram.

Enquanto todos erguiam seus copos em um brinde, George atravessou para uma mesa que eu não havia visto antes, rabiscou algo em um adesivo e o prendeu com um tapa no peito. Então, com um floreio, ele se virou, apresentando o adesivo com seu nome da sociedade.

  **************
OLÁ MEU NOME É
        PucK
  **************

O queixo de Angel caiu.
— Ei, Demi! — George acenou. — Mais uma Prescottiana, graças a Deus! Qual é o seu novo título?
— Bugaboo — baixei os olhos para o meu peito sem adesivo, feliz por ter conseguido tirar o aramezinho do sutiã afinal de contas. 
Angel olhou para mim.
— Certo, você precisa de um adesivo.

Um instante depois, ela me entregou um com Bugaboo escrito numa caligrafia redonda, de menininha. Ainda bem que não havia "i" no meu nome pois eu tinha certeza de que ela teria feito o pingo em forma de coração.

— Obrigada — falei enquanto ela se inclinava para perto para sussurrar no meu ouvido, cheirando a Chanel, vodca e suco de romã.
— Sabe o que é "Puck", certo?
Bem, vejamos...

OPÇÃO UM: o disquinho preto que os jogadores de hockey disputam.

OPÇÃO DOIS: aquele mensageiro de bicicleta chato do programa da MTV Na Real: São Francisco.

OPÇÃO TRÊS: ........ Não faço ideia 

— Como estudante de inglês, sou obrigada por lei a responder "o duende principal em Sonho de uma noite de verão — falei, certa de que ela estava prestes a me dar mais uma lição de erudição Coveiro. Não me decepcionei.
— O nome que dão ao convocado com mais experiência sexual.
Revirei os olhos.
— Bem, isso é óbvio. George Harrison Prescott provávelmente tem mais experiência sexual do que nós todos juntos.

Angel jogou a cabeça para trás e riu, dando-me um belo vislumbre do que deviam ser diamantes de dois quilates em suas orelhas. Acho que a regra de não usar metal não se aplicava a fechos de brincos em platina.

— Acho que vamos nos dar muito bem, garota.

Epa. Com certeza eu não pretendia ter dado essa impressão. Cheguei mais perto do George. 

— Ei, qual era a parada com os fósforos mais cedo?
— A ponta deles contém enxofre. Os Coveiros não devem carregar enxofre.
— Ah, era isso o que eles queriam dizer na carta. Coisas que uma não-fumante nunca pensa. Provavelmente não queriam que tocássemos fogo acidentalmente na Sala do Vaga-Lume. 
Ele deu de ombros.
— Eu só estava zoando com eles. Mas olhe só para você! — ele sorriu. — Uma Coveira! O que acha disso?

Olhei em torno da biblioteca, para os dois andares do aposento com estantes embutidas cheias de volumes encadernados em couro, para os vitrais das janelas que davam para um pátio escuro. Em um canto da sala, Frodo estava reencenando animadamente sua iniciação para um grupo de novos convocados, enquanto em outro um grupo de meia dúzia de homens mais velhos estava em um silêncio gélido, observando a sala como se estivessem nos avaliando. Uma garota solitária estava sentada num canto, mexendo em algo em torno do pescoço.

— Eu lhe digo quando souber. — Inclinei a cabeça na direção da garota. — Vamos dar oi para ela.
A menina se levantou quando nos aproximamos.
— Ei — disse eu. — Você também é nova aqui? Eu sou Bugaboo.
— Jen "Lucky" Santos. Tanto faz. — Ela me deu a mão, deixando cair o crucifixo que estivera apertando contra a garganta.
— Eu sou Puck — George falou, mas a garota lhe lançou um olhar envergonhado em vez
de apertar a mão que ele lhe oferecia.
— Eu sei quem você é.

Então, sua reputação o precedera. George abriu a boca mas, antes que pudesse formular uma resposta, as enormes portas duplas se abriram com um estrondo e o resto dos Coveiros entrou com a formação de uma pirâmide. Suas fantasias das mais bizarras haviam sido trocadas por uniformes simples com capas e capuzes pretos, mas ainda havia traços da maquiagem que alguns tinham usado no Templo Interior ou nos quadros vivos em torno da linha de seus cabelos e em seus maxilares. Reconheci o Demônio, Otelo e um dos Puritanos. Mais uma dúzia de homens os seguiu, todos portando resquícios similares de suas fantasias.

O que eu conhecia como Poe, no topo da pirâmide, abaixou seu capuz e abriu amplamente os braços.

— Bem-vindos, Classe de Convocados da Rosa & Túmulo Anno Deae 177. 

Meu latim estava meio enferrujado — está bem, era comoletamente deplorável — mas ele tinha dito O Ano da Deusa? Todo mundo começou a aplaudir.

— Agora que todos foram iniciados na nossa Irmandade — aparentemente, ele não gastara todas as suas letras maiúsculas durante minha sessão de tortura — iremos passar o resto da noite ensinando a vocês os Segredos do Mausoléu e os Hábitos da nossa Ordem.
— E festejando — acrescentou Lancelot.
Poe o fuzilou com o olhar.
— E festejando — acrescentou com relutância.
— Muito bom, muito bom — disse Puck, erguendo seu copo.
— Será que nossos novos Iniciados podem, por favor, se aproximar e dar as mãos?

Doze pessoas abriram caminho através da multidão em polvorosa para ficarem diante de Poe. Os seniores da Rosa & Túmulo se espalharam até haver um atrás de cada um de nós. Lancelot colocou a mão no meu ombro.

— Três dos convocados estão ausentes esta noite, devido ao fato de não estarem neste continente no momento. 
Mordi meu lábio. Claro que nada menos do que um oceano como obstáculo seria uma desculpa aceitável para Poe.— No entanto, eles foram convocados e, através do milagre da tecnologia moderna, seremos capazes de ver um deles passando por seus Ritos de Iniciação. Certo, Barebone? Um dos Coveiros no fundo fez um sinal de positivo com o polegar.
— Tudo pronto.
Poe assentiu.
— E agora, apresentando os mais novos Cavaleiros da Ordem da Rosa & Túmulo...
— Angel. — Clarissa deu um passo à frente.
— Bond. — Dorian tomou seu lugar ao lado dela.
— Little Demon. — Odile saracoteou para a frente e fez uma pose.
— Big Demon. — Um jogador do time de basquete de Eli que estivera espreitando no canto com alguns dos ex-alunos de terno se apresentou.
— Bugaboo. — Minha vez. Entrei no círculo que estava se formando. Lancelot me olhou nos olhos e sorriu.
— Graverobber. — Outro homem que estava com o grupo dos silenciosos de terno,
parecendo lixo europeu banhado a ouro.
— Frodo. — O Sr. Jovem Hollywood praticamente pulou para o seu lugar.
— Kismet. — Um negro alto deu um passo à frente.
— Puck. — George andou lentamente para o círculo, as mãos nos bolsos.
— Thorndike. — Megan revirou os olhos para Puck enquanto se juntava aos outros.
— Lucky. — Jennifer Santos entrou arrastando os pés, mantendo uma distância segura entre si e seu vizinho mais próximo.
— Keyzer Soze. — Nick completou o círculo, tomando as mãos de Lucky e Angel nas suas. Poe abaixou a cabeça, como em reverência.
— Bem-vindos, meus irmãos... e minhas primeiras irmãs. Vocês receberam uma Responsabilidade Sagrada. Os Cavaleiros que se encontram diante de mim serão lendários nos Anais da Ordem, pois são os primeiros a contarem com mulheres em suas fileiras. As cinco mulheres diante de nós são as únicas mulheres já iniciadas nos Mistérios da Rosa & Túmulo. 

Então, isso explicava tudo. Eu sabia que a Rosa & Túmulo não convocava mulheres.
Então, nós éramos as primeiras, não é? Já era hora deles entrarem para o mundo moderno. Olhei em volta do círculo para as outras quatro. E essas são as mulheres que eles escolheram. Fiquei imaginando se haveria alguma lógica para as escolhas. O homem mais velho que eu conhecia como "Tio Tony", agora de terno, deu um passo à frente.

— Gostaria de louvar nossos seniores que se vão por terem a força e a coragem de arrastar esta sociedade para o século XXI. Sei que seu caminho não foi fácil, mas aplaudo sua disposição. Vocês realmente são uma turma de Irmãos para nos orgulharmos — então, ele se afastou dos cavaleiros encapuzados e se aproximou do círculo de convocados. — Como o Patriarca da Cerimônia de Iniciação no comando, sinto-me honrado por lhes dar as boas-vindas à nossa Ordem. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para lembrar às damas no grupo que esses rapazes assumiram um grande risco e fizeram um grande ato de fé ao deixá-las entrar aqui. Esperamos que sejam mulheres exemplares... portanto, não estraguem tudo.

Bela recepção, idiota!

Do outro lado do círculo, vi Thorndike revirar os olhos. "Vá se catar", ela esboçou com a boca. Ha. Grandes mentes pensam parecido.
Como se sentisse que as coisas estavam ficando feias, Lancelot levantou a voz:

— Acho que já temos conexão com Sarmast — ele apontou para outro Coveiro, que soltou uma tela de projeção da parede, enquanto um terceiro mexia em seu laptop e em um projetor suspenso.
— Vejam! — disse Poe com um trejeito. —A Iniciação de Harun Sarmast.
— Certo. Que seja — Lancelot ligou o projetor.

A imagem estava granulada, pixelada, mas eu podia distinguir meia dúzia de homens de pé em uma sala de conferências corporativa sem graça, e com paredes de fórmica pré-fabricadas, iluminada por lâmpadas fluorescentes amareladas. Alguns estavam de uniforme militar, o resto de terno. Eles formavam um círculo em torno de um rapaz alto e magro do Oriente Médio, batendo palmas e gritando frases indecifráveis, o som cheio de estática.
— Onde é isso? — perguntou Soze.
— Embaixada americana na Arábia Saudita.
Soze assobiou por entre os dentes.
— Uau! Quem você teve que matar para conseguir essa autorização?

Poe obviamente era um especialista em olhares inexpressivos. O garoto na imagem foi vendado e, considerando-se o atual clima político, a cena teria me deixado muito desconfortável se eu não tivesse percebido o sorriso enorme e estúpido em seu rosto. Fiquei imaginando se esse era o padrão da Rosa & Túmulo — cenas de trotes politicamente incorretas. Afinal de contas, eles tinham feito toda aquela ceninha de "Puta dos Coveiros" comigo.
— Sarmast está fazendo um trabalho linguístico para o governo este semestre. Mexemos seriamente os pauzinhos na embaixada para convocá-lo antes que a Cabeça de Dragão pudesse fazê-lo.
Um dos Coveiros encapuzados riu com escárnio:
— Os bolsos deles simplesmente... não são tão fundos.
— E os outros dois? — perguntei.
— Eles foram... reservados.
— Achei que tinha dito que eles haviam sido convocados.

Poe me lançou um olhar como uma víbora prestes a atacar.

— Eu sei o que estou fazendo, Bugaboo.
— Não ligue para ele — disse Lancelot. — Fica sensível sempre que é lembrado de que é um mero mortal. Fique tranquila, se Poe não conseguiu encontrá-los, ninguém mais vai conseguir também. Vamos encontrá-los primeiro. E vocês vão participar das iniciações.
— E se eles rejeitarem a convocação? — eu perguntei, mas Lancelot simplesmente piscou atônito para mim, como se tal situação fosse inconcebível.
Poe sacou um celular e começou a discar. Um momento depois, um dos fuzileiros na tela atendeu.
— Isso é transmissão em tempo real? — perguntou Lucky, finalmente juntando-se ao grupo.
O Coveiro que controlava o teclado sorriu e a chamou com um gesto.
— É. Venha dar uma olhada.

Lucky tomou um lugar atrás do computador, sua cara de medo substituída por uma de êxtase. Agora eu me lembrava de Jenny Santos, que tem 17 anos havia desenvolvido algum software incrível, o vendera e então doara cada centavo do lucro de oito dígitos para sua igreja. Não é de espantar que a Rosa & Túmulo a quisesse em seu time.

— Muito bem — Lancelot disse para o homem na Arábia Saudita. — Comece. — Ele passou o telefone para o Tio Tony e juntou-se a mim.
— Eu sabia que acabaríamos conseguindo convencê-la — sussurrou ao meu ouvido, apontando com a cabeça para Lucky. — Só tínhamos que achar a maçã certa para tentá-la. — Romã.
— Hã?
— Não estudou a Bíblia na aula de literatura? — pergunto, satisfeita em poder me vingar de sua tirada sobre crítica literária—Não havia maçãs no Berço da Civilização. O mais perto que os tradutores modernos conseguem chegar é que Eva comeu uma romã. Como a sua Perséfone.
Lancelot passou o braço pelos meus ombros.
Nossa Perséfone, Bugaboo.
Franzi o cenho.
— E aí, os dois foram expulsos do Paraíso.
Ele suspirou.
— Você não entendeu, garota? Este é o Paraíso.
— Shhh! — disse Poe. — Eles estão começando.

Virei-me para a cena transmitida do Berço da Civilização enquanto Harun Sarmast era presenteado com sua própria romã. O som sumia e voltava, mas pesquei o suficiente para reconhecer que era absolutamente incompreensível.

— Eles estão falando alemão? — perguntou Angel, incrédula. Não era surpreendente para mim, porém, considerando-se meu encontro com o Ceifador. Angel não fora submetida ao quadro vivo também?
Poe assentiu.
— Nosso contingente saudita é um pouco tradicional.
— E você é o quê? — murmurei para dentro. — Um louco progressista?
Lancelot inclinou-se para a frente.
— Pelos padrões dos Coveiros? Bem, é. Era tudo em Alemão antes do Segundo Conselho Rosa & Túmulo.

Eu ri, recebendo mais uma encarada de Poe. Que estraga-prazeres.
Harun Sarmast prosseguiu pelo caminho da iniciação que, mesmo sem as fantasias malucas e o teto abobadado azul-escuro do Templo Interior, era impressionante. Os ex-alunos baseados na Arábia Saudita executaram seus papéis com o tipo de precisão militar que era esperado, considerando-se suas profissões. Agora que eu não era mais o objeto de atenção na sala, podia apreciar inteiramente a alegria e o entusiasmo sinceros que os cavaleiros sentiam em mostrar aos neófitos as versões estrangeiras dos atores e parafernália da iniciação. Mesmo sem as armadilhas do mausoléu, todos os cavaleiros alardeavam as qualidades de Perséfone! Perséfone! Perséfone (ou pelo menos uma xerox de um livro de mitologia)! Êxtase Nupcial! Êxtase Nupcial! Êxtase Nupcial! (reprodução grosseira) e Tio Tony (cuja encarnação saudita não estava usando a elaborada máscara de rosas) Cthony Carpathian... ah, que saco. Esqueci o resto.

Todos os Coveiros na sala estavam hipnotizados pela cena diante de nós. Eles repetiam silenciosamente as palavras dos juramentos conforme Harun os fazia, vibravam junto com os cavaleiros sauditas quando ele passava cada estágio da iniciação, riram quando ele derramou seu terceiro crânio cheio de suco de romã na frente da camisa.

E então — aqui está a parte realmente estranha — algo floresceu dentro do meu peito. Eu sei, eu sei, eu passara a noite sendo carregada dentro de um caixão, enganada para pensar que estava me afogando, forçada a beber suco de fruta em restos humanos, jurando adorar uma antiga deusa grega e nunca contar a nenhuma alma viva sobre aquele negócio todo e essa era a parte estranha? Mas, sim, era. A sensação era semelhante a uma descarga de adrenalina, mas não diferente daquela primeira onda de prazer que você sente quando entra numa banheira quente. Observei os rostos dos cavaleiros, ri todas as vezes em que Lancelot me encorajava com uma cutucada e consegui até mesmo moderar um pouco minha hostilidade em relação à Angel. 

Agora que eu estava dentro, a Rosa & Túmulo parecia ter pouco em comum com sua reputação incrível e misteriosa. Está bem, então havia cadáveres (esqueletos, ao menos) neste mausoléu. E daí? Também havia esqueletos no laboratório de biologia. E, privados de seus capuzes e maquiagem assustadora, os outros cavaleiros pareciam menos um culto satânico e mais como um bando de
universitários brincando de se fantasiar. Até o próprio mausoléu parecia acolhedor visto de dentro. As luminárias de crânio eram um pouco incômodas, mas a luz que projetavam nas paredes forradas com painéis de madeira e estantes altas era rosada e acolhedora. Vi um adorável banco acolchoado embutido sob a janela em um canto, perfeito para ficar encolhida lendo um livro. Eu podia me acostumar com isso. Podia gostar muito. Eles haviam me escolhido, entre todos os estudantes da universidade, para me juntar às suas fileiras. Para ser uma das primeiras mulheres. Isso era muito mais legal do que a Pena & Tinta!
Enquanto observava outro cavaleiro ser aceito na sociedade Rosa & Túmulo, podia sentir o círculo sendo formado e eu estava dentro dele. A camaradagem tomou conta e — devo ousar dizer? — a irmandade. Eles se transformou em nós. Lucky passou os dedos pelo teclado e de repente a imagem ficou dez vezes melhor. Eu nem queria saber o que ela tinha feito para conseguir aquilo. Vi Harun se atrapalhar com o juramento da fidelidade uma vez, repetir com uma olhada em direção a algo fora da cena com tremulação sutil e estranha, e então, em um suspiro profundo, capitular e repetir pela terceira vez com tanta sincedade em seus olhos que ela se irradiava até mesmo através da imagem pixelada e granulada. Era assim que nós todos ficávamos naquele momento, quando prometíamos amar, honrar e proteger a sociedade? O Coveiro saudita interpretando o Tio Tony ergueu uma cimitarra.

— Deste momento em diante, você não é mais o Bárbaro-Assim-Chamado Harun Sarmast. Por ordem da nossa Ordem, eu o nomeio Tristram Shandy, Cavaleiro de Perséfone, Ordem da Rosa & Túmulo. Alguém fora de cena bateu um tambor três vezes, depois uma vez e mais duas. 

E, lá do fundo, aquilo jorrou e, todos juntos, nós gritamos:
— COVEIROS!


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Nossa ... só 4 comentários ??? achei tão poquinho, mas ta bom, talvez vocês não tenham ido com a cara do cap... espero que nesse tenha mais hein !!!

Agora as coisas vão começar a esquentar, muitas coisas vão acontecer, e segredos vão se revelar ^^ 

Bjss

COMENTEM !!!



8 comentários:

  1. U.u Animada... Não ceixa de postar hein?! kkkk

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  2. Perfeito
    Bebê ta ótima a fic
    Posta mais
    Beijos

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  3. Ansiedade, curiosidade. Amando.
    Ta mto perfeito.
    Divulga por favor
    http://costa-webnovel.blogspot.com

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  4. Esperando ansiosamente para o próximo! Adorei!
    Bia

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  5. Posta +! Quando é q o Joe vai aparece?
    Obs: Vcs ñ iam postar o Epilogo da web Pai Perfeito, ainda estou esperando!

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  6. quero que chegue logo quando ta demi e joe

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Sem comentários ........... sem capítulos!