11/01/2014

Sociedade Secreta - Capítulo 2




Por meio desta, eu confesso:
agi errado com ele.

2.

Noite da Convocação

A parte divertida de se humilhar na frente de um bando de silhuetas na sombra é que você passa os próximos dois dias imaginando se todo mundo com quem você cruza no campus a viu em seu pior momento. Eu estava na fila do refeitório ontem à noite e juro que vi essa garota riquinha e maconheira dando risadinhas por trás de seu cuscuz marroquino. Passei as duas horas seguintes (GEP esquecido!) tentando descobrir qual sociedade secreta era capaz de convocar estudantes vegetarianos de biologia que usam dreadlocks feitos por estilistas e colares de cânhamo de cem dólares — bem, além de organizações de brincadeira, como a Baseado & Cachimbo.
Nome bonitinho, não é? É assim que as coisas funcionam na Universidade Eli. Todo mundo copia todo mundo. Rosa & Túmulo começou com a moda por volta de 1800 e agora qualquer um que deseje começar uma organização social segue seu ilustre exemplo: Livro & Chave, Espada & Clava, Pena & Tinta.
Há alguns dissidentes entre as maiores sociedades — Cabeça de Dragão, Serpente, Saguão São Lino — mas nada dá um clima tão Eli a uma suposta organização clandestina quanto esse " &". Selena e eu costumávamos brincar dizendo que eles estavam treinando para entrar em escritórios de advocacia — eram todos Não Sei O Quê & Não Sei O Quê Também, certo?
Isso foi antes de Selena perder o senso de humor para tudo relacionado a sociedades secretas. Sério. Tentei conversar com ela sobre minha entrevista naquela noite durante o jantar e ela respondeu como minha mãe quando eu falava em sexo. Ou seja, nada.

A conversa foi assim:
Eu: Então, quer ouvir o que aconteceu na minha entrevista?
Selena (garfo parado a meio caminho da boca): Você devia falar sobre isso?
Eu: Por que não? Não fiz nenhum voto de silêncio. Nem sei quem eles eram. Por que, os seus disseram para não falar sobre isso?
Selena: ...
Eu: Disseram? Eles lhe disseram quem eram?
Selena: ...
Eu: Eles disseram! Uau, devo ter me saído pior do que pensei.
Selena (olhando furtivamente para os lados): Demi, eu realmente acho que não devíamos conversar sobre isso.
Eu: Posso falar sobre o que eu quiser. Eles são um bando de desconhecidos e, ainda por cima, foram muito grosseiros comigo.
Selena: Demi! Você vai destruir as suas chances.
Eu: Acho que não tenho nenhuma chance. E, por favor. Eles não puseram microfones escondidos nas mesas nem nada.
Selena: Rosa & Túmulo poria.
Eu: Rosa & Túmulo não aceita mulheres. Só futuros presidentes da República.
Selena (ficando de pé e erguendo a bandeja): Não vou continuar falando disso aqui.
Eu (seguindo): Tudo bem, vamos conversar no quarto.

Mas Selena não voltou para o quarto. Ela foi até o ginásio para nadar, o que, considerando-se minha aversão permanente a águas profundas (meu primo me jogou de um píer quando eu era criança — não gosto de falar sobre isso), era um tapa certeiro no rosto. E, como se essa Defesa do Cloro não fosse o suficiente, todas as vezes em que a vi nos dois dias seguintes, ela saiu correndo antes que eu tivesse a chance de tocar no assunto de novo.
Não que eu estivesse esperando sentada. Com o dia de colação de grau se aproximando, eu estava superocupada com a edição de formatura da revista literária. Já que eu não ia ser aceita pela Pena & Tinta — ou por nenhuma outra sociedade secreta — não podia me dar o luxo de cometer mais nenhum erro. Aquela era minha penúltima edição e precisava arrebentar.
Então, para ser franca, o tema "Ambição" não ia vingar.
— Já vi isso, já fiz isso — informei ao meu segundo homem, o editor de redação Brandon Weare. — Em Eli, Ambição é o novo preto.
— Que bela citação para sua página de introdução — disse Brandon, dando os toques finais em seu quinto aviãozinho de papel.
— Se escolhermos um tema bom o suficiente, não vou ter que incrementar com frases de efeito.
— Ah, mas aí que tipo de garota da Cosmo você seria? Tudo gira em torno da frase de efeito lindinha ali. Com certeza não tem nada a ver com o conteúdo. — Ele atirou o avião e eu o observei mergulhar e cair direto no chão de linóleo manchado do escritório da revista. Uma queda de nariz.
— Você lê a Cosmopolitan?
— Dicas de sexo femininas? — Ele chutou o avião. — Pode apostar.

Brandon era um especialista na arte de "Aerogami" e, desde que começáramos a trabalhar juntos em outubro, aprendi que os modelos de aviõezinhos de papel que escolhia tinham uma relação direta com sua opinião a respeito do manuscrito do qual retirava o material para sua construção. Ai do escritor cujo texto merecesse um jato de quatro dobraduras... mas, se ele jogasse um planador de nariz quadrado (modelo de Ken Blackburn, ganhador do recorde no Guinness, eu aprendi) na frente do meu rosto, eu devia largar tudo e ler a história.
Eu tinha quase certeza de que não era assim que as coisas funcionavam na Horton. Não que Brandon ligasse. Ele era um desses verdadeiros gênios que salpicavam a população do campus, o tipo que podia compor concertos nos intervalos em que não estava descobrindo a cura para o câncer. Sua razão de ser era a matemática aplicada, mas ele conseguia reservar tempo suficiente para acomodar seu talento para escrever contos surpreendentemente bons e competir comigo pela editoria da revista (consegui ganhar essa por muito pouco). Para Brandon, não tinha essa de batalhar estágios ou arrumar atividades para encher o currículo. Ele simplesmente seguia sendo brilhante, imperdoavelmente CDF e universalmente querido.
E ele tinha razão a respeito do potencial do tema. Noventa por cento da turma de formandos já tinha ambição saindo pelos poros. Os outros dez tinham papais que iam enfiá-la à força até eles terem 30 anos. O tema tinha grande abrangência, assim como a
possibilidade de incorporar alguma espécie de declaração existencialista a respeito da futilidade do desejo, da impossibilidade do propósito, todas as coisas que deixavam os futuros candidatos a Mestre-em-Escrita-Criativa-de-Iowa excitados.
(O estado de Iowa, se vocês não sabem, é o lugar para fazer a pós e aprender a ser romancista. Não me perguntem por quê. Deve ser por causa dos produtos químicos no milho.)
O problema era que eu já estava tendo problemas pessoais suficientes com a ambição. Claro, meu currículo e média estavam em ordem mas, se minha entrevista confusa com a sociedade havia provado alguma coisa, é que todas as realizações tinham que se juntar para formar um plano ou então não contavam. Será que eu queria mesmo passar o próximo mês lendo histórias dolorosamente amargas ou brilhantemente angustiadas ou sensacionalmente sensíveis que me diriam para aceitar uma vida de confortável mediocridade ou me arriscar a ser esmigalhada no chão pelos ratos maiores na corrida?
Será que isso me estimularia a escolher um caminho viável, mas ainda assim adequadamente superior, ou simplesmente me convenceria de que não valia a pena tentar?
— Está bem — falei devagar, avaliando a reação dele —, mas vamos apresentar a dita Ambição de uma maneira positiva ou negativa?
Brandon, filho-da-mãe, jogou a cabeça para trás e riu.
— Toquei em um ponto fraco, Ames?
Às vezes, eu suspeitava que o garoto prodígio ali podia ler a minha mente. Dei de ombros, peguei o avião debaixo da minha cadeira, para onde tinha escorregado, e lancei-o de volta para ele.
— Tudo bem. Então vai ser Ambição. Ambition.
Parece o nome de um perfume do Calvin Klein, mas vamos fazer. — Remexi os papéis na minha mesa e comecei a rearrumar as tachinhas na lateral do mural de tela de acordo com a ordem das cores do arco-íris. Ele alisou as dobras do avião e me estudou cuidadosamente.

— O que há com você hoje. Não está no seu clima normal de vamos-dominar-o-mundo.
— Brandon era bonitinho, no estilo amigo-do-protagonista-em-um-seriado-da-Warner.  

Era só uns cinco centímetros mais alto do que eu e tinha cabelos castanhos que haviam crescido em uma juba rebelde, pele morena clara levemente amarelada e olhos grandes e expressivos de cachorrinho com apenas uma ligeira curva nos cantos para dar a pista de sua herança ("25% e contando!") asiática.

E, eram os olhos que me faziam ceder, todas as vezes. Dei de ombros novamente.

— Sei lá. Estresse de final de ano. Setecentas páginas de Guerra e paz para ler antes das provas.
— Ah, o romance russo — Brandon assentiu, solidário. — Seis metros cúbicos de pura tortura. Ouvi dizer que só de levantar os textos da aula um cara foi parar na fisioterapia — ele piscou. — Não se preocupe. Em duas semanas, você estará na Pena & Tinta e eles devem ter influência nos exames de literatura. Você vai arrebentar. Mordi meu lábio.
— Eu... não vou ser convocada pela Pena & Tinta.
— O quê? — ele apontou para a plaquinha de EDITORA-CHEFE na minha mesa, para mim, para a placa na porta onde se lia REVISTA LITERÁRIA DE ELI, um olhar de falsa incredulidade no rosto. — Como isso é possível?
Finalmente, alguém com quem conversar sobre isso! Selena estava fazendo sua melhor imitação de Tommy!, aquele garoto cego, surdo e mudo do The Who, e Glenda Foster
havia desaparecido em combate (provavelmente entrevistando os verdadeiros candidatos à Pena & Tinta).
— Não sei como! Mas eu fui à minha entrevista e era um bando de bobagem sobre arquivos do FBI e minha professora da terceira série e outras coisas e aí eles me disseram que não eram da Pena...
— E se estivessem mentindo?
— De qualquer modo, não paravam de falar como eu não servia para eles. Estavam sendo bem cruéis, então os mandei pastar, mostrei o meu dedo; não que eles pudessem ver, do jeito que a sala estava escura; e fui embora.
— Uau — Brandon sorriu e aqueles olhos de cachorrinho perdido começaram a brilhar de um jeito muito particular. Eu conhecia bem aquele brilho, depois de trabalhar com ele em um ambiente tão restrito como o da revista desde outubro. Um brilho ao qual eu me tornara curiosamente suscetível desde que ele me assediara com flores e chocolates Godiva no Dia dos Namorados.
— Acho — disse ele, em um tom que traía quão pouco do interesse dele sobre mim recaía na minha entrevista para a sociedade — que devíamos continuar essa conversa durante o jantar. Que tal comida tailandesa? Temos meia dúzia de opções só na Chapei Street.
New Haven é repleta de restaurantes de curry.
Eu lhe lancei um olhar perigoso. Brandon nunca perguntava se você queria sair para um encontro "romântico", ele jogava a questão em cima de você como uma armadilha para ursos. Entenda, Brandon Weare queria que eu fosse sua namorada. Amizade-colorida não estava mais funcionando para ele (ainda que não tivesse havido reclamações enquanto ele estava recebendo os benefícios, que fique claro!).
Ah, sim. Eu dormira com Brandon. Seis vezes, para ser precisa. Talvez eu deva voltar atrás um pouco:

LISTA DE PEGAÇÃO DE DEMI LOVATO

1) Jacob Allbrecker, terceiro ano. Baile de formatura. Eu namorei Jacob durante quatro meses no último ano do colegial e ele terminou comigo duas semanas antes do baile de formatura porque eu não ia até o final. Mas, como havíamos comprado os ingressos e eu tinha marcado salão para fazer o cabelo, fomos juntos ao baile mesmo assim e, apesar dos meus protestos anteriores, acabei perdendo a virgindade no quarto da irmã caçula de Colleen Morrison na festa pós-baile. Glamouroso, não? Jacob e eu dormimos juntos mais duas vezes antes da formatura e então ele entrou para a Universidade de Duke no verão, Ficamos juntos no feriado de Ação de Graças no primeiro ano de faculdade, mas não passamos da mão-boba porque eu já estava enlouquecida por...

2) Galen Twilo, Primeiro ano de faculdade. Semana da Leitura, primeiro semestre. Ah.meu.deus, esse cara era lindo! E um artista, do tipo que escassos dois anos depois me faria rir por ter pensado que ele era profundo, com todos os seus suéteres pretos e cigarros e exemplares gastos de O almoço nu (que não é tão sexy quanto parece). Passei toda a Semana de Leitura (a semana sem aulas logo antes das provas, quando devíamos estudar, mas na verdade só farreávamos) na cama dele, onde aprendi todo tipo de observações inteligentes sobre a anatomia masculina e tudo que precisava para arrebentar
na prova final de poesia americana do século XX . Quando voltei depois das férias de final de ano, porém, ele fingiu que não me conhecia.

3) Alan Albertson. Verão-outono-inverno. Segundo ano. Nós nos conhecemos num emprego de verão na editora da Universidade EU e ele era dois anos mais velho do que eu. Passamos o verão inteiro juntos evitando viagens à praia e festas em piscinas (eu não nado, vide incidente infeliz no píer, e ele fica queimado que nem um camarão no sol). Era amor. E aí, ele ganhou uma bolsa Fulbright e foi para Londres (onde não há nenhum raio UV) e partiu meu coração, o que me colocou em uma trilha de depressão que me levou diretamente a...

4) Ben... Alguma Coisa. Segundo ano. Férias de primavera em Myrtle Beach. E é tudo o que eu sei, exceto que me lembro que seu pau tinha uma curva engraçada no meio.

5) Brandon Weare. Terceiro ano. Todas as garotas ficam notoriamente fracas no Dia dos Namorados — é como algum tipo de alinhamento cósmico entre o Planeta Ridículo e a Constelação Casais-Onde-Quer-Que-Você-Olhe na sétima casa da Solidão. Só sei que todo Dia dos Namorados, até a garota mais independente e academicamente dedicada do campus pode ser conquistada com uma dúzia de rosas compradas no supermercado e um cartão padrão da Hallmark.

Eu sempre fora absolutamente sincera com ele sobre o fato de que não dava exatamente uma boa namorada (veja a lista acima, se não acredita em mim). Mesmo naquele Dia dos Namorados, em algum momento entre a retirada das partes de cima e a retirada das partes de baixo, eu disse a ele: — Isso não pode ser sério, está bem? E é claro que ele disse "está bem". Não importa quantas peças de roupa você ainda está vestindo, assim que um cara acha que há sexo em jogo, ele vai concordar com qualquer coisa.
As cinco vezes em que dormi com ele depois do Dia dos Namorados... bem, o que posso dizer? Eu sou uma pateta. Agora, pelo menos, eu sabia o que ele estava querendo com todos os aviões e origamis que jogava para mim desde que nos conhecemos no segundo ano (os nerds flertam de uma forma meio estranha). Brandon estava fazendo uma campanha regular pela clareza do nosso "status" desde fevereiro e eu evitava a conversa com um sucesso notavelmente maior do que o que tinha em resistir às tentações da carne.
Ou à possibilidade de pasteizinhos de siri grátis. Quarenta e cinco minutos depois, eu estava com a barriga cheia de comida tailandesa e o ouvido cheio das teorias de Brandon sobre como a tradição das sociedades secretas de Eli era inútil para a meritocracia moderna da universidade, como ele estava bastante certo de que fizéramos um trabalho excelente em criar uma rede de contatos e tal sem o benefício de capas pretas e apertos de mão secretos e como ele gostava de mim do jeito que eu era, que se danasse a Pena & Tinta. De modo geral, um discurso muito inteligente para uma jovem impressionável, principalmente dada a quantidade de palavras polissilábicas que ele usou. Cara, Brandon deve ter arrebentado no vestibular. Se eu não tomasse cuidado, esta noite poderia ser a Número Sete.
Só depois das bananas fritas é que ele começou a pegar pesado.

— O seu problema, Lovato, é que você analisa tudo demais.
— Se você está tentando arrumar alguém para ir para a cama, Weare — eu retruquei —, não devia começar frases com "o seu problema...".
— Aaah, isso é uma possibilidade. Joguei a embalagem dos meus pauzinhos nele.
— Como assim, "analiso demais"?
— Presumo que conheça a definição da expressão — ele esperou a confirmação e então continuou. — Você acha que a sua vida tem que ser uma pilha de tijolos e que, se botar um tijolo ruim, a torre inteira vai cair.
Ou isso ou eu vivia empilhando tijolos que nunca se tornavam um prédio.
— Então, você se tortura com cada decisão, apavorada com a possibilidade de estragar tudo.
Há! Eu tinha estragado tudo em relação a esse negócio da Pena. E não esqueçamos do Ben Alguma Coisa. Eu era uma velha especialista em cometer erros. Só não era muito fã do processo.
Ele balançou seu palitinho para mim, os olhos escuros piscando sob o brilho das velas na mesa, e começou a marcar meus supostos tijolos.
— Estágio de verão, posição na equipe da revista, tema da edição de formatura, entrada para a sociedade secreta. Quando foi a última vez em que fez alguma coisa só porque era divertido?
— Selena e eu fomos dançar no Froggie's no fim de semana passado.
— Algo maior.
Levantei minha sobrancelha.
— Algo como... começar um relacionamento com você?
— Por exemplo. — Brandon, acho que nós temos uma ótima amizade. Não quero estragar tudo.
Ele revirou os olhos.
— Alerta de clichê.
A garçonete veio com a conta. Fiz um leve movimento em direção à minha bolsa, mas Brandon balançou a cabeça e puxou a carteira.
— Eu pago a próxima — ofereci, apesar de saber que ele não iria deixar. Brandon fazia coisas como abrir portas, puxar cadeiras e pagar o jantar. Ele também tinha a habilidade de dar um tipo de sorriso que eu sabia que era só para mim. O sorriso-Demi. Era inebriante. E eu sabia que, se me deixasse apaixonar por ele, eu cairia que nem o jato de quatro dobras.

— Olhe, nós já falamos sobre isso.
— Enfiei os braços para dentro do casaco. — Você é um dos meus melhores amigos e tenho medo de que, se me envolver com você e não der certo, eu vá perder nossa amizade. Brandon assinou seu nome na conta com um garrancho Ilustrado.
— Demi — disse ele lentamente, sem olhar para cima —, nós estamos envolvidos. E não está funcionando.
— Você sabe o que quero dizer — abaixei a cabeça.
Ele suspirou.
— Vamos sair daqui.
Nós nos levantamos e nos dirigimos para a porta mas, antes que chegássemos ao Buda de gesso rosa na entrada, ele se virou para mim e olhou bem nos meus olhos.
— Só me prometa uma coisa. Só uma vez na vida, só por diversão, não pense demais, está bem? Veja como a coisa rola.
Eu assenti.
— Está bem. Brandon me levou até a porta de entrada do meu dormitório e eu, contradizendo a
promessa que acabara de fazer, maquinava formas de deixá-lo na porta da minha suíte sem magoá-lo.
O que, no final das contas, era desnecessário. A porta da minha suíte estava aberta e Selena estava sentada no sofá da sala. Ainda estava de casaco, o colo cheio de livros, e olhava fixo para um pedacinho quadrado de papel no chão no meio da sala.
— Selena? — disse eu, acenando com a mão em frente ao seu rosto — Você está bem?
Ela não olhou para mim, nem mesmo piscou, só sussurrou:
— É seu.
Brandon franziu a sobrancelha e pegou o papel do chão.
— É mesmo — falou, entregando-me um envelopinho branco com as bordas de um preto brilhante e selado com uma gota de cera escura. — Devem ter enfiado por baixo da porta. Virei o envelope nas mãos. Era feito de papel grosso, texturizado, e meu nome tinha sido impresso na frente em uma fonte estranha, angulosa.
Mas era atrás que estava meu verdadeiro interesse, pois na sólida cera preta havia a marca inconfundível de uma rosa dentro de um hexágono alongado.
O selo da Rosa & Túmulo.
Enfiei o envelope no bolso do meu casaco mais rápido do que um aluno metido a esperto com a cola da prova e então virei-me para os meus amigos.
— Então, a Pena se manifestou, afinal. — disse Brandon com um sorriso torto.
— A Pena & Tinta — falou Selena com aquela mesma voz estranha e sem emoção — entrega envelopes com bordas azuis e prateadas.
Brandon e eu trocamos olhares diante da demonstração de Selena de sua obsessão por sociedades.
— Então, quem dá os pretos? — ele perguntou a ela. Os olhos de Selena encontraram os meus, mas ela não disse nada, e eu sabia que ela tinha dado uma boa olhada naquele selo. Se tinha conhecimentos sobre artigos de papelaria de cada sociedade, com certeza ela sabia o que significava aquele brasão.
Virei-me para Brandon.
— Muito obrigada pelo jantar. Queria poder curtir mais, mas está ficando tarde e eu tenho muito trabalho para fazer esta noite... — De jeito nenhum. — Ele cruzou os braços por cima do moletom e plantou os pés no meu piso de tacos. — Não até eu ver aquele envelope de novo.
Selena pareceu ter finalmente encontrado a língua, pois ficou de pé num salto e começou a conduzi-lo para a porta.
— A moça diz que está ocupada, Weare — falou, empurrando-o. — E, por mais que nós duas gostemos de você, isso significa fora. Agora.
— Mas... — disse Brandon, olhando para mim por cima do ombro enquanto Selena o empurrava para fora. Eu teria reclamado da forma como ela o estava tratando — bem, meu amigo-colorido — mas minha cabeça estava ocupada demais dando piruetas e eu estava acariciando aquele selo de cera no meu bolso como se eu fosse Frodo e ele fosse o Um Anel.
— Boa noite, Brandon! — gritei enquanto Selena o empurrava pelo vão da porta e a batia na cara dele. — Eu ligo para você amanhã, prometo!
Ela passou o trinco e virou-se para mim.
— Abra.
Dei um passo para trás, protegendo meu bolso.
— Na sua frente?
— Eu sou sua melhor amiga! — ela argumentou. Eu bufei.
— Você sumiu a semana toda! Não me conta nada sobre a sua entrevista para a sociedade e ainda acha que tem o direito de ler a minha carta? Ela pensou a respeito por um segundo e então assentiu.
— Sim!
— Se você me mostrar a sua, eu lhe mostro a minha. — Coloquei as mãos nos quadris, percebendo no momento em que fiz isso que estava deixando o envelope bem à mão de ladrões.
— Tudo bem — Selena falou, afastando-se. — Que seja. Vou deixá-la sozinha com seu precioso envelope. — Aí ela se virou, entrou em seu quarto e fechou a porta, me deixando perplexa diante de seu quadro de avisos.
Não era nada disso que eu esperava que acontecesse. Mas me recuperei alguns segundos depois, lembrando-me que ainda não havia aberto o envelope. Passei um longo tempo só olhando para o selo. Será que iria quebrar quando eu o abrisse? Virei o papel nas mãos várias vezes. É, aquele era o meu nome, e sim, aquele era o selo da Rosa & Túmulo. E aquele ainda era o meu nome. Mas a Rosa & Túmulo não convocava mulheres.
O que diabos estava acontecendo?
Finalmente, enfiei com cuidado as pontas dos dedos por baixo da cera e abri sem quebrar. O envelope se abriu em linhas irregulares e se desdobrou em um hexágono estranho e distorcido. As palavras estavam escritas na diagonal, com letra pesada, angulosa e era isso que diziam:

B.A.C. * Demetria Devonne Lovato: Você foi julgada e considerada merecedora. Esteja em seu quarto esta noite aos cinco minutos após as oito horas e espere maiores instruções.

 E então, abaixo disso, estava a marca da Rosa & Túmulo. Eu estava sendo convocada pela Rosa & Túmulo!
Ah, uau. Ah, uau, ah, uau, ah, nau (para uma missiva, não era muito inovador, mas na hora eu fiquei alucinada de alegria).
Corri em direção ao quarto da Selena, e aí dei uma freada Espere um segundo, eu não ia lhe contar nada até ela me contar também. Brandon! Aposto como ele já devia estar em seu quarto. Eu podia ligar — não, ele acabara de me dizer o quanto achava que as sociedades secretas eram paleolíticas e a Rosa & Túmulo era, sem dúvida, o Tiranossauro Rex do país. Eram da velha guarda, de sangue azul e seus membros com pedigree viravam juizes da Suprema Corte e presidentes e fundadores de importantes conglomerados de mídia como a AOL Time-Warner. Homens.
Poderiam todos aqueles rumores estar errados? Ou pior, será que isso era o que alguém considerava uma brincadeira de mau gosto? Pobre Demi Lovato, não foi eleita, então vamos bagunçar com a cabeça dela. Dizia-se que essas coisas já haviam acontecido antes — é claro que tendiam a acontecer com estudantes ingênuos do primeiro ano que não sabiam de nada. De vez em quando, ouviam-se histórias sobre universitários galhofeiros vestindo capas, seqüestrando um bando de alunos novos e fazendo-os passar por todo tipo de humilhações fingindo ser uma forma de "iniciação".
Mas, sério, também não seria fácil enganar um aluno mais avançado? Não era como se eu pudesse pedir a identidade para um bando de figuras de capa preta quando eles aparecessem. Como o tal Sombra-Que-Sorri havia dito para mim durante a entrevista, é por isso que eles a chamam de secreta.
Bati com as mãos no ar de frustração. Por que não havia um setor de informações para isso? Por que não estava descrito no manual do estudante? Por que o canto paranóico do meu cérebro havia amordaçado e amarrado os quatro pés da parte racional? 
Muito bem, Demi, pense. Pense. 
Chequei o meu relógio e aperfeiçoei o meu mantra. Pense mais rápido. Eu tinha dez minutos antes que os rapazes de preto chegassem.
Será que eu deveria aceitar? Deveria aceitar, mesmo que suspeitasse que isso não passava de um trote cruel? Porque, e se fosse Rosa & Túmulo e, se esse convite fosse o que parecia ser, o que a entrada para a sociedade significaria para mim? Eu ainda estava considerando isso nove minutos e meio mais tarde, quando houve uma batida na minha porta. Congelei, apertando o envelope com força nas mãos e olhando para a porta como se ela fosse a única coisa entre mim e o Armageddon.
Houve outra batida. Selena entreabriu a porta do seu quarto, enfiou a cabeça para fora e olhou da entrada para mim e de volta para a entrada.
— Vai atender?
— Estou decidindo.
— Ah, é isso o que está fazendo? — ela ergueu a sobrancelha para mim. — Porque você não parece muito determinada.
Mais uma batida, essa muito insistente. Selena revirou os olhos, atravessou a sala até a porta e a escancarou... e então eles entraram, esbarrando em uma Selena confusa e me cercando.
Não sei dizer quantos eram — pelo menos, não antes que me levantassem em seus braços e me levassem porta afora, as capas pretas adejando em seu rastro. Era tão emocionante quanto eu sempre achava que fosse. Mas a viagem acabou abruptamente cerca de dez segundos depois, quando entramos em outra sala escura (eles gostam muito de salas escuras) em algum lugar do meu prédio. Eles me depositaram com o lado certo para cima e se afastaram.
Após um instante, eu recuperei o fôlego. A sala era iluminada por uma única vela de cera preta, atrás da qual eu podia ver um homem com seu capuz preto puxado para baixo por cima dos olhos. Eu obviamente não vinha comendo muitas cenouras, porque não conseguia enxergar nada além do brilho da vela. Havia um cheiro estranho no ar, algo familiar mas indefinível e definitivamente incompatível com a visão diante de mim.
— Demetria Devonne Lovato?
— Sim — falei numa voz um tanto ofegante.
— Rosa & Túmulo: aceite ou rejeite.
Ali estava. Acabara o tempo. E eu não fazia idéia do que pensar.
E então, as palavras do Brandon voltaram a mim: Prometa-me, só uma vez na vida, só por diversão, não pense demais.

Abri a boca.

— Aceito.


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*B.A.C --- A confessora mais tarde descobriu que isso queria dizer Bárbara-Assim-Chamada. 

E ai, estão gostando ? =) queria muito saber a reposta, tinha muitas coisas reservadas para essa fic, mas o primeiro capítulo e o prólogo só tiveram 2 comentários, sei que não estou podendo cobrar nada de ninguém pelo tempo que sumi, e por isso não vou parar de postar agora, por que acho que talvez seja o inicio que esteja um pouco confuso e vocês não estejam entendendo, mas se isso permanecer assim, eu vou parar... 
Bom, espero que tudo esteja em ordem em breve =) 
Jessica, Ale minha bebê, obrigada pelo cometários princesas =) 
Até amanhã ^^

8 comentários:

  1. Heey, selo pra ti >> http://needyounowjemi.blogspot.com.br/2014/01/divulgacao-e-selinho.html <<
    Xoxo :*

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  2. Adoro essa fic!! Você escreve MUITO bem!!! Continua sim!

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  3. Demi aceitou ir para rosa & túmulo *-* *-* *-*
    Ansiosa aqui para saber mais...
    Posta logo minha bebê
    Beijos

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  4. Td isso ta meio confuso e é melhor vc procurar uma fanfic no fanfic obsession pra posta aqui pq era bem melhor. Esse blog não é mais a mesma coisa

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  5. Amei, posta +! Vcs vão postar o epilogo da antiga fic?

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  6. To amando essa fic!! Diferente de tudo e muito muito muito boa! Amei! Continua postando!
    Bia

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  7. Aaaaah a Demi aceitou e.e
    Será que vai dar merda???
    To amando :)
    Vc escreve muito bem

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Sem comentários ........... sem capítulos!