10/01/2014

Sociedade Secreta - Capítulo 1






Por meio desta, eu confesso:
eu não sabia que eram eles.

1.

Entrevista

Tudo começou num dia no final de abril no meu terceiro ano de faculdade. Eu estava no meu quarto no dormitório, tentando, para variar, encaixar a tarefa de lavar um monte de roupa entre um sanduíche de atum no refeitório e minha aula da tarde sobre o livro Guerra e paz. As aulas do professor Muravcek* tendiam para o impenetrável e eu queria passar algum tempo revendo minhas anotações. Corria o risco de tirar B naquela matéria, o que era inaceitável se quisesse me formar com louvor. No entanto, ou eu lavava a roupa ou teria que sair correndo naquela noite para comprar calcinhas novas.
Você se dá conta que está desesperada quando acha que correr até a GAP do centro da cidade é mais fácil do que esperar uma secadora livre. Mas nem sabão em pó nem Tolstoi estavam no meu caminho naquela tarde.
Eu acabara de desenrolar meu fio-dental de renda fúcsia (calcinha para encontros sexta à noite) das pernas do meu ―jeans para festas‖ e estava saindo pela porta com um carregamento de roupas escuras quando o telefone tocou. Droga. Provavelmente era a minha mãe. Ela parecia ter um sentido sobrenatural para descobrir quando eu estaria no quarto.
Apoiei a cesta no quadril e atendi o telefone.
— Alô?
— Demetria Devonne Lovato?
— É ela — falei, balançando uma das minhas meias de ginástica para desenrolá-la.
— Solicita-se a sua presença na College Street, 750, sala 400, às duas horas desta tarde. Duas horas significava em 15 minutos.
 — Quem está falando?
— College Street, 750, sala 400. Às duas da tarde.
E aí, a linha ficou muda.
Caí sentada no sofá desgastado, espalhando tops e calças de pijamas pelo chão. Isso é que era uma péssima hora. Não havia dúvidas na minha cabeça sobre quem estava do outro lado da linha. A Pena & Tinta era a sociedade ―literária‖ sênior no campus, o refúgio comum para escrevinhadores de todos os tipos. Ostentava vários escritores famosos entre seus ex-alunos e, como atual editora-chefe da revista literária do campus, eu sabia que entrar era facílimo para mim, assim como fora para minha antecessora, Glenda Foster. Isto é, seria se eu conseguisse comparecer à entrevista repentina naquela tarde.
________________
*Os nomes das pessoas, lugares e organizações foram mudados para proteger o confessor de processos legais ou, você sabe, assassinato.

Eu precisaria de uma longa conversa com Glenda. Ela também participava da turma de romances russos e sabia que eu estava com dificuldades, mas ainda assim marcou minha entrevista com a sociedade durante o horário da aula!
As entrevistas para entrar na sociedade eram sempre marcadas com muito pouca antecedência. Parte do teste era ver se você conseguia comparecer. Eu ainda não descobrira o que eles faziam se o convocado em potencial não atendesse o telefone — se estivesse ocupada, por exemplo, aguentando tanto o crime quanto o castigo da voz soporífica do professor Muravcek.
Roupa suja totalmente esquecida, me apressei. Ainda que a entrevista fosse apenas uma formalidade, eu tinha toda a intenção de seguir a pompa e circunstância da sociedade e me arrumar (sociedades têm tudo a ver com a aparência). Meu terninho estava enfiado no fundo do meu armário atrás do casaco de esqui e da roupa de veludo que eu usara para a festa temática dos anos 1970, em fevereiro. Eu não vestia o terno desde a avalanche de entrevistas para estágios em janeiro, quando descolei um emprego de verão bacana (inserir uma revirada de olhos aqui) na Horton, fazendo fotocópias de formulários de rejeição. Ele precisava de uma boa escovada mas, tirando isso, estava bom. Combinei com uma camiseta de algodão limpa e saí catando um par de meiascalças que não estivesse desfiado. No terceiro mergulho na gaveta de calcinhas, achei um. Quando eu vou aprender a jogar fora meias estragadas (parece que não será hoje)? Enfiei os outros dois pares de volta na gaveta e lutei para enfiar o terceiro pelas pernas. Eu precisava me depilar, mas as meias esconderiam isso.

Em janeiro, eu havia cortado meu cabelo castanho-claro num daqueles cortes em camadas na altura dos ombros que tinha certeza de ser a última moda entre as intelectuais de Manhattan (não eram). O lado ruim do corte era que, mesmo depois de três meses, ainda precisava de vinte minutos de secador e escova redonda grande para ficar minimamente decente. Eu não tinha esse tempo no momento, então me rebaixei ao estilão rabo-de-cavalo. Calcei meus escarpins pretos e saí batendo os saltos pela sala do início do período gótico da suíte — que incluía janelas com vitral. Nós temos um dos apartamentos mais legais em toda a parte residencial da universidade — dois quartos grandes ligados por uma sala com uma lareira que não funcionava, mas que era linda. O único defeito era o piso de tábua corrida ligeiramente marcado. Eu já falei o quanto odeio saltos altos?
A porta da suíte se abriu antes que eu pudesse girar a maçaneta. Minha companheira de quarto e melhor amiga, Selena Gomez, entrou equilibrando uma montanha de livros empoeirados da biblioteca, uma caneca térmica de café e sua roupa vinda da tinturaria. Selena é sempre mais organizada do que eu. Ela tem tempo para almoçar, estudar em casa e passar a ferro as pregas das calças. É como se já fosse advogada. Ela me olhou de cima a baixo.
— Pena?
Eu dei de ombros.
— Quem mais?

A Pena & Tinta não era uma sociedade secreta no sentido tradicional da palavra. Deus, eles nem tinham um daqueles mausoléus de pedra enormes como aquelas que as grandes sociedades usavam para fazer suas reuniões — só um quarto-e-sala em cima da Starbucks. Ela assentiu bruscamente e jogou os sacos da tinturaria por cima do encosto do sofá. Há dois dias, Selena saíra correndo daqui vestindo seu próprio terno bem passado.
— Boa sorte, não que você vá precisar. Todos os editores da revista literária não entram na Pena & Tinta desde, sei lá, a Idade da Pedra?
Praticamente. Botei de lado o aborrecimento por Selena ainda não ter me contado qual sociedade a estava cortejando. Era bobagem; eu sabia que quando a noite da convocação chegasse e fosse escolhida por sua sociedade (qualquer que fosse), Selena ia parar com essa história de segredo.
Ela tirou um saco de papel de sua bolsa de carteiro e ergueu uma garrafa de vodca Finlandia sabor manga em triunfo.
— Saca só. Achei que podíamos fazer um clima tropical com as nossas jujubas amanhã.

A Noite da Jujuba havia se tornado um ritual semanal na nossa suíte desde que Selena fizera 21 anos em agosto passado (eu não seria maior até dezembro). Uma garrafa de vodca, dois copinhos e um saco de jujubas Brach’s para acompanhar era tudo o que precisávamos para uma festa. Imaginei rapidamente o que aconteceria com a tradição quando nós duas estivéssemos em nossas respectivas sociedades e tivéssemos outros compromissos nas noites de quinta-feira (todas as sociedades secretas se reúnem às quintas e aos domingos).

— Sensacional! Mal posso esperar. Tenho que ir — dei um tchau, saí da suíte com os saltos batendo no piso, desci as escadas e entrei na ensolarada tarde de abril. Connecticut havia finalmente decidido se ajustar ao cronograma e se dar conta que era primavera.
Eu sabia que Selena seria convocada. Ela estava na disputa por um lugar numa das sociedades de maior prestígio desde o momento em que botou os pés no campus como caloura. Pensava sinceramente que era a única maneira de se chegar a algum lugar nesta universidade. Eu mesma achava que essa postura era um pouco antiquada. Não estávamos nos anos 1920, quando se era escolhido por uma sociedade logo depois da formatura em Andover ou em uma das outras escolas preparatórias de elite em que todos os estudantes no campus eram brancos, homens e mais ricos do que a cobiça é capaz de fazer imaginar.

Naquela época, não ser aceito em uma das grandes sociedades secretas era equivalente ao ostracismo social permanente. Esqueça o escritório em Wall Street decorado com móveis de couro, esqueça a casa de veraneio em Newport. Seus filhos provavelmente nem entrariam no colégio Exeter!
Mas o mundo não funcionava mais assim. Agora, a maioria das sociedades tinha listas diversificadas de membros, que refletiam o corpo estudantil moderno composto de garotos de todos os tipos. Na minha cabeça, não havia dúvidas de que, quando chegasse a Noite da Convocação, mesmo sem o benefício do sangue azul, Selena seria eleita para uma das melhores sociedades no campus — a Cabeça de Dragão, talvez, ou a Livros & Chave. Na verdade, a única sociedade secreta na qual eu sabia que ela não entraria era a Rosa & Túmulo, a mais antiga e famosa sociedade do país. Isso era porque todos os membros — conhecidos como ― Coveiros — eram homens.

Quanto a mim, estava entrando para a Pena & Tinta pela mesma razão pela qual fazia todo o resto — ia contar pontos no meu currículo. Eu já conhecia os outros tipos literatos do campus. Eram todos amigos próximos. Não precisávamos da formalidade de uma sociedade como a Pena & Tinta para cimentar nossos laços. Precisávamos era dos contatos e do ―    ‘‘algo mais’’ no currículo que ela nos daria. Você sabe como é. Se havia uma organização para comandar, um prêmio para ganhar, um contato para perseguir —
você tinha de fazê-lo. Senão, todo mundo ia ficar se perguntando por que você não havia feito e todo o seu currículo cuidadosamente construído cairia por terra como um calouro de 45 quilos numa festa regada a cerveja.
Era aqui, College Street, 750. E, de acordo com o meu relógio, eu tinha pouco mais de 90 segundos para entrar na sala. E, ainda assim, quando finalmente cheguei, ligeiramente ofegante, na sala de aula escura no quarto andar, as primeiras palavras a saírem da boca da pessoa que apontou uma cadeira com um laser foram:
— Você está atrasada.
Olhei para o meu relógio de novo, ainda que não conseguisse ver os ponteiros no escuro.
— Eu...
O homem oculto pelas sombras sentado à mesa mais próxima apontou algo para mim que brilhava com um 14h01 em números digitais verdes.
— Este é um relógio atômico de alta precisão. Você está 48 segundos atrasada.
— Está brincando?

Pisquei, tentando em vão ver seu rosto na escuridão. Como todas as nossas salas de aula são equipadas com luzes com sensores de movimento, fiquei surpresa por terem conseguido mantê-las desligadas. Haviam posto cortinas negras nas janelas e, apesar de cada uma das 12 pessoas sentadas pela sala parecer ter uma luz de leitura à sua frente, o máximo que eu conseguia distinguir era um maxilar aqui, a curva de um nariz ali. Uau, eles haviam se superado. Devia ser trabalho do fluxo criativo dos escritores.

— Se estamos brincando, Srta. Lovato? — disse o Cara da Sombra nº 2, com o que posso jurar ter sido um sorrisinho de escárnio. Eu nem precisava ver. — Acha que há algo neste processo que seja brincadeira?
Até agora, não. Mas, qual é, o que era aquilo, o filme De olhos bem fechados?
— Não, senhor.

Estiquei o pescoço para ver se reconhecia os traços de Glenda entre o grupo, mas não consegui distingui-la. Onde ela estava? Ah, deixe-me adivinhar. Guerra e paz. Eu ia roubar as anotações dela sobre a aula!

— Deixe-me assegurá-la, Srta. Lovato — o Cara da Sombra nº 2 continuou — que levamos nosso processo de eleição muito a sério. A pontualidade é da maior importância para nós. Assim como eleger uma pessoa em quem possamos confiar para obedecer as ordens da sociedade, independentemente do quanto pareçam insignificantes.
Epa. 
Então 48 segundos e eu tinha pisado na bola tão feio assim? Sentei-me reta na cadeira.

— Eu entendo, senhor, e posso lhe garantir que levarei meu posto na sociedade muito a sério — fiz uma pausa, ponderando quais seriam minhas próximas palavras. — Eu não sabia que devia investir em um relógio atômico. Vou ganhar um desses quando me juntar a vocês?
Nenhuma resposta.
Eu ri nervosamente.
— E que tal um relógio de pêndulo? Ouvi dizer que cada membro da Rosa & Túmulo ganha um na formatura — a Pena, no entanto, não tinha recursos para presentes tão caros. Talvez eles conseguissem liberar uns de pulso comuns.
Nada ainda. Humm, esse negócio estava ligado?
— Se bem que eu acho que seria difícil carregar um relógio de pêndulo por aí. — Péssimo, péssimo, péssimo. — E provavelmente não vai ser de alta precisão. — Cale a boca, Demi. Cara, eu estava indo de mal a pior ali.
Ficamos sentados em silêncio durante dez segundos. E então alguém três fileiras atrás falou:
— Srta. Lovato, se puder responder algumas perguntas para nós. — Vi um embaralhar de papéis. — Tenho o seu histórico escolar. Aqui diz que, no segundo ano, você tirou um B- em Páginas do pó: Narrativa da imigração etíope no Ocidente da metade do século XX.
— Sim.
— Tem alguma explicação para esse desempenho?
É, cuidado com matérias que tenham colonos no meio. Nesse caso, o professor era um idiota que achava que tudo no texto — sua letra ou um argumento circular — que fosse remotamente cilíndrico era alguma espécie de representação fálica e, a não ser que nossos trabalhos finais explorassem o contínuo problema da inveja feminina do pênis, nós nos dávamos muito mal.
Acho que ele tinha problemas na cama.
O B- era a única mancha no meu histórico na faculdade de Inglês, ou seria desde que eu interpretasse brilhantemente as 1.472 páginas de GEP (Guera e Paz) e arrebentasse em meu exame final de romances russos.
— Sou mais da Nova Teoria Crítica do que da Análise Freudiana — comecei, escolhendo a antiga tradição das artes de atordoar os outros. Se não pode vencê-los, confunda-os. — Os significantes dos principais textos dessa matéria — cara, nem eu sabia o que eu estava dizendo àquela altura — relacionavam-se melhor a leituras similares aos trabalhos de Said, Lévi-Strauss e... — Droga. Eu havia perdido o fio da meada. Muito bem, pegue um clássico — ...às teorias de Aristóteles, como as descritas na Poética.
Aha, questione isso! Eu era formanda de Inglês. Conseguia enrolar bem à beça. A sombra na terceira fila sorriu e pude ver que alguém tinha um dentista muito talentoso. Seus dentes eram tão brilhantes e certos quanto os de um astro de cinema.
— Boa resposta. — Aí ele limpou a garganta.
Todas as luzes piscaram rapidamente, duas vezes.
A Sombra-Que-Sorri mexeu em mais alguns papéis.
— Lembra-se de Beverly Campbell?
— Minha professora da terceira série? — Tive que pensar sobre aquilo por um minuto. Glenda não me avisara a respeito de nada daquilo. Sem dúvida ela estava sentada bonitinha agora, tomando notas sobre o gélido inverno siberiano com sua caneta de gel roxo de sempre. E aqui estava eu, sendo interrogada pela Pena & Tinta sabe lá Deus por que motivo. Isso não deveria ser algo garantido?
Além do mais, era oficial: eu não reconhecia a voz de nenhuma daquelas pessoas. Será que tinham trazido ex-alunos para conduzir a entrevista?
— Se perguntássemos a Beverly Campbell a seu respeito, o que ela diria?
— Que eu era boa em fonética. — Já chega disso. — Qual é, era a terceira série!
— E quanto a Janine Harper? — Quarta série. — Marilyn Mahan. — Quinta. — James Field, Tracy Cole, Debra Blumenthal.
A Sombra-Que-Sorri continuou a citar cada um dos professores que eu já tivera. Era mais do que um pouco assustador.
— Posso lhes fazer uma pergunta? — falei, interrompendo sua declamação quando mencionava o segundo ano.
— Vá em frente.
— Audiências do Congresso não se importariam tanto com o começo da minha infância. Por que vocês se importam?
Pena era, na melhor das hipóteses, uma sociedade de segunda categoria, mais preocupada em conseguir que seus membros entrassem para o curso de jornalismo do que em dominar o mundo — supostamente, o propósito das verdadeiras sociedades secretas. Qual era a daquela encenaçãozinha do Código Da Vinci?
O Cara da Sombra nº 2 falou:
— Quais são suas ambições, Srta. Lovato?

Eu meio que queria escrever o Grande Romance Americano. Mas nem a Pena & Tinta acharia essa resposta satisfatória. Não era suficientemente voltada para um objetivo tangível. Não era factível. Não existem Prêmios Nobel de Literatura suficientes para distribuir por aí. Além do mais, eu não tinha certeza de ter nenhuma Grande Idéia Americana. Portanto, mais uma vez, vamos para o plano B.
— Ser uma magnata da mídia. — Pronto, isso devia satisfazê-los.
— Você está mentindo — o Sombra-Que-Sorri não estava mais me mostrando seus dentes brancos.
— O que o faz dizer isso? — cruzei as mãos no colo. E por que se importavam? Eu teria apostado que cada uma daquelas pessoas era, lá no fundo, um escritor frustrado. O Sombra-Que-Sorri (apesar de não estar sorrindo agora) pegou outro pedaço de papel e começou a ler em voz alta. Era a primeira página de meu romance inacabado — aquele sobre o qual ninguém além de mim e de Selena sabia a respeito. Aquele que só existia no meu laptop, lá no meu quarto.
— Ei! — gritei e ele parou. — Onde conseguiu isso? Por acaso invadiu o meu computador? Tudo ficou muito silencioso.
Achei que podia ouvir o relógio atômico de alta precisão zumbindo. Quem eram aquelas pessoas?
— Temos tudo o que já fez na vida, Srta. Lovato — disse o Cara da Sombra nº 2. Ele ergueu um envelope pardo da mesa à sua frente — Este é o seu arquivo do FBI.

Meu queixo caiu. Eu tinha um arquivo do FBI? Por que eu teria um arquivo no FBI? Eu nunca tinha feito um estágio de verão na Casa Branca ou no Pentágono. Meu pai é contador, não político. Eu não precisava ser liberada pela segurança. E, mesmo que precisasse, como diabos essas pessoas tinham conseguido pôr as mãos nisso? Só havia uma resposta. Eles estavam brincando comigo. Balancei a cabeça, inclinei-me para trás na cadeira e ri.
— Sei, o meu arquivo do FBI. Eu-acho-que-não, hein. Olhe, fico feliz por ter feito vocês se divertirem, mas já que vocês não são os  “Homens de Preto”, podemos por favor voltar para a entrevista agora?
— Eu acho — disse o Cara da Sombra nº 2 — que a entrevista acabou.
— Não! — falou o Sombra-Que-Sorri.
— Ela não é o que estamos procurando.
— Eu não concordo.
Espere um pouco. Inclinei-me para a frente.
— Gente, não sei direito o que está acontecendo aqui. Onde está a Glenda?
O Cara da Sombra nº 2 inclinou a cabeça até eu vislumbrar uma bochecha pálida.
— Glenda?
— É, Glenda. Glenda Foster, a antiga editora da revista literária? A garota que é minha
madrinha nesta sociedade? A garota que está ocupada demais com literatura russa para aparecer esta tarde?
Novamente o silêncio, apesar de pontuado por algumas risadinhas. Finalmente, o Sombra-Que-Sorri (e definitivamente ele estava sorrindo de novo!) falou.
— Glenda Foster não é membro desta organização.
Puta merda!
Quem eram essas pessoas?!?

Está bem, para ser justa, ainda havia um cantinho na minha mente que estava gritando que Glenda mentira para mim o ano inteiro e que, na realidade, ela não era membro da Pena & Tinta. Mas era um cantinho minúsculo, aquele no qual a maioria das minhas tendências paranóicas habita. O resto da minha cabeça estava ocupada girando. Eu estava levando esse processo seletivo de uma maneira bastante informal porque, ei, era a Pena & Tinta. Não era grande coisa e, de qualquer modo, era algo garantido.
Mas, obviamente, eles não eram a Pena & Tinta. Eu tinha perdido o chão, por uma das primeiras vezes na minha vida. E não tinha idéia do que deveria fazer.
— Acho que já acabamos — o Cara da Sombra nº 2 falou.
— Não acabamos, não — insistiu o Sombra-Que-Sorri.
O Cara da Sombra nº 2 se virou e eu vislumbrei um pescoço perfeitamente barbeado.
— Ela não é o que queremos. Temos que ser criteriosos quanto a isso.
— Eu posso ser séria! — inclinei-me para a frente e dei um tapa nas anotações do Cara da Sombra nº 2. Vi seu queixo cair. Ops.
— Sinto muito — falei, chegando para trás na cadeira e dobrando as mãos recatadamente. — Eu fiquei um pouco... confusa.
— É óbvio.
— Posso perguntar quem são vocês?
Desta vez, todos eles riram antes do Cara da Sombra nº 2 dizer “não”.
— Então, vocês têm uma lista dos inspetores do meu colégio do ginásio e eu não ganho nada?
— É por isso que a chamamos de sociedade secreta. — O Sombra-Que-Sorri limpou a garganta.
— É justo.

O Sombra-Que-Sorri piscou sua lâmpada algumas vezes e todos os membros começaram a remexer os papéis em suas mesas. Fiquei imaginando o que significaria aquele sinal. Muito bem. Achei que já tinham me humilhado o suficiente para uma tarde. Levantei-me da minha cadeira.
— Posso ir?
— Um momento, Srta. Lovato. — O Sombra-Que-Sorri esticou a mão e fiquei surpresa por conseguir enxergá-la. Aparentemente, meus olhos estavam se adaptando à escuridão.
— Diga-nos. O que tem para oferecer a esta organização?

Mordi a língua para não devolver um “E que organização é esta?”. Tudo bem, então eles não eram a Pena & Tinta. Alguém mais estava me cortejando e eu provavelmente destruíra qualquer chance que pudesse ter tido de impressionar... quem quer que fosse. A verdadeira pergunta era: e eu ligava para isso? Afinal de contas, essa não era a minha praia. Era Selena quem queria entrar em uma sociedade secreta — qualquer sociedade secreta de prestígio. Eu só queria entrar para a Pena & Tinta para ficar sabendo quais agentes literários estavam contratando assistentes e se a revista Cosmopolitan precisava
ou não de estagiários. E, finalmente, percebi o absurdo de toda aquela situação. Todos os alunos de terceiro ano que, como eu, haviam passado uma hora numa sala escura respondendo a perguntas vagas sobre suas ambições e realizações para um bando de estranhos nas sombras — eles não faziam a menor idéia de para quem estavam abrindo suas almas. Selena, com todo aquele pedantismo de segredo e superioridade, não sabia se estava sendo cortejada pela Cabeça de Dragão ou recebendo um trote de um bando de garotos de alguma fraternidade. Assim como eu.
O que eu tinha para oferecer a essa organização misteriosa e não-identificada? Além do dedo médio, que levantei, sem causar grande efeito na escuridão. Endireitei a minha saia, estiquei o queixo para a frente e ri.

— Vocês já sabem o que eu tenho a oferecer. Notas máximas no meu curso, a não ser por aquele probleminha da Narrativa da imigração etíope; a editoria da revista literária; participações e liderança em um grande número de outras publicações pequenas no campus e trinta páginas de um romance mal escrito. Não consumo drogas, nunca fui presa e, pelo que ouvi dizer, não sou ruim de cama. Não que qualquer um de vocês vá ter a oportunidade de descobrir isso em primeira mão. (Apesar de que, para ser sincera, eu não tinha como saber isso, não é mesmo?)


Aí, virei-me e marchei para fora. E, conforme saía para o corredor, de cabeça erguida, achei ter visto uma dúzia de luzinhas de leitura piscando.

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Bom ... 1º capítulo postado =) 
Espero que vocês gostem da fic... tem muito coisa legal pra acontecer XD
Estou adorando os comentários de vocês, por isso quero mais T.T
então COMENTE muito !!!! 
Amanhã tem mais ♥♥♥

3 comentários:

  1. Ficou perfeito <3 <3 <3
    Bebê primeiro capítulo arrasou u.u
    Ansiosa para mais.
    Posta logooo minha linda
    Beijos

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  2. tipo: puta merda! quem são essas pessoas? kkkkkkk'
    essa fanfic é incrível e muito interessante :)
    ansiosa para mais *-* posta logoooooooooooooooooooooooo.

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  3. Muito interessante essa fanfic.
    Parabéns pela sua criatividade.
    Estou amando e olha que é o primeiro cap.

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Sem comentários ........... sem capítulos!