31/08/2012

Capitulo 25 ( Último )




-Vocês estão vendo essa ossada? – Sophia McDylan segurava a caveira de uma vaca, esbranquiçada pelo sol e pela areia. - Todas as cores do arco-íris estão nessa
ossada. E quero ver estas cores na folha que está aí na frente de vocês.

Pousou a caveira na mesinha à nossa frente. Daí foi dar uma bronca no Zac, o corvo,
que já tinha roubado um chumaço do meu cabelo, antes que eu tivesse a
oportunidade de colocar meu capacete de margaridas.

Sentei no meu banco com uma perna de cada lado, mantendo meu olhar
cuidadosamente desviado da pessoa que estava ao meu lado. Eu não tinha noção se o Joseph estava feliz ou triste em me ver ou se ele simplesmente não ligava a mínima.

Nós não tínhamos nos encontrado nem nos falado (eu só o vira na TV) desde a noite
do Trio Beaux Arts e da nossa discussão sobre o Logan. Eu não fazia a mínima idéia
se ele tinha assistido à minha entrevista ou se sabia que eu, de fato, tinha exercido
meu direito à liberdade de expressão, como ele tinha sugerido. Ou que eu
basicamente tinha confessado, ali na frente de vinte milhões de telespectadores,
que eu gostava dele.

Interroguei a Medison longamente sobre tudo isso, já que ela frenqüentava a
mesma escola que ele. Mas, por ter 11 anos, a Medison não tinha nenhuma aula junto
com o Joseph. Até o horário de almoço dela era diferente do dele. Ela não sabia se
ele tinha assistido ao programa ou não.

-Não se preocupe - a Dallas ficava repetindo. - Ele assistiu.

E a Dallas, claro, sabia do que estava falando. A Dallas sabia tudo que se pode saber a respeito dos garotos. Ela não tinha pegado o Logan de volta, da mesma maneira
desencanada como o tinha despensado? Um dia, estavam brigados e, no dia
seguinte, estavam sentados na lanchonete da escola como se nunca tinham se
separado.

-Ah, oi, Demi - fez o Logan quando eu passei ao lado, indo em direção à minha mesa. - Olha, desculpa por aquele negócio da exposição. Espero que você não esteja, sabe
como é, brava comigo, nem nada assim. Foi só que eu fiquei meio decepcionado.

-Hum - murmurei, totalmente confusa. Onde é que estava o Greg Cardner? Mas
acho que me dei bem quando mandei: - Sem problemas.

E não era problema nenhum mesmo. Que diferença o Logan fazia para mim? Eu tinha
coisas mais importantes em que pensar. Tipo no Joseph. Como é que eu ia fazer com
que o Joseph acreditasse que eu gostava dele, e não do Logan? Tipo assim, e se ele
não tivesse visto a entrevista? Não dava para imaginar que ele pudesse ter perdido
o programa, porque tinha sido considerado o principal horário, e, além disso, tinham
anunciado sua exibição sem parar, desde o domingo, quando eu arrumei a coisa
toda.

Ainda assim, existia a possibilidade de ele não saber. Havia a possibilidade de eu
ser obrigada a falar tudo pessoalmente. O que, de certo modo, era pior do que falar na frente de vinte milhões de estranhos. E lá estava eu, sentada bem ao lado dele, e não conseguia pensar em uma única coisa para dizer. Tipo assim, trocamos sorrisos quando entramos, e o Jospeh ficou tipo "E aí?" e eu respondi "E aí?"
Mas foi só isso.
E, como se o destino jpa não tivesse me aprontado umas poucas e boas
ultimamente, o Jospeh estava usando uma camiseta da No Doubt. A minha banda
preferida, de todas, com a Gwen Stefani, apenas a melhor cantora do universo, e o
cara por quem eu estava totalmente apaixonada estava usando uma camiseta de
show da banda.

A vida pode ser mesmo injusta.

E agora as minhas mãos suavam tanto que eu mal conseguia segurar os lápis de cor,
e o meu coração estava fazendo um solo de bateria esquisito dentro do meu peito,
e minha boca estava toda seca. Fala alguma coisa, fiquei repetindo para mim
mesma. Só que não conseguia pensar em nada para dizer.

E daí chegou a hora de desenhar, e o ateliê todo ficou em silêncio, a não ser pela
música erudita que tocava no rádio, e todo mundo começou a trabalhar, e já era
tarde demais para dizer algo. Ou, pelo menos, eu pensava que era.

Estava muito ocupada procurando as cores na ossada branca de vaca à minha
frente, totalmente absorvida, como de costume, pelo desenho... porque, apesar de
estar desesperadamente apaixonada pelo Jospeh como eu estava, mesmo assim o
desenho ainda tinha a capacidade de me envolver... tanto que, quando ele por acaso jogou um pedacinho de papel no meu colo, eu dei um pulo de um quilômetro de altura.

Olhei para o pedacinho de papel. E daí olhei para ele.

Mas ele estava debruçado em cima do próprio desenho. Na verdade, se não fosse o
sorrisinho que mal dava para notar nos cantinhos da boca dele, nem daria para
saber que o papel tinha vindo dele.

Pelo menos até o momento em que o abri.

Ali, com a caligrafia miúda e precisa de um futuro arquiteto, estava escrita uma
única palavra:

Amigos?

Não dava para acreditar. O Joseph queria amizade. Comigo. Eu.
Com o coração disparado, me inclinei para a frente e escrevi:

Claro que sim.

Mal algo fez com que eu parasse. Não sei o que foi. Não sei se foi só porque eu
finalmente tinha aprendido uma ou duas coisas com tudo que tinha acontecido, ou
se foi a mão invisível do meu anjo da guarda, a srta. Gwen Stefani, que se esticou
na minha direção e me deteve.

Seja lá o que tenha sido, eu rasguei um outro pedacinho do canto do meu bloco de
desenho. E, nele, escrevi, com o coração na garganta, mas com a plena certeza (eu
simplesmente sabia) de que era agora ou nunca, e que tinha que falar a verdade:

Não. Quero mais do que amizade.

Apesar de eu fingir estar totalmente concentrada no desenho, dessa vez eu estava
mesmo observando o Joseph com o canto do olho. Vi quando ele abriu o papel
dobrado que eu tinha jogado na direção dele e fiquei olhando enquanto ele lia o que
estava escrito. Daí vi as sobrancelhas dele se erguerem.
Elas se ergueram muito.

E quando um outro pedacinho de papel apareceu no meu colo, alguns segundos mais
tarde, eu sabia que tinha sido ele que tinha jogado, porque também tinha visto.
Parecia que eu nem conseguia respirar. Abri o bilhete novo. Ali, estava escrito:

E o Logan?

Essa era fácil. Na verdade, foi quase um alívio escrever:

Que Logan?

Porque era assim mesmo que eu me sentia.

Ainda assim, a última coisa que eu esperava era receber um bilhete do Joseph
dizendo como ele de fato se sentia.
Mas foi exatamente isso que recebi.

E se é que algum dia eu já tinha me sentido feliz (se algum dia já tinha sentido
alguma coisa que fez eu me sentir como se a alegria borbulhasse dentro de mim),
aquilo não tinha sido nada em comparação com a maneira como eu me sentia ao
abrir o pedaço de papel dobrado que ele jogou em seguida no meu colo e ver que ele
tinha desenhado um coração.

Só isso. Só um coraçãozinho.

E, para isso, só tinha uma explicação. Tipo assim, fala sério. E era que o Joseph
gostava de mim. Ele me amava.

Ele gostava de mim.
Ele gostava de mim.


Continua ...

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Amanhã é o Epílogo =]]]

Gente ... ta acabando =[[[ nossa, parece que foi ontem que comecei a postar essa fic ... 

Sériooooo, Vocês foram demais !! 

**Amanhã vou postar o Epílogo ... e vou falar com vocês sobre a próxima fic ...   ATÉ AMANHÃ ... 

BEIJONASSSSSSSSSSSSSSSSSSSSS MINHAS AMORAS ^^

28/08/2012

Capitulo 24





Escolhi a Candace Wu.

A Dallas achou que eu deveria ter escolhido alguém mais famoso, tipo algum
apresentador de telejornal em rede nacional. Mas eu gostava da Candace por causa
daquela vez que eu caí no colo dela depois da entrevista coletiva no hospital.
E a Candace se revelou uma moça bem durona. Ela não aceitava desaforo de
ninguém. Quando o Andy, secretário de imprensa da Casa Branca, disse que ela não
podia, sob nenhuma circunstância, levar a equipe de filmagem ao gabinete dele para
filmar o quadro da Maria Sanchez, ela respondeu que a Casa Branca não era
residência particular. Pertencia ao povo dos Estados Unidos da América e, na
posição de cidadãos americanos, ela e a equipe de filmagem tinham tanto direito de
estar lá quanto ele.

A não ser, é claro, que ele tivesse algo a esconder.

Finalmente, o sr. White cedeu e eu mostrei todos os quadros para a Candace Wu,
inclusive o da Angie Tucker. Eu disse que o trabalho dele era legal e tal, mas que a
minha escolha tinha sido o da Maria Sanchez.

-E é verdade, Demetria, que o presidente disse que você teria que escolher outro
quadro, algum que tivesse um ângulo menos político? - Candace perguntou na frente
das câmeras, igualzinho como tínhamos ensaiado um pouco antes, quando nos
encontramos depois de eu ligar para a produção de programa dela.

Eu falei que tinha ensaiado a manhã toda:

-A verdade é que eu acho que o presidente pode não estar ciente de que os
adolescentes americanos não estão só interessados em saber qual é o videoclipe no
primeiro lugar das paradas. Nós temos preocupações. Queremos que nossa voz seja
ouvida. A exposição de arte internacional Da Minha Janela, patrocinada pela ONU,
é o fórum perfeito para que adolescentes do mundo inteiro possam expressar suas
preocupações. Acredito que seria errado tentar abafar esta voz.

Ao que Candace respondeu, como disse que faria, em troca de eu ter dado ao
programa dela os direitos mundiais e exclusivos da minha única entrevista:

-Quer dizer que o homem cuja vida você salvou de maneira tão heróica nem mesmo
permite que você tome suas próprias decisões na posição de embaixadora teen dos
EUA na ONU?

Respondi, cheia de tato:

-Bom, talvez existam preocupações nacionais das quais não estamos cientes, ou
qualquer outra coisa do tipo.

Depois disso, a Candace fez um sinal de corte embaixo do queixo e mandou:

-Bom pessoal, foi isso. Vamos guardar todo o equipamento e ir para o hospital - que
era para onde todos nós iríamos em seguida, porque meu gesso seria retirado
naquele dia.

-Esperem um pouco - gritou o secretário de imprensa da Casa Branca, correndo
para nos alcançar. - Esperem um pouco. Tenho certeza de que não há motivo para a
senhora exibir esse último segmento. Tenho certeza de que podemos arranjar algo
com o presidente...

Mas a Candace não tinha se tornado uma das apresentadoras de telejornal mais
audazes do país por causa dos arranjos. Ela fez o Marty e os outros câmeras
guardarem o equipamento e já estávamos saindo de lá antes que se pudesse dizer:
"Voltamos depois dos comerciais."

Em casa, depois de eu tirar o gesso, a Candace estava fazendo algumas cenas de
"preenchemento" comigo e o Bud pulando na minha cama quando o telefone tocou
e Helena apareceu, toda animada, e falou bem baixinho:

-Demetria. É o presidente.

Todo mundo congelou. A Candase, que estava dividindo dicas de beleza com a Dallas, que parecia totalmente alucinada com aquela coisa de ter uma apresentadora de TV em casa, já que era um trabalho que exigia boa aparência e você ainda podia
expressar sua opinião a respeito das coisas; a Medison, que estava tomando notas
das dicas de um dos caras da iluminação sobre como se comportar igual a uma
pessoa normal; os câmeras, que, na minha opinião, estavam demonstrando interesse
excessivo no meu pôster da Gwen Stefani... parecia que todo mundo prendeu a
respiração quando eu desci da cama e peguei o telefone da mão da Helena.

-Alô?

-Demetria – o presidente urrou. A voz simpática dele estava tão alta que eu
precisei afastar o telefone do rosto. – Que história foi essa que eu ouvi, sobre eu
não apoiar a sua escolha para a exposição de arte da ONU?

-Bom, senhor – respondi. – A verdade é que, na mina opinião, o melhor quadro que
recebemos é o da Maria Sanchez, de San Diego, mas, até onde pude entender, o
senhor...

-Mas foi desse que eu gostei – interrompeu o presidente. – Aquele dos lençóis.

-É mesmo, senhor? – respondi. – Porque o senhor disse que...

-Não se preocupe com isso agora – respondeu o presidente. – Você gostou do
quadro dos lençóis, mande empacotar e envie para Nova York agora mesmo. E, da
próxima vez que você tiver algum problema com uma coisa desse tipo, procure-me
primeiro, antes de chamar a imprensa, certo?

Eu não mencionei o fato de que eu tinha tentado antes. Em vez disso, respondi:

-Sim, senhor. Farei isso, senhor.

-Muito bem. Até logo, então – concluiu o presidente. E desligou.

E quando a minha entrevista exclusiva com a Candace Wu foi ao ar na noite
seguinte (quarta-feira), toda a parte do quadro da Maria Sanchez foi cortada. Em
vez disso, a emissora afiliada de San Diego foi até a casa da Maria Sanchez e disse
que ela era a vencedora. Descobri que a Maria era uma garota de cabelo escuro,
mais ou menos da minha idade, que morava em uma casinha com mais seis irmãos.
Como eu, ela estava encalhada bem no meio de todos eles.

Eu sabia que devia ter alguma razão para eu ter gostado mais do quadro dela.
Só que, quando disseram à Maria que ela tinha vencido, ela começou a chorar. Daí,
eles pediram e ela mostrou a vista da janela dela. Era igualzinho à do quadro, com a
roupa lavada pendurada no varal e a cerca de arame farpado à distância. A Maria
tinha mesmo pintado o que via, nem como eu pensei, e não só o que ela conhecia.
E agora ela e a família iam poder ir a Nova York e ver o quadro exposto na ONU,
junto com todos os outros ganhadores do mundo inteiro. E parecia que eu iria
conhece-lá, porque o Andy disse que a Casa Branca mandaria a minha família inteira
a Nova York, para a abertura da exposição. Eu já tinha pedido para a minha mãe e o
meu pai me levarem ao Metropolitan Museum enquanto estivéssemos lá, para eu ver
os impressionistas, e eles disseram que sim.
Aposto que a Maria também vai querer ir.

Na noite em que a minha entrevista com a Candace foi ao ar, todo mundo ficou na
sala assistindo, junto... eu, a Dallas, a Medison, o Bud, a minha mãe e o meu pai.
Meus pais não sabiam direito o que tinha rolado, porque a maior parte da entrevista
tinha acontecido depois da escola, quando a minha mãe estava no tribunal e o meu
pai, no escritório. Eu precisei faltar à aula da Sophia McDylan na terça por isso. Mas
eu termia que faltar mesmo, porque a Helena ia ter que me levar para tirar o
gesso, de qualquer jeito.

Portanto, a minha mãe e o meu pai ficaram meio surpresos quando mostraram as
partes gravadas em casa (especialmente o segmento do meu quarto, que estava
meio bagunçado na hora). Minha mãe grunhiu, com voz de terror, ao olhar para a
tela da TV, como se estivesse petrificada:

-Ai, meu Deus, Demetria.

Mas eu expliquei que a Candace tinha pedido para eu deixar meu quarto do jeito
que era, para ficar mais autêntico. A Candace adorava autenticidade. O objetivo
dela ao fazer aquela reportagem era mostrar uma “heroína americana autêntica”,
coisa que eu era pelos seguintes motivos:

a) Eu tinha arriscado a minha vida, de maneira altruísta, para salvar a de outra
pessoa.

b) Aquela outra pessoa por acaso era o líder do mundo livre.

c) Eu sou americana.

O ponto de vista da Candace a respeito do assunto, felizmente, era compartilhado
por outras pessoas. Por exemplo, o médico que serrou o meu gesso. Ele tomou
bastante cuidado para não cortar nenhum dos desenhos que eu tinha feito nele.
Antes de tira-lo, ele avisou que, durante um tempo, meu braço ia parecer muito
leve e esquisito, e ele estava certo. Assim que ele tirou o gesso, meu braço subiu
uns dez centímetros, sozinho. A Helena, a Candace, todos os câmeras e eu rimos.
Outras pessoas que achavam que eu era uma heroína americana autêntica eram as
que trabalhavam no museu Smithsonian, para onde fomos assim que eu tirei o
gesso. Eu resolvi que, em vez de vender meu gesso na internet, eu doaria para um
museu, e o Smithsonian era o maior museu em que eu conseguia pensar. Por sorte,
eles aceitaram. Fiquei preocupada de que eles achassem meio nojento eu doar para
eles um gesso com desenhos do Sino da Liberdade e da Dolley Lovato.

Mas já que era, sabe como é, um tipo de relíquia que denotavam um pedaço
importante da história americana, disseram que ficariam contentes de te-lo no
acervo.

A reportagem que falava de mim terminava com um segmento que eu e a Candace
havíamos discutido com muita atenção anteriormente. Uma das condições para eu
deixar ela fazer a entrevista era que ela me fizesse uma pergunta específica. E
era a respeito da minha vida amorosa.

-Então, Demetria - Candace inclinou-se para a frente na cadeira, com um
sorrisinho no rosto. - Ouvi uns rumores...

A câmera me mostrou com cara de inocente, sentada no mesmo sofá em que estava
acomodada naquele momento, assistindo à transmissão da entrevista.

-Rumores, Candace? – o meu eu da TV perguntou, com olhos bem arregalados.

-É – respondeu ela -, sobre você e uma certa pessoa...

E daí começaram a mostrar umas imagens do Joseph (sabe como é, acenando dos
degraus do avião presidencial, entrando e saindo do ateliê da Sophia McDylan, usando terno no Festival Internacional da Criança). Daí a câmera voltou para a Candace e ela disparou:

-É verdade que você e o primeiro-filho estão juntos?

O eu da TV, ficando vermelho (ficando vermelho bem ali na televisão, apesar de
saber qual era exatamente a pergunta que ela faria), mandou:

-Bom, Candace, vamos colocar assim. Eu gostaria que fosse verdade. Mas se ele sente ou não a mesma coisa, eu não faço idéia. Acho que eu estraguei tudo.

-Estragou? – a Candace parecia desorientada (apesar de ela também saber qual
seria exatamente a minha resposta). – Como foi que você estragou tudo, Demetria?

-Eu só... – o eu da TV deu de ombros. – Eu não enxerguei uma coisa que estava bem
na minha frente. E agora acho que é tarde demais. Espero que não... mas sinto que
é, provavelmente.

Foi aí que o meu eu de verdade (o que estava assistindo à TV) puxou a almofada em
que o Bud estava sentado, enfiou a cabeça ali e começou a gritar. Tipo assim, eu
tinha que falar aquilo... não conseguia pensar em nenhum outro jeito de dizer aquilo
de modo a reparar a cosia horrível que eu tinha feito... sabe como é, toda aquela
história de gostar do Joseph o tempo todo sem perceber até que já fosse tarde
demais e tal.

Mas isso não queria dizer que eu não estava envergonhada. Nem que eu tinha a mais
remota esperança de que fosse funcionar.
E era por isso que eu estava gritando.
Meu pai, que estava assistindo à TV com uma expressão meio atordoada, mandou:

-Espera um pouco. Que história foi essa? Demetria... você e o Joseph brigaram?

Ao que Helena respondeu:

-Ah, ela estragou tudo mesmo. Mas, quem sabe, se ele assistir a isso aí, ele dá
outra chance para ela. Tipo assim, não é todo dia que alguma garota vai a rede
nacional para dizer ao mundo que quer ficar com você.

Até a Medison olhou para mim com respeito renovado.

-Que coragem, Demi – exclamou ela. – Foi mais corajoso do que o que você fez outro
dia na frente da confeitaria. Não que vá dar certo, claro.

-Ah, Medison – pediu Dallas, tirando todo o som da TV, já que a entrevista tinha
acabado. – Cala a boca.

Não é muito freqüente a Dallas sair em minha defesa em batalhas familiares, de
modo que eu ergui o olhar da almofada do sofá, totalmente surpresa. Foi aí que eu
percebi que estava me incomodando a respeito da Dallas naqueles últimos dias. O que tinha me incomodado a respeito da Dallas naqueles últimos dois, três dias.

-Ei – perguntei. – Cadê o Logan?

-Ah – respondeu Dallas com um dar de ombros displicente. - Nós terminamos.

Todo mundo na sala (e não só eu) ficou olhando para ela, boquiaberto de tanto
espanto. Meu pai foi o primeiro a se recuperar.

-Aleluia - que era um sentimento estranho partindo de um agnóstico, mas sei lá.

-Eu sabia - comentou Helena, sacudindo a cabeça. - Ele voltou para aquela
namorada dele, não foi? Homens. Eles são uns... - e daí disse um monte de palavrões
em espanhol.

-Ah, credo - murmurou Dallas, revirando os olhos. - Dá um tempo. Ele não me traiu
nem nada. Só que ele foi um grosso com a Demi.

Achei que não era possível meu queixo cair ainda mais, mas foi o que aconteceu, não
sei como.

-Eu? - a voz saiu esganiçada. - Do que é que você está falando?

-Ah, você sabe - explicou, soando impaciente. - Aquela história toda do quadro. Ele
estava sendo muito idiota. Eu falei para ele... como é que foi mesmo, Medison?

-Para nunca mais escurecer a sua porta? - Medison arriscou.

-Foi - respondeu Dallas. - Isso aí.

Daí a Dallas, que tinha ficado trocando de canal o tempo todo enquanto falava, deu
um gritinho:

-Aaah, olha. É o David Boreanaz – e aumentou o volume.

Não dava para acreditar. Não dava para acreditar. A Dallas e o Logan, brigados? Por
minha causa? Tipo assim, preciso reconhecer que eu fantasiava o acontecimento
havia meses. Mas, nas minhas fantasias, a Dallas e o Logan sempre terminavam porque o Logan finalmente caía na real e percebia que eu era a garota certa para ele. Nunca brigavam porque, por acaso, a Dallas tinha visto o Logan ser grosso comigo.
E com certeza eles nunca brigavam depois de eu perceber que não amava mais o
Logan... e talvez, para começo de conversa, eu nunca tivesse amado. Não da maneira
como se deve amar alguém.
Não era assim que as coisas deveriam ser. Não era assim que as coisas deveriam
ser. Não mesmo.

-Dallas – comecei, inclinando o corpo para a frente. – Como é que você... tipo assim,
depois de todo o tempo que vocês ficaram juntos, como é que você pode
simplesmente dispensar o Logan desse jeito? Tipo assim, e o baile de formatura? A
sua formatura está chegando. Com quem é que você vai, se não for o Logan?

-Bom – respondeu ela, com o olhar grudado no bíceps do David Boreanaz. – Eu já
consegui chegar a uma lista de uns cinco caras. Mas acho que vou convidar meu
parceiro de aula de química.

-O Greg Cardner? – deu um grito histérico. – Você vai ao baile de formatura com o
Greg Gardber? Dallas, ele é, tipo, o cara mais CDF da escola inteira!

A Dallas parecia chateada, mas só porque meus berros estavam encobrindo o canto
suave do sr. Boreanaz.

-Dãh, cara – explicou. – Mas os CDFs estão super na moda agora. Tipo assim, você
deveria saber. Foi você quem começou a tendência.

-Tendência? Que tendência? – questionei.

-Você sabe – tinha começado um intervalo, então a Dallas tirou o som da TV de novo,
largou-se no sofá e olhou para mim. – Essa história de sair com CDFs. Foi você quem
começou, quando levou o Joseph àquela festa. Agora todo mundo está fazendo igual.
A Megan Parks está saindo com o Tim Haywood.

-O cara que ficou em primeiro lugar na feira de ciências? – gaguejei.

-Só. E a Debbie Kinley deu um pé no Rodd Muckinfuss para ficar com algum CDF da
Horizon.

-É mesmo? – irrompeu na conversa minha mãe, que ainda estava na sala, ouvindo
tudo, cada vez mais irritada, até que não aguentou mais. – Veja só o que vocês
estão dizendo, garotas! CDFs! Vocês não percebem que estão falando de pessoas?
Pessoas com sentimentos?

Assim como a minha mãe, eu também estava ficando cada vez mais irritada. Mas
não pelo mesmo motivo.

-Espera aí – exclamei. – Espera só um pouquino. Dallas, você não pode terminar. Você ama o Logan.

-Bom, é verdade – respondeu ela, simplesmente. – Mas você é minha irmã. Não
posso sair com um cara que é grosso com a minha irmã. Tipo assim, que tipo de
pessoa você acha que eu sou?

Só fiquei olhando para ela. Não dava mesmo para acreditar. A Dallas (a minha irmã
Dallas, a garota mais bonita e mais fútil do ensino médio da John Adams) tinha dado
o pé no namorado, e não por ele a estar traindo, nem porque tinha se cansado dele.
Tinha dado o fora nele por causa de mim, a irmãzinha rejeitada dela. Eu, Demetria
Lovato. Não a Demetria Lovato que tinha salvado a vida do presidente dos
Estados Unidos. Não a Demetria Lovato embaixadora teen na ONU.
Não, a Demetria Lovato irmãzinha da Dallas Lovato.

Foi aí que a culpa tomou conta de mim. Tipo assim, a Dallas tinha feito um sacrifício
enorme (tudo bem, talvez não fosse tão enorme assim para ela mas, mesmo assim,
era um sacrifício) e que tipo de irmã eu tenho sido para ela? Hein? Tipo assim,
durante muito e muito tempo, tudo o que eu fiz foi desejar (não, rezar) para que a
Dallas e o Logan terminassem para que eu pudesse ficar com ele. Daí, a coisa
finalmente acontece, e bem por minha causa...
Porque, de acordo com a Dallas, ela me ama mais do que jamais poderia amar
qualquer cara.

Eu era a pior irmã do mundo. A mais baixa das baixas. Era uma escória.

-Dallas – fiz um esforço. – Fala sério. O Logan só estava chateado aquele dia. Eu
entendi total. Eu não acho mesmo que você deveria terminar com ele só por causa...
só por causa de mim.

A Dallas parecia entediada com aquela conversa. O programa dela tinha recomeçado.

-Sei lá – respondeu. – Vou pensar.

-Pensa mesmo, Dallas – reforcei. – Acho que você deve pensar bem mesmo. Tipo
assim, o Logan é ótimo. Ele é um cara maravilhoso. Tipo assim, para você.

-Tudo bem – Dallas pareceu irritada. – Eu falei que vou pensar. Agora, vê se fica
quieta. Estou vendo o programa.

A minha mãe, um pouco estupefata por se dar conta do que estava acontecendo,
resolveu interferir:

-Hum, Dallas, se você quiser sair com esse outro garoto... seu parceiro de química...
eu e seu pai achamos bom. Não é mesmo, Richard?

Meu pai apressou-se em garantir que achava.

-Na verdade – continuou ele – porque você não traz o rapaz aqui em casa amanhã,
depois da escola? A Helena não vai se incomodar, não é mesmo, Helena?

Mas o estrago já estava feito. Eu sabia que a Dallas e o Logan estariam juntos de
novo antes do almoço do dia seguinte.
E eu estava feliz. Feliz de verdade.

Porque eu não amava o Logan. E provavelmente nunca tinha amado o Logan. Não de
verdade.

Claro que o único problema era que eu tinha bastante certeza de que a pessoa que
eu de fato amava não se sentia da mesma maneira em relação a mim.
Mas eu tinha a sensação de que descobriria rapidinho, de um jeito ou de outro, na
aula da Sophia McDylan, no dia seguinte.

Continua...



Bom gente ... Postei mais um !!!! 

Espero que gostem ... 

COMENTÁRIOSSSSSSSS


Respostas dos comentários do Capitulo 22


Respostas dos comentários do Capitulo 23


24/08/2012

Capitulo 23 + selinho






Fiquei lá parada na porta da Sophia, me sentindo a maior babaca. Mas como
eu passei a vida inteira me sentindo a maior babaca, não era nenhuma novidade.
Por outro lado, eu geralmente me sinto babaca sem nenhuma razão específica.
Dessa vez eu tinha uma boa razão para me sentir babaca.

E a razão tinha a ver com o fato de eu estar parada na porta da Sophia, sem
ter sido convidada, e provavelmente indesejada, em uma tarde de domingo,
esperando alguém atender à campainha, só que não aparecia ninguém.
E parecia que, se alguém surgisse, ficaria tipo: “Hum, você não sabe que, antes de ir
à casa dos outros, precisa ligar para avisar?”

E a pessoa teria todo o direito de dizer isso, porque era claro que eu não tinha
ligado antes. Mas daí eu tinha medo que, se ligasse antes, a Sophia poderia
ter ficado tipo: “Não dá para esperar até terça, para a gente conversar na aula,
Semi?”

Mas não dava para esperar até terça. Eu precisava falar com a Sophia naquele dia.
Porque meu coração estava partido, e eu precisava que alguém me dissesse o que
fazer. Minha mãe e meu pai eram inúteis. Aquela coisa toda apenas parecia
confundi-los. E a Dallas também não prestava, Ela só mandou: “Coloca uma saia
justa e vá lá pedir desculpa. Credo, qual é a sua, é retardada?” A Medison
simplesmente apertou os lábios e disse: “Eu avisei.” E a Helena ainda estava na
casa do Tito. Nem adiantava perguntar para a Selena. Na cabeça dela só tinha o
Paul.

De modo que eu estava lá, parada na porta da frente da Sophia McDylan sem ter
ligado antes. Era muito mais difícil se recusar a receber quando a pessoa já está lá
parada na sua porta, do que quando ela liga. Eu sei disso por causa de todos os
repórteres que têm tentado falar comigo.

Realmente, não existe sensação pior do que ficar lá parada, esperando alguém
atender à campainha, quando você sabe que quem abrir a porta provavelmente vai
bater de novo na sua cara...
Mas eu tinha que levar alguma coisa. Tipo assim, não dá para aparecer na casa de
alguém sem ter sido convidada e nem levar um presente. É isso aí, preciso admitir,
o pão era meio que um suborno. Porque eu nunca ouvi falar de ninguém que
recusasse uma baguete da Mulher do Pão. Eu torcia para que a pessoa que
atendesse a porta sentisse o cheirinho e ficasse toda: “Ah, entre, por favor.”
E também não foi nada fácil colocar a mão nesses pãezinhos: foi um inferno.
Precisei acordar extra-cedo para arrastar o Bud em seu passeio matinal na
direção oposta à que costumávamos ir, e ele não gostou nadinha. Ficou tentando me
arrastar na direção do parque, e eu ficava puxando a coleira dele na direção da
casa da Mulher do Pão. Meus braços ficaram doendo durante todo o resto do dia.
Acho que o Bud pesa quase o mesmo que eu.

Também acontece que a Mulher do Pão não acorda antes das oito aos domingos. Ela
atendeu à porta com um penhoar muito decotado (para uma senhora casada).
Mas ela não pareceu achar estranho eu ter ido lá bater na porta da casa dela para
encomendar pão para o fim da tarde. Na verdade, pareceu até ficar feliz ao
descobrir que alguém gostava tanto assim do pão dela.
E entregou a encomenda na hora ainda bem. Cinco pães franceses, dourados e
fumegantes, do tipo que não se acha em lugar algum em Washington. O cheirinho
quase me deixou com fome. Mas só quase. Parece que gente de coração partido
nunca tem apetite.

Daí, é claro que eu tive que me virar para pegar o metrô com cinco pães quentinhos,
recém-saídos do forno na mochila, que mal fechava. Uma experiência que eu
prefiro não ter que repetir. Especialmente porque a National Geographic Society
Júnior estava visitando a cidade e os trens estavam lotados com um monte de
famílias do Meio-Oeste do país, cada uma com uns dez filhos, todos usando
camisetas amarelas onde se lia: "Pergunte-me sobre o campeonato da National
Geographic Society Júnior" (algo que eu fiz questão de não perguntar).
Mas todas aquelas criancinhas loiras viravam-se para a mãe e perguntavam:
“Mamãe, por que aquela garota está carregando tanto pão?”.

E a resposta dos pais era mandar todo mundo ficar quieto. Por sorte, ninguém me
reconheceu como a garota que tinha salvado a vida do presidente, porque eu estava
usando um boné de beisebol da Dallas, do time da escola, com todo o meu cabelo
enfiado para dentro.

Ainda assim, um dos vencedores do concurso da National Geographic Society
Júnior ficou me olhando cheio de suspeita durante um bom tempo, depois se virou
para a amiga e cochichou alguma coisa no ouvido dela, que também olhou para mim e
daí disse algo para a mãe.

Por sorte, quando o trem chegou à estação Adams Morgan, perto de onde a Sophia morava, eu saí rapidinho e deixei os membros da National Geographic
Society Júnior à sua própria sorte, seja qual fosse.
Era uma boa caminhada da estação de metrô até a casa da Sophia, mas
aproveitei o tempo para pensar nas minhas desgraças, que eram muitas. Quando
cheguei à grande casa azul com as balaustradas da varanda caiadas, com um monte
de sinos de vento pendurados, já estava praticamente chorando.

Bom, e por que não estaria? Nada além do desespero total teria me forçado a pedir
conselhos para a Sophia McDylan. Tipo assim, umas duas semanas antes, eu odiava
totalmente a mulher. Ou pelo menos eu não gostava muito dela.

Mas daí eu senti que ela era a única pessoa que eu conhecia que poderia me dizer o
que eu tinha feito para acabar com a minha vida daquele jeito e como eu poderia
remediar a situação. Tipo assim, ela tinha me ensinado a enxergar: talvez pudesse
me ensinar como lidar com tudo que eu estava enxergando, agora que eu tinha
aberto os olhos.

Mas eu precisava reconhecer que, apesar dessa convicção, quando finalmente ouvi
passos (e os grasnados do Zac) vindo na minha direção, de dentro da casa, senti
uma certa vontade de sair correndo.

Mas, antes que eu pudesse dar no pé, vi a cortininha de renda na janela ao lado da
porta de entrada afastar-se um pouco para o lado, revelando um dos olhos azuis da
Sophia. Daí ouvi as fechaduras da porta abrindo. Quando dei por mim, a
Sophia estava parada na porta, olhando para mim, com um avental salpicado
de tinta e o cabelo branco e comprido preso em duas tranças que escorriam pelos
lados da cabeça.

-Demetria? – exclamou, surpresa. – O que é que você está fazendo aqui?
Tirei a mochila das costas e logo mostrei os pães para ela:

-Eu estava aqui perto, então pensei em dar uma passada para dar um oi. Você quer
um pouco de pão? É bom demais. É uma senhora da minha rua que faz.

Tudo bem, reconheço: era o maior papo furado. Só que eu não sabia como agir. Tipo
assim, eu nem deveria ter ido até lá. Era insano eu ter ido. Idiota e insano. Tipo
assim, o que é que a Sophia  tinha a ver com os meus problemas? Ela só era
minha professora de desenho, tenha dó. O que é que eu estava fazendo,
procurando a professora de desenho para pedir conselhos sobre a vida?

Empoleirado no ombro da Sophia, Zac grasnou seu cumprimento de praxe, “Oi Zac!
Oi Zac!”, para mim. Acho que ele não me reconheceu com o cabelo escondido
embaixo do boné.
Sophia esboçou um sorriso e fez um sinal:

-Então entra, Demi. Muito gentil da sua parte, hum, passar aqui... trazendo pão.

Entrei na casa da Sophia e não me surpreendi, ao cruzar a propriedade, que era
mobiliada de maneira muito parecida com a do ateliê. Tipo assim, tinha um monte de
móveis antigos e com aparência confortável, mas o que mais tinha lá eram telas
apoiadas em todas as paredes e mais do que um leve cheiro de terebintina no ar.

-Obrigada – murmurei, entrando e tirando o boné. Assim que tirei, Zac se lançou do
ombro da Susan para o meu, gritando “Corvo lindo! Corvo lindo!”.

-Zachary – fez Susan, com ar ameaçador. E depois me convidou para ir até a cozinha
tomar uma xícara de chá.

Fingi que não queria atrapalhar nem nada e disse que sentia muito por estar
incomodando e que só ficaria um minuto. Mas a Sophia simplesmente olhou para mim
com um sorriso e eu não tive outra escolha a não ser ir atrás dela até a cozinha
clara como a luz do sol, pintada de azul (da mesma cor dos olhos dela). Ela insistiu
em fazer um chá, e nem foi em uma xícara no microondas, mas à moda antiga, com
uma chaleira no fogão. Enquanto a água fervia, ela examinou as baguetes que eu
tinha levado e pareceu muito satisfeita. Pegou manteiga e um pote de geléia feita
em casa e colocou em cima da mesa de açougueiro que ficava no meio da ampla
cozinha antiquada. Daí tirou um pedaço da ponta de uma das baguetes, só para
experimentar, e pareceu ficar muito surpresa com a casca, que já estava bem
amanteigada mesmo antes de ela passar alguma coisa ali, derreteu na boca.

-Que gostoso – elogiou. – Esse pão é ótimo. Não como pão francês assim, para falar
a verdade, desde a última vez que estive em Paris.

Fiquei contente ao ouvir isso. Fiquei olhando enquanto ela pegou mais um pedaço e
comeu.

-Então – esbocei -, como foi o seu Dia de Ação de Graças? – parecia uma coisa
besta de se perguntar, assunto de gente chata, e não de artista. Mas o que mais eu
poderia ter dito? E, por sorte, ela não pareceu ficar ofendida.

-Foi bom, obrigada – respondeu ela. – E o seu?

-Ah – repeti -, foi bom.

Rolou um silêncio. Não muito desconfortável, mas sabe como é. Era um silêncio. Só
quebrado pelo som da chaleira que começava a ferver, e Zachary murmurando e
passando o bico por entre as penas, tremendo um pouco.
Daí, a Sophia declarou:

-Tenho uma idéia para o ateliê no verão.

-É mesmo? – eu disse, aliviada por alguém falar alguma coisa.

-Mesmo. Estou pensando em deixar o ateliê aberto todos os dias, das dez às cinco,
para pessoas como você e o Joseph poderem ir lá e ficar desenhando o dia inteiro, se
quiserem. Tipo como se fosse um acampamento de arte, ou qualquer coisa do
gênero.

Eu não disse nada, mas duvidava que o Joseph iria aparecer... se soubesse que eu
estaria lá. Em vez disso, só exclamei:

-Ótimo!

Foi bem aí que a chaleira começou a apitar. A Sophia se levantou e preparou o chá.
Daí me deu uma caneca azul-escura que tinha escrito “Van Gogh”. Depois de
acomodar-se à mesa de açougueiro, segurou uma caneca com as duas mãos, de modo que o vapor envolveu o rosto dela em espirais esfumaçadas.

-Então, por que você não me diz o que é que você veio realmente fazer aqui em um
domingo à tarde, Demetria?

Considerei a possibilidade de, sabe como é, não contar nada. Pensei em enrolar,
dizendo: È sério, estou indo para a casa da minha avó” ou qualquer outra coisa do
tipo. Mas algo no jeito como ela olhava para mim fez com que eu fosse honesta. Não sei o que foi mas, de repente, sentada lá, mexendo no papelzinho da ponta da cordinha do saquinho de chá, despejei toda a história. Simplesmente saiu, espalhando-se pela mesa do açougueiro, com o Zac empoleirado no meu ombro e uns acordes de música erudita tocando baixinho em algum lugar da casa.
E quando eu acabei de botar tudo para fora (tudo, a respeito do Joseph, do Logan, do
concurso Da Minha Janela, da Maria Sanchez e do pai do Joseph), concluí:

-E, além de tudo isso, na noite passada eu descobri que o único filho da Dolley
Lovato que não morreu quando era bebezinho foi do primeiro marido dela. Ela nem
teve filhos com o James Lovato. De modo que não é minha parente. Nem de muito,
muito longe.

Depois de acabar meu longo discurso, fiquei lá sentada olhando para o chá. Não
dava para enxergar muito bem, porque meus olhos estavam meio úmidos. Mas eu
estava decidida a não chorar. Chorar teria sido completamente ridículo, ainda mais
ridículo do que andar de metrô com cinco pães franceses saindo da mochila.
A Sophia, que tinha escutado, em silêncio, enquanto eu recitava todos os meus
dramas, tomou um gole de chá e murmurou, com a voz muito calma:

-Mas, Demetria. Será que você não percebe? Você sabe exatamente o que precisa
fazer. O Joseph já deixou bem claro.

Ergui o olhar da caneca de chá e olhei para ela, do outro lado da mesa. No meu
ombro, o Zac pegou uma mecha do meu cabelo e ficou lá fingindo que só estava
segurando assim, sem maiores intenções, mas nós dois sabíamos que, quando ele
achasse que eu não estava prestando atenção, ele tentaria arrancá-la e fugir.

-Como assim? – perguntei. – O Joseph disse que não ia falar com o pai sobre a Maria
Sanchez. Só isso.

-Ele disse isso, sim – explicou Susan. – Mas você não escutou de verdade, Demi.
Existe uma diferença entre ouvir e escutar, assim como há uma diferença entre
ver e conhecer.

Está vendo? É por isso que eu sabia que eu tinha que ir até lá. Eu não sabia disso.
Tipo assim, da diferença entre ouvir e escutar.

-O Joseph – prosseguiu Sophia – disse que você tem direito à liberdade de expressão
como qualquer outro americano.

-É – respondi. – E daí?

-Daí – e a Sophia falou com uma ênfase que eu não entendi – você tem direito à
liberdade de expressão, Demetria. Como qualquer outro americano.

-Tá – respondi. – Essa parte eu entendi. Mas não sei o que isso tem a ver com...
E daí, de repente, entendi. Não sei como nem por quê. Mas, de repente, caiu a ficha
do que eles (a Sophia e o Joseph) queriam dizer.

E quando caiu, não dava para acreditar.

-Ah, não – falei, engasgada... e não foi só porque o Zac finalmente deu o bote dele:
arrancou um tufo do meu cabelo e depois saiu voando, triunfante, para cima da
geladeira. – Uau. Você não acha mesmo que ele quis dizer isso, acha?

Sophia respondeu, cortando mais um pedaço de pão com as mãos:

-O Joseph geralmente fala o que pensa, Demi. Ele não é político. Não tem a mínima
tendência para seguir a carreira do pai. Quer ser arquiteto.

-Quer? – isso era novidade para mim. Estava começando a perceber que, na
verdade, eu não sabia absolutamente nada a respeito do Joseph. Tipo assim, eu sabia
que ele gostava de desenhar e que ele era bom. E eu sabia da história do garfão e
da colherona, claro. Mas também parecia ter um monte de coisas que eu não sabia.
E aquilo fez com que eu me sentisse pior ainda. Porque eu tinha um mau
pressentimento de que já era tarde demais para descobrir. As coisas que eu não
sabia a respeito do Joseph, tipo assim.

-É – continuo Sophia. – Acho que é fácil entender por que ele não quer muito
se meter nos assuntos do pai. Com certeza, também não quer que o pai se meta nos
dele.

-Uau! - exclamei, porque ainda estava boquiaberta pela revelação que ela havia me
feito. - Tipo assim... uau.

-É mesmo - disse Sophia, recostando-se na cadeira. - Uau. Então, percebe,
Demi? Estava tudo lá.

Fiz uma careta:

-O que é que estava lá?

-O que você queria - respondeu Sophia. - Você só precisava abrir os olhos um
pouquinho para ver. E lá estava.

E lá estava.

E lá estava eu dez minutos mais tarde (meio que sem acreditar que eu estava lá de
verdade), conversando com a Sophia, a mulher que me acusou de conhecer e
não ver, quando a porta dos fundos, que saía da cozinha, se escancarou. Entrou um
homem enorme, com o cabelo amarrado em um rabo de cavalo e os braços cheios de
sacolas de compras. Ele olhou para nós com ar de surpresa. Tinha um bigodão
daqueles curvados na ponta.

-Ah - fez ele, olhando para mim de um jeito simpático, mas curioso, com os olhos
azuis. - Oi.

-Oi - respondi, imaginando se aquele era o filho da Sophia. Ele parecia ter uns
20 anos a menos que ela. Mas ela nunca tinha mencionado filho nem marido. Sempre
achei que eram só ela e o Zac.
Mas pode ser que eu só estivesse ouvindo, e não escutando de verdade.

-Pete - apresentou Sophia. - Esta aqui é a Demetria Lovato, uma das minhas
alunas. Demetria, este aqui é o Pete.

Pete pousou as sacolas de compras. Ele estava usando jeans, com uma chaparreira
de couro por cima, igual à que os caubóis e os Hell's Angles usam. Quando ele
esticou o braço para apertar a minha mão, vi que tinha o logotipo da Harley Davidson
tatuado.

-Muito prazer - ele apertou minha mão esquerda, já que a direita estava engessada.
Daí o olhar dele caiu no pão francês. - Ei, isso aí parece gostoso.

Pete puxou uma cadeira e se juntou a nós. E daí eu descobri que ele não era filho da
Sophia coisa nenhuma. Era namorado dela.

O que só demonstra que a Sophia estava certa a respeito de uma coisa, pelo
menos: às vezes, o que você quer está bem na sua frente. Só é preciso abrir os
olhos e enxergar.


continua ...

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Desculpa gente , mas eu estou sem tempo para responder os comentários ... prometo que no próximo capitulo eu respondo , mas eu li todos eles okay !!! 

Silvia obrigado pelo selo ^^ adorei amor !!! 

e

Mah Jonas Desculpa amor , é que eu não tive tempo de revisar antes de postar aquele capitulo e os nomes originais da fic é aqueles, depois q mudei para Jemi... desculpa mesmo , mas já consertei lá ^^

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Esse capitulo ta meio chatinho, mas era importante ! No domingo eu posto outro capitulo ^^

Beijonas *-*

Meu selinho *-* da Silvia *-*