01/07/2012

Capitulo 7 - Parte 2 (maratona)





Quando eu finalmente cai no sono, a minha mãe (que não parecia ter tido problema
nenhum para dormir na cama ao lado da minha, e que tinha acordado toda
saltitante) levantou e abriu as cortinas da janela do hospital para deixar o sol da
manhã entrar. Então ela falou tipo assim, para alguém que não tinha dormido nada e
além de tudo tinha um braço que doía para caramba:

-Bom dia, dorminhoca!

Mas antes que eu tivesse tempo de perguntar o que é que tinha de bom (tipo assim,
naquele dia), minha mãe falou, com a voz chocada, enquanto olhava para fora da
janela:

-Ai... meu... Deus.
Saí da cama para ver por que a minha mãe estava dando essa de ai-meu-Deus, e
fiquei chocada ao ver umas trezentas pessoas paradas na calçada na frente do
hospital, todas olhando para cima, na direção do meu quarto. No minuto que apareci
na janela, ouviu-se um barulhão, e todo mundo começou a apontar para mim,
sacudindo uns pôsteres e gritando.
Meu nome. Estavam gritando o meu nome.

Minha mãe e eu olhamos uma para a outra, boquiabertas, então olhamos para baixo
mais uma vez. Tinha vans de televisão gigantes, com antenas de satélite na capota,
e um monte de repórteres em volta, com microfones em punho, e policiais por todos
os lados, tentando segurar a enorme multidão que tinha aparecido por lá,
aparentemente só para dar uma olhada na garota que tinha salvado a vida do
presidente.
Bom, eles conseguiram dar uma olhada em mim, sim. Tipo assim, apesar de eu estar,
tipo assim, três andares acima, parece que eles não deixavam passar. Possivelmente
porque eu estava de camisola do hospital e tinha uma massa gigantesca de cabelo
vermelho saindo da cabeça, mas vai saber. Eles tipo conseguiram dar uma olhas em
mim, sim.

-Humm – minha mãe murmurou enquanto nós duas estávamos lá paradas, olhando
para aquela zona lá embaixo. – Acho que você devia... não sei. Acenar?
Parecia uma sugestão razoável, de modo que levantei meu braço bom e acenei.
Mais vivas e aplausos ergueram-se da multidão. Acenei de novo, só para me
certificar de que tudo aquilo era por causa de mim, mas não restava a menor
dúvida: aquele pessoal estava me aclamando. Eu. Eu, Demetria Lovato, aluna do
primeiro ano do ensino médio e aficionada por desenhos de celebridades.
Era incrível. Era tipo ser o Elvis ou algo assim.
Depois que eu acenei pela segunda vez, ouvimos uma batidinha na porta e uma
enfermeira entrou e falou tipo:

-Ah, que bom, você já levantou. Achamos que sim, quando ouvimos os gritos. –
Depois acrescentou, com um sorriso radiante: - Chegaram umas coisas para você.
Espero que não se importe, vamos trazê-las agora.

E daí, sem esperar pela nossa resposta, ela abriu a porta. Uma enxurrada de
enfermeiras uniformizadas com aventais listradinhos de rosa e branco, cada uma
carregando um arranjo floral (e cada um maior do que o outro) foi entrando no meu
quarto, até que todas as superfícies planas, inclusive o chão, estivessem cobertas
de rosas e margaridas e girassóis e orquídeas e cravos e flores que eu não
conseguia identificar, todas saindo de vasos e deixando um cheiro doce e enjoativo
no ar. E, além disso, não eram só flores. Tinha também buquês de balões, dúzias deles,
com balões vermelhos, azuis, brancos, cor-de-rosa, em forma de coração e
espelhados com frases como “Obrigado” e “Fique Boa Logo”. Vieram acompanhado
de ursinhos, uns 20 pelo menos, todos de tamanhos e formatos diferentes, com
laços no pescoço e segurando cartazes que diziam coisas como SORRIA E
AGÜENTE FIRME E MUITO OBRIGADO, DO SEU URSINHO.

Fala sério. Eu fiquei observando enquanto elas entravam e empilhavam todas as
coisas, e o único pensamento que rodava na minha cabeça era: “Espera aí. Espera aí.
Houve algum erro. Eu não conheço ninguém que me mandaria um ursinho de
agradecimento. Não mesmo. Nem de gozação”.

Mas as coisas não paravam de chegar, cada vez mais. Dava para perceber que as
enfermeiras achavam tudo aquilo muito engraçado. Até mesmo os caras do Serviço
Secreto, parados perto da porta, pareciam estar sorrindo por trás das lentes
espelhadas dos óculos escuros.
Só a minha mãe parecia tão estupefata quanto eu. Ela ia correndo até cada buquê
que chegava e abria e envelopinho da mensagem, depois lia o que tinha escrito no
cartão em tom desconfiado:

“Obrigado por seu ato tão corajoso de bravura. Cordialmente, o procurador-geral
da República”.

"Precisamos de mais americanos como você. O prefeito do Distrito de Columbia
(Washington D.C.)."

“Para um anjo sobre a Terra, com meus agradecimentos. O povo de Cleveland,
Ohio”.

“Com muita admiração por sua coragem sob fogo cruzado. O primeiro-ministro do
Canadá.”

“Você é um exemplo para todos nós... o Dalai Lama.”
Isso era desconcertante. Tipo assim, o Dalai Lama acha que eu sou um exemplo?
Hum, acho que não. Não se a gente pensar em toda a carne de vaca que eu já comi
na vida.

-Tem muito mais lá embaixo – informou a enfermeira de avental.
Minha mãe ergueu os olhos de um cartão escrito pelo imperador do Japão:

-Hã?

-Ainda estamos passando os cartões pelo scanner de radiação e as frutas e as
flores pelos equipamentos de raio X – informou o cara do Serviço Secreto.

-Equipamento de raio X? – minha mãe ecoou. – Para quê?
Um dos agentes deu de ombros.

-Lâminas de barbear. Alfinetes. Qualquer coisa. Só por segurança.

-Nunca é cuidado demais – o outro concordou. – Tem um monte de gente maluca por
aí.
Parecia que a minha mãe tinha começado a passar mal depois disso. Todo aquele
frescor da manhã tinha desaparecido no rosto dela.

-Ah – fez ela, bem baixinho.
Foi logo depois disso que o meu pai apareceu com a Dallas, a Medison e a Helena a
reboque. A Helena me deu um toque na cabeça pelo susto que eu tinha dado nela
no dia anterior.

-Imagine como eu me senti quando os policiais me disseram que eu não podia passar
para pegar você porque tinha acontecido um tiroteio. Achei que você tinha morrido!

A Medison foi a mais filosófica a respeito da coisa toda.

-A Demi não faz parte do grupo que corre mais risco de morrer devido à violência
de armas de fogo. Este compreende homens de 15 a 34 anos. De modo que eu não
fiquei especialmente preocupada.

A Dallas, no entanto, era a que tinha mais necessidade de falar comigo... sozinha.

-Vem aqui – ordenou, e me arrastou para o banheiro do quarto, onde imediatamente
trancou a porta atrás de si. – Más notícias – anunciou, falando rápido, mas baixinho;
do mesmo jeito que falava com suas colegas animadoras de torcida quando achava
que elas não estavam mostrando animação suficiente ba pirâmide humana. – Ouvi o
diretor do hospital perguntar para o papai quando você estaria pronta para a sua
coletiva de imprensa.

-Coletiva de imprensa? – deixei meu corpo cair pesadamente sobre a tampa da
privada. Por um segundo, achei, de verdade, que ia desmaiar. – Você está tirando
uma da minha cara, né?

-Claro que não – disse Dallas, toda agitada. – Você virou heroína nacional. Todo
mundo está esperando a sua coletiva de imprensa. Mas não se preocupe com isso. A
sua irmão mais velha Dallas já assumiu o controle.

Dizendo isso, colocou a bolsa de ginástica que carregava na pia. O que quer que
estivesse lá dentro fez um barulhão (e eu tinha certeza de que era provavelmente
todo o conteúdo do armarinho do banheiro que nós duas dividíamos).

-Vamos começar do começo. Primeiro, vamos cuidar desse cabelo.

A Dallas assumiu o comando naquele banheiro só porque eu estava em um estado
físico tão fraco, depois daquela noite sem dormir, com o gesso no braço e tudo o
mais. Tipo assim, eu simplesmente não tinha forças para brigar com ela. Eu gritei
uma vez, mas acho que os caras do Serviço Secreto não conseguiam me ouvir com o
barulho do chuveiro, já que, dessa vez, eles não entraram ali às pressas, com as
pistolas em punho, para me salvar.

Mas seria preciso uma tropa inteira de comandos para deter a Dallas. Ela estava
esperando por esse momento praticamente desde que eu cheguei à puberdade.
Afinal, tinha conseguido me pegar de um jeito que eu não poderia impedir sua ação.
Tinha trazido consigo não somente um jogo completo de roupas para mim, mas
também um pequeno arsenal de produtos de beleza que ela parecia ter a intenção
de despejar sobre mim enquanto eu estava presa no Box do banheiro, com o braço
quebrado, coberto de gesso, esticado para fora, igual a um galho de árvore.

-Isto aqui é awapuhi – disse Dallas, espirrando alguma coisa com cheiro vagamente
frutado na minha cabeça. – É um extrato de gengibre havaiano especial. Use para
lavar o cabelo. E isso aqui é um esfoliador corporal de damasco...

-Dallas! – berrei quando o awapuhi entrou nos meus olhos e eu não conseguia, por ter
só uma mão livre, tirar. – O que é que você está fazendo comigo?

-Estou salvando você – explicou Dallas. – Você deveria estar me agradecendo.

-Agradecendo? Por quê? Por me cegar para sempre com extrato de gengibre
havaiano?

-Não, por tentar transformar você em algo que se assemelha a um ser humano.
Você tem noção de como é humilhante para mim ver as pessoas me ligando... a noite
inteira, ligaram para mim a noite inteira... dando uma de: “Hei, aquela lá não é a sua
irmã? O que aconteceu com ela? Ela faz parte de algum tipo de culto?”

Quando abri a boca para reclamar dessa afirmação tão injusta, a Dallas jogou um
monte de pasta de dente lá dentro. Enquanto eu me engasgava, ela continuou:

-Olha aqui, pega este condicionador, é do tipo que os cavalariços usam nos animais
antes de uma apresentação.

-Eu... – ainda com os olhos cheios de xampu, eu não conseguia ver a Dallas, mas
tentei, mesmo assim, atingi-la com o gesso. – Eu não sou cavalo!

-Já percebi – respondeu ela. – Mas você precisa mesmo disto aqui, Demi. Considere
tudo isto como uma intervenção estética de emergência. – Dallas enfiou a mão no
Box do chuveiro e me empurrou para baixo do jato de água. – Enxágüe e repita, por
favor.

Quando a Dallas terminou o serviço, eu tinha sido esfregada, depilada e esfoliada
quase à morte. Meu cabelo também tinha passado por uma sessão de secador.
Mas preciso reconhecer que fiquei bem bonita. Tipo assim, eu tinha ficado meio
ofendida com o comentário da intervenção. Mas, sob a supervisão cuidadosa da
Dallas (além do difusor acoplável), logo meu cabelo perdeu aquela dureza de arame
de cobre e, em vez de sair arrepiado bem do topo da cabeça, saiu em cachos sobre
os ombros. E apesar de a Dallas não ter conseguido fazer as minhas sardas
desaparecerem muito bem, fez alguma coisa para que elas não se destacassem
tanto.

Eu não me importei com o extrato de gengibre havaiano, com o esfoliante de
damasco, nem mesmo com o condicionador de cavalo. Também dava para agüentar o
rímel, a base e o gloss.
Mas a Dallas passou dos limites quando tirou da bolsa de ginástica uma blusa de um
azul bem luminoso e uma saia que combinava.

-De jeito nenhum – exclamei, da maneira mais inflexível possível para alguém que só
estava usando uma toalha de hospital que nem era muito grande. – Eu uso o seu
batom. Eu uso o seu delineador. Mas as suas roupas eu não vou usar.

-Demi, você não tem escolha – e já estava segurando a blusa para eu vestir. – Todas
as suas roupas são pretas. Você não pode aparecer na frente da classe média
americana toda vestida de preto. As pessoas vão achar que você é adoradora de
Satã. Você vai se vestir igual a uma pessoa normal pela primeira vez na vida, e você
vai gostar.
Com as palavras “vai gostar”, Dallas me atacou. Gostaria de observar que ela
tinha vantagem injusta sobre mim porque:

a) ela era cinco centímetros mais alta do que eu e uns cinco quilos mais pesada, e

b) ela não estava prejudicada por ter um braço engessado e,

c) ela não precisava se preocupar em ficar segurando uma toalha em volta do corpo,
e ,

d) ela lê a seção do certo e errado da revista Glamour há muito muitos e muitos
anos, de modo que suas convicções estilísticas têm força sobre-humana.

Fala sério. Essas foram às únicas razões por que eu cedi. Também tinha o fato de a
Dallas não ter trazido nenhuma roupa minha para eu colocar; as que eu estava usando
na véspera tinham sido levadas pelo Serviço Secreto para passar por testes, já que
aparentemente havia resíduo de pólvora do tiro do sr. Uptown Girl nelas.

Quando eu afinal saí daquele banheiro, estava usando as roupas da minha irmã, a
maquiagem da minha irmã e os produtos de cabelo da minha irmã. Basicamente, eu
não tinha nada a ver com a pessoa que sou normalmente. Nada mesmo.
Mas tudo bem. Falando sério, tudo mesmo. Porque eu também não me sentia igual à
pessoa que eu sou normalmente, por causa da noite sem dormir, daquelas pessoas lá
embaixo com placas e dos ursinhos de agradecimento, mas também por causa do
awapuhi e tudo o mais.

Então, quando eu saí do banheiro, eu já estava bem esquisita. Para falar a verdade,
eu achava que as coisas não podiam ficar mais esquisitas do que aquilo.
E foi quando a minha mãe, que estava lá parada com cara de preocupada no meio de
todas aquelas flores e balões, mandou:

-Demetria, humm, tem alguém aqui que quer falar com você.

Eu me virei, e lá estava o presidente dos Estados Unidos


Continua...


Último capitulo da maratona às 8:30 !


Comentários ??

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. OMG...cap perfeito

    dallas é uma figura...

    e demi, agora de frente com o presidente....q comedia

    bjo bjo e posta logo

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  3. OMG..
    Muito perfeitooo..
    E agoraa??
    Posta Logoooo

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Sem comentários ........... sem capítulos!