29/06/2012

Capitulo 4 - Parte 2








Durante um tempo, achei que minha mãe nunca tinha mencionado minha irmã gêmea
morta para não me magoar. Mas daí li na internet que em 70% das gravidezes que
começam como gestação de gêmeos, um dos bebês desaparece. Assim mesmo. Puf!
Isso é conhecido como a síndrome do gêmeo desaparecido, e geralmente a mãe nem
percebe que estava carregando dois bebês em vez de um só, já que o outro
desaparece tão no começo da gestação.
Não que alguma coisa dessas faça a menor diferença. Porque mesmo que a minha
irmã gêmea tivesse sobrevivido, eu ainda seria a filha do meio. Só que daí eu teria
alguém com quem dividir o fardo. E talvez ela tivesse feito com que eu desistisse
de estudar alemão.

- Bom – respondi, parando de encarar o meu reflexo e abaixando os olhos para o
jogo americano debaixo dos cotovelos. – E o que é que eu devo fazer agora? Na
escola, ninguém me falava sobre coisas a mais nos meus desenhos. Sempre deixavam eu colocar tudo o que eu queria.
Logan deu uma gargalhada.

- Escola – exclamou. – Tá bom.

O Logan estava vivendo um conflito bem complicado com a coordenação da escola
por causa de uns quadros que ele tinha inscrito em uma exposição de arte no
shopping center. O sr. Espósito, diretor da John Adams, onde o Logan, a Dallas e eu
estudamos, não gostou nadinha de o Logan ter inscrito os quadros em nome da
instituição de ensino (ele não tinha visto os quadros). E então, quando os trabalhos
foram aceitos, ele ficou louco da vida, porque o teor das pinturas não era o que ele
considerava expressão da “qualidade John Adams”. Os quadros todos eram de
adolescentes com bonés, matando tempo na frente de uma loja de conveniência.
Chamava-se Estudos sobre Malatitude, Números Um a Três – apesar de um
integrante irado do conselho ter chamado a série de Estudos sobre Preguicite.
Sempre que o Logan fica triste por causa disso, digo a ele que os impressionistas
também não eram apreciados em sua época.

De qualquer modo, não há a menos afinidade entre o Logan e a coordenação da
Escola Preparatória John Adams. Na verdade, se os pais dele não estivessem entre
os principais doadores do fundo de ex-alunos da escola, Logan com certeza já teria
sido expulso há muito tempo.

- Você só precisa encontrar uma maneira de lutar contra essa tal de Sophia McDylan –
sugeriu Logan. – Tipo assim, antes que ela consiga arrancar cada pensamento
criativo da sua cabeça. Você precisa desenhar o que está no seu coração, Demi. Se
não, qual é o sentido?

- Eu sempre achei que as pessoas devem desenhar o que conhecem – afirmou Dallas
em tom entediado, virando uma página da revista.

- Escrever o que conhecem – corrigiu Medison, na ponta oposta da mesa em relação
a mim, levantando os olhos do laptop. – desenhar o que vêem. Todo mundo sabe
disso.
Logan olhou para mim, todo triunfante

- Está vendo? Está vendo como essa coisa é traiçoeira? Já entrou até na
consciência de garotinhas de 11 anos.
Medison lançou um olhar irritado na direção dele. A Medison sempre ficou 100% ao
lado dos meus pais no que diz respeito ao Logan.

- Ei! – protestou. – Eu não sou garotinha nenhuma.
Logan ignorou.

- Onde é que nós estaríamos se o Picasso só desenhasse o que via? – Logan quis
saber. – Ou o Pollock? Ou o Miro? – sacudiu a cabeça. – Apegue-se às suas crenças,
Demi. Você desenha com o coração. Se o seu coração manda colocar um abacaxi,
então você coloca um abacaxi. Não permita que o sistema lhe diga o que fazer. Não
deixe que os outros determinem o que e como você desenha.
Eu não sei como é que ele consegue mas, de alguma forma, o Logan sempre fala a
coisa certa. Sempre.

- Então, você vai largar? – quis saber Selena, naquela mesma noite, quando me
ligou para falar sobre a aula de biologia. Nossa tarefa era assistir a um
documentário no Canal Educativo a respeito de pessoas que têm transtorno do
corpo dismórfico. Sobre gente tipo o Michael Jackson, que se acha horrivelmente
desfigurada, quando na verdade não é. Por exemplo, um homem detestava tanto o
nariz que o abriu com uma faca, tirou a cartilagem dali e colocou um osso de galinha
no lugar.

O que só serve para ilustrar que, por pior que você ache que uma pessoa é, sempre
existe alguma coisa muito, muito pior.

- Não sei – respondi. Já tínhamos discutido toda a história do osso de galinha. – Eu
quero sair. A classe é cheia de gente esquisita.

- Ué – fez Selena. – Você disse que tinha um cara fofo.

Pensei no Joseph, com aquela cara que eu já tinha visto antes, a camiseta da Save
Ferris, as mãos e os pés grandes, olhando para a minha bota.
E na maneira como ele me viu sendo completa e totalmente esmigalhada, igual a uma
formiga, bem na frente dele, pela Sophia McDylan.

- Ele é fofo – reconheci. – Mas não tão fofo quanto o Logan.

- E quem é? – perguntou Selena, com um suspiro. – Talvez só o Heath.
Puts, é verdade.

- E a sua mãe vai deixar você largar? – Selena quis saber. – Tipo assim, isso é
meio que um castigo por causa da sua nota baixa em alemão, não é? Talvez seja
para você não gostar de propósito.

- Acho que o objetivo é que seja uma experiência de aprendizado para mim –
respondi. – Sabe como é, igual os pais da Debbie Kinley. Ela foi obrigada a fazer
uma expedição nas montanhas depois que bebeu uma garrafa inteira de vodca na
festa do Rodd Muckinfuss. As aulas de arte são tipo a minha expedição.

- Então, você não pode largar – concluiu Selena. – O que vai fazer?

- Vou pensar em alguma coisa – respondi.
Na verdade, eu já tinha um plano.

As dez razões principais por que eu seria uma namorada mais adequada para o
Logan do que a minha irmã Dallas:

10. Meu amor e apreço pela arte. A Dallas não sabe nada de arte. Para ela, arte é
aquilo que mandaram a gente fazer com limpadores de cachimbo naquele verão em
que nós duas fomos ao acampamentos das bandeirantes.

9. Por ter alma de artista, estou mais bem aparelhada para compreender as
variações de humor do Logan e lidar com elas. A Dallas só fica perguntando se ele já
melhorou.

8. Eu nunca pediria, como a Dallas faz, para o Logan me levar para ver o filme idiota e
nojento de adolescemte que estiver na moda com a turminha dos 16 aos 24 anos. Eu
entenderia que uma alma tão sensível quanto a do Logan precisaria de sustento na
forma de filmes de arte imdependentes ou talvez de um ocasional filme
estrangeiro com legendas.
E não estou falando de Jackie Chan.

7. O mesmo vale para os livros estúpidos que a Dallas faz o Logan ler. Homens são de
Marte, mulheres são de Vênus não me parece o material literário adequado para um
cara como o Logan. A virgem e o cigano, de D.H. Lawrence, seria muito mais
estimulante para a mente do Logan, que já é brilhante, do que qualquer um dos
manuais de auto-ajuda patéticos da Dallas. Apesar de eu nunca ter lido A virgem e o
cigano. Ainda assim, parece um livro que poderia nos envolver. Por exemplo,
poderíamos nos alternar lendo trechos em voz alta, sobre um cobertor estendido
no parque, o que é algo que os artistas sempre fazem nos filmes. Assim que eu
acabar de reler O clube da luta, vou dar uma chance ao livro do Lawrence para ver
se é tão intelectual quanto aparenta.

6. No aniversário do Logan, eu não lhe daria de presente uma cueca samba-canção
engraçadinha, cheia de Piu-Pius, como a Dallas fez no ano passado. Eu encontraria
alguma coisa altamente pessoal e romântica para dar de presente, tipo pincéis de
pêlo de marta ou talvez um exemplar de Romeu e Julieta com capa de couro, ou uma
das pulseiras da Gwen Stefani ou algo assim.

5. Se o Logan algum dia se atrasasse para me pegar quando a gente fosse sair, eu
não iria gritar com ele como a Dallas sempre faz. Eu entenderia que artistas não
podem se ater a restrições prosaicas como tempo.

4. Eu nunca obrigaria o Logan a ir ao shopping center comigo. Isso se algum dia eu
fosse ao shopping center, porque eu não vou. Em vez disso, Logan e eu iríamos a
museus, e não estou falando do Museu da Aeronáutica e do Espaço, aonde todo
mundo vai, nem ao Smithsonian, para ver os sapatinhos vermelhos tontos da
Dorothy, mas a museus reais, de arte, com arte de verdade, como o Hirschorn.
Talvez pudéssemos levar blocos de desenho embaixo do braço e sentar um
escorado no outro, em um daqueles assentos, e fazer esboços dos nossos quadros
preferidos, e as pessoas se aproximariam de nós para ver o que estávamos
desenhando e pediriam pra comprar os esboços, e nós diríamos não porque
tínhamos vontade de guardar os esboços para sempre como símbolo do imenso amor
que tínhamos um pelo outro.

3. Se o Logan e eu nos casássemos, eu não ia insistir na idéia de um enorme
casamento na igreja com recepção no clube de campo, como e sei que a Dallas faria.
O Logan e eu nos casaríamos descalços, no bosque próximo ao lago Walden, onde
tantos artistas foram para receber inspiração. E, na nossa lua-de-mel, em vez de ir para a Jamaica ou qualquer lugar assim, iríamos nos mudar para Paris, para sempre, e morar em um sótão.

2. Quando o Logan viesse me visitar, eu nunca ficaria lendo uma revista enquando
ele estivesse sentado na mesa da cozinha, comendo bolinhos. Eu o entreteria com
conversas agradáveis, porém, vigorosas e intelectuais a respeito de arte e
literatura.

Mas a razão número um por que eu seria uma namorado melhor para o Logan do que a Dallas é:

1. Eu lhe ofereceria o apoio terno de que ele precisa tão desesperadamente, já que
compreendo o que é ser torturada pelo fardo da genialidade que se tem.


Continua ...

Comentários ??? 

Obrigado a todas que deixaram seus comentários !
Beijonas =)

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