25/06/2012

Capitulo 3 - Parte 1


 Bem gente ... este é big ! Espero que gostem .

E obrigado a todos os seguidores ! Thank you , guys =D
Adorei os comentários , Lindas .







Sobrou para a Helena me levar de carro até o ateliê de arte, depois da escola, no
dia seguinte.
Mas a Helena está acostumada a nos levar de um lado para o outro. Ele trabalha
para a minha família desde que voltamos do Marrocos. E faz tudo aquilo que meus
pais não têm tempo de fazer: levar a gente aonde precisamos ir, limpar a casa,
lavar a roupa, preparar as refeições, fazer compras.
Mas é claro que a gente também precisa ajudar. Por exemplo, cuidar do Bud é
minha obrigação, já que eu queria tanto ter um cachorro. A Medison tem que pôr a
mesa; eu tiro os pratos e jogo no lixo; a Dallas coloca tudo no lava-louças.
A coisa até que funciona direito (quando a Helena está de olho na gente). Se ela
já voltou para a casa dela à noite, as coisas geralmente ficam meio bagunçadas.
Uma das obrigações não-oficiais que ela tem é refinar a disciplina na minha família,
já que mamãe e papai, nas palavras da Horizon, a escola de Medison, às vezes “não
conseguem estabelecer limites adequados” para nós, os filhos.
No caminho do ateliê da Sophia McDylan naquele primeiro dia, a Helena ficou tipo
estabelecendo um monte de limites. Ela estava bem ligada na minha total intenção
de escapulir no minuto em que ela se afastasse com o carro.

- Se você acha, Dona Demetria, que eu não vou entrar lá com você, é melhor você
mudar de pensamento – informou enquanto passávamos pelo Beco dos Burritos, a
maneira como o povo está chamando o Supont Circle, já que ultimamente o lugar se
encheu de fast-foods mexicanos e lugares que vendem sanduíches.
“Mudar de pensamento” é uma das expressões preferidas da Helena, e fui eu
quem ensinou a ela. Na verdade, é “mudar de idéia”, não “pensamento”. È uma coisa
que todo mundo fala. Eu me esforcei muito para adaptar a Helena à nossa cultura
já que, quando começou a trabalhar para nós, tinha acabado de chegar do Equador
e não tinha a mínima idéia de como as coisas funcionavam nos Estados Unidos.
Agora que ela já está a par do que rola e no que não rola nos EUA, a MTV até podia
contratá-la como consultora.

Além disso, ela só me chama de Dona Demetria quando está brava comigo.

- Eu sei exatamente o que você está pensando, Dona Demetria – continuou Helena
no meio do congestionamento da Connecticut Avenue, causado, como sempre, pela
comitiva de carros do presidente. Esse é um dos problemas de morar em
Washington, D.C. Não dá para ir a lugar algum sem topar com uma comitiva de
carros. – Assim que eu virar as costas, você entra correndo na loja de CDs mais
próxima e pronto, acabou.

Suspirei como se tal idéia jamais tivesse passado pela minha cabeça, apesar de eu
estar planejando aquilo mesmo. Mas eu me sinto como se fosse obrigada a pensar
coisas assim. Se não desafiar a autoridade, como é que vou manter minha
integridade artística?

- Até parece, Helena – foi o que respondi, apesar de tudo.

- não me venha com esse “até parece, Helena” – retorquiu ela. – Eu conheço você
muito bem. Sempre vestida de preto e ouvindo aquela música punk...
- Ska – corrigi.

- Tanto faz.

O último carro da comitiva passou e fomos liberadas para seguir em frente. Ela
prosseguiu:

- Daqui a pouco você vai querer tingir esse seu lindo cabelo ruivo de preto.

Pensei, cheia de culpa, na caixinha de coloração instantânea Sussurro da Meia-
Noite que repousava no armarinho do banheiro. Será que Helena tinha visto?
Porque eu não acho que ter cabelo ruivo é tão bom assim. Bom, talvez seja, se o seu
cabelo for igual ao da Dallas, que é daquela cor que chamam de vermelho-de-Tiziano,
o nome do pintor que inventou essa cor. Mas cabelo ruivo igual ao meu, que tem a
mesma cor – e consistência – dos fios que passam pelos postes de telefone, quem
vai achar bonito? Não é tão fofo assim, vou dizer.

- E às cinco e meia – Helena prosseguiu -, quando eu vier buscar você, vou lá
dentro apanhá-la. Nada dessa história de me esperar na calçada.

A Helena encarna mesmo esse negócio de mãe. Ela própria tem quatro filhos,
todos já bem crescidos, e três netos, apesar de só ser um ano mais velha do que a
minha mãe. Isso porque, ela mesma diz, o filho mais velho, Tito, é um imbecil.
É por causa da imbecilidade de Tito que a Helena não se deixa enganar: ela já viu
de tudo.

Quando afinal chegamos ao Estúdio de Arte Sophia McDylan, na esquina da R com a
Connecticut, bem em frente à Igreja Fundamental de Cientologia, a Helena lançou
um olhar de viés na minha direção. Não por causa da Igreja de Cientologia, mas
porque o ateliê da Sophia McDylan ficava em cima de uma loja de CDs. Como se fosse
minha culpa ela ter escolhido aquele lugar!

Mas preciso dizer que a Static, uma das únicas lojas de disco da cidade em que eu
nunca tinha entrado, parecia tentadora... quase tanto quanto a Capitol Cookies, a
confeitaria bem ali do lado. Dava até para ouvir os acordes de uma das minhas
músicas favoritas ressoando através das paredes à medida que íamos caminhando
nessa direção (tivemos que dar a volta no quarteirão e estacionar a um milhão de
quilômetros dali, na Que Street; já dava para ver que a Helena não ia insistir na
idéia de me acompanhar até a porta de novo, depois disso). Na Static, tocava uma
música do Garbage, “Only Happy When It Rains” (“Só fico feliz quando chove”).
Pensando bem, essa frase resume a minha atitude para com a vida, já que os pais só
deixam a gente ficar em casa desenhando quando está chovendo. Se não, é sempre:
“Por que você não sai para dar uma volta de bicicleta, como qualquer garota
normal?”

Mas a Sophia McDylan deve ter mandado colocar isolamento acústico no ateliê dela,
porque, ao subirmos a escada estreita e caiada até a porta de entrada, no andar de
cima, não ouvíamos mais nada do Garbage. Em vem disse, o que se ouvia era um
rádio tocando música erudita suave e um outro som que eu não conseguia
identificar muito bem. O cheiro, à medida que íamos subindo, era aconchegante e
bem conhecido para mim. Não, não tinha cheiro de biscoito. Tinha o mesmo cheiro
da sala de arte da escola, de tinta e terebintina.
Só quando chegamos até a posta do ateliê e eu a empurrei é que entendi o que era
o outro som que eu estava ouvindo.

- Oi, Zac. Oi, Zac. Oi, Zac – um enorme corvo negro, empoleirado em cima, e não
dentro, de uma enorme gaiola de bambu, grasnava para nós.
Helena deu um grito.

- Zachary! – uma mulher baixinha, com o cabelo mais comprido e mais branco que eu
já vi, saiu de trás de um cavalete e berrou com o pássaro. – Tenha modos!

- Jesu Cristo – exclamou Helena, afundando-se em um banquinho próximo,
salpicado de tinta. Ela já estava sem fôlego por causa da escada íngreme. O susto
de levar um grito de um pássaro na cara não ajudou em nada.

- Desculpem-me por isso – disse a mulher de cabelo comprido e branco. – Por favor,
não liguem para o Zachary. Ele demora um pouquinho para se acostumar com
estranhos. Bom, você deve ser a Demetria. Eu sou a Sophia.

Quando estávamos no final do ensino fundamental, a Selena e eu passamos por
uma fase em que só líamos livros de fantasy. Nós os devorávamos como se fossem
M&Ms, aos montes: J.R.R. Tolkien, Terry Brooks, James Kahn e Lloys Alexander.
Para mim, a Sophia McDylan parecia a rainha dos elfos (quase sempre tem uma rainha
dos elfos nos livros de fantasy). Tipo assim, ela era mais baixa do que eu e usava
uma roupa esquisita de linho em tons de azul e verde claro.
Mas era o cabelo branco e comprido (que ia até a cintura!) e os olhos azuis
brilhantes, espiando através de um rosto enrugado e completamente sem
maquiagem, que prenderam a minha atenção. Até mesmo os cantinhos da boca dela
se curvavam para cima, como faria a boca de um elfo, mesmo sem ouvir nada
engraçado.

Naquele tempo em que a Selena e eu vivíamos apalpando o fundo dos guardaroupas,
na esperança de ser transportadas para uma terra onde houvesse faunos e hobbits, não almoços infantis prontos e VJs idiotas da MTV, conhecer alguém como Sophia McDylan teria sido emocionante.
Agora, era meio esquisito.
Estiquei o braço e apertei a mão que ela estendeu na minha direção, e nos
cumprimentamos. A pela dela era seca e áspera.

- Pode me chamar de Demi – falei, impressionada com o aperto de mão, que não
tinha nada de élfico: a mulher com certeza seguraria firme o Bud com o mínimo
de esforço.

- Oi, Demi – respondeu Sophia McDylan. Daí ela largou minha mão e voltou-se para
Helena: - E você deve ser a sra. Lovato. Muito prazer.

Helena tinha retomado o fôlego. Em pé, balançou a cabeça, dizendo que era a
empregada da sra. Lovato, e que estaria de volta às cinco e meia para me buscar.
Então Helena foi embora e a Sophia McDylan me segurou pelos ombros e me dirigiu
até um dos banquinhos manchados de tinta, que não tinha encosto, só uma tábua
alta de um dos lados, em que se escorava um bloco de desenho.

- Pessoal – anunciou ao me encaixar no banco. – Esta é Demi. Demi, estes aqui...
Então, exatamente igual a duendes que saem de trás de cogumelos venenosos
gigantes, o resto dos alunos do curso de arte esticou a cabeça, de trás de imentos
blocos de desenho, para olhar pra mim.

- Lynn, Gertie, John, Jeffrey e Joseph – apresentou Sophia McDylan, apontando-os um
por um.

Tão logo apareceram as cabecinhas, sumiram de novo, e todos voltaram a seus
blocos. Eu não recebi nada além de uma olhadela rápida da Lynn, uma mulher
magrinha de uns 30 anos; da Gertie, uma mulher de meia-idade; do Jeffrey, um
jovem negro; e do Joseph, que usava uma camiseta da Save Ferris.
Como a Save Ferris é uma das minhas bandas preferidas, achei que pelo menos
teria alguém com quem conversar.

Mas daí dei uma olhada melhor no Joseph e percebi que a possibilidade de algum dia
ele me dirigir a palavra era mais ou menos zero. Tipo assim, parecia que eu o
conhecia de algum lugar, o que provavelmente significava que a gente estudava na
mesma escola. E eu sou uma das pessoas mais odiadas na John Adams por ter
sugerido que o dinheiro arrecadado com a venda de papéis de presente no Natal
fosse todo doado para o departamento de arte da escola. Mas a Dallas, a Megan Parks e outras queriam usar o dinheiro para ir andar de montanha-russa no Six Flags Great Adventue.
Adivinha quem ganhou?

Além disso, esse negócio de usar-preto-todo-dia-porque-estou-de-luto-pela-minhageração também não ajudou muito a minha popularidade.
O Joseph parecia ter mais ou menos a mesma idade da Dallas. Era alto (bom, pelo
menos parecia ser, sentado ali naquele banco) com cabelo escuro cacheado, olhos
de um castanho escuro muito lindo e mãos e pés muito grandes. Ele era meio fofo (mas não tão fofo quanto o Logan, claro), o que significava que, se estudava mesmo na Adams, devia
ser da turma dos atletas. Todos os garotos fofos da Adams são da turma dos atletas. Mesno o Logan, claro.
Portanto, quando eu sentei e o Joseph piscou pra mim, dizendo “que bota legal”, eu
fiquei completamente chocada. Pensei que ele estava zoando com a minha cara
(como a maior parte dos caras da turma dos atletas da Adams tem o costume de
fazer), mas daí olhei para baixo e percebi que, igual a mim, ele também usava um
coturno.

Só que o Joseph, diferentemente de mim, não fazia de suas botas uma afirmação
satírica: um dia, na última aula, eu tinha coberto o couro preto de margaridas (com
corretivo e caneta marca-texto amarela). Fiquei quietinha e completamente vermelha por um garoto tão fofo ter falado comigo, e a Sophia McDylan anunciou:

- Hoje, estamos fazendo uma natureza-morta – e me entregou um lápis bem bom,
de grafite macio. Daí, apontou para uma pilha de frutas em cima de uma mesinha no
meio da sala e prosseguiu: - Desenhe o que você vê á sua frente.
Daí, saiu fora.

Bom, isso é que é tentar acabar com a minha individualidade e minha habilidade
natural. Fiquei aliviada de ver que estava completamente errada nesse aspecto.
Dizendo a mim mesma para esquecer o Joseph Fofo e o comentário da bota (sem
dúvida, ele só estava sendo legal comigo por eu ser a aluna nova e tal), olhei para a
pilha de fritas na mesinha, aninhada em um pedaço amarfanhado de seda branca, e
comecei a desenhar.

Tudo bem, pensei comigo mesma. Até que isto aqui não é tão mau assim. Na
verdade, até que o ambiente era agradável ali no ateliê da Sophia McDylan. A Sophia
era interessante, com aquele cabelo e aquele sorriso de rainha dos elfos. Um
garoto fofo disse que gostou das minhas botas. A música erudita que tocava
baixinho no fundo era legal. Eu nunca ouço música erudita, a não ser que esteja
tocando como fundo de algum filme que eu esteja assistindo ou algo assim. E o
cheiro de terebintina era revigorando, igual tomar sidra quente em um dia frio de
outono.

Talvez, pensei enquanto desenhava, isto aqui não seja tão ruim assim. Talvez seja
até divertido. Tipo assim, existem maneiras muito piores para desperdiçar quatro
horas por semana, não é mesmo?
Peras. Uvas. Uma maça. Uma romã. Desenhei sem prestar muita atenção no que
estava fazendo. Fiquei imaginando o que Helena faria para o jantar. Perguntei a
mim mesma por que não tinha escolhido espanhol em vez de alemão. Se tivesse
escolhido espanhol, poderia ter a ajuda de duas pessoas que falavam espanhol em
casa, a Helena e a Selena, para me ajudar na lição de casa. Eu não conhecia
ninguém que falasse alemão. Por que é que eu fui escolher uma língua tão boba, para
começo de conversa? Eu só fiz isso porque era a língua que a Dallas tinha escolhido,
e ela tinha dito que era fácil. Fácil! Rá! Talvez para ela. Mas o que é que não era
fácil para Dallas? A Dallas tinha tudo: cabelo lindo, um namorado completamente
íntegro, o quarto do canto com um closet imenso... Eu estava tão ocupada desenhando e pensando em quanto a vida da Dallas era melhor do que a minha que nem percebi que Zac, o corvo, tinha descido da gaiola e vindo na minha direção para verificar o que eu estava fazendo, até que arrancou alguns fios do meu cabelo.

Fala sério. Um pássaro roubou o meu cabelo!


Continua ...


Comentarios ???
Beijonas XD

2 comentários:

  1. Adorei o capitulo!
    Eu às vezes me identifico um pouco com a Demi e torna-se muito engraçado.
    Posta logo!

    Bjs :)

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  2. OMG..
    Eu estou amando a sua fic..
    Ela é tão interessante..Parece que estamos lendo um livro sabe??
    Ameiii..
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Sem comentários ........... sem capítulos!