23/06/2012

Capítulo 2 - Parte 1










A Selena não conseguia acreditar na tal aula de desenho.

- Mas você já sabe desenhar – repetia sem parar.

Eu, obviamente, concordava em gênero, número e grau. Ainda assim, era bom saber que eu não era a única a pensar que ser obrigada a passar toda terça e quinta-feira das três e meia ás cinco e meia no Estúdio de Arte Sophia McDylan era uma gigantesca perda de tempo.

- É a cara da Dallas – achou Selena. Estávamos passeando com o Bud pelo
Jardim do Bispo na segunda-feira depois da escola. O Jardim do Bispo faz parte do terreno da Catedral Nacional, onde acontecem os enterros de todas as pessoas
importantes que morrem em Washington, a capital federal dos Estados Unidos. Só
demora cinco minutos a pé de onde a gente mora, em Cleveland Park, até a Catedral Nacional. O que é bom, porque é o lugar preferido de Bud para correr atrás de esquilos, assustar os casais que ficam se agarrando atrás dos arbustos e coisas assim.

O que levanta outra questão: quem é que vai passear com o Bud quando eu tiver
no Estúdio de Arte Sophia McDylan? Helena é que não vai, ela detesta o Bud,
apesar de ele ter parado totalmente de roer fios elétricos. Além disso, de acordo
com o Dr. Lee, o especialista em comportamento animal, a culpa era minha, por ter
dado a ele o nome de Bud, que soa como uma negativa. Desde que mudei o nome
dele para Bud, as coisas ficaram melhores, apesar de meu pai não ter ficado
muito feliz com a conta de US$ 500 que o Dr. Lee mandou para ele.
A Helena diz que já é bem ruim ter que ficar limpando tudo o que a gente suja;
nem morta que ela vai impar a sujeira do meu Old English Sheepdog de quatro
quilos.

- Não dá pra acreditar que a Dallas fez isso – continuou Selena. – Ainda bem que
eu não tenho irmã.

A Selena também é filha do meio, como eu (deve ser por isso que nos damos tão
bem). Só que, diferente de mim, a Selena tem dois irmãos, um mais velho e um
mais novo... e nenhum deles é mais inteligente ou mais bonito que ela.
A Selena é a maior sortuda.

- Mas, se não fosse a Dallas, teria sido a Megan – observou ela enquanto percorríamos o caminho estreito e torto que atravessava o jardim. – A Megan estava totalmente em cima de você. Sabe como é, porque você só cobrava dela e das amigas dela. O que era, de fato, a melhor coisa da história toda. Tipo assim, cobrar só de garotas tipo a Megan e as amigas dela. Todas as outras pessoas ganhavam desenhos de graça.

Bom, e por que não? Quando, de brincadeira, eu desenhei um retrato da Selena
com o ator preferido dela, o Heth Ledger, a notícia se espalhou, e logo tinha uma
fila de gente pedindo retratos ao lado de uns gostosinhos.
No começo, não passou nem pela minha cabeça cobrar. Eu estava mais que
satisfeita em dar desenhos de graça para minhas amigas, já que elas pareciam ficar felizes com isso.
E, depois, quando as garotas que não falam inglês da escola mostraram interesse
pelos retratos também, eu não podia cobrar delas. Tipo assim, se você acabou de se mudar para esse país (seja para fugir da opressão em sua terra natal ou, como a maior parte das pessoas que não falavam inglês na nossa escola, se seu pai ou sua mãe é embaixador ou diplomata), não dá mesmo para pagar por um desenho com um ator. Percebe, eu sei o que é estar em um lugar onde você não entende o que os outros estão falando: é um saco. Eu aprendi isso da maneira mais difícil, graças ao meu pai (que é responsável pela divisão do Norte da África do Banco Mundial). Ele levou toda a família para o Marrocos durante um ano, quando eu tinha 8. Teria sido legal se alguém lá tivesse me dado uns desenhos do Justin Timberlake de graça, em vez de ficar me olhando como se eu fosse esquisita só porque não sabia como se dizia “Por favor, posso sair da sala?” em marroquino quando precisava ir ao banheiro.

Depois, fui atacada por um monte de pedidos de desenhos de atores das garotas
que faziam aula de reforço. Bom, eu não podia cobrar de quem precisava de
reforço, porque eu sei o que é ter que freqüentar essas aulas. Quando voltamos do Marrocos, ficou determinado que minha língua presa (eu assobiava para falar todos os ss) não ia desaparecer com o tempo... não sem um pouco de ajuda profissional.
De modo que fui obrigada a passar por sessões de fonoaudiologia enquanto meus
colegas estavam na aula de música.
Como se isso já não fosse bem ruim, sempre que eu voltava para a minha classe
normal, a Megan Parks ficava tirando sarro da minha suposta idiotice (e ela era minha melhor amiga antes de eu ir para o Marrocos). Então, shazam, quando eu voltei, ela começou a dar uma de: “Quem é Demetria?”

Era como se ela não lembrasse mais que costumava ir à minha casa todo dia depois
da escola para brincar de Barbie. Não, de repente ela estava “se dando bem com os garotos” e correndo de um lado para o outro no recreio, tentando beijá-los. O fato de que eu, na terceira série, preferiria como vidro moído a permitir que os lábio de um colega de classe encostassem nos meus (especialmente os do Rodd Muckinfuss, que era o garanhão da classe naquele ano), imediatamente serviu para que eu recebesse o rótulo de “imatura” (e a língua presa provavelmente também não ajudou muito) e a Megan me largou como se eu fosse uma batata quente.
Por sorte, isso só serviu para alimentar meu desejo de falar direito. No dia em que fui dispensada da fonoaudiologia, fui correndo até a Megan e a xinguei de estúpida, sacana, puxa-saco, safada e sabenta.

Desde que isso aconteceu, não nos falamos muito.
Então, como eu sei bem que o pessoal do reforço precisa de um desconto de vez em quando (principalmente o pessoal que usa capacete para não se machucar e coisas assim), declarei que, para elas, os meus serviços de desenho de atores eram gratuitos, assim como para as minhas amigas que não falavam inglês da Escola Adams.

Pra falar a verdade, eu era uma espécie de ONU particular, fornecendo auxílio na
forma de representações altamente realistas de Freddie Prinze Jr. para as
desprivilegiadas. Mas revelou-se que a Megan Parks, agora presidente do primeiro ano e um pé no saco para mim, não estava gostando nada disso. Não por eu não cobrar das garotas que não falam inglês, mas sim por só cobrar dela e das amigas dela.

Mas o que é que ela estava pensando? Tipo assim, como é que eu ia cobrar da
Selena, que tinha sido minha melhor amiga desde que eu voltara do Marrocos,
quando descobri que a Megan tinha dado uma de Anakin e passado para o lado negro?

A Selena e eu tínhamos exatamente a mesma opinião a respeito de como a Megan
tratava a gente (a Megan até hoje se diverte muito tirando sarro das saias até o
joelho da Selena, que é a única coisa que a Sra. Salazar, a mãe dela, permite que
ela use, já que é tão evangélica e tal) e desprezávamos Rodd Muckinfuss com a
mesma intensidade.
Ah, é. Com certeza, não vou dar desenhos grátis do Orlando Bloom para ninguém
igual à Megan. Não mesmo.
Gente igual à Megan não é capaz de compreender o conceito de ser legal com alguém que não é magrinha, nem loira, nem se cobre de Abercombie and Fitch dos pés à cabeça (talvez porque ela não tenha sido obrigada a fazer sessões de
fonoaudiologia, muito menos freqüentar uma escola em que ninguém falava a língua
dela).Em outras palavras, com qualquer pessoa que não seja a própria Megan Parks.

A Selena e eu conversávamos sobre isso ao voltarmos do parque da Catedral
(quer dizer, sobre a Megan e a impertinência dela) quando um carro se aproximou de nós e vi meu pai acenando de trás do volante.

- Oi, garotas – exclamou a minha mãe, debruçando-se por sobre o meu pai para
falar conosco, já que estávamos mais próximas do lado do motorista. – Acho que
nenhuma de vocês tem o interesse de ir ver o jogo da Dallas, não é mesmo?

- Mãe! – disse Dallas, do banco de trás. Ela estava com toda a parafernália de
animadora de torcida. – Nem perca seu tempo. Elas não vão querer vir e, mesmo que quisessem, olha só, dá uma olhada na Demi. Eu ia ficar com vergonha de ser vista com ela.

- Dallas! – disse meu pai, em tom ameaçador. Mas ele nem devia ter se incomodado.
Eu já estou superacostumada com os comentários depreciativos que a Dallas faz a
respeito da minha aparência.

Tudo é muito lindo e fácil para gente igual à Dallas, cuja principal preocupação da
vida é não perder nenhuma liquidação da Club Mônaco. Quando começaram a vender
Paul Mitchell na perfumaria do nosso bairro, a Dallas foi tomada de uma felicidade
do tipo que não se via desde a queda do Muro de Berlim.
Eu, no entanto, sou um pouco mais preocupada com questões mundiais, como por
exemplo, o fato de que trezentos milhões de crianças por dia vão para a cama com fome e que programas de arte das escolas são a primeira coisa a ser cortada
sempre que o conselho local de educação descobre que está trabalhando no
vermelho.
E é por isso que, no começo do ano letivo, eu tingi todo o meu guarda-roupa de
preto para mostrar que:

a) eu estava de luto pela minha geração, que claramente não liga para nada além do
que vai acontecerem Friends semana que vem, e

b) moda é para gente falsa igual à minha irmã.



Continua ...


COMENTÁRIOS ????

Poxa .. os comentários me deixam felizes,
quero comentários , bons ou ruins ...
xoxo

7 comentários:

  1. Heeey! ><
    Well, eu li estes dois capítulos e adorei. O modo como você escreve, - sem erros de portuguê e tal, é coisa muito rara viu? Ficou muito bom, eu adorei.
    Posta logo, amore.
    Beijos
    Maay

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    Respostas
    1. Maay , obrigada fofa ! vc sabe o quanto é importante esse seu comentário , levando em conta o fato de vc saber que eu adoro as suas fics =)

      Thanksss

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  2. Demi faz um desenho pra mim tmbm ? kkkkkkk '
    Brinks
    Minha ninda ta de parabéns ! To amando ! *---*

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  3. HEEEY, como Vai.? OMG, ameei Concordo com a May, Velho é muito difícil Alguém escrever bem assim, Outra coisa Amei seu Blog Sério Pfto.



    By: Bárbara

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Sem comentários ........... sem capítulos!