29/06/2012

Capitulo 5 - Parte 1







Por sorte, estava chovendo na quinta-feira, quando a Helena me levou para o
ateliê da Sophia McDylan. Isso significa que a possibilidade de ela achar lugar para
estacionar, procurar o guarda-chuva no banco de trás, sair do carro e me levar até
a porta do estúdio era exatamente zero.

Em vez disso, ela parou no meio da Connecticut Avenue (fazendo com que todos os
carros atrás dela buzinassem) e mandou:

- Se você não estiver aqui exatamente às cinco e meia, eu vou atrás de você como
uma louca. Entendeu bem? Eu vou sair caçando você como se fosse um animal.

- Tudo bem – respondi, soltando o cinto de segurança.

- Estou falando sério, Dona Demetria. – frisou Helena. – Cinco e meia em ponto. Ou
eu vou estacionar em fila dupla e você vai ter que pagar a taxa do guincho se a
minivan for guinchada.

- Pode ser – respondi, saindo para a chuva torrencial. Até mais.
Então, corri até a porta do ateliê.

Só que é claro que não subi a escada estreita. Bom, como é que eu ia fazer isso? Eu
tinha que lutar contra o sistema, certo?
Além disso, não tinha sido completamente humilhada lá em cima, anteontem? Será
que dava mesmo para entrar lá toda faceira, como se nada tivesse acontecido?
A resposta, obviamente, era não. Não, não dava.

Em vez disso, o que fiz foi esperar cerca de um minuto no hallzinho de entrada,
com a água da chuva pingando do capuz da minha capa emborrachada. Enquanto
estava lá, tentava não me sentir muito culpada. Eu sabia que estava assumindo uma
posição e tal, ao boicotar a Sophia McDylan. Tipo assim, eu estava mostrando que
apoiava totalmente os rebeldes da arte de todos os lugares.

Mas os meus pais estavam gastando um bom dinheiro com essas aulas de arte. Ouvi
meu pai reclamando que custavam, por mês, quase tanto quanto o especialista em
comportamento animal. Parece que a tal da Sophia McDylan  era meio famosa. Por que
ela era famosa eu não fazia a mínima idéia mas, aparentemente, cobrava uma boa
grana por sua tutela artística.

De modo que, apesar de eu estar lutando contra o sistema, não me sentia muito à
vontade, sabendo que estava desperdiçando o dinheiro que meus pais trabalhavam
tanto para ganhar.

Mas, se você pensar bem, eu sou a filha mais barata dos meus pais. Tipo assim, eles
gastam uma pequena fortuna com a Dallas todo mês. Ela sempre precisa de roupas
novas, pompons novos, aparelho de dente novo, cremes dermatológicos novos,
qualquer coisa, para manter sua imagem como uma das lindas da escola John Adams.
E a Medison, credo. Só as taxas de laboratório da Horizon chegam bem perto do
produto interno bruto de um pequeno país subdesenvolvido.
E eu? O que é que meus pais gastavam comigo todo mês? Bom, até eu ser pega com
o negócio dos desenhos de celebridades, nada além da educação. Tipo assim, eu
usava os sutiãs velhos da minha irmã, certo? E eu nem precisava de roupas novas
esse ano: tingi todas as roupas do semestre passado de preto e voilá! Um guardaroupa
inteiramente renovado.

Fala sério, no que diz respeito a filhas, eu sou uma pechincha. Eu nem como muito,
já que detesto tudo que é comida, menos hambúrgueres, as baguetes da Mulher do
Pão e sobremesa.
De modo que eu nem devia estar me sentindo culpada por cabular a aula de arte.
Não mesmo.

Mas fiquei lá parada, o cheiro bem conhecido de terebintina me envolveu, e dava
para ouvir, bem lá no alto da escada, o som baixinho da música erudita, além de um
grasnado ocasional de Zac, o corvo. De repente, fui envolvida por uma estranha
vontade de subir aquela escada, ir até meu banco, sentar e desenhar.
Mas daí me lembrei da humilhação que tinha sofrido da última vez que entrei
naquela sala. E na frente daquele tal de Joseph, além do mais! Tipo assim, é verdade,
ele não era tão fofo quanto o Logan, ou qualquer coisa assim. Mas ele era um cara,
puxa! Um cara que gostava de Save Ferris! E que disse ter gostado da minha bota!
Tudo bem, eu não ia subir aquela escada de jeito nenhum. Estava assumindo uma
posição. Uma posição contra o sistema.

Em vez disso, fiquei esperando ali no vestíbulo, rezando para que ninguém entrasse
enquanto eu me encolhia ali e dissesse: “Oi Demi, você não vai subir?”
Como se alguém ali fosse se lembrar do meu nome! A não ser, possivelmente, Sophia McDylan Mas ninguém entrou. Quando dois minutos tinham se passado, eu abri a porta com cuidado e olhei para a rua ensopada de chuva.

A Helena e a minivan não estavam mais lá. A barra estava limpa. Dava para sair.
O primeiro lugar a que fui foi a Capitol Cookies. Bom, como é que eu poderia fazer
outra coisa? A confeitaria parecia tão aconchegante e convidativa, ainda mais com
aquela chuva e tudo mais, e eu por acaso tinha US$ 1,86 no bolso, exatamente o
preço do biscoito de chocolate Congressional. Além disso, o confeito que
entregaram na minha mão ainda estava quente do forno. Guardei no bolso da minha
capa emborrachada. Era proibido entrar com comida na Static, meu próximo
destino.

Naquela tarde não estava tocando Garbage. Era o Donnas que cantava pelos altofalantes.
Não era ska, mas fava para engolir. Fui até o lugar onde tinha fones
plugados na parede para as pessoas ouvirem os CDs que estavam pensando em
comprar. Passei uma boa meia hora ouvindo o CD do Less Than Jake que eu queria,
mas não tinha dinheiro para comprar, pois o financiamento materno para tais itens
estava fechado. Enquanto ouvia, eu levava pedacinhos de biscoito até a boca com a mão e repetia para mim mesmo que o que estava fazendo não era tão errado assim. Tipo assim, lutar contra o sistema.

Além disso, olha só a Selena: há anos os pais dela a obrigam a freqüentar aulas de educação religiosa enquanto eles estão na igreja. Como tem, tipo assim, uns dois anos de diferença entre a Selena e os irmãos dela, cada um dos três estava em ma classe diferente, de modo que ela nunca soube, até este ano, que o Marco e o Javier davam tchauzinho para a mãe quando ela os deixava na frente da escola e logo escapuliam para o Fliperama Beltway, bem na esquina. Ela só descobriu quando, um dia, a classe dela foi liberada mais cedo e ela saiu procurando os irmãos, mas não encontrou.

De modo que, basicamente, todos os anos que a Selena passou sentada lá,
ouvindo os professores de religião dizendo que ela deveria resistir a tentações e
tal, durante todo aquele tempo os irmãos dela (e praticamente todos os outros
garotos e garotas legais que freqüentavam a igreja dela) estavam ali ao lado,
batendo recordes no Super Mario.

Então, o que Selena faz agora? Ela dá tchauzinho para a mãe igual ao Marco e ao
Javier e daí vai, também, para o Fliperama Beltway – e fica fazendo a lição de casa
de geometria sob o brilho da tela do Delta Force.
E ela se sente mal por isso? Não. Por que não? Porque ela diz que, se Deus a tudo
perdoa de verdade, como ensinaram para ela na aula, Ele vai entender que ela
precisa mesmo daquele tempinho extra de estudo, senão vai repetir em geometria,
nunca vai entrar em uma boa faculdade e vencer na vida.

Então, por que é que eu deveria me sentir mal por cabular a aula de desenho? Tipo
assim, é só uma aula de desenho. A Selena, por outro lado, está cabulando Deus.
Claro que meus pais, no caso improvável de descobrirem o que eu fiz, vão entender
que eu só estava tentando preservar minha integridade artística. Claro que eles vão
entender. Provavelmente. Talvez. Em um dia bom, acho, quando não tiverem
encontrado bifenil policlorinado no reservatório de água de alguma cidadezinha do
Meio-Oeste, ou quando não haja muita oscilação na economia do norte da África.
Se alguém na Static achou esquisito uma garota de 15 anos , ruiva, vestida de preto
dos pés à cabeça, ficar por lá durante duas horas, ouvindo CDs mas sem ocmrar
nada, ninguém disse nada para mim. A mina do caixa, que tinha o tipo de cabelo
preto espetado que eu sempre quis ter, mas nunca tive coragem, estava ocupada
demais paquerando um outro atendente, um cara de calça clara e camiseta do Lê
Tigre, de modo que não prestou atenção em mim.

Os outros clientes também estavam me ignorando. A maior parte deles parecia ser
estudante de faculdade matando tempo entre as aulas. Alguns poderiam estar
ainda no ensino médio. Um deles era um cara meio velho, tipo com uns 30 anos, com
roupas militares, carregando uma bolsa de lona. Ele ficou um pouco por ali nos
fones, onde eu estava, ouvindo Billy Joel. Diquei surpresa de ver que um lugar igual
ao Static tinha Billy Joel para vender, mas tinha. O cara ficou ouvindo “Uptown
girl” uma vez atrás da outra. Aliás, meu pai é fã do Billy Joel, ele escuta isso o
tempo todo no carro (e é por isso que andar de carro com ele é tão divertido), mas
até ele já superou “Uptown Girl”.

Mais ou menos no meio do segundo álbum do Spitvalve, meu biscoito já tinha
acabado. Enfiei a mão no bolso e só encontrei migalhas. Pensei em ir até a Capitol
Cookies para comprar outro, mas lembrei que estava dura. Além disso, àquela
altura, já eram quase cinco e meia. Eu precisava sair para esperar a Helena vir me
buscar.
Coloquei o capuz na cabeça e saí para a rua, na chuva. Não estava chovendo tanto
quanto chovia quando eu cheguei, mas achei que o capuz impediria que alguém que
saísse do Estúdio de Arte Sophia McDylan me reconhecesse e mandasse essa: “Ei,
onde é que você se enfiou?”
Como se algum deles fosse sentir a minha falta.

Continua ...

Resolvi postar 2 capitulos hoje ! =) 
espero que tenham gostado ;))

Gente... Queria dizer que essa fic não é uma história original minha,
ela é uma adaptação de um livro. 
Espero que vocês continuem acompanhando o blog.

Bem, é isso ... Amanhã o capitulo vai estar bem emocionante !!!

Beijonas =)

Capitulo 4 - Parte 2








Durante um tempo, achei que minha mãe nunca tinha mencionado minha irmã gêmea
morta para não me magoar. Mas daí li na internet que em 70% das gravidezes que
começam como gestação de gêmeos, um dos bebês desaparece. Assim mesmo. Puf!
Isso é conhecido como a síndrome do gêmeo desaparecido, e geralmente a mãe nem
percebe que estava carregando dois bebês em vez de um só, já que o outro
desaparece tão no começo da gestação.
Não que alguma coisa dessas faça a menor diferença. Porque mesmo que a minha
irmã gêmea tivesse sobrevivido, eu ainda seria a filha do meio. Só que daí eu teria
alguém com quem dividir o fardo. E talvez ela tivesse feito com que eu desistisse
de estudar alemão.

- Bom – respondi, parando de encarar o meu reflexo e abaixando os olhos para o
jogo americano debaixo dos cotovelos. – E o que é que eu devo fazer agora? Na
escola, ninguém me falava sobre coisas a mais nos meus desenhos. Sempre deixavam eu colocar tudo o que eu queria.
Logan deu uma gargalhada.

- Escola – exclamou. – Tá bom.

O Logan estava vivendo um conflito bem complicado com a coordenação da escola
por causa de uns quadros que ele tinha inscrito em uma exposição de arte no
shopping center. O sr. Espósito, diretor da John Adams, onde o Logan, a Dallas e eu
estudamos, não gostou nadinha de o Logan ter inscrito os quadros em nome da
instituição de ensino (ele não tinha visto os quadros). E então, quando os trabalhos
foram aceitos, ele ficou louco da vida, porque o teor das pinturas não era o que ele
considerava expressão da “qualidade John Adams”. Os quadros todos eram de
adolescentes com bonés, matando tempo na frente de uma loja de conveniência.
Chamava-se Estudos sobre Malatitude, Números Um a Três – apesar de um
integrante irado do conselho ter chamado a série de Estudos sobre Preguicite.
Sempre que o Logan fica triste por causa disso, digo a ele que os impressionistas
também não eram apreciados em sua época.

De qualquer modo, não há a menos afinidade entre o Logan e a coordenação da
Escola Preparatória John Adams. Na verdade, se os pais dele não estivessem entre
os principais doadores do fundo de ex-alunos da escola, Logan com certeza já teria
sido expulso há muito tempo.

- Você só precisa encontrar uma maneira de lutar contra essa tal de Sophia McDylan –
sugeriu Logan. – Tipo assim, antes que ela consiga arrancar cada pensamento
criativo da sua cabeça. Você precisa desenhar o que está no seu coração, Demi. Se
não, qual é o sentido?

- Eu sempre achei que as pessoas devem desenhar o que conhecem – afirmou Dallas
em tom entediado, virando uma página da revista.

- Escrever o que conhecem – corrigiu Medison, na ponta oposta da mesa em relação
a mim, levantando os olhos do laptop. – desenhar o que vêem. Todo mundo sabe
disso.
Logan olhou para mim, todo triunfante

- Está vendo? Está vendo como essa coisa é traiçoeira? Já entrou até na
consciência de garotinhas de 11 anos.
Medison lançou um olhar irritado na direção dele. A Medison sempre ficou 100% ao
lado dos meus pais no que diz respeito ao Logan.

- Ei! – protestou. – Eu não sou garotinha nenhuma.
Logan ignorou.

- Onde é que nós estaríamos se o Picasso só desenhasse o que via? – Logan quis
saber. – Ou o Pollock? Ou o Miro? – sacudiu a cabeça. – Apegue-se às suas crenças,
Demi. Você desenha com o coração. Se o seu coração manda colocar um abacaxi,
então você coloca um abacaxi. Não permita que o sistema lhe diga o que fazer. Não
deixe que os outros determinem o que e como você desenha.
Eu não sei como é que ele consegue mas, de alguma forma, o Logan sempre fala a
coisa certa. Sempre.

- Então, você vai largar? – quis saber Selena, naquela mesma noite, quando me
ligou para falar sobre a aula de biologia. Nossa tarefa era assistir a um
documentário no Canal Educativo a respeito de pessoas que têm transtorno do
corpo dismórfico. Sobre gente tipo o Michael Jackson, que se acha horrivelmente
desfigurada, quando na verdade não é. Por exemplo, um homem detestava tanto o
nariz que o abriu com uma faca, tirou a cartilagem dali e colocou um osso de galinha
no lugar.

O que só serve para ilustrar que, por pior que você ache que uma pessoa é, sempre
existe alguma coisa muito, muito pior.

- Não sei – respondi. Já tínhamos discutido toda a história do osso de galinha. – Eu
quero sair. A classe é cheia de gente esquisita.

- Ué – fez Selena. – Você disse que tinha um cara fofo.

Pensei no Joseph, com aquela cara que eu já tinha visto antes, a camiseta da Save
Ferris, as mãos e os pés grandes, olhando para a minha bota.
E na maneira como ele me viu sendo completa e totalmente esmigalhada, igual a uma
formiga, bem na frente dele, pela Sophia McDylan.

- Ele é fofo – reconheci. – Mas não tão fofo quanto o Logan.

- E quem é? – perguntou Selena, com um suspiro. – Talvez só o Heath.
Puts, é verdade.

- E a sua mãe vai deixar você largar? – Selena quis saber. – Tipo assim, isso é
meio que um castigo por causa da sua nota baixa em alemão, não é? Talvez seja
para você não gostar de propósito.

- Acho que o objetivo é que seja uma experiência de aprendizado para mim –
respondi. – Sabe como é, igual os pais da Debbie Kinley. Ela foi obrigada a fazer
uma expedição nas montanhas depois que bebeu uma garrafa inteira de vodca na
festa do Rodd Muckinfuss. As aulas de arte são tipo a minha expedição.

- Então, você não pode largar – concluiu Selena. – O que vai fazer?

- Vou pensar em alguma coisa – respondi.
Na verdade, eu já tinha um plano.

As dez razões principais por que eu seria uma namorada mais adequada para o
Logan do que a minha irmã Dallas:

10. Meu amor e apreço pela arte. A Dallas não sabe nada de arte. Para ela, arte é
aquilo que mandaram a gente fazer com limpadores de cachimbo naquele verão em
que nós duas fomos ao acampamentos das bandeirantes.

9. Por ter alma de artista, estou mais bem aparelhada para compreender as
variações de humor do Logan e lidar com elas. A Dallas só fica perguntando se ele já
melhorou.

8. Eu nunca pediria, como a Dallas faz, para o Logan me levar para ver o filme idiota e
nojento de adolescemte que estiver na moda com a turminha dos 16 aos 24 anos. Eu
entenderia que uma alma tão sensível quanto a do Logan precisaria de sustento na
forma de filmes de arte imdependentes ou talvez de um ocasional filme
estrangeiro com legendas.
E não estou falando de Jackie Chan.

7. O mesmo vale para os livros estúpidos que a Dallas faz o Logan ler. Homens são de
Marte, mulheres são de Vênus não me parece o material literário adequado para um
cara como o Logan. A virgem e o cigano, de D.H. Lawrence, seria muito mais
estimulante para a mente do Logan, que já é brilhante, do que qualquer um dos
manuais de auto-ajuda patéticos da Dallas. Apesar de eu nunca ter lido A virgem e o
cigano. Ainda assim, parece um livro que poderia nos envolver. Por exemplo,
poderíamos nos alternar lendo trechos em voz alta, sobre um cobertor estendido
no parque, o que é algo que os artistas sempre fazem nos filmes. Assim que eu
acabar de reler O clube da luta, vou dar uma chance ao livro do Lawrence para ver
se é tão intelectual quanto aparenta.

6. No aniversário do Logan, eu não lhe daria de presente uma cueca samba-canção
engraçadinha, cheia de Piu-Pius, como a Dallas fez no ano passado. Eu encontraria
alguma coisa altamente pessoal e romântica para dar de presente, tipo pincéis de
pêlo de marta ou talvez um exemplar de Romeu e Julieta com capa de couro, ou uma
das pulseiras da Gwen Stefani ou algo assim.

5. Se o Logan algum dia se atrasasse para me pegar quando a gente fosse sair, eu
não iria gritar com ele como a Dallas sempre faz. Eu entenderia que artistas não
podem se ater a restrições prosaicas como tempo.

4. Eu nunca obrigaria o Logan a ir ao shopping center comigo. Isso se algum dia eu
fosse ao shopping center, porque eu não vou. Em vez disso, Logan e eu iríamos a
museus, e não estou falando do Museu da Aeronáutica e do Espaço, aonde todo
mundo vai, nem ao Smithsonian, para ver os sapatinhos vermelhos tontos da
Dorothy, mas a museus reais, de arte, com arte de verdade, como o Hirschorn.
Talvez pudéssemos levar blocos de desenho embaixo do braço e sentar um
escorado no outro, em um daqueles assentos, e fazer esboços dos nossos quadros
preferidos, e as pessoas se aproximariam de nós para ver o que estávamos
desenhando e pediriam pra comprar os esboços, e nós diríamos não porque
tínhamos vontade de guardar os esboços para sempre como símbolo do imenso amor
que tínhamos um pelo outro.

3. Se o Logan e eu nos casássemos, eu não ia insistir na idéia de um enorme
casamento na igreja com recepção no clube de campo, como e sei que a Dallas faria.
O Logan e eu nos casaríamos descalços, no bosque próximo ao lago Walden, onde
tantos artistas foram para receber inspiração. E, na nossa lua-de-mel, em vez de ir para a Jamaica ou qualquer lugar assim, iríamos nos mudar para Paris, para sempre, e morar em um sótão.

2. Quando o Logan viesse me visitar, eu nunca ficaria lendo uma revista enquando
ele estivesse sentado na mesa da cozinha, comendo bolinhos. Eu o entreteria com
conversas agradáveis, porém, vigorosas e intelectuais a respeito de arte e
literatura.

Mas a razão número um por que eu seria uma namorado melhor para o Logan do que a Dallas é:

1. Eu lhe ofereceria o apoio terno de que ele precisa tão desesperadamente, já que
compreendo o que é ser torturada pelo fardo da genialidade que se tem.


Continua ...

Comentários ??? 

Obrigado a todas que deixaram seus comentários !
Beijonas =)

28/06/2012

Capitulo 4 - Parte 1






Quando contei ao Logan o que tinha acontecido no Estúdio de Arte Sophia McDylan, ele só riu.
Riu! Como se fosse engraçado!
Eu meio que fiquei ofendida por causa disso, mas acho que devia ser meio
engraçado. De certo modo.

- Demi – ele sacudiu a cabeça, e a cruz egípcia de prata que carrega na orelha
brilhou com a luz. – Você não pode deixar o sistema vencer, Você precisa lutar
contra o sistema.

Muito fácil dizer isso. Afinal, ele tem 1,95m e pesa mais de 90 kg. O técnico de
futebol americano da escola fez de tudo para convence-lo a entrar no time depois
que o melhor defensor de linha se mudou para Dubai.
Mas o Logan nunca faria parte do estratagema do treinador Nathan para dominar o
campeonato do nosso distrito escolar. Logan não acredita em esportes organizados,
mas não porque tenha, como eu, ficado ressentido por aquela atividade consumir
fundos valiosos que poderiam ser destinados ao departamento de arte. Não, o Logan
está convencido de que os esportes, assim como a loteria, só servem para enganar o proletariado e leva-lo a acreditar que um dia vai se elevar acima de seus colegas bebedores de cerveja e motoristas de pick-ups.

É muito fácil para um cara como o Logan lutar contra o sistema.
Eu, por outro lado, só tenho 1,60 m e não sei quanto peso, já que a minha mãe jogou fora a balança depois de ler uma reportagem a respeito de como a anorexia atinge as adolescentes. Além disso, nunca consegui me pendurar na corda durante as aulas de educação física, já que herdei do meu pai a total falta de força na parte superior do corpo.

Quando fiz essa observação, no entanto, o Logan começou a rir ainda mais, o que eu achei, sabe como é, meio sem educação. Para um cara que supostamente é a minha alma gêmea e tal. Mesmo que ele talvez ainda não saiba disso.

- Demi – explicou ele –, não estou falando de lutar contra o sistema de maneira
física. Você precisa ser mais esperta do que isso.

Ele estava sentado na mesa da cozinha, servindo-se de uma caixa de rosquinhas
com cobertura de chocolate que a Helena comprou para o lanche da tarde. A
gente não costuma ter doces para comer no lanche. A minha mãe só quer que a
gente tenha maçãs, bolachas integrais e leite, coisas assim. Mas a Helena, ao
contrário dos meus pais, não liga para as notas do Logan nem para as afirmações
políticas que ele gosta de fazer com uma espingarda de chumbinho, de modo que,
sempre que ele aparece e ela está por lá, é uma festa só. Às vezes ela até assa um bolo. Uma vez, fez brigadeiro. Estou dizendo, a Dallas sair com o único cara no mundo que inspira a Helena fazer brigadeiro prova definitivamente que não existe justiça no mundo.

- A Sophia McDylan está sufocando a minha criatividade – exclamei, indignada. – Ela está tentando me transformar em algum tipo de clone artístico...

- Claro que está – Logan parecia surpreso ao dar uma dentada em mais um bolinho. –É isso que os professores fazem. Você tentou ser um pouco criativa, colocou um abacaxi a mais, e... BAM! Lá vem o punho da conformidade para esmagar você. Quando o Logan fica animado, ele começa a mastigar com a boca aberta. Foi o que ele fez. Pedacinhos de bolo saíram voando pela mesa e bateram na revista que Dallas estava lendo. Ela abaixou seu exemplar de Nova, olhou para os pedacinhos de bolo colados na capa, olhou para o Logan e disse:

- Cara, vê se fala sem cuspir.
E daí voltou a ler a respeito de orgasmos.
Está vendo? Está vendo o que eu quero dizer quando falo que ela ignora a
genialidade do Logan?

Dei uma mordida no meu bolinho. A mesa da cozinha, onde geralmente só tomamos
café e lanche, fica em uma espécie de átrio envidraçado que se projeta a partir da cozinha para o quintal. Nossa casa é antiga (tem mais de cem anos de idade, como a maior parte das casas de Cleveland Park, que são umas construções vitorianas com um monte de vitrais e balaustradas, pintadas com cores vivas). Por exemplo, a nossa casa é azul-turquesa, amarela e branca.
O átrio envidraçado e a mesa da cozinha foram incorporados à casa no ano passado. O teto é de vidro, três paredes são de vidro e a mesa da cozinha é feita com um bloco enorme de vidro. Como estava ficando escuro lá fora, eu via meu reflexo em todo canto. E não gostei muito do que vi:

Uma garota de tamanho médio, com pele branca demais e sardas, vestida toda de
preto, com um monte de cabelo ruivo ondulado saindo da cabeça, todo espetado.
E gostei ainda menos do que vi ao lado do meu reflexo: Uma garota com traços delicados sem sarda nenhuma, usando um uniforme roxo e branco de animadora de torcida, com cabelo brilhante perfeitamente assentado e levemente ondulado apenas no local em que saía de uma fivela.
E: Um cara gostoso, lindo, de ombros largos, com olhos azuis penetrantes e cabelo castanho comprido, usando jeans rasgados e um sobretudo militar azul-marinho, comendo bolinhos como se não houvesse amanhã.
E lá estava eu, no meio, entre os dois, onde sempre estive.

Uma vez, assisti a um documentário sobre a ordem de nascimento dos filhos no
Canal de Saúde, e adivinha só o que dizia:
Primeira filha (também conhecida como Dallas) : mandona. Sempre consegue o que
quer. Filha com maior possibilidade de tornar-se presidente de uma empresa
importante, ditadora de um páis pequeno ou supermodelo, como preferisse.

Última filha (também conhecida como Medison) : Bebê. Sempre consegue o que
quer. Filha com maior probabilidade de descobrir a cura para o câncer, ter seu
próprio programa de entrevistas, entrar na nave-mãe quando a invasão começar e
mandar uns “Bem-vindos à Terra” e assim por diante.

Filha do meio (também conhecida como eu mesma): Perdida na confusão. Nunca
consegue o que quer. Filha com maior probabilidade de se transformar em
adolescente fugitiva, vivendo de restos de Big Mac recolhidos nos lixos atrás do
McDonald’s local durante semanas até que alguém perceba que ela desapareceu.
É a história da minha vida.


Só que, pensando bem, o fato de eu ser canhota indica que provavelmente tive, a
certa altura, uma irmã gêmea. Pelo menos de acordo com um artigo que li no
consultório do dentista. Segundo uma teoria aí, a maior parte dos canhotos
começou a vida como metade de um par de gêmeos. Uma em cada dez gravidezes
começa com a gestação de gêmeos. Uma em cada dez pessoas é canhota.
É só fazer as contas.



Continua ...

Comentários ???
Vai gente , não custa dizer se os capítulos estão bons ou não !

Sejam bem vindas , novas seguidoras !!!
Beijonas , xoxo

26/06/2012

Capitulo 3 - Parte 2




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Soltei um grito, o que fez com que Zac saísse voando, espalhando penas pretas por todos os lados.

- Zachary! – Sophia McDylan esbravejou quando viu o que estava acontecendo. – larga o cabelo da Demi!
Obedientemente, Zac abriu o bico. Três ou quatro fios de cabelo com de cobre
flutuaram até o chão.

- Corvo lindo – anunciou Zac, inclinando a cabeça na minha direção. – Corvo lindo.

- Ah, Demi – Sophia McDylan se abaixou para pegar os cabelos do chão. – Desculpe-me. É que ele sempre fica atraído por coisas coloridas e brilhantes.
Veio até mim e me entregou os fios, como se eu pudesse cola-los de volta na cabeça.

- Ele não é um pássaro mau – informou Gertie, como que preocupada com alguma
impressão errada que eu pudesse guardar do pássaro da Sophia McDylan.

- Corvo mau –fez Zac. – Corvo mau.

Fiquei lá parada, com os fios de cabelo na palma da mão aberta, pensando que a
Sophia McDylan faria bem de gastar 500 paus com o especialista em comportamento animal, já que o bicho de estimação dela tinha problemas sérios. Enquanto isso, Zac voltava para o topo de sua gaiola batendo as asas, sem tirar os olhos de mim. Do meu cabelo, para ser mais exata. Dava para ver que ele estava mesmo a fim de tirar mais um chumaço, se pudesse. Pelo menos, foi o que me pareceu. Será que os pássaros têm sentimentos? Eu sei que os cachorros têm. Mas os cachorros são inteligentes. E os pássaros são meio idiotas. Mas não tão idiotas quanto seres humanos conseguem ser, eu vim a perceber maistarde. Ou pelo menos tanto quanto este ser humano em especial consegue ser. Por
volta das cinco e quinze (eu sabia porque a estação de rádio de música erudita
tinha começado a dar notícias), a Sophia McDylan encerrou a sessão.

- Pronto. Parapeito da janela.

E todo mundo, menos eu, levantou do banco e colocou o bloco de desenho apoiado na janela, de frente para o ateliê. Havia janelas em toda a extensão das três paredes da sala, que era de canto, e o parapeito era largo o bastante para alguém se sentar ali. Apressei-me para colocar o meu bloco ao lado dos outros e depois todos nós nos afastamos para olhar o que tínhamos desenhado.

O meu era claramente o melhor. E eu fiquei bem mal por causa disso. Tipo assim,
era só o meu primeiro dia de aula, e eu já estava desenhando melhor do que
qualquer outro aluno, melhor até que os adultos. Tive mais pena do John: o desenho dele era só uma enorme bagunça. O da gertie era quadradão e todo manchado. O da Lynn parecia ter sido feito por uma criancinha de jardim-de-infância. E o Jeffrey tinha desenhado alguma coisa que não podia ser identificada como um monte de frutas.

Até podiam ser uns discos voadores, mas frutas, não.
Só o Joseph tinha desenhado algo remotamente bom. Mas ele não tinha conseguido
terminar, Eu tinha conseguido desenhar TODAS as frutas e tinha até adicionado
um abacaxi e algumas bananas, tipo para dar um equilíbrio à figura.
Fiquei torcendo para a Sophia McDylan não fazer muito alarde por o meu desenho ser muito melhor do que o de todo mundo. Eu não queria que os outros ficassem mal.

- Bom – avaliou Sophia McDylan.

Deu um passo à frente e começou a discutir o desenho de cada um.
Ela foi muito diplomática a respeito da coisa toda. Tipo assim, meu pai bem que
poderia contratá-la para algum dos escritórios dele, de tão cheia de tato que ela
era (os economistas são muito bons com números, mas quando se trata de
relacionamentos humanos, assim como a Medison, eles não se dão muito bem). A
Susan ficou falando e falando sobre a emotividade das linhas da Lynn e do bom uso
do espaço no desenho da Gertie. Disse que o John tinha melhorado muito, e todo
mundo pareceu concordar, o que me fez pensar o quão ruim John devia ser quando
começou. O Joseph recebeu um “excelente justaposição”; e o Jeffrey, um “muito
detalhado”.
Quando ela finalmente chegou ao meu desenho, tive vontade de sair da sala de
fininho. Tipo assim, meu desenho era tão obviamente o melhor... Eu não quero
parecer esnobe, mas meus desenhos sempre são os melhores. Desenhar é o que eu
faço melhor. E fiquei torcendo mesmo para a Sophia McDylan não esfregar isso na
cara dos outros. O resto da classe já devia estar se sentindo bem mal.
Mas, no final, vi que não precisava ter me preocupado tanto com a reação da classe aos elogios de Sophia McDylan. Porque, quando ela chegou ao meu trabalho, não pôde dizer nada agradável a respeito dele. Em vez disso, deu uma boa olhada, chegou mais perto e examinou com muita atenção. Daí, deu um passo para trás e começou:

- Bom, Demi, estou vendo que você desenhou o que conhece.
Achei que essa era uma observação bem esquisita. Mas também, até agora tudo
tinha sido meio esquisito. Legal, mas esquisito (a não ser pelo pássaro ladrão de
cabelo, o que não tinha sido muito legal).

- Humm – respondi. – Acho que sim.

- Mas eu não mandei desenhar o que você conhece. – retorquiu Sophia McDylan. – Eu mandei desenhar o que você vê.
Olhei do meu desenho para a pilha de frutas na mesa, depois olhei para o papel de novo, confusa.

- Mas não foi o que eu fiz? Desenhei o que vejo. Quer dizer, o que vi.

- É mesmo? – perguntou Sophia McDylan com um daqueles sorrisinhos de elfo. – E você está vendo algum abacaxi naquela mesa?
Não precisei olha de novo para o móvel para verificar.Eu sabia que não tinha
abacaxi nenhum ali.

- Bom. Não vi, mas...

- Não. Não tem abacaxi nenhum ali. E essa pêra também não está ali – apontou para uma das pêras que eu tinha desenhado.

- Espera aí – comecei, ainda confusa, mas já na defensiva. – Tem pêra lá sim. Aliás, tem quatro pêras na mesa.

- Tem – respondeu Sophia McDylan. – Tem quatro peras na mesa. Mas nenhuma delas é esta aqui, Esta é uma pêra perfeita, mas não é nenhuma das pêras que você viu na sua frente. Eu não fazia a mínima idéia do que ela estava falando mas, aparentemente, a Gertie, a Lynn, o John, o Jeffrey e o Joseph sabiam. Todos assentiam com a cabeça.

- Você não está vendo, Demi? – Sophia McDylan pegou meu bloco de desenho e veio em minha direção; Apontou para as uvas que eu tinha desenhado. – Você desenha uvas lindas, mas não são as uvas da mesa. As uvas da mesa não são tão perfeitamente oblongas, e também não são todas do mesmo tamanho. O que você desenhou aqui é a idéia que você tem sobre como as uvas devem ser, e não as uvas que estão de fato na nossa frente.

Pisquei, olhando para o bloco de desenho. Não entendi nada. Não mesmo. Tipo
assim, eu meio que entendia o que ela estava dizendo, mas não conseguia perceber
qual era o problema. As minhas uvas eram muito mais bonitas do que as uvas de
qualquer outra pessoa. Isso não era bom?
A pior parte de tudo era que todo mundo parecia estar olhando para mim com um
ar de solidariedade. Meu rosto começou a ficar quente. E claro que esse é o
problema de ser ruiva. Você fica vermelha 97% do tempo. E não tem como
esconder.

- Desenhe o que você vê – repetiu Sophia McDylan, sem ser indelicada. – Não o que você conhece, Demi.
E foi então que a Helena, arfante por ter subido as escadas, entrou na sala,
fazendo com que Zac começasse a grasnar “Oi, Zac! Oi, Zac!” tude de novo.
Era hora de ir embora. Achei que ia desmaiar de tanto alívio.

- Vejo você na quinta-feira – exclamou alegremente Sophia McDylan enquanto eu
vestia o casaco.

Devolvi o sorriso, mas claro que estava pensando: “Nem morta que você vai me ver na quinta-feira.”
Naquele instante, claro, eu não fazia idéia de como eu tinha razão. Bom, mais ou
menos.

 Continua ....

Mais tarde talvez eu poste outro =)
xoxo